Fotografias de Perfumes: Uma Compreensão Clariceana de Conceitos da Abordagem Centrada na Pessoa de Carl Rogers.
Emanuel
Meireles Vieira
[1]
A arte muitas vezes pode servir como exemplo de muitas das descrições que nós, psicólogos, fazemos acerca de determinados estados psíquicos ou quaisquer outras coisas que venhamos a querer explicar ou descrever em nossa produção teórica.
Clarice
Lispector, autora brasileira de vasta obra, tem, por parte de estudiosos das
letras, como grande autora que é, múltiplas possibilidades de compreensão de
seus escritos. Carl Rogers, psicólogo americano também de vasta obra, já
escrevia desde o prefácio de seu terceiro livro, Terapia Centrada no Cliente, de 1951, que jogaria as páginas do
manuscrito que escrevia se pudesse, de alguma forma, mostrar a experiência que
é a terapia, é um processo, uma coisa-em-si.
Ao ler “Água Viva”, da autoria de Clarice,
percebemos alguns dos elementos que Rogers descreve como sendo esta
coisa-em-si, a partir de momentos que Clarice (1973) descreve como sendo it. Num dado momento deste livro,
Clarice fala da impossibilidade de descrever o que está sentindo, pois isto
seria como que uma tentativa de fotografar um perfume.
Pensando nisso,
procuramos mostrar uma compreensão recheada de arte da obra de Carl Rogers, ou,
quem sabe, o inverso: uma compreensão recheada de Psicologia da obra de Clarice
Lispector, procurando mostrar características do que Rogers (1978) descreve
como sendo a da “Pessoa em pleno funcionamento”.
Para tanto, foram
usados um artigo de Carl Rogers intitulado “Objetivo: a pessoa em pleno
funcionamento”, presente no livro “Liberdade para aprender”, de 1969 e o
livro “Água Viva”, de Clarice Lispector, datado de 1973.
Não se trata,
evidentemente, de argumentar que Rogers foi influenciado por Clarice Lispector,
ou vice-versa, mas apenas de mostrar o quão útil pode ser a literatura para nos
fazer compreender conceitos que cientistas não o conseguem com a mesma precisão
e empatia dos literatos. Esperamos que isto sirva como forma de tentar descrever
mais precisamente o que os conceitos científicos, muitas vezes, não conseguem:
fotografias de perfume.
É difícil pensar por onde começar, até mesmo por saber de que se trata de um processo e que, portanto, qualquer fotografia de um dado momento, é apenas daquele instante e que a simples descrição deste único momento é perda dos muitos outros que se processam. Mas temos que escolher alguns conceitos. Pensamos dever começar pela diferença entre compreensão e explicação.
Em vários momentos
de sua obra, Rogers argumenta que sua abordagem está muito mais preocupada com “como” do que com o “porquê” dos processos, ou seja, sua abordagem é muito mais
compreensiva do que explicativa. Clarice (1973), no livro a ser aqui estudado,
não nos faz nada mais que mostrar “comos”
de seus sentimentos, pois não procura explicar o que sente, ou pensar nos
riscos que isto possa vir a ter, como que se atirando no abismo da existência e
assumindo os riscos que enfrenta, inclusive o de cair no chão e lidar com as
dores que isso pode vir a trazer. Clarice (idem, p.10) nos mostra claramente
sua posição compreensiva ao afirmar:
“Não se compreende música: ouve-se. Ouve-me, então, com o teu corpo inteiro. Quando vieres a me ler perguntarás por que não me restrinjo à pintura e às minhas exposições, já que escrevo tosco e sem ordem. É que agora sinto necessidade de palavras- e é novo para mim o que escrevo, porque minha verdadeira palavra foi até agora intocada. A palavra é a minha quarta dimensão”.
Nesta passagem, Clarice mostra, inclusive, a imprecisão da palavra, dos conceitos e, ao mesmo tempo, relata o fato de não podermos prescindir destes, se quisermos “tocar nossas músicas” para que os outros nos possam escutar. E como tocar esta música?
Rogers (idem, p.264) fala de uma abertura à experiência, ao novo, ao imprevisível, ou no contexto do qual estamos falando, uma tentativa de criar o próximo acorde, sem saber muito bem os acordes seguintes, senão no momento em que estão acontecendo; portanto, quando se descobre o acorde, ele já é passado, pois quando se dá o instante-já, este “é” o instante-já; nós sempre chegamos atrasados com relação aos nossos sentimentos. A descrição de Rogers (ibid) é a seguinte:
“Na
pessoa aberta à sua experiência [...] todo estímulo quer se origine dentro do
organismo, quer do meio ambiente, transmite-se, livremente, através do sistema
nervoso, sem ser distorcido por um mecanismo de defesa [...[ quer seja [...]
uma sensação visceral de medo, de prazer ou de desgosto, a pessoa estaria
vivendo-o, tê-lo-ia inteiramente acessível à consciência”.
Clarice, ou a personagem (?) de seu livro, parece passar por este tipo experiência, ao falar que, na madrugada de 25 de julho, caiu em estado de graça. Lispector (idem, 79), prossegue, afirmando:
“Foi
uma sensação súbita, mas suavíssima. A luminosidade sorria no ar: exatamente
isto. Era um suspiro do mundo. Não sei explicar assim como não se sabe contar
sobre a aurora a um cego. É indizível o que me aconteceu em forma de sentir:
preciso depressa de tua empatia. Sinta comigo. Era uma felicidade suprema”.
Clarice parece se entregar ao devir que é nossa existência, ao processo que esta o é; não, acho melhor chamar a existência de existindo, apesar de o “ência” já dar uma idéia de gerúndio; mas quero ser mais explícito ainda: é existindo, é um processo.
Rogers (idem, p.267) fala sobre este processo ao afirmar que “alguém se torna participante e observador do processo de experiência organísmica, em vias de desenvolver-se, em vez de controlá-lo”.
Trata-se, portanto, de entregar-se ao devir do existindo, à possibilidade de ser este processo de existindo. Rogers (ibid.) ilustra isso mais adiante, de forma ainda mais precisa ao afirmar que:
“Todo
este cortejo de experiências e as significações que nela descobri, até agora,
lançaram-me como que num processo, a um tempo, fascinante e, não raro, um tanto
atemorizador. Isto quer dizer, parece que me deixei levar por minha experiência
numa direção que se me afigura progressiva, na busca de objetivos que mal posso
definir, quando tento compreender o significado de tal experiência. A sensação
é a de flutuar numa complexa corrente de experiências com a fascinante
possibilidade de tentar compreender sua complexidade sempre em mudança”.
Em palavras clariceanas (Lispector, p.62), este processo poderia ser dito da seguinte forma:
“(...)
Eu caminho em corda bamba até o limite de meu sonho. As vísceras torturadas
pela voluptuosidade me guiam, fúria dos impulsos. Antes de me organizar, tenho
que de desorganizar internamente. Para experimentar o primeiro e passageiro
estágio primeiro de liberdade. Da liberdade de errar, cair e levantar-me”.
Este processo de existindo tem muito a ver com o que Rogers, inspirado por Kierkegaard, chama de “ser o que realmente se é”, e o que podemos nomear identidade. Esta identidade não é algo rígido, uma estrutura apriorística, algo idêntico a si mesmo, ou que já existe, mas ser o processo do devir do existindo. Ou seja, é uma identidade em processo. Lispector (idem, p.23) explicita este processo de forma bastante precisa ao afirmar:
“(...)
Sou ainda a rainha dos medas e dos persas e sou também a minha lenta evolução
que se lança como uma ponte levadiça num futuro cujas névoas leitosas já
respiro hoje. Minha áurea é mistério de vida. Eu me ultrapasso abdicando de mim
e então sou o mundo: sigo a voz do mundo, eu mesma de súbito com voz
única”.
Acerca desta questão da identidade, Rogers (idem, p.263) afirma que
“Quando
[o cliente] vive estes sentimentos [outrora sentidos como prejudiciais] amplamente
diversos, em todos os graus, descobre que teve uma experiência de si próprio*, que ele é tudo isso que sente
[...].Acede à verificação de que já não precisa temer a experiência por que há
de passar, mas pode acolhê-la, livremente, como parte do seu eu** em mutação e desenvolvimento”.
Portanto,
“ser você mesmo”, muito mais do que se prender a uma estrutura rígida idêntica
a si mesma é superar a si mesmo, é ser sempre potência e superação de si mesmo;
trata-se, então, de ser o que se é, o que ainda não se é e, mais do que tudo
isso, o que se pode vir a ser.
Para
que seja possível esta “experiência” de si mesmo, é preciso, segundo Rogers,
confiar no organismo, descobrir que este é digno de confiança e que, portanto,
sua “decisão” é a mais sábia ser seguida. O organismo sabe muito mais que nosso
intelecto. Enquanto o intelecto vive em um tempo que podemos considerar como
mensurável pelos ponteiros de um relógio, o organismo vive no instante-já
clariceano, sempre se antecipando ao pensamento.
Ao
maior conhecimento do corpo com relação ao intelecto, Rogers (idem) dá o nome
de sabedoria organísmica. Em Clarice, podemos encontrá-lo sob a forma de um it (numa certa referência a algo
que se assemelha a Deus), que, como já foi dito, se processa num instante-já.
Sobre a sabedoria organísmica, diz Rogers (idem,p.269):
“[A
pessoa em pleno funcionamento] usa de todo o seu equipamento orgânico para
sentir, tão exatamente quanto possível, a situação existencial, interior e
exterior. Põe em ação todos os dados que o seu organismo possa, então, lhe
proporcionar, dele usando conscientemente, mas reconhecendo que o seu
organismo, como um todo, ocasionalmente será, e freqüentemente é, mais sábio do
que sua própria consciência”.
Podemos
perceber uma certa “sabedoria organísmica” em Clarice, quando esta(idem, p.79-80)
afirma:
“[O
estado de graça de falo] é como se viesse apenas para que se soubesse que
‘realmente se existe e existe o mundo. Nesse estado, além da tranqüila
felicidade que se irradia de pessoas e coisas, há uma lucidez que só chamo de
leve, porque na graça tudo é tão leve. É uma lucidez de quem não precisa
adivinhar: sem esforço, sabe. Apenas isto: sabe. Não me pergunte o quê, porque
só posso responder do mesmo modo:sabe-se.[...] O corpo se transforma num dom. E
se sente que é um dom porque se está experimentando, em fonte direta, a dádiva
de repente indubitável de existir milagrosamente e materialmente”.
Como
são muitas as possibilidades de citação de trechos do “Água viva”, gostaria de
pedir licença para citar mais este trecho do livro onde pensamos também existir
algo semelhante ao que Rogers chama de sabedoria organísmica:
“[...]Noite
alta é grande e me come. A ventania me chama. Sigo-a e me estraçalho. Se eu não
entrar no jogo que se desdobra em vida perderei a própria vida num suicídio da
minha espécie. Protejo com o fogo meu jogo de vida. Quando a existência de mim
e do mundo ficam insustentáveis pela razão-então me solto e sigo uma verdade
latente [...] Estou me fazendo. Eu me faço até chegar ao caroço”. (LISPECTOR,
1973, p.36-37).
Para
Rogers, por que se poderia confiar tão convictamente no organismo? Devido ao
que ele chama de tendência atualizante, uma tendência presente em todos os
organismos para se desenvolverem e se complexificarem cada vez mais, presente
em todos os organismos vivos.
Na
obra de Clarice aqui utilizada, pode-se identificar uma certa tendência
direcional no organismo, quando esta (idem, p.37) afirma:
“De
mim e do mundo, quero te dizer da força que me guia e me traz o próprio mundo,
da sensualidade vital de estruturas nítidas, e das curvas que são organicamente
ligadas a outras formas curvas. Meu grafismo e minhas circunvoluções são
potentes e a liberdade que sopra no verão tem a fatalidade em si mesma. O
erotismo próprio do que é vivo está espalhado no ar, no mar, nas plantas, em
nós, espalhado na veemência de minha voz, eu te escrevo com a minha voz[...]”.
É
óbvio que, neste, como em outros momentos, Clarice descreve com muito mais
beleza e poesia um processo a que ela, aliás, por não ser cientista, não dá
nome, mas que pode ser interpretada como uma tendência direcional do universo à
complexificação. Rogers, pelo contrário, não o busca fazer com poesia, pois,
diferente de nossa escritora, este é um cientista e precisa dar nome às coisas
que se lhe aparecem.
A
“pessoa” que passa a confiar em sua sabedoria organísmica passaria a viver de
uma forma que Rogers (idem) identifica como sendo existencial, onde cada
momento se daria como no fluxo heraclítico, como na velha metáfora em que se afirma
que não se toma banho duas vezes no mesmo rio. Assim se dão os instantes, pois
estes, para este viver existencial, são sempre novos, sempre encarados e
experimentados da maneira como se apresentam ao organismo, experimentados no
aqui-e-agora (instante-já).
“[...]
No geral, essa linha de pensamento é confirmada pelos nosso clientes, que se
sentem confiantes em que o que irão fazer, em uma situação dada, será
apropriada, compreensível e correto, mas que não podem prever, de antemão, como
irão comportar-se. Confirma-a também nossa experiência de terapeuta, em que
estabelecemos um relacionamento através do qual podemos estar certos de que
aquela pessoa descobrirá a si mesma, será ela própria, aprenderá a atuar mais
livremente, sem que possamos, entretanto, antecipar conteúdo específico da
próxima sentença da próxima frase de terapia ou da solução comportamental do
cliente, em face de determinado problema. A direção geral é correta e podemos
estar certos de que será apropriada, mas seu conteúdo específico é imprevisível”.
(ROGERS, idem, p. 274)
A
personagem (?) de Clarice em “Água Viva” passa por muitos instantes que a autora nomeia “instantes-já”, onde o
momento é vivenciado no próprio instante em que acontece. O vivido é desdobrado
no próprio momento em que acontece. É como que uma espécie de it, pois o vivido, mesmo quando
chamado desta forma, sempre se perde quando explícito pela linguagem, o que
Clarice chama de 4ª dimensão. A experienciação de si mesmo (portanto, do
vivido) nos remete ao que poderíamos chamar de abismo do infinito, pois é da
ordem do irrepresentável. Podemos, inclusive, em um trabalho posterior,
desenvolver esta idéia de forma mais elaborada, pois aqui parece não caber
muito bem.
Passemos,
portanto, às formas de como Clarice
consegue expor o instante-já, o aqui-e-agora de sua personagem (?):
“Sim,
esta é a vida vista pela vida. Mas de repente esqueço o como captar o que
acontece, não sei como captar o que existe, senão vivendo aqui cada coisa que
surgir e não importa o que: estou quase livre de meus erros. Deixo o cavalo
livre correr fogoso. Eu, que troto nervosa e só a realidade delimita”. (LISPECTOR,1973,
p.18)
Ou ainda:
“Meu
tema é o instante? Meu tema de vida. Procuro estar a par dele, divido-me
milhares de vezes quanto os instantes que decorrem, fragmentária que sou e
precários os momentos- só me comprometo com vida que nasça com o tempo e com
ele cresça: só no tempo há espaço para”. (LISPECTOR, idem, p.10)
“Mas
o instante-já é um pirilampo que acende e apaga, acende e apaga. O presente é o
instante em que a roda do automóvel em alta velocidade toca minimamente no
chão. E a parte da roda que ainda não tocou, tocará num imediato que absorve o
presente e torna-o passado. Eu, viva e tremeluzente como os instantes,
acendo-me e me apago, acendo e apago, acendo e apago. Só que aquilo que capto
em mim tem, quando está agora sendo transposto em escrita, o desespero das
palavras ocuparem mais instantes que um relance de olhar. Mais que um instante,
quero ser seu fluxo”. (LISPECTOR, idem, p.15)
“Escrevo-te
como exercício de esboços antes de pintar. Vejo palavras. O que falo é puro
presente e este livro é uma linha reta no espaço. É sempre atual, e o fotômetro
de uma máquina fotográfica se abre e imediatamente fecha, mas guardando em si o
flash. Mesmo que eu diga ‘ vivi’ ou ‘viverei’ é presente porque eu os digo já”.
(LISPECTOR,
idem, p.17).
Peço desculpas pelo fato de usar tantas citações, mas o instante
(o pensar-sentir) é tema bastante recorrente em “Água Viva”, assim como o aqui-e-agora é enfatizado
como relação ao organismo durante toda a obra rogeriana, além do que não me
canso de admirar a forma bela, elegante e precisa com que Clarice Lispector
escreve seus textos. Leva-nos, inclusive, a poder imaginar o turbilhão de
sentimentos pelos quais Clarice devia passar, apesar de ela deixar explícito
que as palavras são insuficientes para eles.
Pensamos
encerrar-se aqui esta análise tanto de conceitos de Carl Rogers como de alguns
trechos de Clarice, apesar de sabermos que algumas citações de Clarice podem
ter ficado de fora, assim como deixamos de abordar os conceitos: empatia,
congruência e consideração positiva condicional, entre outros.
Trata-se,
contudo, de uma escolha, pois tínhamos como foco deste texto o processo pelo
qual passa a “Pessoa em pleno funcionamento de Rogers” e aspectos
enriquecedores de descrição deste processo no livro de Clarice Lispector,
ficando estes conceitos de fora por conta desta escolha.
Espero
que não fique entendido que Clarisse era esta “Pessoa em pleno Funcionamento”,
até mesmo porque Rogers (o criador da ACP) pensava-a hipotética. E penso
realmente sê-lo, pois Clarice mesma, durante a obra aqui estudada, pede licença
em alguns momentos, não podendo ser o que escreve o tempo todo.
Nunca
se pode esquecer, também, de que Clarisse era escritora, enquanto Rogers, um
cientista; contudo, existe uma grande interseção entre ambos, pois lidam com a
mesma ferramenta: a metáfora; Clarice, através da Arte; Rogers, através da
Psicologia, mas ambos a partir da vida.
Não
se esgotam, também, as possibilidades de interpretação das obras de ambos os
autores (um psicólogo e outra, escritora), sendo bem-vindas as muitas e muitas
que, pela riqueza de suas obras virão. Esperamos ter contribuído para o
enriquecimento do real significado que têm os conceitos da ACP, não deixando,
portanto que seu ensino e aprendizado se tornem um mero treino de resposta ou
algo semelhante, quando conceitos são memorizados sem que se lembre da riqueza
de experiência e vivência que eles têm. Esta preocupação, como foi colocado no
começo de nosso texto, já existia em Rogers em 1951; gostaria, portanto, de
encerrar este pequeno artigo com uma extensa citação do pensamento de Carl
Rogers acerca deste assunto, para que, inclusive, se justifique a produção
deste texto:
“[...]
De boa vontade, eu eliminaria todas as palavras deste original, se pudesse, de
alguma forma, apontar com eficácia a experiência que é a terapia. A terapia é
um processo, uma coisa em si, uma experiência, uma relação, uma dinâmica. Não é
o que este livro diz a seu respeito, não mais do que uma flor é a descrição de
um botânico ou o êxtase do poeta diante dela. Se este livro servir como um
grande indicador apontando para uma experiência que está aberta aos nossos
sentidos da audição e da visão e a nossa capacidade de experiência emocional, e
se despertar o interesse de alguns e estimulá-los a explorar a coisa-em-si, ele
terá cumprido seu propósito. Se, por outro lado, este livro for se juntar à
massa já avassaladora de palavras escritas sobre palavras, se incutir nos
leitores a idéia de que a pagina impressa é tudo, então terá fracassado
lamentavelmente. E, se sofrer a degradação definitiva de tornar-se conhecimento
de sala de aula- no qual as palavras mortas de um autor são dissecadas e
despejadas na mente de estudantes passivos, de tal maneira que indivíduos vivos
carreguem consigo as partes mortas e dissecadas do que já foram pensamentos e
experiências vivas, sem ao menos a consciência de que algum dia já foram vivas-
melhor seria que este livro jamais houvesse sido escrito [...]” (ROGERS, 1992,
p.7)
Bibliografia
LISPECTOR, Clarice. Água Viva. Rio de Janeiro, Rocco, 1973.
ROGERS, C.R. Objetivo: A pessoa em pleno funcionamento. In: ROGERS,C.R. Liberdade para Aprender.Belo Horizonte, Interlivros, 1978.p.261-277.
ROGERS,C.R. Prefácio. In:
Terapia Centrada
no Cliente. São
Paulo, Martins Fontes, 1992.
[1] Mestre em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará (Brasil) e Professor da Faculdade de Psicologia da Universidade Federal do Pará (Brasil)
* Em itálico no original
** Em itálico no original
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