TEXTO EM REVISÃO

A RESPOSTA-REFLEXO:

Uma Intervenção Fenomenológica

 

Sonia Maria Lima de Gusmão

Pretendo retomar aqui um tema "ultrapassado" na Abordagem Centrada na Pessoa: a Resposta-Reflexo. Ultrapassado vem entre aspas, pois questiono o ultrapassado, da mesma, sem querer perpetuar verdades antes ditas, mas, talvez, buscar no antigo o que ele ainda pode nos trazer de bom.

Dialeticamente, a antítese se contrapõe a tese, num movimento antagônico e excludente. A síntese, movimento conciliatório, busca o que de bom existe nos opostos e trilha o caminho do meio, como na milenar sabedoria oriental.

Enfatizada na fase reflexiva, segunda fase da Abordagem Centrada na Pessoa, a resposta-reflexo foi, muitas vezes, utilizada como uma mera técnica, sobretudo por profissionais iniciantes ou menos sensíveis, que não se davam conta de que sua aplicabilidade, se é que podemos chamar assim, muito mais do que uma intenção de agir, constitui, sobretudo, uma expressão do fluir das atitudes pessoais do terapeuta, do seu jeito de ser e de se relacionar, de sua capacidade empática e de sua pertinência como expressão verbal de um dado momento fenomenológico.

Sua categorização se deu a partir do estudo posterior de entrevistas, não sendo, portanto, criada a priori para funcionar como uma técnica que seria utilizada pela Abordagem Centrada na Pessoa. Constatou-se nesse estudo (análise de entrevistas realizadas por Carl Rogers) que o terapeuta com um alto grau de empatia e genuinamente interessado pelos seus clientes, como era o caso de Rogers, tendia, naturalmente, a emitir esse tipo de resposta na sua interação com seus clientes, e que essa maneira natural de intervir possibilitava ao cliente a ocasião para verificar se sua comunicação correspondia exatamente ao vivido, dando-lhe a oportunidade de confirmá-la, reformulá-la ou mesmo refutá-la, guiando-se por uma lógica interna.

Nessa época, é bom lembrar, Rogers não estava preocupado com técnicas e não tinha sequer muita consciência de que havia criado uma nova abordagem psicoterapêutica. Portanto, como explica Kinget: "estas categorias (as diversas modalidades do reflexo), longe de constituir técnicas sistematicamente inventadas com fins particulares, representam formas e variações que, muito naturalmente, a expressão verbal assume no interlocutor que se esforça em se despojar de seu próprio ponto de referência, com o fim de submergir no claro-escuro do mundo subjetivo do outro". Mas, o fato de que muitos o utilizaram como mera técnica, fazendo, portanto, um uso incorreto do mesmo, gerou um certo desconforto dentro da Abordagem Centrada na Pessoa. Muitas vezes, os terapeutas repetiam mecanicamente a comunicação do cliente, imitando terapeutas mais experientes e deixando de ser eles mesmos nas relações com seus clientes. A evidência de que, quanto mais autêntico e pessoal fosse o terapeuta na relação com o seu cliente, mais efetivo, terapeuticamente, ele seria, parece ter sido o tiro de misericórdia nesse tipo de intervenção, tal qual vinha sendo utilizada. A ênfase passou a ser a experiência, o vivido, a relação. Nessa fase, além do terapeuta facilitar os processos experienciais do cliente, participa, também, de um modo mais pessoal na relação com o seu cliente, favorecendo, assim, um novo modelo de relação – a relação como sendo um encontro existencial.

Parece que a nova ordem estabelecida, ou seja, a ênfase nos aspectos fenomenológico-existenciais, gerou um preconceito a respeito da resposta-reflexo, pois sendo o momento fenomenológico ímpar não comportaria uma técnica estabelecida a priori. Na nossa compreensão, é justamente aí onde se encontra o equívoco, pois todos os momentos plenos, fenomenológicos e empáticos da terapia, particularmente da abordagem centrada na pessoa, são permeados desse tipo de comunicação, como uma decorrência natural desse modo de se relacionar com o outro. Um modo particular que enfatiza a experiência presente e a relação pessoal e profunda. Sendo assim, não podemos negar a sua ocorrência, todavia precisamos mudar nossa postura frente à mesma, pois não podemos continuar a vê-la como se ela fosse uma mera técnica ou a utilizá-la como tal, ou, ainda, resumirmos nossa prática a ela, pois, se assim o fazemos estamos utilizando-a de modo equivocado e nesse caso de modo tão a priori quanto o diagnóstico tradicional. Ela deve se originar no fluir do momento fenomenológico como é o caso do diagnóstico fenomenológico. E neste caso, não temos como negar a sua validade.

 

Resposta-Reflexo Autêntica:

Expressão verbal da Compreensão Empática

 

O mundo interno é um mundo de possibilidades diversas que a palavra não consegue acompanhar. Pensamos e sentimos um turbilhão de experiências simultâneas. Mas, a palavra articulada só pode ser verbalizada uma de cada vez. Além disso, ela nunca será suficiente para expressar a riqueza do vivido, particularmente quando essa vivência contém elementos que extrapolam a experiência ordinária, como é o caso das experiências transpessoais. Esta redução que a comunicação sofre quando passa para a linguagem, só poderá ser revertida, em algum nível, isto é, ampliada, se aquele que ouve for capaz de uma escuta maior, sem as barreiras do preconceito, do julgamento e do diagnóstico tradicional.

Em decorrência dessa atitude de abertura, o terapeuta será capaz de captar algo da experiência do cliente que ele mesmo não é capaz de formular verbalmente. Desse modo, sua intervenção empática assumirá, naturalmente, a forma de uma resposta-reflexo, tal como a entendemos: uma resposta sem a priori, fruto da experiência presente e da relação estabelecida entre ambos. O aspecto técnico e mecânico da resposta-reflexo inexiste numa relação verdadeiramente empática. Pensar a relação desse modo significa se abrir, enquanto ser em relacionamento, para um mundo de ocorrências fenomenológicas que só pode ser percebida por aquele que se destitui, como já dissemos, de visões diagnósticas e avaliativas a priori.

Quando consideramos o objetivo da resposta-reflexo - participar da experiência imediata da pessoa - algumas conclusões vêm à tona. Em primeiro lugar, se o terapeuta realmente está participando da experiência imediata do cliente, então esse momento é fenomenológico e a intervenção é, igualmente "fenomenológica". Segundo, ela é fruto do encontro existencial profundo, Eu-Tu, como diria Buber. Terceiro, o cliente se reconhece na fala do terapeuta, o que só seria possível através de uma compreensão empática do mundo fenomenológico do cliente e, neste caso, o cliente é o centro, apesar da reciprocidade empática. Nesse momento, podemos dizer que "Seu conteúdo (do reflexo) pertence à comunicação do indivíduo, como um determinado fundo pertence a uma determinada figura. A modificação da figura se faz a partir do interior (do próprio indivíduo), não sob a influência de forças exteriores" (p. 62). Por isto mesmo é que intervir deste modo acarreta em alguns benefícios terapêuticos:

1. O cliente se sente acompanhado, compreendido - não criticado - o que o deixa aliviado;

2. Tal constatação, estimula-o a se absorver na sua subjetividade;

3. Absorver-se nessa subjetividade produz nele a tomada de consciência autônoma

da experiência vivida.

Portanto, não é a intervenção em si mesma que produz os efeitos terapêuticos esperados, mas o modo, particularmente, autêntico, aceitador e, sobretudo, empático do terapeuta. Em outras palavras, a sintonia estabelecida entre o terapeuta e o seu cliente. Além disso, é evidente que o aspecto autêntico dessa relação inclui, também, outras formas de comunicação além do reflexo, como é o caso da expressão de sentimentos por parte do terapeuta.

Resumindo, o que estou a defender neste texto é o resgate da resposta-reflexo como uma forma altamente válida de expressão verbal do terapeuta na sua relação existencial e empática com o seu cliente. Pensando, assim, a considero tão legítima quanto à colocação de sentimentos por parte do terapeuta, enfatizada na fase existencial da terapia centrada no cliente. Além disso, ressalto que seu uso mecânico e repetitivo não tem nada a ver com o jeito empático e autêntico como Rogers e os terapeutas mais autênticos, sensíveis e empáticos a utilizava ou utiliza na Abordagem Centrada na Pessoa.

 

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