Teoria dos Sistemas e
Abordagem Centrada na Pessoa
(Contributos
para uma Recentragem da Comunicação na Relação Pedagógica)
Fernando
Nogueira Dias *
Artigo publicado no livro Sistemas de Comunicação, de Conhecimento e de Cultura, Um Olhar Sociológico, Instituto Piaget, 2001, do mesmo autor.
A minha intervenção procurará demonstrar que a relação
pedagógica é um espaço pluridimensional onde é possível, apesar das diferenças
nele presentes, transformá-lo num ecossistema de saberes e de afectos que permita
o desenvolvimento integral dos seres humanos.
Por isso, parto do princípio de que, embora não sendo
possível, de uma só vez, intervir em toda a complexidade institucional, estará
sempre ao alcance do professor o desenvolvimento de um clima que propicie a
construção de um território de segurança ontológica e de desenvolvimento pleno
dos actores envolvidos na relação pedagógica.
Trata-se de um agir sobre a relação pedagógica mediante
processos comunicacionais facilitadores, para aí criar um sistema interactivo
que, para além dos conteúdos programáticos e das imposições normativas do
Sistema Educativo, não deixe de equacionar as necessidades e o sentir humanos.
Com esse fim, proponho para a relação pedagógica o
recurso a processos de comunicação autêntica, que permitam criar espaços de
conhecimento e de experiências, sem negar a partilha de valores e a expressão
de afectos e de emoções, tão necessários à estruturação da identidade e ao
reforço da auto-estima - numa palavra: ao equilíbrio do professor e do aluno.
Assim,
o tema que me proponho tratar tem como título principal Teoria dos Sistemas e Abordagem Centrada na Pessoa e como
subtítulo Contributos para uma
Recentragem da Comunicação na Relação Pedagógica. A escolha desta temática
parecerá, talvez, simplista, pela evidência com que se nos impõe num primeiro
relance. Todavia, a simplicidade que os conceitos por vezes sugerem na sua
aparente manifestação nem sempre corresponde à complexidade da realidade, por
vezes escondida nos discursos individuais e sociais estereotipados.
Com efeito, por força da influência dos paradigmas
cartesiano e positivista, a apropriação de alguns conceitos veio a torná-los
prisioneiros de uma certa reificação, se quisermos, de uma certa coisificação, desligados da sua natural
relatividade e contextualização. É o caso dos conceitos aluno,
pessoa, relação pedagógica, etc.
Se por um lado, na acepção rogeriana inicial, o conceito
de aluno foi em boa medida substituído pelo de pessoa, conceito este menos institucional e menos rotulante, a
verdade é que o próprio conceito de pessoa
corre ele mesmo o risco de coisificar-se,
como se de uma entidade concreta e de contornos bem delimitados se tratasse. De
facto, assim não é. As palavras fazem parte dos discursos sociais da realidade
e dos paradigmas científicos; por isso, é sempre importante não nos deixarmos
confundir pela aparência das mesmas.
Mas se enuncio estas precauções de carácter
epistemológico, a verdade é que havemos de reconhecer que são as palavras e os
conceitos que constituem os instrumentos fundamentais do arsenal que permite a
assunção e a reformulação dos paradigmas, das teorias, dos modelos e das
matrizes. É por isso que não deixa de ser importante que, no âmbito da Abordagem Centrada aplicada à Educação,
se repensem as palavras, se reformulem os conceitos e se lhe definam os
contornos, num trabalho de constante e permanente reconstrução discursiva.
Não estamos, certamente, a pronunciar-nos sobre a
faculdade democrática de cada um expressar o seu livre pensamento acerca da
realidade, das teorias ou das palavras. Estamos, naturalmente, a referir-nos,
no sentido que Pierre Bourdieu lhe atribui, ao trabalho necessário, exigente e
sistemático, de fazermos rupturas com o senso comum, o qual por vezes inquina a
compreensão dos modelos e da sua respectiva aplicação.
Feita esta enunciação, diria que não é anódino estarmos
em relação pedagógica com uma pessoa ou
em relação pedagógica com um aluno. Se o primeiro conceito é de cariz humanista
e personalista, o segundo é seguramente institucional e social. Sabemos hoje, e
os estudos etnometodológicos de Garfinkel ou os da Escola de Palo Alto bem o
demonstram, que a relação entre pessoas é pontuada por um conjunto de marcadores, entre os quais os papéis que
desempenham e a posição que ocupam na estrutura social. Para além disso, as
atitudes e as expectativas de cada indivíduo são geridas de acordo com as tipificações que cada um faz em relação ao
outro, na decorrência do processo comunicacional.
Por
esta razão, a expressão Abordagem
Centrada na Pessoa, em contexto pedagógico, terá naturalmente implicações
diferentes da expressão Abordagem
Centrada no Aluno. Mas eu permito-me ir além desta distinção. Pretendemos
uma Abordagem Centrada na Pessoa, em
contexto pedagógico, tal como Carl Rogers propôs e alguns seguidores ainda
defendem, ou uma Abordagem Centrada na relação entre duas pessoas - Professor-Aluno?
Do meu ponto de vista, se centrarmos a comunicação na relação professor-aluno,
vendo estes como duas pessoas em co-presença, conseguiremos ultrapassar algumas
dificuldades conceptuais emergentes do Modelo da Abordagem Centrada na Pessoa. Esta proposta em nada desvaloriza a Abordagem Centrada na Pessoa, pelo
contrário, enriquece-a. Não podemos esquecer-nos de que a Abordagem Centrada na Pessoa
pretende ser um paradigma no cenário do pensamento contemporâneo sobre a
Educação - e daí a necessidade de lhe redefinirmos algumas dimensões
conceptuais.
Vale a
pena recordar que os paradigmas são sistemas de ideias que nos ajudam a ver a
realidade e a desenvolver as actividades científicas. Mas, como refere Thomas
Khun, os paradigmas são contextuais e relativos - pelo que é de evitar a sua
reificação. A não ser assim, corre-se o risco de termos um modelo que se coisificou no tempo e no espaço, ou
então, pelo contrário, se não houver uma vigilância
epistemológica sobre o modelo, corre-se o risco de cada indivíduo pensar o
que muito bem entende sobre ele - neste caso, sobre a Abordagem Centrada na Pessoa.
É neste sentido que me proponho contribuir para uma
clarificação do conceito de recentragem
da comunicação na relação pedagógica, socorrendo-me da Teoria dos Sistemas.
Com esta proposta procuro resolver dois problemas: o do direccionamento da
comunicação e o da compatibilidade entre a Abordagem
Centrada na Pessoa e as condições sociais e institucionais que envolvem e
coagem a relação pedagógica na Escola. O mesmo é dizer que:
Por um
lado, pretende-se direccionar a comunicação para a relação professor-aluno e
não para uma só pessoa (normalmente o aluno), dado que a relação pedagógica é
sempre feita com, pelo menos, duas
pessoas.
Por
outro lado, pretende-se que a comunicação seja centrada neste sistema relacional,
uma vez que a centragem numa só pessoa em contexto pedagógico tornar-se-ia
incoerente e incompatível com os objectivos institucionais e sociais.
Operando
com o conceito de sistema (conceito síntese
da relação professor-aluno), é
possível ultrapassar o problema dos papéis e dos estatutos sociais de ambos,
sem no entanto perdermos de vista que eles não deixam de estar lá, seja em
forma manifesta ou latente. Ao fazermos um esforço de síntese, como sugere Aaron Cicourel, no âmbito da Sociologia Cognitiva,
conseguimos ultrapassar a barreira entre micro e macro fenómenos, visto que
este sistema contém em si simultaneamente as propriedades de cada pessoa, como
sistema individualizado, e as do sistema social mais vasto.
É neste sentido que a comunicação autêntica, proposta por
Rogers, e a sua aplicação à relação pedagógica é por mim considerada como
catalizador crucial de desenvolvimento, não de uma só pessoa, mas de um
conjunto de pessoas em interactividade, produtoras de um sistema que as define
e no qual proponho que nos centremos.
Todavia,
para que se desenvolva uma relação pedagógica equilibrada assente em sistemas
relacionais é necessário que, para além da co-presença física, ocorram não só
processos de informação como também, e sobretudo, processos de comunicação.
Parecerá, talvez, que estas palavras não passam de um
lugar comum, já que por todos é assumida a importância da comunicação na sala
de aula. A verdade, porém, é que não visamos aqui o processo de comunicação na
relação pedagógica enquanto mecanismo de troca de conteúdos, nem tão pouco da
comunicação enquanto troca de mensagens, e muito menos da comunicação enquanto
cruzamento de discursos sociais.
A troca de mensagens, ou o cruzamento de discursos
sociais, situa-se num nível de superficialidade do processo de comunicação. É
por isso que, se os processos interaccionais se basearem exclusivamente, ou
maioritariamente, na troca pela troca de informação corre-se o risco de
emergirem efeitos perversos, dado que a comunicação profunda é substituída por simulacros de comunicação, para usar a
expressão de Jean Baudrillard: circulam mensagens, com maior ou menor grau de
informação, mas não há comunicação de facto.
Proponho-me, por isso, considerar o processo de
comunicação no seu sentido profundo e autêntico, como motor que desenvolve e
sustenta a relação interpessoal, processo este que, na acepção rogeriana,
implica um conjunto de atitudes, sem as quais a relação pedagógica não passa de
uma gama de técnicas didácticas ao serviço de teorias ou de ideias mais ou
menos vagas sobre educação.
No âmbito desta proposta, a comunicação será, então,
centrada não exclusivamente no aluno, ou no professor, mas precisamente na
relação entre essas mesmas pessoas, como se de um sistema se tratasse. Para
isso necessitamos de considerar igualmente a relação pedagógica como um todo
sistémico. Este é qualitativamente superior à soma das suas partes: é a
emergência de algo que não é exclusivamente do professor, do aluno, da relação
interpessoal ou da instituição de ensino, mas resultante da interinfluência de
todas elas.
Dada, no entanto, a complexidade das diferentes variáveis
que concorrem para a relação pedagógica, e uma vez que é humanamente impossível
percepcioná-las e estar atentos a todas elas de uma só vez, o processo de
comunicação deverá, por isso, centrar-se no sistema relacional. Mais
precisamente, a comunicação deverá centrar-se na relação de um conjunto de pessoas em acção, constituindo esta um
meio que elas próprias ajudam a desenvolver, mas que, simultaneamente, as
condiciona.
Será, então, que este projecto põe de lado o aluno ou o
professor enquanto pessoas? Não. O que se pretende é considerar globalidades,
que são produto de outras globalidades e que sobre elas exercem a sua acção. Ou
seja, a globalidade maior é a relação
pedagógica, a qual compreende a globalidade relacional, que por sua vez
compreende a globalidade aluno e a globalidade professor. Não há aqui
predominância das estruturas maiores sobre as menores, ou, como defende Pierre
Bourdieu, predominância das estruturas objectivas sobre as subjectivas nas
relações face-a-face – o que há é uma hierarquia na ordem de prioridades em
função dos objectivos que nos propomos atingir.
O mesmo é dizer que a relação pedagógica é um sistema
maior, se quisermos, um ecossistema, do qual fazem parte outros sistemas. Como
estamos a tratar de sistemas abertos e complexos, porque humanos, significa que
uma alteração num deles afecta o outro e, por consequência, o sistema maior,
que é a relação pedagógica. Igual raciocínio se pode aplicar inversamente.
Neste sentido, há aqui uma característica que a Teoria Geral dos Sistemas
designa por globalismo. Ou seja, o todo está nas partes e as partes estão no
todo. E apesar disso, nenhuma delas se confunde com a outra.
Aceitar
esta proposta é reconhecer que a relação pedagógica tem nesta perspectiva cinco
contextos sistémicos abertos a considerar: 1) a relação pedagógica como
ecossistema, ou meta-sistema; 2) a relação
professor-aluno como sistema maior; 3) o professor como subsistema; 4) o
aluno como subsistema; 5) e o conjunto de todos os outros aspectos contextuais,
sociais e institucionais igualmente como subsistemas da relação pedagógica.
Considerar,
por outro lado, que estamos a trabalhar com o conceito de sistema aberto é
considerar a elevada complexidade de cada sistema ou subsistema, cujo
cruzamento interaccional nos remete para níveis de complexidade sempre maiores.
Admitir estes pressupostos implica chamar a atenção para o esforço que a
comunicação centrada no sistema de relação professor-aluno pressupõe por
parte do docente. É que, se o aluno é uma pessoa, com a qual o professor deve
contar, também este não deixa de ser uma pessoa, e neste caso com um nível de
responsabilidade maior no processo educacional, face ao seu papel e status na estrutura social.
Estas
contingências por parte do professor não podem ser arredadas da relação
pedagógica, nem tão pouco as do aluno, que igualmente tem um papel e um status na estrutura social, neste caso a
Escola, para não falar já do peso de outras variáveis, culturais, económicas,
sociais e individuais das duas pessoas em acção.
Perspectivar,
então, o professor e o aluno como
sistemas abertos é considerar que no processo de comunicação ambos são
igualmente permeáveis, e por isso mesmo inter-influenciáveis. E é dessa
inter-influência que nasce e se desenvolve a relação interpessoal, a qual
contribuirá, decisivamente, para o desenvolvimento da relação pedagógica.
Assumir
isto é admitir que a relação pedagógica emerge da complexidade interaccional de
todos estes e outros aspectos que não interessa agora aqui analisar, e por isso
é muito mais do que a soma de cada um dos factores isolados. A relação
pedagógica é, assim, toda a complexidade que emana de outras complexidades
orgânicas, psíquicas, sociais, culturais e simbólicas, sejam estas manifestas
ou latentes.
Esta
proposta, apesar de não ser revolucionária, é substancialmente diferente
daquilo que têm sido as tendências da educação. As teorias académicas
centram-se nos conteúdos; as Teorias Psicocognitivas, as Teorias Tecnológicas e
as Sociocognitivas centram-se nas interacções; as Teorias Sociais centram-se na
sociedade; as Teorias Espiritualistas e as Teorias Personalistas centram-se na
pessoa, como vimos.
Em
complemento destas tendências educativas, e em jeito de síntese, o quadro aqui
proposto remete para um sistema integrador, que é a relação pedagógica, e para
uma recentragem da comunicação na relação
professor-aluno. Por outro lado, o conceito de relação professor-aluno só
faz sentido se admitirmos que ambos são agentes de acção, que trazem, à
partida, um background, o qual não
deixa de estar presente na relação entre si; trata-se de pessoas que pensam,
sentem e agem por si, mas num contexto institucional. Finalmente, só faz sentido
falar de relação pedagógica se a considerarmos um sistema, cuja existência se deve ao resultado das
interinfluências de todos estes subsistemas. Neste sentido, a relação
pedagógica é algo que imana e simultaneamente transcende as pessoas em situação
e sobre elas rectroage.
Como se
poderá depreender, a relação pedagógica acaba por ser uma construção, cujos
arquitectos, professor e alunos, empreendem, mas na qual nem todos têm o mesmo
grau de responsabilidade, havendo um conjunto de regras a observar e sendo
necessário seleccionar os materiais para construir o edifício, num tempo e num
espaço pré-determinados.
Esta
metáfora da relação pedagógica como construção conjunta assenta num paradigma
que vai para além da ideia de que o aluno é um consumidor passivo de saberes.
Ora, se consideramos o aluno como um sistema aberto, então ele é permeável ao
meio que o rodeia: o mesmo é dizer que recebe, mas também contribui para o todo
da relação. E sendo a relação pedagógica um meio envolvente da relação professor-aluno, então esse meio
é produto e produtor.
De tudo
isto, pode depreender-se a importância da relação pedagógica como meio ambiente
fundamental para o desenvolvimento pessoal e social do aluno e do professor, o
que nos conduz à afirmação de que a
pessoa constrói-se na relação com os outros e com os outros se desenvolve e faz
desenvolver. Neste contexto, e recorrendo ao pensamento de Edgar Morin, o
aluno e o professor são sistemas auto-eco-organizados. Porquê? Porque professor
e aluno encontram os fins do seu desenvolvimento na relação que têm com os
outros, concretamente na relação pedagógica.
Mas só
na relação pedagógica? Claro que não! Há outras fontes de comunicação e de
informação: a família, os grupos de pares, as igrejas, os meios de comunicação
social, os meios audio-visuais, a Internet, etc, a partir dos quais o sujeito
pode auto-organizar-se.
Poder-se-á
dizer: mas nunca como hoje se comunicou tanto! A isso, eu responderia: Nunca como hoje se informou tanto, mas nunca
como hoje se comunicou tão pouco!
É que,
para além da sobre-informação a que as pessoas estão actualmente sujeitas, o
universo cultural-simbólico é ele mesmo um meio antinómico por excelência, onde
a ambiguidade e a entropia encontram terreno fértil - a avaliar pelos paradoxos
que constantemente chegam até nós através dos meios de comunicação de massa,
pelas dissonâncias cognitivas a que as instituições nos sujeitam e pelas
incongruências a que as relações interpessoais por vezes conduzem.
Urge,
assim, introduzir mecanismos de redundância
e de reformulação que levem à
diminuição destes ruídos, e processos de comunicação em profundidade, que
conduzam a uma correcta simbolização e integração da complexidade
informacional, quer nas relações interpessoais, quer, e sobretudo, na relação
pedagógica.
Para
isso, sugiro ser necessário ter em consideração o seguinte conjunto de
princípios: 1) considerar o aluno como pessoa, sem esquecer que o professor
também o é; 2) fundar a relação pedagógica em processos de comunicação, e não
somente em processos de informação para transmitir os conteúdos programáticos;
3) comunicar em profundidade e com autenticidade, e não somente para troca de
mensagens; 4) centrar a comunicação no sistema de relação professor-aluno, e
não exclusivamente numa das pessoas; 5) Tomar a relação pedagógica como um
sistema global, que abrange o sistema relacional professor-aluno, o aluno e o
professor enquanto subsistemas distintos; 6) Perspectivar a relação pedagógica
como um espaço privilegiado de desenvolvimento humano integral e de segurança
ontológica.
A
acontecer assim, estaremos, indubitavelmente, na senda de um meio ambiente
facilitador dos processos de aprendizagem e de desenvolvimento das pessoas
envolvidas no processo de comunicação, bem como a concorrer para um clima de
satisfação mútua.
O que
entendemos, então, por comunicação autêntica e em profundidade na relação
pedagógica? É a comunicação que se estabelece entre pessoas, e não entre
indivíduos investidos de papéis sociais. Se quisermos, é a comunicação que se
estabelece entre seres humanos que, sem deixarem de ser o que são pessoal e
socialmente, procuram ser autónomos, ainda que inter-relacionados, mas
partilhando simultaneamente a sua subjectividade. Ou, ainda, é a comunicação
que, para além dos conteúdos programáticos e da complexidade pessoal, social e
institucional envolvida, tem em conta os afectos e as emoções, tanto dos alunos
como dos professores.
Referimo-nos
concretamente à comunicação proposta por Carl Rogers, que visa respeitar em
absoluto a subjectividade de cada ser humano. E é exactamente a experiência
subjectiva de cada pessoa em interacção que as liga e que lhes permite
comunicar, quer pelas semelhanças, quer pelas diferenças.
Como
comunicar, pois, de maneira autêntica, sem barreiras que dificultem a
compreensão e a partilha na relação pedagógica? Para que isto seja possível não
basta desejá-lo; é igualmente necessário que o professor desenvolva e revele um
conjunto de atitudes, que Rogers define como congruência, atenção positiva incondicional e empatia.
Ser congruente na relação com o aluno
significa que o professor é ele mesmo, que se faz sentir na relação, sem
"máscaras". Significa estar aberto e não defensivo, no que diz
respeito aos seus sentimentos para com o aluno. Significa, finalmente, uma
autenticidade que marca a relação pedagógica.
Ter uma
atitude positiva incondicional
corresponde à aceitação do aluno, nas suas manifestações, sem julgamentos
prévios; implica aceitá-lo como ele é, e não como o professor gostaria que ele
fosse. Significa fazer um esforço para pôr de lado as tipificações, que Peter
Berger e Thomas Luckman nos apontam como limitadoras da visão da realidade.
Ser empático, à semelhança de Max Weber,
significa não ter pena ou ser simpático, mas compreender o aluno à luz do seu
quadro de referências interno, como se o professor fosse o aluno, sem no
entanto perder a sua condição ou deixar de ser quem é.
Ser
empático na relação pedagógica não é, no entanto, tarefa fácil. Tal, exige um
movimento de vai-e-vem constante, na procura das sínteses de Aaron Cicourel, ou ainda, no movimento de estruturação, defendido por Anthony
Giddens. É um movimento de aproximação e de distanciação, quer relativamente à
pessoa-aluno, quer relativamente ao todo da relação pedagógica.
Um
movimento de aproximação ao aluno, para que o professor possa sentir a partilha
dos sentidos e dos sentimentos; de distanciação para poder compreender e agir
sobre todo o envolvimento relacional em presença.
Finalmente,
para que a relação pedagógica se caracterize pela comunicação autêntica é imprescindível que se dê um salto
qualitativo do patamar discursivo para o patamar ser em e com. Se o
professor conseguir ser ele próprio, apesar das contigências do seu desempenho,
tornar-se-á facilitador do processo
expressivo do aluno. Uma vez facilitada a relação com o aluno, este sentirá
condições de tornar-se ele próprio, com o mínimo de constrangimentos.
Por sua
vez, melhorando a relação pedagógica, aumentará não só a eficiência do
desempenho do professor, como também o sucesso do aluno e, por
consequência, a satisfação de ambos.
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* Doutor e Mestre em Sociologia, é Professor Associado de Sociologia no Instituto Piaget. É Coordenador da Unidade de Investigação em Sociologia e Coordenador da licenciatura em Ciências da Comunicação, na mesma Instituição. É também Psicoterapêuta pela Sociedade Portuguesa de Psicoterapia Centrada no Cliente e Abordagem Centrada na Pessoa.