Vivendo e sendo
Experiência e experiência de ser professor.
Por Marcelo Ribeiro*
mribeiro@cdl.com.br
Normalmente pensamos a experiência como algo acumulativo, como algo que se vai ganhando e somando ao longo do tempo. Até o momento que podemos dizer com segurança que temos a experiência, como se fosse pedaços que vão sendo colocados na gente até ganhar uma forma como um quebra-cabeças.
Quero trazer um outro sentido para palavra experiência. O sentido que trago da experiência é o sentido de saborear, de experienciar, de experimentar, de vivenciar. O sentido de que a experiência ocorre num dado momento vivido. Mas não algo que eu possa ter. Eu não tenho uma experiência. Eu vivencio, eu experiencio. Obviamente que a experiência não se dá solta, descontextualizada, sem uma história, sem marcas. A experiência é a conjunção, é a ação conjunta de tudo que sou num determinado momento. Eu enquanto história, eu enquanto marcas, eu enquanto projeto, eu enquanto me sinto no momento presente que vivo.
É importante pontuar a diferença entre a coisa, o fato e a experiência decorrente da coisa ou do fato. Segundo LAING (1988), "Não é mesmo fácil dizer o que é experiência. (...) A experiência de um fato objetivo ou de uma idéia abstrata não é a impressão ou a idéia".
Podemos dizer que a experiência implica em vivência, implica num imbricamento dos parceiros.
Eu experimento ser professor na vivência, vivendo, atuando e na relação com o outro, que pode ser os meus alunos, os meus pares, ou na preparação de uma aula, ou na minha própria reflexão de ser professor. Não são esses fatos por eles mesmos que eqüivalem as minhas experiências. Mas a minha relação e meu imbricamento com esses outros.
Um outro entendimento importante, ao meu ver, sobre a experiência, de um modo geral, e a experiência de ser professor, em particular, é que ela é algo que se reatualiza a medida que se vive a possibilidade de ser professor. Por exemplo, quando sou professor, é claro, não deixo ou não perco as minhas multiplicidades. Quando sou professor continuo sendo os tantos outros eus possíveis, num intercambiamento efervescente de trocas criativas. Mas há uma focalização naquilo que sou num dado momento, há uma figura destacada no jogo dinâmico da figura-fundo. De modo que a figura de ser professor tende a ser mais destacada, mais forte quando entro em relação com essa possibilidade de ser. Há, portanto, uma experiência específica de ser professor, mas que, mesmo sendo específica, não é isolada das outras experiências que se vivencia, fora dessa possibilidade de ser professor. Muito pelo contrário, as outras possibilidades enriquecem, constituem, tecem a condição de ser professor.
E foi mais ou menos assim que fui me tornando professor...
Graduei-me em psicologia. Iniciei a vida profissional voltando-me mais para clínica. Porém, desde a época da graduação sempre estive envolvido, de uma forma ou de outra, com a educação e a prática docente. Fiz especialização em educação especial e facilitava grupos de estudos e formação para estudantes de psicologia. Entretanto, reconhecia-me mais como psicólogo, apesar dessas outras atividades ligadas a educação.
Quando iniciei minha carreira docente, propriamente dita, na universidade, ainda não conseguia me ver como um professor. Era um psicólogo que dava aulas. Sentia-me um psicólogo que gostava de dar aulas. Soava muito estranho, para mim, quando o aluno me chamava de professor. Ao ser indagado por alguém a respeito da minha profissão, geralmente respondia que era psicólogo. Na verdade não sentia o peso, a força e o poder de ser professor.
A medida que vivia a sala de aula e o ambiente acadêmico, ia experimentando, gradativamente, a condição de ser professor. Era como se eu fosse me transformando, inclusive o modo de me reconhecer e me relacionar com outro.
Eu experimentava, saboreava, me constituía e ia sendo constituído pela experiência. Experiência essa que era reatualizada em sua intencionalidade relacional com os outros parceiros e com os outros eus também.
Quando comecei a lecionar oficialmente e regularmente na universidade, fiquei mais atento aos outros professores colegas. Procurei observá-los, assimilar modelos, copiar algumas coisas, questionar em mim outras a partir deles e procurava trocar idéias. Isso sem dúvida fez parte da minha experiência de ser professor. Além disso, mantive (até hoje mantenho) uma espécie de diário de bordo, onde anotava a programação das aulas por disciplina e por turma; o que acontecia na sala de aula, como me sentia, o que observava na aula ou nos alunos e tudo mais relativo a experiência vivida de ser professor. Cada aula, cada disciplina, cada semestre vivido era tomado como algo novo, cheio de possibilidades diferentes, mesmo eu mantendo o registro das coisas que aconteceram e mesmo eu me referendando no modo como trabalhei com os alunos e as disciplinas lecionadas. Sentia uma vontade, um prazer muito grande de continuar aprendendo com tudo que experimentava. E percebia que, quanto mais experimentava, mais me transformava. Não que eu fosse algo hoje e amanhã algo completamente diferente, sem consciência, lembrança e características do que fui. Mas vivia o paradoxo de continuar sendo o que nunca fui, de ter a sensação de continuar sendo eu apesar das mudanças. É nesse estar aberto, a partir da ação relacional, que vivi a experiência de ser professor. Experiência essa, muitas vezes dolorosa, desequilibradora. Em vários momentos, em sala de aula, por exemplo, experimentava coisas que me desagradavam, que me incomodavam. Lembro certa feita que me dei conta do meu autoritarismo ou mesmo da dificuldade de aceitar as minhas falhas e limitações. E isso me incomodou bastante.
Alguns autores vão afirmar que estar aberto a experiência é uma condição que possibilita acessar à consciência algo que é experimentado e, por conseguinte potencializa a recriação de si mesmo. Essa é uma das premissas fundamentais da teoria de ROGERS (1976): as pessoas usam sua experiência para se definir.
Há um campo de experiência único para cada indivíduo. Esse campo de experiência contém tudo que se passa no organismo em qualquer momento, e que está potencialmente disponível à consciência. Inclui eventos, percepções, sensações e impactos dos quais a pessoa não toma consciência, mas poderia tomar se focalizasse a atenção nesses estímulos.
O contínuo processo de reconhecimento a partir do campo de experiência é denominado por ROGERS (1976) como self. O self ou autoconceito é a visão (processual) que uma pessoa tem de si própria, baseada em experiências passadas, estimulações presentes e expectativas futuras.
Mas será que a experiência de ser professor é assim desse modo sempre construtivo, constitutivo e constituidor? Será que não existem professores, que mesmo tendo a possibilidade de experimentar ser professor, não vivem essa mudança, essa transformação? Certa vez ouvi um amigo falar que tinha medo daquelas pessoas que saem dizendo por aí que têm muita experiência nisso ou naquilo. Dizia ele que essas pessoas são enfadonhas, rígidas e padronizadas. Essas pessoas, complementava ele, diziam ter dez anos de experiência naquilo, mas na verdade tinham um ano de experiência repetido durante dez anos. Talvez aqui haja distinções de sentidos de experiência. Bem, experiência é algo que acontece a revelia da pessoa. Queira ou não, enquanto vivos, estamos no mundo, num mar de experiências. Mas qual meu sentido da experiência, qual minha atitude diante da experiência, qual meu posicionamento. Penso que se estamos abertos, inclusive, as possibilidades eventuais de desorganizações, desequilíbrios, dores e aceitação de novas facetas de si mesmos, somos levados a uma recriação de nós mesmos.
Nas palavras de FONSECA (2000), "A afirmação e a superação, inerentes à criação, são a própria configuração do perecível. Precisamente na configuração da perecibilidade configura-se o presente e a afirmação da vontade, a possibilidade de criação, e de vida, vale dizer."
Portanto, para estar aberto a uma experiência enriquecedora, constituidora, transformadora é preciso correr o risco das desorganizações, dos desequilíbrios das dores e da perecibilidade do que se é.
O professor que não está aberto para valorização da sua própria experiência de ser professor, que nega a si mesmo, seja por não corresponder aos seus idéias de como deve ser um professor, será impotente para recriar-se. Igualmente ao exemplo dado da pessoa que passa dez vezes repetindo a mesma coisa.
Mas ao contrário, podemos imaginar que um professor sensível para abertura seria muito mais criativo em termos de recriação de si mesmo e como mediador para o outro, seja o aluno, seja seu par, seja a educação.
Dessa forma, segundo ROGERS (1976), essa seria uma das características de uma educação bem sucedida, ou seja, criar condições facilitadoras para vivenciar as experiências. Ainda segundo o autor, a medida que vivencia-se a experiência, cada momento é significativamente novo e valorizado pela possibilidade de aprendizagem, de crescimento e transformação, de modo que o processo de construção de si mesmo, de criação e recriação passa por uma escolha mais livre, mais engajada, mais envolvida com aquilo que se quer.
BIBLIOGRAFIA:
FONSECA, Afonso Henrique Lisboa. O criar e a plasticidade do passado.
Centro de Estudos de Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico
Existencial: Maceió. 2000. www.terravista.pt/fernoronha/1411
LAING, Ronald David. A voz da experiência. Experiência, Ciência e
psiquiatria. Petrópolis: Vozes, 1988.
ROGERS, Carl. Liberdade para Aprender. Belo Horizonte: Interlivros, 1976.
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