CRIANÇA E ADOLESCENTE AMEAÇADOS DE MORTE: A PERSPECTIVA DE CRESCIMENTO INDIVIDUAL E FAMILIAR ATRAVÉS DO ATENDIMENTO PSICOLÓGICO



Leandro Taveira


scrubys@hotmail.com

 

O desafio de trabalhar com crianças, adolescentes e suas famílias em situação de risco de morte, me trouxe dilemas e questionamentos sobre qual seria o papel do psicólogo no atendimento a este público. De certo que estes adolescentes e suas famílias estariam em situação adversa em suas vidas, encontrando-se fragilizados e, muitas das vezes, desestruturados em seu sistema psicossocial.

Aqui, percebi que me detinha nos mesmos questionamentos e dilemas em que me detivera no atendimento a adolescentes e adultos em consultório; a famílias de adolescentes em situação especial de uso de drogas; a adolescentes vítimas de abuso sexual e suas famílias; e a adolescentes em situação de internação por autoria de atos infracionais e suas famílias.

 

DO HISTÓRICO PSICOSSOCIAL

Em sua totalidade de questionamentos e argumentações sobre o papel do psicólogo na vasta seara que se nos apresenta no quotidiano desta diversidade de atendimentos, remeto-me ao fato de que em quaisquer destas, estamos lidando com seres humanos experienciando situações de sofrimento advindas de uma busca por tornar-se pessoas melhores a cada dia, mesmo que os caminhos tomados as tenham levado a um destino contrário aquele proposto em seu interior, ao inicio de sua caminhada.

Sem embargo, há que se aludir, mediante uma visão sistêmica, ao histórico pelo qual passam a criança, o adolescente e suas famílias, vítimas de ameaça e risco de morte, atendidos pelo PPCAAM – Programa de Proteção à Criança e ao Adolescente Ameaçados de Morte, em sua generalidade, permeados por um já extenso histórico de risco social.

Risco este que vem impor a estes sujeitos uma sucessão de situações exclusivas aos direitos fundamentais do indivíduo e, não tão somente, muitas vezes ao convívio social. Fatores como a baixa ou nenhuma escolarização; o subemprego, quando muito, como forma de subsistência, o difícil ou nenhum acesso à saúde, lazer, profissionalização; precariedade ou inexistência de políticas públicas.

Neste contexto vivenciamos, em sua maioria, atendimento a famílias que trazem em seu sistema uma conjuntura marcada pela desestrutura familiar. A figura paterna apresenta-se em sua maior parte ausente, seja pela própria falta advinda de uma separação; ou pelo formato de nova família onde o companheiro se exime da função de pai, por não sê-lo de fato; ou ainda, quando presente o genitor, pela clássica configuração de gênero.

A figura materna acaba por tomar o posto central de mantenedora do lar e cuidadora dos filhos, ao que divide seu tempo entre o trabalho da casa, o cuidado dos filhos e o trabalho externo. Não obstante, é cobrada em toda gama de responsabilidades sobre sua família, como se fora o único ator do processo.

A questão de gênero, somada ao fato da necessidade da ausência materna pela subsistência do lar, vem desabrigar a criança e o adolescente carentes de acompanhamento em seu crescimento e desenvolvimento. Desabrigo este que põe a prole em situação de desamparo e que, na busca por este amparo, acaba por evocar no meio externo a atenção tolhida no seio familiar.

Soma de contextos que acabam por vilipendiar a atenção devida à criança e ao adolescente em seus direitos fundamentais. Por conseguinte, vislumbramos uma defasagem ou mesmo evasão escolar extensa, chegando em sua maioria, ao semi-analfabetismo. O sistema sócio-familiar acaba por cobrar do menor o apoio financeiro ao lar, comumente em idade prematura. A carência de afeto, pela ausência presencial mesmo no lar, impulsiona o impúbere a relações compensadoras com seus pares e na sociedade. A sexualidade se aparece, por vezes, prematura e desconexa, cabendo em sua configuração, conformidade impulsiva e inconseqüente.

Mais precisamente no que tange à generalidade dos adolescentes atendidos pelo PPCAAM, vítimas de ameaça e risco de morte, têm-se percebido envolvimento inicial ou extenso na autoria de atos infracionais e/ou com o tráfico de drogas, além da interligação com uso/abuso de drogas.

Levando-se em conta o sistema psico/sócio/econômico/cultural que acolhe estes adolescentes, não é de se espantar que vejam-se inseridos tanto na marginalidade através da autoria de roubos e furtos, bem como no envolvimento com o tráfico de drogas, ambos geralmente ligados ao crime organizado no estado do Rio de Janeiro, seja pela contratação, seja pela receptação dos produtos advindos de roubos e furtos.

Sistema este atrelado às cobranças psicossociais pertinentes ao contexto de crescimento e desenvolvimento da criança e do adolescente, desprovidos de políticas públicas que lhes proporcionem além de seus direitos fundamentais, escolarização e profissionalização. Escolarização e profissionalização estas, irrelevantes à sua inserção no mercado informal da marginalidade, onde a criança e o adolescente contam com alta empregabilidade, isentos da notável urgência em experiência e formação.

Em caso de contratação, a criança e o adolescente são treinados para desenvolver suas funções, com uma dinâmica de possibilidade de crescimento digna de comparação a um plano estruturado de cargos e salários de uma grande empresa. Ademais, os salários em muito se assemelham ou mesmo vêm ultrapassar a renda familiar. 9;

Somado a isto, há a relação de poder e respeito experienciada no contexto das comunidades pelos integrantes das facções do crime organizado. Persiste um consenso nas comunidades de que o crime organizado mantém o apoio social, a segurança e a ordem com os quais o Estado é incapaz de cumprir. A despeito do senso comum puritano e burguês pregado à revelia, vislumbra-se um conjunto de fatores onde fica latente que para estas crianças e adolescentes o crime organizado, a vida marginal, é um negócio, um negócio promissor.

Decerto vejo-me muito distante de explicar ou mesmo balizar todas as inter-relações, interfaces e suas conseqüências, como se fora uma receita pré ordenada de estímulos e respostas na construção de uma configuração personológica do sujeito. Entremente, apenas ensaiar contribuições no que diz respeito ao que venho percebendo no processo de tornar-se destes indivíduos e quais variáveis têm-se mostrado mais constantes.

 

DA ABORDAGEM PSICOLÓGICA

Em se tratando da abordagem psicológica utilizada nos atendimentos pelo PPCAAM, às crianças, adolescentes e suas famílias, vivenciando situação especial de ameaça e risco de morte, faz-se importante situar a utilização de uma abordagem psicológica humanista, mais precisamente, a ACP - Abordagem Centrada na Pessoa.

A ACP - Abordagem Centrada na Pessoa, foi desenvolvida por Carl Rogers, sendo conhecida por sua forma de atuação não-diretiva, deixando com que o cliente tome a responsabilidade no processo psicoterapêutico e que ele mesmo dirija a psicoterapia.

Este direcionamento está na relação com o atendido em ajudá-lo a atingir a profundidade que o fará envolver-se no processo de tornar-se. Se pudermos chamar de não-diretiva, poderemos nos referir à tomada do processo que depende do curso que o atendido quiser dar a este, não havendo influência do psicoterapeuta neste contexto.

O alvo principal da ACP pode ser descrito de maneira geral como uma tentativa de fazer com que se repita o processo experiencial do cliente, ou ajudando este processo a funcionar de um modo mais rico e mais flexível. Queremos ajudar o atendido a viver plenamente, e a integrar elementos de sua experiência que ele antes não fora capaz de enfrentar.

Nós ajudamos o atendido a atingir uma unidade maior consigo mesmo, tornar-se "congruente". Isto significa que um ir e vir contínuo entre a maior experiência consciente do seu Eu e o fluxo latente da experiência torna-se possível. Por conseguinte, a pessoa torna-se menos rígida em seu modo de experienciar, torna-se mais aberta a todos os aspectos de sua experiência, e começa a confiar mais completamente em sua própria experiência - em toda sua complexidade, estágios e mudanças - como um guia valioso de um sistema de vida.

Nesta caminhada em direção a seu interior, tentamos assistir o sujeito, estando como pessoa, continuamente centrados nele, solidários com seu mundo experiencial. O trabalho real de um psicoterapeuta centrado no cliente consiste, principalmente, em estar em contato e comunicando o explícito e, sobretudo, os significados implícitos na mensagem do sujeito sobre ele mesmo, naquilo que está em mim, psicoterapeuta, e no que está acontecendo entre nós.

O objetivo não é resolver um problema particular, mas auxiliar o indivíduo a crescer, de modo que possa enfrentar o problema presente e os posteriores de uma maneira mais bem integrada. Se ele obtiver integração suficiente para lidar com um problema de forma mais independente, mais responsável, menos confusa, mais bem organizada, então também lidará com novos problemas desta maneira.

Se isso parece um pouco vago, pode ser explicado de maneira específica. Baseia-se, com muito mais ênfase, no impulso individual para o crescimento, saúde e ajustamento. Psicoterapia não é uma questão de fazer algo para o indivíduo ou de induzi-lo a fazer algo sobre si mesmo. Por outro lado, é uma questão de libertá-lo para o crescimento e o desenvolvimento normal, de remover obstáculos, de modo que possa novamente caminhar para frente.

Algumas pessoas se desenvolvem em condições tão desfavoráveis, que suas vidas podem nos parecer anormais, distorcidas, dificilmente humanas. Entretanto, é um indício para entender que o comportamento dessas pessoas é o único modo que elas encontraram para alcançar o crescimento, para tornar-se alguém.

Para nós, os resultados dessas pessoas podem parecer errados, ineficientes, estranhos, mas são tentativas desesperadas de vida para tornarem-se elas próprias. É esta potente tendência que constitui a base subjacente à ACP.

 

DA PRÁTICA NO ATENDIMENTO

Na prática, o atendimento visa a percepção da realidade do indivíduo pelo próprio indivíduo, através de sua experienciação em um novo nível perceptivo, diferenciado do antes experienciado, onde possa sentir e exprimir seus sentimentos de modo mais congruente.

Por suposto, se tomamos a vida do indivíduo, seus anseios, suas buscas, suas vitórias, suas derrotas, como a única forma que o mesmo encontrou de conseguir manter-se em equilíbrio e tornar-se a pessoa que é atualmente, teremos claro que este indivíduo está fazendo o melhor que pode em todos os sentidos para crescer como ser humano.

Compreender as diversas variáveis que o levaram a tornar-se, partindo de sua visão, seus sentimentos e suas experiências, a partir de uma atitude compreensiva empática, congruente e de aceitação positiva incondicional pode nos dar a direção, caminhando lado a lado com o sujeito, para um novo rumo em sua jornada, à sua escolha.

Mais precisamente, posso entender que o adolescente esteja envolvido com o tráfico de drogas, que para ele seja correto ganhar e utilizar o dinheiro advindo desta atividade, tanto para si como para sustentar sua família, mesmo que não aceite isto ou que não queira o mesmo para minha vida, mas entendendo que é, para ele, a sua experiência e sua realidade.

Esta liberdade em sentir e deixá-lo sentir e experienciar novamente sua realidade de modo mais fluido, o ajuda a tomar decisões sobre sua própria vida sob um novo molde de responsabilidade e congruência diante de si mesmo. Consiste em ouvir isento de valores e conceitos pré-concebidos, para que ele mesmo possa ouvir-se e interagir consigo mesmo.

Posso não concordar que a família aceite o dinheiro advindo de furtos e roubos para comprar a comida que lhes falta dentro de casa ou mesmo em ver seu filho com roupas novas, mas posso compreender a realidade de sua experiência, como sendo a única forma que encontrou de criar e educar seu filho no sistema em que vive.

A partir deste compreender, colocando-me no lugar do sujeito, empaticamente, incondicionalmente, de forma congruente, posso comunicar seus sentimentos e ajudá-lo a ouvir-se a si mesmo. Neste ponto, há a liberdade de tomar novas decisões sobre suas ações.

Posso ainda compreender que para a família do adolescente envolvido com o tráfico de drogas e/ou em situação especial de uso/abuso de drogas, seja preferível que este adolescente esteja abrigado em uma Instituição, para livrar-se dos problemas e responsabilidades que este lhe impõe. Com esta compreensão, podemos juntos, eu e esta família, compreender os fatores que levaram a tal relação e outras possíveis saídas para esta situação.

Não se pretende atuar de forma psicoterapêutica. Todavia, o atendimento se dá, em sua maior parte, em situações de emergência/urgência e posteriormente através de acompanhamento periódico do caso. Aqui, há um trabalho consecutivo e concomitante nos pertinentes encaminhamentos à rede de assistência, junto aos atores envolvidos, tais como os Conselhos Tutelares, Ministério Público e Vara da Infância e Juventude, no sentido de dar continuidade ao atendimento após a cessão da situação de ameaça e risco de morte.

Para ilustrar, me remeto a um caso real, quando do primeiro atendimento a um adolescente de 17 anos, quando este ainda se encontrava em uma Instituição de abrigamento, em situação de ameaça e risco de morte.

Relatava estar profundamente envolvido com o tráfico de drogas desde os dez anos de idade, já tendo sido gerente de um ponto de venda em uma favela, com ganhos que ultrapassavam dez salários mínimos por mês.

Apresentava em relatório enviado ao PPCAAM e em seu discurso, histórico de uso/abuso de drogas, sendo autor de atos infracionais. Vivenciava completa desestrutura familiar, com mínimas possibilidades de reinserção. Culminando em um histórico de vida que o levou a nove instituições de abrigamento.

Em um dado momento do atendimento, este adolescente diz que "hoje foi a primeira vez que fui ouvido por alguém, sem querer me dizer o que era melhor para mim, o que eu devia fazer". Após um histórico psicossocial tão vasto, após tantos atendimentos em diversas instituições, por diversos órgãos, fica a dúvida de qual tipo de atendimento temos dado a nossas crianças, adolescentes e suas famílias, enquanto sociedade, enquanto instituições governamentais e não governamentais, enquanto seres humanos também detentores de direitos e deveres fundamentais.

O atendimento psicológico no PPCAAM vem, pois, atuar de forma a levar a criança, o adolescente e sua família a uma unidade consigo mesmos em que possam direcionar suas vidas de forma responsável a caminho da autonomia necessária para reconstruírem suas vidas a partir do ponto em que cessar a situação de ameaça e risco de morte que ensejou o atendimento.


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