O PROCESSO DE COMUNICAÇÃO
AUTÊNTICA NA RELAÇÃO FAMILIAR:
CONTRIBUTOS PARA UMA PERSPECTIVA
SISTÉMICA
Fernando Nogueira Dias*
Artigo
publicado no livro Sistemas de Comunicação, de Conhecimento e de Cultura, Um
Olhar Sociológico, Instituto Piaget, 2001, do mesmo autor.
Resumo
O presente trabalho é fruto de uma pesquisa bibliográfica orientada por um sentido de transculturalidade científica, o que levou o autor a fundamentá-lo em obras de áreas tradicionalmente distintas como a Filosofia, a Psicologia, a Sociologia e a Antropologia.
Pretende-se evidenciar a importância da comunicação como factor determinante da relação familiar. Como propostas de uma comunicação autêntica para o desenvolvimento pessoal e familiar, são referidas as atitudes básicas de comunicação e os princípios sobre os quais devem assentar as relações interpessoais, segundo Carl Rogers.
Introdução
Podemos
portanto dizer que a psicoterapia é uma boa comunicação no interior da pessoa e
entre pessoas. Uma boa comunicação, uma comunicação livre, dentro de pessoas é
sempre terapêutica. …Uma terapia que leva o indivíduo a tornar-se mais
plenamente e de uma maneira mais profunda ele próprio o conduz igualmente à
descoberta de uma maior satisfação nas relações familiares reais que prosseguem
os mesmos fins: facilitar em cada membro da família o processo de descobrir-se
e de vir a ser ele mesmo.
Carl
Rogers
(in Tornar-se Pessoa)
A relação emerge como expressão caracterizadora do sistema familiar, ao qual estão subjacentes os processos de comunicação.
Ao longo deste trabalho sobressai a perspectiva sistémica da pessoa e da família, tomando-as como ponto de convergência da diversidade de valores individuais, familiares e sociais.
Sendo a pessoa um sistema aberto e complexo está permanentemente sujeita às influências do meio que a rodeia, meio que, pelo processo de socialização, lhe vai fornecendo os valores que a orientam na construção de si mesma e na relação que constitui com os outros.
Se na relação familiar os bloqueios do processo de comunicação se sobrepõem à facilitação, que conduz a pessoa ao crescimento e à autonomia, o sistema pode entrar em desequilíbrio, acarretando este consequências negativas para os elementos que o constituem, para a família como um todo e para a sociedade em geral.
A comunicação autêntica apresenta-se como factor determinante no desbloqueio e na facilitação de uma relação equilibrada e ajustada ao meio social.
Notas Conceptuais
A opção pela abordagem sistémica para compreensão do papel da comunicação na família implica a sua apreensão e a do ser humano como sistemas (Moigne, 1996). Considerar os fenómenos sociais e humanos como sistemas é optar pela perspectiva de que estes podem ser traduzidos em fenómenos comunicacionais e analisados como tais.
Por certo, esta é uma opção teórica, entre muitas outras, do património sociológico. Mas a vantagem que se vislumbra na adopção deste paradigma supera as insuficiências que se lhe possam apontar. Com efeito, a perspectiva sistémica da família é devedora do conceito pan-comunicacional proposto pela Escola de Palo Alto de que "tudo é comunicação", no sentido em que a realidade, humana e não humana, pode, para efeitos de análise, converter-se em fluxos de comunicação, independentemente da intencionalidade dos seus emissores (Breton, 1994). Mas se é verdade que o peso hegemónico desta visão possa ser equacionado, não deixa de ser menos verdade que estamos perante um conceito transdisciplinar, que supera a tradicional dicotomia individual/social, trazendo por isso mesmo um valor acrescentado à epistemologia das Ciências Sociais e Humanas.
Como consequência desta opção, a família é perspectivada como um sistema de comunicação aberto e complexo, modelo este que tenta, pelo isomorfismo das suas características, representar a família e o indivíduo na dinâmica das suas relações.
Com esse fim, Littlejohn (1982: 41-52) propõe-nos o conceito de sistema como um conjunto de partes interligadas, que se organizam para atingir determinadas finalidades. A globalidade comportamental do sistema, enquanto propriedade intrínseca que caracteriza a relação, é qualitativamente superior à soma dos elementos que o constituem.
Para atingir as suas finalidades, os sistemas obedecem ao princípio do expansionismo, no sentido em que o funcionamento das partes depende do todo sistémico para o qual estão organizadas. Consequentemente, impõe-se-nos o conceito de globalismo, que procura justificar que as características do todo sistémico se encontram nas partes que o constituem e, por sua vez, as características das diferentes partes projectam-se e constituem a globalidade do sistema.
Como uma das características fundamentais dos sistemas humanos e sociais é a abertura e a complexidade, estes obedecem ao princípio teleológico, no sentido em que se auto-regulam e auto-organizam em função das suas finalidades, proporcionadas pelo meio envolvente.
Tratando-se de sistemas complexos, por oposição ao determinismo simplista (Morin, 1995), o conceito de caixa negra emerge para demonstrar que o conhecimento da realidade (neste caso o comportamento dos sistemas) se obtém pelo controlo das suas entradas e saídas, mediante feedbacks positivos ou negativos, como resposta à relação que os sistemas têm com o meio envolvente. Por isso, os sistemas abertos e complexos não deixam de obedecer também ao princípio da equifinalidade, já que estes podem atingir as mesmas finalidades por diferentes formas e percursos alternativos (Epstein, 1973: 9-43).
Aos processos de desorganização, de caos, de ruptura e de morte que os sistemas podem desenvolver na relação com o meio os autores da Teoria dos Sistemas e da Cibernética designam por entropia. Procurando contrariar e inverter estes processos, os sistemas recorrem a medidas neguentrópicas para readquirirem o equilíbrio homeostático, as quais consistem em processos de informação e de comunicação.
Como se depreende, os processos de informação e de comunicação são de importância fundamental para a coesão dos sistemas, uma vez que lhes proporcionam o ajustamento das diferentes partes que os constituem. Mas são também fundamentais para as relações de adaptação do sistema ao meio envolvente, sem esquecer que é graças à comunicação e à informação que os sistemas delimitam as suas fronteiras (ou identidade), face aos outros sistemas.
Todavia, tais processos são possíveis porque as fronteiras dos sistemas
sociais e humanos são por natureza abertos e complexos, o mesmo é dizer que as
suas fronteiras obedecem ao princípio da permeabilidade: predisposição
para entrada e saída de informação. A permeabilidade, ao facilitar as trocas
informacionais do sistema com o seu meio, permite que este exerça influência
sobre as suas estruturas internas, a que os teóricos dos sistemas designam por morfogénese.
Por tudo isto, a homeostasia procurada pelos sistemas nas relações de adaptação ao meio envolvente não pode ser sinónima de equilíbrio estático. É certo que alguns autores consideram ser a perspectiva sistémica, para já não falar do funcional-estruturalismo de Parsons, uma visão estática da família. Mas não é essa a nossa posição. Se considerarmos que a abordagem sistémica e o próprio conceito de sistema são metáforas que remetem para a complexidade interactiva dos seus membros, talvez seja possível atribuir a estes conceitos novos significados. E não é pelo facto de a abordagem sistémica fazer recurso aos termos "equilíbrio" e "adaptação" que nos devemos ficar pela ideia de "conservadorismo parsoniano", expressão que duvidamos ter correspondido com exactidão ao pensamento do autor. Trata-se aqui de um padrão de equilíbrio dinâmico, oscilante, e não de um estado cristalizado (Watzlawick et al., 1985). Pois, como refere Le Moigne (1996), os sistemas abertos e complexos são constituídos por três pólos: genético, ontológico e funcional. O primeiro diz respeito à história do sistema; o segundo ao ser que o caracteriza; o terceiro à actividade que desenvolve na relação com o meio.
Porque as relações do sistema com o meio, apesar da procura de equilíbrio e de adaptação, são sempre instáveis, justifica-se afirmar que o comportamento dos sistemas sociais e humanos será sempre probabilístico, aleatório, e por isso mesmo não determinístico.
Ao serem introduzidos neste modelo os conceitos de processo de comunicação autêntica, parte-se do princípio de que a comunicação facilitadora das potencialidades humanas, proposta por Carl Rogers, o completa, uma vez que os três pólos que constituem a modelação sistémica atrás referidos não deixam de ser nele considerados. Por outro lado, a perspectiva da abordagem sistémica procura neste texto a compatibilidade e a integração, não totalitária, da pessoa humana na sua unicidade, também ela vista como uma totalidade sistémica.
A Comunicação
como Processo
Quando no interior da família os indivíduos procuram relacionar-se recorrem à comunicação. Por comunicação entendemos o acto de pôr algo em comum entre pelo menos duas pessoas, assentando esta numa codificação que ambas conhecem, por forma a gerar-se um campo de entendimento comum aos elementos envolvidos nesse processo (Berlo, 1978: 49-75).
Distinguimos aqui comunicação de informação, visto tratar-se de conceitos diferentes. Enquanto que informação é o acto de divulgar, esclarecer e dar conhecimento de algo a alguém, comunicação é um processo, o qual gera mudanças nos elementos que dele participam, num tempo, num espaço e num contexto (Rodrigues, 1999: 34-36).
Se a informação é caracterizada por uma relação unívoca entre emissor e receptor, o processo de comunicação distingue-se desta por uma relação biunívoca, o mesmo é dizer por um circuito bilateral, no qual a resposta do receptor retroalimenta a acção do emissor. De outra forma, o processo de comunicação gera no emissor e no receptor reversibilidade na inteligência, reciprocidade na afectividade e objectividade nas significações.
Como a informação é unilateral não permite ao receptor reagir ou pronunciar-se sobre o conteúdo, a forma e a intenção da mesma, o que pode naturalmente provocar irreversibilidade, desnivelamento ou equívocos de compreensão. Se na informação há uma relação de "imposição" por parte do emissor, já na comunicação pode verificar-se uma interacção dos elementos nela envolvidos, uma vez que tanto emissor quanto receptor participam de um mesmo processo, que a ambos é comum.
Processo de Comunicação no Sistema
Familiar
Por comunicação podemos assim entender o processo pelo qual marido e mulher, pais e filhos constituem relação uns com os outros. É a forma pela qual "democraticamente" os elementos do processo de comunicação podem expressar e simultaneamente comungar a sua subjectividade.
Este processo não implica todavia a redução ou o nivelamento das diferenças
que caracterizam emissor e receptor . Como afirma Orgogozo (1988: 15) la comunication est une activité
d’écharge - incessante et pourtant improbable - entre deux ou plusiers unités
(individuelles, organizacionelles ou sociales) qui cherchent à modifier leurs
comportements mutuels pour réduire l’incertitude inhérente au fait que ces
unités sont et resteront différentes les unes des autres.
Pode, assim, dizer-se que o processo de comunicação no sistema familiar permite aos seus elementos partilhar o que têm em comum, reduzindo desta forma a incerteza e a ambiguidade, mas também evidenciar as diferenças que os caracterizam. E tanto as semelhanças quanto as diferenças constituem o meio ambiente a partir do qual os indivíduos encontrarão as suas finalidades para se auto-organizarem pessoal e socialmente.
Esta diferenciação poderá no entanto levar quer a um clima de bem-estar e de harmonia, pela descoberta da diferença, quer a um clima de tensão e de angústia nos sujeitos envolvidos nesse processo, face ao ruído do imprevisto, da incerteza e do desigual.
Mas se é no processo de comunicação que surgem diferenças, incertezas e ambiguidades que podem provocar bloqueios e conflitos, é também nele que estes podem igualmente ser clarificados e dirimidos e o sistema familiar atingir novos estádios homeostáticos de complexidade, mediante a integração dos ruídos iniciais.
Bloqueios no Processo de
Comunicação
Do que precede, torna-se claro que, ao estabelecer-se a relação no sistema familiar desenvolve-se, acima de tudo, um processo dinâmico de comunicação no seu interior. Mas este processo, que se caracteriza por uma intencionalidade, ou seja, que visa determinada finalidade no sistema familiar, assenta e depende das características dos diferentes elementos que o constituem (Berlo, 1979: 49-75): emissor, mensagem, canal, receptor e contexto ou clima em que decorre a comunicação.
Se tomarmos em consideração que as características de cada elemento do processo de comunicação são diversas e complexas, poder-se-á perceber que o equilíbrio da relação familiar em muito depende das estratégias e das práticas comunicacionais nela presentes (Dias, 1991: 29-30.
Assim, ao nível do emissor e do receptor (marido e mulher ou pais e filhos, por exemplo) podem gerar-se e desenvolver-se bloqueios provenientes: das competências comunicadoras do emissor e do receptor, no que se refere à forma como codificam e descodificam as mensagens, bem como à sua capacidade de raciocinar sobre os conteúdos das mesmas; das próprias atitudes do emissor e do receptor, uma vez que estas influenciam as modalidades e os meios pelos quais se expressam; dos sistemas social e cultural, visto que os mesmos influenciam e condicionam a acção do emissor e do receptor.
Ao nível da mensagem, podem gerar-se e desenvolver-se bloqueios provenientes das influências: dos próprios conteúdos veiculados pela mensagem, do tratamento e da codificação que lhe são feitos.
Ao nível do canal, podem emergir as influências da visão, da audição, do tacto, do olfacto, do gosto, da mímica, da gestualidade, etc.
Sendo o processo de comunicação um acto intencional este apresenta-se como um comportamento teleologicamente orientado. Dado que a intencionalidade da comunicação é indissociável da relação, e sendo por consequência a relação uma função estruturante do próprio indivíduo, logo, a comunicação torna-se parte integrante da natureza humana, pois, como refere Edgar Morin (1995), o ser humano é um sistema auto-eco-organizado, o mesmo é dizer que se constrói na relação que estabelece com os outros.
O Ser Humano
como Sistema Comunicacional Aberto e Complexo
Visto que a relação caracteriza e expressa cada sistema familiar, os sujeitos que dele fazem parte encontram-se num processo de comunicação constante, ao qual não podem subtrair-se. Como refere o filósofo Watzlawick (1985: 44), não se pode não comunicar, ou seja, qualquer comportamento tem sempre o valor de mensagem, pelo que estamos sempre em processo de comunicação.
Assim, e dada a constância da relação familiar, ora com uns ora com outros, pode dizer-se que os elementos que a integram se situam num plano sistémico e interactivo de comunicação, o que nos conduz à ideia de que o ser humano está permanentemente a fazer trocas com o meio ambiente; neste caso, com a família e a família com a sociedade.
A visão sistémica da família pode igualmente ser transposta para cada elemento que a constitui. O ser humano é também ele um sistema, sistema comunicacional complexo e aberto ao meio que o rodeia. E, graças à estrutura genética, bem como ao património hereditário que dele fazem parte, o ser humano é portador de um conjunto de potencialidades que, se actualizadas, lhe possibilitam o relacionamento com os outros.
O desenvolvimento das características individuais e das suas potencialidades, quando facilitado pelo meio social, especialmente pelo sistema familiar, permite ao indivíduo fazer trocas adaptativas, as quais lhe facultam o ajustamento às mutações que se geram nesse mesmo meio ambiente social e cultural.
Desta forma, o processo de comunicação no sistema familiar apresenta-se-nos neste contexto como um mecanismo de regulação social básico, sem o qual não seria possível haver relação, e sem relação familiar seria insustentável o processo de socialização. A haver rotura neste processo difícil seria também a adaptação social do indivíduo, logo, tornar-se-ia iminente o fracasso da sua integração na sociedade.
Abordagem Sistémica da Adaptação
Social
Como foi observado, é na relação familiar, com base no processo de comunicação, que o ser humano interioriza os elementos sócio-culturais do seu meio, através do processo de socialização, e os integra na estrutura da sua personalidade, face às experiências vividas na e com a família e se adapta ao meio social (Rocher, 1989: 126).
Ora, do ponto de vista sociológico, a principal consequência da socialização é, com efeito, a adaptação da pessoa ao seu meio social, adaptação que lhe permitirá partilhar pontos de vista, aspirações e necessidades, uma vez que, mentalmente, se assemelha aos outros. Neste processo interactivo de adaptação o indivíduo reconhece-se nos outros e é a partir deles que constrói a sua identidade psíquica e social (Gurvitch, s.d.: 243-258).
Numa visão alargada desta problemática, podemos dizer que a adaptação social do ser humano se produz a três níveis: psicomotor, afectivo e mental.
Ao nível psicomotor, porque o ser humano desenvolve necessidades fisiológicas, gostos e atitudes corporais, que são condicionados pelos sistemas social e cultural. Ao nível afectivo, porque a expressão dos sentimentos é veiculada pelas modalidades, pelas restrições e pelas sanções que constituem os sistemas social e cultural. Ao nível mental, porque o processo de socialização fornece ao indivíduo as tipificações, as representações, as imagens, os conhecimentos, os preconceitos e os estereótipos que estruturam os sistemas de conhecimento (Dias, 1999).
Numa alusão à Teoria Geral da Acção Humana, sobre este mesmo problema, o sociólogo Talcott Parsons (1969: 52-53) propõem-nos quatro subsistemas ciberneticamente hierarquizados, mas interactivos, que concorrem para a adaptação do ser humano: orgânico, psíquico, social e cultural (ou simbólico). A cada subsistema corresponde uma função, que contribuirá para a integração do indivíduo e para o equilíbrio global do sistema de acção (Quadro 1).
Ao subsistema orgânico corresponde a função de adaptação do sujeito. Ao subsistema personalidade corresponde a função de prosseguimento de fins da pessoa. Ao subsistema social corresponde a função de integração do indivíduo. Ao subsistema cultural corresponde a função de estabilidade normativa.
Quadro 1 - Visão Sistémica da
Acção em Talcott Parsons
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Sistema Geral da Acção |
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Imperativos Funcionais |
Subsistemas |
Hierarquia Cibernética da Acção |
Ciências |
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Estabilidade Normativa |
Cultural |
Antropologia |
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q Valores q Conhecimentos q Ideologias q Aparelho simbólico de que a acção se inspira |
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Integração |
Social |
Sociologia |
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q Condições sociais implicadas na interacção dos indivíduos |
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Prosseguimento de Fins |
Personalidade |
Psicologia |
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Adaptação |
Organismo Biológico |
Biologia |
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Adoptando a presente perspectiva à família (Quadro 2), e socorrendo-nos ainda do pensamento de Parsons, podemos dizer que a função de adaptação diz respeito aos meios a que o sistema familiar recorre para prosseguimento dos seus fins, dependendo estes das condições proporcionadas pela estrutura económica.
Por sua vez, a função de prosseguimento de fins refere-se à definição e obtenção de finalidades para o próprio sistema familiar ou para os elementos que o constituem, dependendo aquelas das condições implicadas na estrutura política.
A função de integração consiste em assegurar a coordenação entre os elementos do sistema familiar, por forma a ultrapassar as contradições originadas no seu interior e entre este e a sociedade, dependendo aquela das condições que corporizam as normas e as regras que condicionam a interacção humana.
Por último, a função de estabilidade normativa procura assegurar que os valores da sociedade sejam conhecidos e aceites pelos elementos que compõem o sistema familiar, dependendo aquela de valores e do modo como os diferentes agentes os transmitem ao ser humano no decurso do processo de socialização.
Quadro 2 - A Família como Subsistema
Social
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Subsistema Social |
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Imperativos Funcionais |
Elementos Estruturais |
Hierarquia cibernética da Acção Social |
Conjuntos Estruturais |
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Estabilidade Normativa |
Valores |
Socialização |
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Consiste em assegurar que os valores da sociedade sejam conhecidos pelos seus membros e que estes os aceitem |
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q Família q Ensino q Meios de Comunicação Social q Igrejas q Empresas |
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Integração |
Normas |
Direito |
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Consiste em assegurar a coordenação entre as partes que compõem o sistema |
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q Aparelho Judiciário |
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Prosseguimento de Fins |
Colectividades de Indivíduos |
Política |
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Consiste na definição e obtenção de objectivos para o sistema e/ou para os indivíduos que o constituem |
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q Estrutura Política |
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Adaptação |
Papéis Sociais |
Económico |
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Consiste no conjunto de meios a que o sistema recorre para prosseguimento de fins |
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q Estrutura Económica |
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Comunicação como Processo Homeostático
do Sistema Familiar
A família desempenha assim o papel de estabilizador através do processo de socialização, o qual procura produzir nos indivíduos conformidade nas maneiras de pensar, de sentir e de agir, por forma a que estes se adaptem ao sistema familiar e nele se integrem, permitindo-lhes por consequência manterem-se e prosseguir tanto os seus próprios fins como os do sistema a que pertencem.
Como estes fins só são possíveis de atingir mediante processos de comunicação, a relação familiar acaba por constituir parte da natureza da pessoa, pois o ser humano modela-se naquilo que o campo interaccional lhe proporciona. Construindo-se na relação comunicativa, o indivíduo torna-se um ser relacionado e comunicacional, ou, parafraseando Rogers (1985) o indivíduo torna-se pessoa.
Dado, no entanto, que ao nascer o indivíduo é progressivamente integrado nos padrões de funcionamento familiar já existentes, os modos de pensar, de sentir e de agir não deixam de ser constrangidos pela relação aí desenvolvida. O sistema familiar constitui nesta perspectiva o garante do isomorfismo dos padrões sócio-culturais, sem os quais não é possível estabelecer a relação entre o individual e o social (Quadro 3).
Como a família é a primeira instituição a facultar ao ser humano a sua auto-organização no seio da relação que a expressa, o modo como nela se desenvolvem os processos de comunicação determinará o maior ou menor sucesso do seu desenvolvimento pessoal e social e, por consequência, da sua integração na sociedade (Dias, 1991: 30-32).
Quadro 3 - Constrangimentos à
Acção Social

Sistema Familiar e Comunicação
Autêntica
Sendo o sistema familiar o meio por excelência onde os seus membros podem comunicar uns com os outros sem entraves, e onde é possível encontrar as condições para o seu desenvolvimento e equilíbrio psico-sócio-afectivo, nem sempre isso se verifica.
Carl Rogers, psicólogo americano da corrente humanista, apresenta-nos a sua concepção das relações humanas, baseada na atitude de autenticidade entre as pessoas e num modelo de comunicação facilitador e de compreensão empática. A sua proposta é expressa em diversas obras que publicou no decurso da sua vida, sendo Tornar-se Pessoa (Rogers, 1985) aquela que, de uma forma simples e enfática, contribuiu para uma perspectiva original do ser humano e da família.
Rogers parte de três premissas fundamentais para a compreensão do seu modelo de comunicação.
A primeira é a de que o núcleo da personalidade do ser humano é de natureza fundamentalmente positiva, sendo a base do homem positiva, racional e realista.
A Segunda refere-se à capacidade de auto-direcção, ou de crescimento de todo o indivíduo. Esta tendência inata de o indivíduo desenvolver as suas capacidades assenta em duas ideias fundamentais: por um lado, a tendência actualizante do organismo em busca dos fins que lhe são próprios; por outro, a pessoa é vista como um sistema aberto, auto-regulável, que avalia a sua experiência e resultados em função das finalidades procuradas, corrigindo posteriormente a sua experiência.
A terceira diz respeito à possível alienação do desenvolvimento. Quando assim acontece, o desenvolvimento da pessoa é bloqueado face às finalidades que lhe são propostas no processo de socialização. Como o ego é produto das experiências que ela própria viveu e da interiorização da valorização que os outros fazem de si, a pessoa tende a deixar-se conduzir pelas apreciações dos outros, especialmente dos familiares. É que, no sistema familiar, acontece frequentemente a criança valorizar mais as apreciações que os outros fazem de si do que a sua experiência pessoal. Como a criança depende das condições que a família lhe proporciona para atingir os seus fins, a sua percepção acaba por ser moldada e dirigida por vontades que lhe são alheias.
Para contrariar os bloqueios ao processo de comunicação, e por consequência a relação desequilibrada, Rogers propõe que, para a comunicação ser autêntica a mesma deve efectuar-se entre pessoas. Ora, o conceito de pessoa em Rogers exclui a clivagem do ser humano em orgânico, psíquico, social ou cultural; é uma visão sistémica e holista. O ser humano é um todo sistémico, mas que integra subsistemas diferenciados; é independente, mas simultaneamente relacional, pelo que, para o autor, é necessário reduzir ao máximo os bloqueios à experiência subjectiva, visto que é através dela que o ser humano encontra um campo de partilha com os outros, constituindo desta forma um meio ambiente de intersubjectividade, no qual se constrói e se desenvolve.
Assim, e sem que os pais se demitam da sua responsabilidade de educadores e orientadores, para que no sistema familiar haja uma relação equilibrada, através da comunicação autêntica, Rogers propõe três atitudes comunicacionais básicas.
A primeira diz respeito à necessidade de os pais serem coerentes e congruentes nas relações com os filhos, ou seja: serem eles mesmos, autênticos, transparentes, procurando estar abertos, sem defesas no que concerne aos seus próprios sentimentos.
A segunda refere-se à imperiosidade de aceitação positiva e incondicional dos filhos, o que significa aceitar as suas manifestações sem julgamentos prévios.
A terceira reporta-se à compreensão empática, do ponto de vista interno dos filhos, ou seja, perceber o seu quadro de referência interno com a exactidão possível, o que inclui também os aspectos emocionais e as significações a eles atribuídos, como se os pais fossem os filhos, sem no entanto deixarem de ser eles próprios.
Na presente perspectiva, a adopção destas atitudes pelo sistema familiar
poderá contribuir para um maior desenvolvimento pessoal e social dos seus
elementos, para relações mais equilibradas e para uma sociedade menos punitiva
e mais solidária. É que, como refere o sociólogo Raymond Boudon (1990: 37), Todo
o processo social é, em última instância, resultado de comportamentos
inspirados nas noções ou valores interiorizados pelos indivíduos no decorrer da
sua socialização.
Conclusões
A comunicação, ao contrário da unilateralidade da informação, produz mudança nos seus intervenientes o que nos leva a afirmar que relações familiares assentes em processos de comunicação autêntica permitem a todos a oportunidade de nele participar de forma eficaz e equilibrada.
Mas este processo pode sofrer diversos bloqueios, uma vez que os elementos em interacção são vários. E como o ser humano é um sistema aberto, e por isso vive permanentemente exposto às influências do meio que o rodeia, está sujeito a orientar-se em função dos julgamentos e apreciações dos outros, em especial da família e dos pais.
Encarando a família como um sistema ela permite aos elementos que a constituem, através do processo de socialização, interiorizar os valores e as normas sociais para a sua formação e desenvolvimento, mas também estabelecer uma ligação entre eles e a sociedade, contribuindo desta forma para o equilíbrio social.
O processo de comunicação é o mecanismo social básico sem o qual não é possível haver relação. Se a comunicação no sistema familiar se basear nas atitudes propostas por Rogers, a congruência, a aceitação positiva e incondicional e a compreensão empática, mais possibilidades haverá de um desenvolvimento pessoal e de relações familiares equilibradas.
Havendo relações familiares equilibradas os processos sociais não deixarão de ser o seu reflexo natural.
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*Doutor e
Mestre em Sociologia, é Professor Associado de Sociologia no Instituto Piaget,
Coordenador da Unidade de Investigação em Sociologia e Coordenador da
licenciatura em Ciências da Comunicação, na mesma Instituição. É também
Psicoterapêuta pela Sociedade Portuguesa de Psicoterapia Centrada no Cliente e
Abordagem Centrada na Pessoa.
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