A Relação de Ajuda e a Acção Social:
Uma Abordagem Rogeriana

 

Por Maria da Graça Rafael

mgrafael@ualg.pt

 

 

AGRADECIMENTOS

 

Gostaria de expressar o meu sincero agradecimento a todos os que mediante o seu empenho e colaboração permitiram que a realização do presente trabalho fosse possível.

À minha orientadora, Mestre Odete Nunes, pelo interesse, disponibilidade e incentivo pessoal que sempre me dispensou, ao longo das diferentes fases de elaboração deste trabalho.

Ao Professor Dr. João Hipólito, pelo acolhimento e encorajamento que dispensou a este trabalho, bem como pelas valiosos esclarecimentos e sugestões, que concedeu.

À Drª Ana Sofia Josué, pela sua ajuda e indispensável aconselhamento ao nível da metodologia estatística a adoptar para a realização deste trabalho de Pós-Graduação.

Ao Sr. Administrador Dr Amadeu Cardoso e à Drª Teresa Alte da Veiga dos Serviços de Acção Social da Universidade do Algarve, pelas facilidades concedidas no processo de recolha da amostra assim como pelo apoio e incentivo pessoal que sempre me ofereceram ao longo desta Pós-Graduação. Agradeço ainda às minhas colegas Drª Cristina e Drª Teresa, pela indispensável colaboração e empenho que dedicaram ao processo de recolha da amostra em estudo. Assim, dirijo uma palavra de sincero agradecimento às pessoas, dos Serviços de Acção Social, pela valiosa ajuda que me prestaram.

Quero, naturalmente agradecer a todos os alunos e professores que ao aceitarem participar neste estudo o tornaram possível. Aos alunos agradeço a disponibilidade demonstrada em responder ao Questionário. Aos professores agradeço terem autorizado a aplicação do Questionário durante a aula – sem a sua disponibilidade este projecto não teria sido possível realizar.

Devo também lembrar os meus familiares e amigos que me ouviram e me apoiaram nesta tarefa.

Uma palavra de especial agradecimento ao Tito, meu marido, pela revisão deste trabalho, pelas sugestões e por toda a sua colaboração e apoio incansáveis, que desde o primeiro momento e em todas as fases da realização deste trabalho sempre me deu, com muito amor.

 

 

 

 

Ao Tito,

 

Ao nosso bebé que vai nascer....

 

 

 

 

RESUMO

 

O presente trabalho é fruto de uma reflexão sobre a "Relação de Ajuda e a Acção Social " num contexto universitário, tendo como pano de fundo a Abordagem Centrada na Pessoa de Carl Rogers e sua obra.

Este trabalho teve como objectivo percepcionar ao nível da auto-estima e das estratégias de coping, a existência de diferenças entre os estudantes da Universidade do Algarve, que recorrem aos Serviços de Acção Social para a obtenção de benefícios sociais e os que não recorrem a estes serviços de apoio. Pretendeu-se igualmente percepcionar a existência de diferenças a estes níveis, entre os alunos que são forçados a abandonar o seu meio sócio-familiar de origem, para irem estudar para a Universidade, comparando-os com os que se mantém inseridos no seu sistema familiar e social. Neste sentido, neste trabalho de investigação, procuramos analisar nestes jovens universitários, com se auto-avaliam a nível da imagem que têm de si em comparação com a imagem ideal de si, tirando inferências sobre a auto-estima e as estratégias que utilizam perante as situações de stress com que se defrontam.

Para a obtenção dos dados e em função dos objectivos formulados, utilizou-se um Questionário de auto-preenchimento constituído por: Dados Demográficos e Académicos; uma Escala de Estima de Si de Rogers e uma Escala de Estratégias de Coping Toulousiana.

A análise dos resultados permitiu-nos encontrar algumas diferenças entre os grupos de estudantes em análise, nomeadamente ao nível da discrepância entre a imagem que têm de si e a imagem que gostariam de ter, o que nos dá um índice da sua auto-estima e ao nível das estratégias de coping utilizadas, quando confrontados com uma situação difícil ou de stress. Para além disso, verifica-se que os estudantes que apresentam um maior índice de auto-estima, utilizam mais estratégias de coping positivas e de carácter adaptativo. Esta relação é claramente evidenciada nos estudantes que se encontram deslocados do seu ambiente sócio-familiar, os quais com a entrada na universidade, sofrem todo um processo de autonomização e de desenvolvimento pessoal o qual se reflecte quer na forma como se concretizam as estratégias de coping adoptadas, quer na influência que o coping tem, no índice de auto-estima.

 

 

Índice:

 

INTRODUÇÃO *

I. A Acção Social no contexto Universitário *

1.1. Os Serviços de Acção Social da Universidade do Algarve *

1.1.1. Definição, Estrutura e Funcionamento *

1.2. A Acção Social *

A) O Atendimento e Aconselhamento aos Estudantes *

B) Problemas apresentados pelos Estudantes *

C) Caracterização da População que Recorre aos Serviços de Acção Social *

II. O PROCESSO DE PERSONALIZAÇÃO *

2.1. Perspectiva de Carl Rogers *

2.1.1 A Concepção Humanista da Personalidade na Teoria de Carl Rogers *

A) Conceito de Organismo *

B) Campo Experiencial *

C) Campo Fenomenológico / Campo Perceptivo *

D) Conceito de Self *

E) A Auto-Estima *

2.2. O Processo de Desenvolvimento da Personalidade *

2.3. Abordagem Teórica do Coping *

2.3.1. O Conceito de Coping *

2.3.2. As Estratégias de Coping *

2.3.3. Perspectiva Toulousiana do Coping *

2.3.4. A Auto-Estima e as Estratégias de Coping *

III. A Relação de Ajuda: Uma Abordagem Rogeriana *

3.1. Abordagem Centrada na Pessoa *

3.2. As Atitudes Relacionais: *

3.3. Condições para a Mudança Construtiva da Personalidade *

3.4. A Reformulação na Abordagem Centrada na Pessoa *

3.4.1. A Reformulação e as Atitudes num contexto de Relação de Ajuda *

3.4.2. A Reformulação / Resposta Reflexo *

3.5. A Relação de Ajuda na prática da Acção Social *

IV. DEFINIÇÃO DO PROBLEMA E PERSPECTIVA DA INVESTIGAÇÃO *

4.1. Definição do problema *

4.1.1. Formulação do Problema *

4.2. Hipóteses em Estudo *

4.3. Definição das Variáveis *

4.3.1. Variáveis Independentes *

4.3.2. Variáveis Dependentes *

V. METODOLOGIA *

5.1. Definição da População *

5.2. Definição da Amostra *

5.2.1 Caracterização da Amostra Estudada *

A) Candidatos vs. Não Candidatos a Benefícios Sociais *

B) Deslocados vs. Não Deslocados *

5.3. Apresentação dos Instrumentos *

5.3.1. Questionário de Dados Demográficos e Académicos *

5.3.2. Escala de Estima de Si – EES Rogers *

5.3.3. Escala de Estratégias de Coping – ETC Toulouse *

A) Campos de Coping *

B) Estratégias de Coping *

C) Coping Positivo e Coping Negativo *

5.4. Descrição do Procedimento *

VI. RESULTADOS E ANÁLISE *

6.1. Leitura comparativa dos Grupos A e B *

6.1.1. ESCALA I (Escala de Estima de Si – Rogers) *

6.1.2. ESCALA II ( Escala Toulousiana de Coping) *

Campos de Coping *

Estratégias de Coping *

Totais de Coping *

6.2. Leitura comparativa dos Sub-Grupos A1 e A2 *

6.2.1. ESCALA I (Escala de Estima de Si - Rogers) *

6.2.2.ESCALA II (Escala Toulousiana de Coping) *

Campos de Coping *

Estratégias de Coping *

Totais de Coping *

6.3. Análise comparativa da ESCALA I e da ESCALA II *

VII. DISCUSSÃO E CONCLUSÃO *

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS *

ANEXOS *

 

 

 

INTRODUÇÃO

 

O trabalho aqui apresentado tem como tema "A Relação de Ajuda na Acção Social: Uma Abordagem Rogeriana" e reflecte a investigação e pesquisa desenvolvida até à presente data, no âmbito da Abordagem Centrada na Pessoa de Carl Rogers e sua obra, bem como uma reflexão ao nível da prática profissional, no âmbito da Acção Social.

Motivados pelo interesse em obter um melhor conhecimento acerca dos estudantes da Universidade do Algarve, sob uma perspectiva Psicossocial e conscientes da importância que deve ser atribuída à procura de respostas para as diversas dificuldades e necessidades que os estudantes universitários apresentam, nas suas diversas dimensões – económica; psicológica, social e cultural – procedemos à elaboração deste trabalho integrado na Pós-Graduação em Relação de Ajuda, em que se procura estudar sob o ponto de vista da Auto-Estima e das Estratégias de Coping, dois grupos de estudantes que frequentam a Universidade do Algarve. Um grupo recorre aos Serviços de Acção Social, para solicitar benefícios sociais (Bolsa de Estudo e Alojamento), enquanto que o outro grupo não recorre a estes serviços. Na investigação em curso, pretendemos igualmente comparar os estudantes que são forçados a abandonar o seu meio familiar e social em que estão inseridos, para virem estudar para a Universidade, com os que se mantém integrados no seu sistema familiar e social, procurando compreender qual o impacto que, a saída de casa, para frequentar o ensino superior tem para estes estudantes, a nível da sua auto-estima e a nível das suas estratégias de resolução dos problemas com que se defrontam.

A escolha do tema deste trabalho deve-se ainda ao facto de a autora, exercer funções nos Serviços de Acção Social, procurando na intervenção desenvolvida reflectir sobre uma preocupação profissional e pessoal, que é relativa ao estabelecimento de uma Relação de Ajuda com os estudantes, na prática da Acção Social.

Assim, à luz do modelo de Abordagem Centrada na Pessoa, desenvolvido por Rogers pretende-se, com este estudo percepcionar e clarificar como se poderá realizar essa "Relação de Ajuda" na prática da Acção Social, perante os problemas e necessidades vivenciados pelos estudantes.

No presente estudo procurou-se compreender como se caracterizam do ponto de vista psicossocial, os estudantes universitários que recorrem aos Serviços de Acção Social, em comparação com os estudantes que não recorrem, tendo por base dois instrumentos de análise: A Escala de Estima de Si - Rogers e a Escala Toulousiana de Coping, na medida em pensamos que o comportamento, e a gestão das dificuldades ao nível psicossocial, dos jovens estudantes universitários, resultará do nível da sua auto estima, e das estratégias utilizadas por si perante situações difíceis.

Nesta perspectiva, no decorrer da formação, da pós-graduação em Relação de Ajuda, consideramos pertinente realizar um estudo, que nos permitisse percepcionar quais as dificuldades ao nível psicossocial sentidas pelos estudantes que recorrem aos Serviços de Acção Social, para além das dificuldades económicas, motivo principal pelo qual recorrem a estes serviços. Esta foi uma das razões que nos levou a realizar o presente trabalho. A outra razão foi o desejo de testar um instrumento utilizado por Carl Rogers, na sociedade americana e que não tinha ainda sido utilizado na sociedade portuguesa.

Assim, situando-nos numa Abordagem Centrada na Pessoa, procuramos a partir das concepções de Rogers e numa perspectiva Humanista, compreender o processo de desenvolvimento do jovem, num contexto universitário, tendo em atenção a sua relação com os Serviços de Acção Social da universidade assim como a sua situação de deslocado ou não deslocado do seu meio familiar e social de origem.

O presente trabalho encontra-se estruturado, fundamentalmente em sete capítulos. No primeiro capítulo, começamos por proceder ao enquadramento institucional dos Serviços de Acção Social da Universidade do Algarve e dos diferentes serviços de apoio aos estudantes, a ele associados. Seguidamente apresentamos uma caracterização familiar, económica e social do estudante, que recorre aos Serviços de Acção Social. Neste capítulo, é ainda desenvolvido e explicitado quais os problemas e dificuldades, apresentados pelos estudantes, no Atendimento/Aconselhamento realizado pela equipa de Serviço Social, nos Serviços de Acção Social.

No segundo capítulo, desenvolve-se a perspectiva de Carl Rogers sobre o processo de Personalização, segundo uma concepção humanista e incluímos os conceitos fundamentais da sua teoria, assim como o conceito de Auto-Estima e de Coping.

No terceiro capítulo, apresenta-se uma reflexão sobre a "Relação de Ajuda", segundo o modelo de Abordagem Centrada na Pessoa, procurando explicitar os aspectos que definem esta abordagem.

No quarto capítulo, começamos por fazer uma breve reflexão sobre a entrada no ensino superior e o processo de autonomia do jovem. Seguidamente, apresentamos o problema e a perspectiva de investigação, assim como as hipóteses e variáveis em estudo no nosso trabalho.

No quinto capítulo, apresenta-se a metodologia utilizada e procede-se à caracterização da amostra estudada. Depois surge a apresentação dos instrumentos usados neste trabalho, sendo por último exposto o procedimento levado a cabo neste estudo.

O capítulo seguinte é dedicado à apresentação e respectiva análise dos resultados obtidos, para os Grupos em estudo, referentes à Escala de Estima de Si, de Rogers e à Escala Toulousiana de Coping.

Finalmente no sétimo capítulo, com base na discussão dos resultados, apresentamos as conclusões do estudo.

 

 

I. A Acção Social no contexto Universitário

 

Introdução

 

Para uma melhor compreensão da formulação da nossa hipótese e da organização da metodologia adoptada, convém referir determinadas características que são específicas, da Acção Social, num contexto universitário, donde foi retirada a amostra para a elaboração do nosso estudo.

Neste capítulo, iremos contextualizar o espaço institucional, onde se desenvolveu o presente trabalho de investigação – Serviços de Acção Social da Universidade do Algarve, bem como reflectir sobre o atendimento e aconselhamento aos alunos. Apresentaremos, ainda uma caracterização da população estudada, e sua relação com os Serviços de Acção Social, da Universidade do Algarve.

 

 

1.1. Os Serviços de Acção Social da Universidade do Algarve

 

A Universidade do Algarve foi criada em 1979 (Lei nº. 11/79, de 28 de Março) tendo o seu primeiro Reitor nomeado em 2 de Junho de 1982. A Universidade estrutura-se em Unidades Orgânicas, para efeitos de ensino e de investigação científica, e em Serviços.

As Unidades Orgânicas são designadas por Unidades, no caso do Ensino Universitário e Escolas Superiores, no caso do Ensino Politécnico. Os Serviços são definidos como organizações permanentes que têm por principal objectivo apoiar a Universidade, do ponto de vista técnico e administrativo.

São Serviços da Universidade: Serviços Administrativos; Serviços Académicos; Serviços Técnicos; Serviços de Documentação; Serviços de Informática; Serviços Gráficos; Assessoria Jurídica; Assessoria de Planeamento; Gabinete de Relações Exteriores e Serviços de Acção Social.

Foi no contexto dos Serviços de Acção Social, da universidade do Algarve, e no âmbito das suas competências operacionais, que se desenvolveu o presente trabalho de investigação, pelo que iremos apresentar a sua definição, objectivos, competências assim como a sua estrutura organizativa. Parece-nos igualmente importante distinguir as competências técnicas no âmbito dos objectivos da Acção Social e o contexto de Relação de Ajuda.

 

 

1.1.1. Definição, Estrutura e Funcionamento

Os Serviços de Acção Social são um organismo de apoio aos estudantes que frequentam a Universidade do Algarve, que tem a finalidade de promover a política de Acção Social Escolar no âmbito do Ensino Superior, tendo como objectivo a concessão de auxílios económicos, bem como a prestação de outros serviços de apoio indirectos.

Os Serviços de Acção Social da Universidade do Algarve, regulamentados pelo Decreto-Lei nº 129/93, de 22 de Abril, "são uma unidade orgânica da Universidade do Algarve, dotada de autonomia administrativa e financeira" (Artº 1º, Lei 129/93). Os objectivos fundamentais dos Serviços de Acção Social são: "a execução das políticas de acção social, através da prestação de apoio, benefícios e serviços nela compreendidos de modo a proporcionar aos estudantes melhores condições de estudo"(Artº 2º, Lei 129/93).

Assim, compete aos Serviços de Acção social, no âmbito das suas atribuições (Artº 2º, Lei 129/93):

 

 

 

 

 

 

 

 

bullet"conceder bolsas de estudo;
bulletconceder empréstimos;
bulletpromover o acesso à alimentação em refeitórios e bares;
bulletpromover o acesso ao alojamento ;
bulletpromover o funcionamento e manutenção dos serviços de informação, reprografia , de apoio bibliográfico e de material escolar;
bulletpromover o acesso a serviços de saúde;
bulletapoiar as actividades desportivas e culturais;
bulletdesenvolver outras actividades que, pela sua natureza, se enquadrem nos fins gerais de acção social escolar".

 

Os Serviços de Acção Social exercem e desenvolvem as suas competências através do Gabinete Técnico, Serviço de Apoio aos Estudantes e pela Direcção de Serviços Administrativos, Financeiros e Pessoal, ( Artº 10º, 129/93) sendo o Serviço de Apoio aos Estudantes, aquele em que incide a área de intervenção deste estudo.

O serviço de apoio ao estudante funciona na dependência directa do administrador e exerce as suas funções nos sectores de bolsas e apoios financeiros, alojamento, alimentação, informação cultura e desporto e serviços médicos (Artº 12º, 129/93). Interessa aqui centralizarmo-nos nos sectores de bolsas e apoios financeiros e ainda no alojamento universitário dado que é com os estudantes que solicitam o apoio a estes níveis que se situa o grupo de estudantes em estudo. Assim, parece-nos importante referir as competências e os tipos de apoio que podem os estudantes obter, junto dos Serviços de Acção Social, ao nível destes sectores.

No que se refere às bolsas e apoios financeiros (Artº 13, Lei 129/93) compete ao Serviço de apoio aos estudantes dos Serviços de Acção Social:

 

 

 

 

bullet"Propor superiormente a concessão de bolsas de estudo, subsídios e outros benefícios pecuniários a estudantes matriculados na Universidade do Algarve de acordo com os regulamentos em vigor e estudar e organizar os respectivos processos individuais;"
bullet"Estudar e propor superiormente os regulamentos para atribuição dos diversos tipos de auxílio económico;"
bullet"Propor a realização de inquéritos relativos ás condições sócio-económicas dos estudantes abrangidos pelos Serviços de Acção Social da Universidade do Algarve;"
bullet"Estudar e propor superiormente a adopção de novos esquemas e tipos de auxílio a conceder pelos Serviços de Acção Social"

 

Relativamente ao Alojamento Universitário compete-lhe entre outros aspectos: (Artº 14º, Lei nº 129/93)

 

 

bulletestudar formas de apoio a nível do alojamento de estudantes,
bulletorganizar e estudar os processos de candidatura às residências universitário e assegurar o funcionamento das mesmas.

 

No âmbito do Alojamento Universitário os Serviços de Acção Social dispõem de doze Residências Universitárias Femininas e Masculinas.

 

 

1.2. A Acção Social

A) O Atendimento e Aconselhamento aos Estudantes

 

Conforme foi já referido compete aos Serviços de Acção Social, promover a política de Acção Social Escolar, proporcionando aos estudantes, melhores condições de estudo, através da prestação de serviços de apoio e benefícios sociais, bem como promover uma igualdade de oportunidades no acesso e frequência do ensino universitário.

Ao desenvolver-se um ensino universal, destinado a uma grande variedade de indivíduos, e grupos sociais, assistimos a uma massificação do mesmo ensino. Com esta massificação e democratização do acesso ao ensino, a população estudantil que integra o ensino superior, é composta por estudantes com características muito diversificadas, ao nível da idade, sexo, região geográfica de origem, classe social ou situação económica da família, Assim, para que exista uma efectiva igualdade de oportunidades, perante uma população tão plural, torna-se necessário estruturar recursos e formas de apoio, que cumpram esse objectivo.

Assim, é objectivo da Acção Social promover o desenvolvimento pessoal de todos os alunos de acordo com as suas capacidades e limitações pessoais, com vista à sua integração psicossocial, bem como o acesso aos diferentes benefícios sociais que permitam aos estudantes com carências de ordem económica, ter uma igualdade de acesso e sucesso escolar.

Neste sentido, os técnicos de Serviço Social, no desenvolvimento da Acção Social procuram dar atenção, a duas dimensões : Processual e Social.

A vertente processual, é indispensável e necessária, para a atribuição de benefícios sociais - bolsa de estudo e alojamento. O processo de atribuição destes benefícios inicia-se com a candidatura processual e posterior análise por parte dos técnicos.

A vertente social deve ser entendida em consonância com a vertente processual, na medida em que a análise sócio-económica das situações familiares, têm subjacente uma dimensão e conceitos psicossociais, fundamentais para essa avaliação.

Os Assistentes Sociais, desenvolvem no âmbito da Acção Social, todo um trabalho de acompanhamento e aconselhamento individual aos estudantes, que carecem de uma maior atenção, privilegiando-se o contacto com os alunos e famílias que apresentam maiores dificuldades a nível quer económico quer psicossocial. Mais precisamente, queremos dizer que a Acção Social, exige do Assistente Social o estabelecimento de uma "Relação de Ajuda".

Esta relação, inicia-se com a realização de uma entrevista com o técnico de Serviço Social, no sentido de uma clarificação e reflexão sobre a situação económica, familiar e social do estudante. A entrevista, é exigida na primeira candidatura aos Serviços de Acção social, e repete-se se o aluno sentir essa necessidade, solicitando em outros momentos ao longo da sua formação universitária, um atendimento e aconselhamento, para pedir esclarecimentos, expor quaisquer dificuldades, e problemas de ordem social, económica, pessoal, familiar, ou psicológica.

Neste sentido, poder-se-á afirmar que, para além da dimensão de apoio económico e análise processual dos estudantes proveniente de meios sócio-familiares mais desfavorecidos, os Técnicos de Serviço Social, procuram dar resposta, a situações de Ajuda, solicitadas pelos alunos, através de uma escuta, compreensão e aceitação, das suas preocupações, dificuldades ou problemas.

Segundo Graça Dias (1994/95), é nestes momentos de relação, entre o técnico e o estudante que se cria um clima de confiança, de compreensão empática e comunicação dessa compreensão (Dias,1994/95: 75).

O Técnico de Serviço Social, no seu exercício na área da Acção Social Escolar, procura desenvolver formas de apoio psicossocial e de relação de ajuda com os estudantes. Esta relação, constitui a forma de trabalho mais adequada com estudantes que sentem problemas de adaptação pessoal e emocional, sendo necessário cada vez mais encontrar formas adequados para compreender o aluno para o ajudar a enfrentar os seus problemas.

Assim, o Assistente Social nos Serviços de Acção Social, não se limita à "assistência social", isto é, está preparado não só para proporcionar aos seus "utentes", não apenas os elementos que se consideravam tradicionalmente como fazendo parte da assistência – ajuda financeira, ajuda a encontrar trabalho, encaminhamento ao nível médico, e outros aspectos, mas ainda e talvez o mais importante de tudo, ajuda psicológica.(Rogers, 1979:19).

Apesar da expressão "ajuda psicológica", ser muito pouco usada nos meios da assistência social, referimo-nos a ela para realçar o facto de que o assistente social ao "ouvir" o outro se situa num quadro de relação de ajuda permitindo ao aluno libertar os seus sentimentos, encontrar novas soluções para os seus problemas, e actualizar as suas potencialidades.

Carl Rogers, no seu livro "Psicoterapia e Consulta Psicológica" a propósito do trabalho de assistente social, refere ainda que, "é o único trabalho que fornece aos adultos mal adaptados uma tal e tão grande ajuda terapêutica", seja a mesma realizada com estudantes com problemas económicos e ou psicossociais, ou outras situações, sempre que a relação que estabelecemos com o outro é uma Relação de Ajuda. (Rogers,1979: 19).

 

 

B) Problemas apresentados pelos Estudantes

 

Em colaboração com a equipa de técnicos a exercer funções nos S.A.S. da Universidade do Algarve, e tendo por base a sua experiência de atendimento, procedeu-se a um levantamento dos problemas e necessidades que são colocados pelos alunos, quando recorrem aos Técnicos dos Serviços de Acção Social.

Após uma reflexão e sistematização do levantamento realizado, definiram-se categorias tendo por base a categorização utilizada por Graça Figueiredo Dias (1994/95), no seu estudo com estudantes universitários.

Neste sentido, com o objectivo de percepcionar e delimitar melhor as razões de procura do atendimento/aconselhamento por parte dos estudantes que recorrem a estes serviços, elaborou-se uma categorização das razões pelas quais os estudantes procuram os técnicos de Serviço Social, que no mesmo estudo de Dias (1994/95), são definidas do seguinte modo:

     

  1. dificuldades académicas e vocacionais - nesta categoria incluem-se as dificuldades nos estudos, ou dúvidas sobre o curso em que se está, ausência de aproveitamento escolar ou stress com o ritmo da vida académica;
  2.  

  3. dificuldades consigo próprio - nesta categoria incluem-se as situações em que há confusão de sentimentos ou insegurança, baixa auto-estima, ou dificuldades de compreensão de si próprio.
  4.  

  5. dificuldades interpessoais - esta categoria refere-se a situações em que há dificuldades de relacionamento com colegas, com os familiares ou nas relações amorosas;
  6.  

  7. mal-estar difuso - refere-se a problemas que são colocados pelos alunos em que há uma sensação geral de mau-estar, ou confusão ou angústia mas em que há dificuldade em explicitar os problemas;
  8.  

  9. acontecimentos de vida - esta categoria refere-se às situações em que as dificuldades apresentadas são pontuais e concretas como o luto por morte ou doença de familiares, doença dos estudantes de ordem física ou psíquica ou quebra de uma relação;
  10.  

  11. dificuldades de adaptação psicossocial - esta categoria incide sobre as dificuldades de integração e adaptação às novas situações ao nível pedagógico, académico, residencial e social, exigidos ao estudante universitário, assim como no processo de separação/individualização, em fase final da adolescência e inicio da idade adulta em relação ao seu meio sócio-familiar de origem;
  12.  

  13. dificuldades económicas - nesta categoria encontramos as situações cujo problema colocado é a insuficiência de meios económicos por parte dos agregados familiares; estudantes provenientes de meio institucional sem suporte familiar; desajustamento familiar social e económico por desemprego dos progenitores, alcoolismo, separação dos pais, etc.

 

Tendo por base as entrevistas realizadas pelos alunos, com os técnicos de Serviço Social que exercem funções na equipa de trabalho, nos Serviços de Acção Social da Universidade do Algarve, conclui-se que no primeiro contacto que é estabelecido com os Assistentes Sociais a maioria dos estudantes referem como razão para a procura dos mesmos serviços, dificuldades de ordem económica. Nos contactos posteriores, os registos das entrevistas solicitadas pelos estudantes, mostram que estes apresentam razões que se enquadram em todas as categorias apresentadas, desde as dificuldades económicas; acontecimentos de vida; dificuldades de adaptação psicossocial; dificuldades consigo próprio e dificuldades académicas e vocacionais.

Da experiência adquirida e pelas entrevistas realizadas com os estudantes que recorrem aos Serviços de Acção Social, percepcionamos problemas que são normais encontrar no jovem adulto, tais como: "a ambivalência entre a protecção familiar e aquisição de uma autonomia própria; a dúvida sobre as capacidades ao passar da escola secundária para um nível de muito maior exigência na universidade; a definição de uma carreira profissional; a insegurança como homem ou mulher nas suas relações amorosas; o receio de não corresponder às expectativas parentais; a angústia de não se saber quem se é e que orientação dar à vida como adulto" (Dias et al, 1991: 71).

Pelo exposto anteriormente, julgamos ser pertinente fazer incidir este trabalho de investigação sobre os alunos que recorrem aos Serviços de Acção Social, e entre estes nos estudantes que são forçados a abandonar o sistema familiar e social em que estão inseridos, para virem estudar para Universidade do Algarve.

Ao nível da população alvo, esta será constituída por estudantes da Universidade do Algarve, candidatos a benefícios sociais que recorrem aos Serviços de Acção Social e que se encontram deslocados do seu meio familiar e social de origem. Estes últimos parece-nos importante igualmente analisar, conhecendo-se a tensão que existe entre a oferta e procura de ensino superior, que obriga à deslocação de uma percentagem importante de estudantes para regiões distantes da sua zona de residência.

 

 

C) Caracterização da População que Recorre aos Serviços de Acção Social

 

Nesta alínea, vamos dar uma atenção particular a algumas características da população escolar da Universidade do Algarve, tendo em conta a sua relação com os Serviços de Acção Social. Deste ponto de vista, serão considerados: os estudantes candidatos a benefícios sociais e que por isso recorrem aos serviços de acção social e dentro destes os estudantes deslocados, da sua região de residência habitual. Iremos começar por definir a situação de estudante deslocado e seguidamente iremos caracterizar os alunos que recorrem aos SAS tendo em consideração a sua situação de deslocado ou não deslocado.

 

* O Estudante Deslocado

 

Com a expressão "estudante deslocado" referimo-nos a todos os estudantes cuja entrada no ensino superior, o obriga à sua deslocação para uma região diferente da sua região de residência habitual. A saída de casa, por parte destes jovens estudantes tem implícito um processo de separação/autonomia relativamente aos elementos do seu agregado familiar, aos seus amigos e pares bem como a sua reintegração/reinserção num "novo" contexto académico, social e cultural. Estes estudantes apresentam características particulares, ao nível social, económico e psicológico, que consideramos importantes contextualizar, dadas as diversas dificuldades psicossociais que vivenciam e as situações com que se defrontam, ao se afastarem, normalmente pela primeira vez, do seu meio sócio-familiar.

De acordo com Graça Dias et al (1991), estes jovens estão a vivenciar uma fase de transição para a idade adulta e sob o impacto de uma "mudança ambiental acompanhada de novas pressões sociais". Estas "pressões sociais" designadamente a nível das exigências académicas, psicossociais, económicas, culturais, a que o jovem está sujeito, podem fazer "vacilar" a imagem de si e a sua auto-estima o que leva a uma perda de auto-confiança, que por vezes é acompanhada de sentimentos de insegurança, inadaptação, depressão, etc. (Dias et al, 1991: 69).

A mudança ambiental, pela qual passam os estudantes que se encontram deslocados e a residir fora do seu ambiente sócio-familiar, é vivenciada, de forma diversificada, pressupondo de igual modo, modalidades de reacção, de gestão e de confronto com as situações igualmente diversificadas.

Tendo por base o atendimento e aconselhamento desenvolvido pela equipa de Serviço Social com estes estudantes que procuram os serviços de acção social, o mesmo revela-nos que é sobretudo para os alunos que se afastam pela primeira vez do seu meio sócio-familiar, que esta experiência é vivida, de forma mais "dolorosa". Esta experiência, trás consigo toda uma série de situações e dificuldades, as quais o jovem terá de enfrentar no sentido de melhor responder a este desafio. Estas situações surgem a diferentes níveis, e exigem uma resposta equilibrada às várias necessidades, quer ao nível da sua própria estruturação pessoal, disciplinar, económica e social (o alojamento, a alimentação, o dinheiro, os hábitos de estudo, o relacionamento interpessoal, a adaptação social, o sucesso académico, etc.)

Neste sentido, pensamos que os estudantes universitários que se encontram a estudar numa região diferente, daquela em que reside o seu agregado familiar, constitui um factor de extrema importância, na medida em que confere a esta população estudantil características particulares, ao nível sócio-económico e psicológico.

Segundo o Inquérito "O Perfil Sócio-Económico dos Estudantes do Ensino Superior – CEOS / CNASES", realizado no ano de 1997, por uma equipa do CEOS – Instituto de Investigações Sociológicas da Universidade nova de Lisboa, 42% de estudantes no ensino superior encontram-se na situação de deslocados da sua residência habitual. (1997: 155). O mesmo trabalho refere, relativamente à caracterização pessoal e considerando o sexo, a idade, a situação profissional e a dependência em relação ao agregado familiar de origem, que não existe relação entre o sexo e a situação de deslocado, no entanto ao nível da idade verifica-se que os deslocados não prolongam tanto a escolarização para além dos 25 anos, como os alunos não deslocados. Relativamente à dependência económica em relação aos seus pais, concluíram que a esmagadora maioria dos estudantes deslocados (89%), não exercem complementarmente uma actividade profissional. Este estudo revela ainda, o número de deslocados segundo as diversas regiões do país, em que os estudantes se encontram a estudar, tendo sido verificado que as instituições de ensino localizadas no Norte Interior e Centro Interior apresentam as percentagens mais elevadas de deslocados (78%), seguindo-se a instituições do Sul (63%), e do Centro (59%). As zonas mais urbanizadas do país situadas na faixa litoral, têm menor número de estudantes deslocados nas instituições de ensino (1997: 156, 157 e 158).

 

* O Estudante Candidato a Benefícios Sociais

 

No sentido de obtermos um melhor conhecimento dos alunos, e seus agregados familiares de origem, que compõem o grupo de estudantes que recorrem aos Serviços de Acção Social (SAS) da Universidade do Algarve, para a obtenção de benefícios sociais – Bolsa de Estudo e alojamento - procedemos à realização e apresentação de uma caracterização sócio-económica e familiar destes estudantes tendo em consideração a sua relação com a situação de estudante deslocado ou não deslocado.

Parece-nos importante, esta apresentação na medida em que na sua esmagadora maioria os alunos, encontram-se dependentes financeiramente dos seus pais ou outros familiares e do nível de rendimento dos mesmos. Por outro lado esta caracterização da população estudantil, poderá revelar-nos aspectos interessantes a nível sócio-cultural, económico e psicológico, acerca desta população.

Esta caracterização é fundamentada, numa parte da amostra da população estudantil, que compõe a população alvo do nosso estudo - Grupo de estudantes, que recorrem a benefícios sociais nos Serviços de Acção Social, no ano lectivo 1999/2000 e que optou no preenchimento do inquérito pelo não anonimato. Dos 151 alunos que constituem a parte da amostra de alunos candidatos a benefícios sociais, 36 optaram pelo anonimato e 115 pelo não anonimato. Destes 80 (70%) são alunos deslocados do agregado familiar de origem o que revela a maior "iniciativa" ou necessidade por parte destes alunos, para procurarem ajuda junto dos SAS.

Os dados para este estudo, foram retirados dos processos dos candidatos a benefícios sociais e serão expostos por forma a não comprometerem a confidencialidade dos mesmos.

A análise irá centrar-se nas seguintes variáveis:

 

 

 

 

 

 

bulletOcupação dos pais;
bulletHabilitações literárias dos pais;
bulletEstado civil dos pais
bulletNúmero de irmãos
bulletProblemas apresentados pelos candidatos a benefícios sociais para além doa económicos;
bulletHistorias de vida (factos marcantes que ocorreram na vida do candidato).

 

Ocupação profissional dos pais

Relativamente à ocupação profissional dos pais dos alunos, optamos por dividir em cinco categorias profissionais, que passamos a descrever na tabela 1.1.

 

Categorias

Profissões

1

Desconhecida

Situação não definida

2

Trabalhador (assalariado) da Agricultura, Industria e Comercio

Empregado ou auxiliar modesto de Empresas particulares / estado

Trabalhador Agrícola e Florestal;

Agricultores, Criadores de Animais e Pescadores

3

Membro de patente inferior das Forças Armadas, P.S.P. e G.N.R

Funcionário médio do Estado ou Empresa Particular

Pequeno Industrial ou Comerciante de Retalho

4

Professor do Ensino Básico e Secundário

Oficial das Forças Armadas ou Marinha Mercante

Proprietário Rural ou Urbano

5

Funcionário Superior do Estado

Industrial ou Comerciante Grossista

Director ou Funcionário Superior de Empresa

Profissão Liberal (Arquitecto, Médico, Advogado, Engenheiro,...)

6

Reformados ou Pensionistas

Desempregado ou com Rendimento Mínimo Garantido

 

Tabela 1.1:Profições dos país dos estudantes por categorias

 

Na figura 1.1a podemos ver que na sua maioria 42,6% dos pais dos alunos desempenham funções no categoria profissional 2, onde se inserem os trabalhadores assalariados do comércio e indústria, trabalhadores administrativos e de serviços, trabalhadores da agricultura e pesca, entre outros. Na figura 1.1b podemos ver que a ocupação do pai não é grandemente influenciada pelo factor "aluno deslocado".

 

Figura 1.1a: Distribuição percentual das categorias profissionais dos país dos estudantes

Figura 1.1b: Distribuição percentual das categorias profissionais dos país dos estudantes em função da variável estudante deslocado ou não deslocado

 

 

Em relação à ocupação da mãe podemos verificar na figura 1.2a que a maioria aproximadamente 40% está na categoria profissional 1, há no entanto que salientar a quantidade significativa, cerca de 34% que se encontra na categoria 2. Na figura 1.2b podemos observar que para os alunos deslocados a percentagem de mães na categoria I é inferior à percentagem de mães dos alunos não deslocados enquanto que na categoria 3 esta tendência inverte-se.

 

Figura 1.2a: Distribuição percentual das categorias profissionais das mães dos estudantes

Figura 1.2b: Distribuição percentual das categorias profissionais das mães dos estudantes em função da variável estudante deslocado ou não deslocado

Habilitações literárias dos pais

Nas figuras 1.3a e 1.4a podemos observar que aproximadamente 40% dos pais e 50% das mães dos alunos, só estudaram até a 4ª classe. È também de salientar, a elevada percentagem em que a escolaridade do pai é desconhecida, facto que julgamos está relacionado com o número de alunos cujos pais se encontram divorciados e ou separados, em que os descendentes ficam a viver só com a mãe, daí apresentarem apenas como progenitor na composição do agregado familiar a mãe. Este facto é sustentado por 82.4% (15% do total - figura 1.5a) dos alunos filhos de pais divorciados, não declararem a escolaridade do pai, porque este não está inserido no seu agregado familiar.

Na figura 1.3b, é evidente o facto de a maioria dos estudantes não deslocados (40%) declarar desconhecer a escolaridade do pai este facto leva-nos a pensar que se por um lado, como vimos anteriormente os alunos deslocados têm uma maior "apetência", e iniciativa para recorrer aos SAS, por outro os alunos não deslocados que recorrem aos Serviços de Acção Social são tendencialmente provenientes de agregados familiares desestruturados, em termos de núcleo familiar. Estes agregados são constituídos apenas por um dos progenitores fundamentalmente por motivos relacionados com a Morte de um dos pais, Abandono do Lar ou Divórcio. Esta questão poderá ser observada na variável Estado Civil, que será analisada a seguir.

 

Figura 1.3a: Distribuição percentual da escolaridade dos país dos estudantes

Figura 1.3b: Distribuição percentual da escolaridade dos país dos estudantes em função da variável estudante deslocado ou não deslocado

 

Figura 1.4a: Distribuição percentual da escolaridade das mães dos estudantes

Figura 1.4b: Distribuição percentual da escolaridade das mães dos estudantes em função da variável estudante deslocado ou não deslocado

 

 

Estado civil dos pais

Na figura 1.5a, podemos observar que aproximadamente, 75% dos pais dos alunos que recorrem aos Serviços e Acção Social, são casados ou vivem em união de facto, no entanto há que salientar que aproximadamente 18% estão divorciados ou separados e 7% são viúvos.

Na figura 1.5b podemos observar o seguinte: por um lado, a percentagem (cerca de 60%) de alunos não deslocados com pais casados ou em união de facto é menor do que para os deslocados (cerca de 80%), por outro lado, em todos as outras situações civis dos pais a percentagem de alunos não deslocados é sempre superior à de alunos deslocados; este facto parece reforçar a nossa conclusão anterior de que os alunos não deslocados que recorrem aos SAS são provenientes de ambientes familiares, cuja estrutura é composta só por um dos pais (mãe ou pai).

 

 

Figura 1.5a: Distribuição percentual do estado civil dos país dos estudantes

Figura 1.5b: Distribuição percentual do estado civil dos país dos estudantes em função da variável estudante deslocado ou não deslocado

 

 

Número de irmãos

Em relação ao número de irmãos, verificamos que na generalidade os agregados familiares são pouco numerosos, na sua maioria compostos por três ou quatro elementos, pois cerca de 45%, têm apenas um irmão e a percentagem de filhos únicos é quase de 20%.

O facto de um aluno ser ou não deslocado não parece influir grandemente no número de irmãos.

 

Figura 2.6a: Distribuição percentual do número de irmãos dos estudantes

Figura 2.6b: Distribuição percentual do número de irmãos dos estudantes em função da variável estudante deslocado ou não deslocado

 

 

 

Outros problemas apresentados pelos estudantes

No sentido de compreender melhor os motivos que levam os alunos a recorrer aos Serviços de Acção Social, realizou-se um levantamento sobre que outros problemas, para além das dificuldades económicas, é que os alunos apresentam. Verificou-se, que 33% só apresentam problemas económicos e que os outros apresentam diversos problemas que foram categorizados da seguinte forma: Saúde (sua ou de um familiar), Morte recente de alguém querido, Relacionamento familiar, Alcoolismo dos pais, Violência familiar, Aproveitamento escolar e problemas vocacionais (não se sentir vocacionado para o curso que frequenta), Adaptação / Integração no ambiente académico, Psicológicos e ou Psiquiátricos (do aluno).

Os resultados, apresentados na figura 1.7a, mostram que os problemas mais frequentemente declarados, com cerca de 26%, são problemas de saúde seus ou de um familiar. No entanto há que salientar, a partir da figura 1.7a, que 5% apresentam problemas de adaptação/integração e que 3,5% apresentam problemas do foro psicológico e psiquiátrico sendo de notar que todos eles são alunos deslocados, representando neste grupo (figura 1.7b) quase 15% dos casos. Parece-nos que alguns dos alunos deslocados com problemas desta índole procuram nos Serviços de Acção Social, o "espaço" onde possam encontrar o apoio, e a ajuda no sentido de ultrapassarem a falta do suporte familiar e de amigos.

 

Figura 1.7a: Distribuição percentual dos problemas apresentados

pelos estudantes, para além dos económicos

 

Figura 1.7b: Distribuição percentual dos problemas apresentados pelos estudantes, para além

dos económicos, em função da variável estudante deslocado ou não deslocado

 

 

Histórias de vida

Neste tópico foram considerados, os factos que ocorreram na vida dos alunos e que mais os marcaram tanto socialmente como psicologicamente e que por isso afectam, muitas vezes determinantemente na vida futura, pelo sentimento de abandono que muitas vezes provocam. Entre estes factos foram seleccionados aqueles que mais frequentemente são declarados pelos alunos durante as entrevistas: pais emigrantes ou eis-emigrantes, morte prematura de um dos progenitores, abandono do lar por um progenitor e o desajustamento familiar.

Na figura 1.8a, salientam-se os alunos cujos pais são emigrantes ou eis-emigrantes, com aproximadamente 20% dos casos. Também não podemos deixar de salientar o abandono do lar por um dos progenitores com aproximadamente 10% que para os alunos não deslocados ( figura 1.8b) se traduz numa percentagem de 20%.

 

 

Figura 1.8a: Distribuição percentual dos factos marcantes da vida dos estudantes

 

Figura 1.8b: Distribuição percentual dos factos marcantes da vida dos estudantes

em função da variável estudante deslocado ou não deslocado

 

 

 

II. O PROCESSO DE PERSONALIZAÇÃO

 

Introdução

 

De acordo com os objectivos que nos propomos estudar, neste trabalho de investigação, parece-nos fundamental abordar os processos que intervém no desenvolvimento do indivíduo, designadamente na formação e desenvolvimento do seu processo de personalização.

O conceito de personalização, pode ser entendido como um processo pelo qual o indivíduo se torna uma pessoa. Este processo, começa na infância e desenvolve-se progressivamente ao longo de toda a vida, de forma contínua e dinâmica, através de diferentes etapas com características próprias para além das diferenças individuais. (Nunes, 1991:10). Segundo Pierre Tap, a personalização é "o processo pelo qual o indivíduo desde a infância não só participa na construção da sua própria personalidade, como também ao longo da sua vida é capaz de colocar em questão o que faz de si próprio, graças às suas capacidades adquiridas de discriminação, de compreensão e de autonomia" . (Tap, citado por Nunes, 1991:10)

Na perspectiva de vários autores, designadamente P. Tap (1991), C. Caldeira (1979), J. Hipólito (1992) e O. Nunes (1997), consideram-se três variáveis, que contribuem para o processo de desenvolvimento da pessoa, são elas: as condições internas do indivíduo, a qualidade relacional que estabelece com os outros e as condições externas às quais ele deve fazer face.

As condições internas, consideram-se aquelas que garantem o funcionamento biológico e que são a "matriz de dada pessoa". Esta matriz é caracterizada pelos dados da hereditariedade e pela existência de uma série de acasos ocorridos no complexo processo de diferenciação celular, que interferem na estruturação do organismo durante o periodo intra-uterino. Estes dois aspectos, irão ser o início daquilo que constitui o indivíduo na sua particularidade e originalidade. (Nunes, 1997: 31).

A segunda variável em presença para o processo de desenvolvimento do indivíduo e da sua singularidade, à qual chamamos qualidade relacional na interacção humana, é essencial para que o indivíduo se desenvolva e actualize as suas potencialidades como pessoa. Para tal é necessário a existência de um Outro com quem o indivíduo vai interagir. Conforme afirma Caldeira, "É no contacto com o outro que o homem se torna um Eu, este não é, então verdadeiramente senão alimentado e transformado pela relação essencial a um Tu. É a sociedade e a relação com o outro que condicionam a consciência de si como pessoa"(Caldeira, 1979: 67, citado por Odete, 1997: 31). Eduardo Sá, sublinha que, ainda no período intra-uterino, antes do nascimento, o feto está provido de competências sensoriais inatas que lhe possibilitam uma interacção íntima com a mãe, através do corpo desta. Assim, e durante este periodo, vai-se desenvolvendo uma relação mútua entre a mãe e o bebé e "é neste periodo fetal que podemos encontrar a génese da ligação precoce mãe-filho" (Sá, 1996: 78). De acordo com Odete Nunes (1997), a qualidade da relação estabelecida, com as pessoas significativas para a criança, desde o nascimento, vai ser determinante para o desenvolvimento do seu todo como pessoa.

Por último, as condições externas, nomeadamente físicas, sociais e culturais, com as quais o indivíduo se confronta desde que nasce, constitui a terceira variável referida que contribui para o processo de desenvolvimento da pessoa. Vários estudos desenvolvidos mostraram que o processo de socialização, bem como o factor cultural do grupo onde o indivíduo está integrado, implícito nesse processo de socialização, tem uma importância determinante na estruturação da personalidade. Estudos de âmbito antropológico, revelam que os seres humanos apesar de dotados de um conjunto de potencialidades similares para a realização do mesmo tipo de operações, actualizam essas potencialidades de formas diferentes, para tal contribui o contexto sócio-cultural em que se encontram inseridos. Segundo o autor Camilleri (1985), é através do processo de socialização em que o indivíduo integra a cultura do grupo a que pertence, que ele estrutura a sua personalidade consoante os valores vigentes no mesmo grupo. Segundo o mesmo autor, a influência do factor cultural é determinante tanto no desenvolvimento e estruturação da personalidade como no desenvolvimento do "equipamento psíquico"(Nunes, 1997).

Apesar de existir uma certa concordância, entre os diversos autores, acerca da importância destas três variáveis, no desenvolvimento do indivíduo existem várias perspectivas teóricas, umas enfatizando mais a dimensão biológica, outras a sócio-cultural e outras a psicológica. Nomeadamente, em relação a esta última, existem perspectivas com uma com uma tónica mais explicativa outras mais compreensiva e que têm como objectivo de estudo o funcionamento da pessoa. No nosso estudo apresentaremos uma delas designada por Abordagem Centrada na Pessoa e cujo autor é Carl Rogers.

 

 

2.1. Perspectiva de Carl Rogers

 

Para compreender-mos a perspectiva de Rogers consideramos importante salientar alguns dos aspectos que identificam uma das correntes da Psicologia, designada por Psicologia Humanista e cujas bases filosóficas inspiraram o modelo teórico e terapêutico de Carl Rogers.

A Psicologia Humanista, é considerada como a "terceira força em Psicologia", nasce em oposição à Psicanálise e ao Behaviorismo, para quem o ser humano não era considerado numa perspectiva de totalidade (Gobbi e Missel: 1998.122). O movimento da psicologia humanista surge como reacção ao reducionismo académico e em defesa dos valores integrais do homem, como o incentivo à auto-realização e ao desenvolvimento do potencial humano.

Justo (1987), citado por Gobbi e Missel (1998: 123), aponta algumas características do movimento humanista, nomeadamente:

     

  1. Ênfase na totalidade do ser humano;
  2.  

  3. Visão positiva do ser humano, em termos de potencialidades, baseada em conceitos tais como a tendência à auto-realização e de liberdade;
  4.  

  5. Ênfase nos aspectos conscientes do ser humano;
  6.  

  7. Ênfase na subjectividade humana;
  8.  

  9. Ênfase nas características mais elevadas do homem, interessando-se por questões como criatividade, crescimento, afectividade, autonomia, etc.
  10.  

  11. Apresentação do conceito de Self .

 

A estas características, Bugental citado por Gobbi e Missel, (1998), acrescentam cinco postulados e orientações da Psicologia Humanista, que passamos a transcrever: "1- O homem como homem, é mais que a soma das partes; 2- O homem tem seu ser num contexto humano: a sua natureza expressa-se na relação com outros homens; 3- O homem é consciente; 4 – O homem tem a capacidade de escolha, 5- o homem é intencional." ( Gobbi e Missel 1998: 124). Para os mesmos autores a Psicologia Humanista valoriza a experiência vivenciada pela pessoa.

 

 

2.1.1 A Concepção Humanista da Personalidade na Teoria de Carl Rogers

A concepção humanista da personalidade, partilhada por Rogers, evidencia um conjunto de conceitos tais como: o conceito de organismo, de campo experiencial e campo fenomenológico, de Self e o conceito de Auto-Estima, os quais seguidamente iremos descrever por nos parecerem fundamentais, para uma melhor compreensão da forma como o autor perspectiva a pessoa e o seu desenvolvimento.

 

 

A) Conceito de Organismo

 

O termo "organismo" na sua acepção tradicional refere-se exclusivamente às funções e tecidos físicos. O conceito aqui apresentado insere-se num sentido mais amplo, abrangendo não só os aspectos físicos, mas igualmente os aspectos psíquicos, sociais e culturais. A pessoa é um todo, nas suas diversas dimensões bio-psico-socio-culturais e não redutível a partes ou funções. Assim, o "organismo", designa a totalidade do indivíduo, dizendo respeito à totalidade das experiências vividas pelo indivíduo, quer elas sejam de âmbito físico ou de âmbito psicológico e social, envolvendo sentimentos, pensamentos, emoções, etc.

L. Von Bertalanffy (citado por Bertrand, 1994 :26) fundador da Teoria Geral dos Sistemas define assim organismo: "o organismo é um todo maior que a soma das partes" e como tal não é suficiente estudar os fenómenos isoladamente, pois o processo que os une e organiza (aos fenómenos) é fundamental para a sua compreensão. Quando estudados isoladamente tornam-se diferentes de quando estudados no seu todo. Os fenómenos resultam assim, da interacção entre as partes que compôem o todo " porque a característica fundamental de uma forma viva é a sua organização, a análise das partes e dos processos isolados uns dos outros não pode dar-nos uma explicação completa do fenómeno da vida" (Bertalanffy, citado por Bertrand, 1994:29).

O conceito de organismo aqui apresentado insere-se também, no pensamento de outros autores, tais como Maslow (1970), Goldstein (1939), Angyal (1941) os quais partilhando desta mesma ideia de considerar a pessoa como um todo, deram o seu contributo para a construção da teoria organísmica segundo a qual a pessoa é vista "como uma totalidade indivisível, isto é, para compreendermos o seu funcionamento, não podemos isolar as partes do todo mas, entendê-la como uma globalidade interactiva e dinâmica" (Nunes, 1997: 40).

Odete Nunes (1997), sintetiza esta teoria organísmica em quatro pontos que passamos a citar:

1 - Um organismo é um sistema organizado com leis próprias as quais não são encontradas nas partes que o constituem e, consequentemente, cada elemento não pode ser desinserido do todo. A interacção entre o todo e as partes e a relação existente entre os elementos que constituem um dado sistema, conduz a um processo contínuo de auto-organização que possibilita a manutenção e complexificação deste.

2 – Privilegia a unidade, a integração, a consistência e a coerência como características fundamentais constitutivas de um organismo.

3 – Dá maior ênfase às potencialidades de actualização inerentes ao organismo do que à influência exercida pelos factores do meio exterior.

4 – Parte do pressuposto que todo o organismo é motivado por um impulso dominante.

 

Carl Rogers, que integrou este conceito no desenvolvimento da sua teoria, Terapia Centrada no Cliente, refere também que " o organismo reage a seu campo fenomenológico como um todo organizado e tem uma tendência de base: realizar, manter e realçar a experiência organísmica." (Rogers 1974: 470 e 471).

Nesta definição, está implícito um outro conceito o de tendência actualizante, quando Rogers se refere ao impulso que está presente em todos os organismos e que os direcciona no sentido da complexidade. Assim, segundo o autor "todo o organismo é movido por uma tendência inerente para desenvolver todas as suas potencialidades e para desenvolvê-las de maneira a favorecer sua conservação e seu enriquecimento" (Rogers & Kinget, 1977, I : 159). Rogers refere-se assim, à tendência do organismo para caminhar em direcção à autonomia, à maturidade e isto envolve uma auto-realização .

Hall & Lindzey (1984), ao referir-se a Kurt Goldstein, (1939), expressa a sua concepção do organismo humano como totalidade e a sua tendência à auto-realização. Define a auto-realização como "uma tendência criativa da natureza humana. É o principio humano pelo qual o organismo se desenvolve plenamente" (Hall & Lindzey, 1984: 34-35).

Desta influência, surge na psicologia humanista a ideia de que o ser humano é dotado de um potencial inerente que deve ser actualizado. Rogers partilha com Goldstein, a convicção da existência deste impulso no organismo para a sua auto-realização.

Segundo Rogers, no seu livro o "Poder Pessoal" (1979), a tendência actualizante manifesta-se através de comportamentos que visam manter e nutrir o organismo em direcção ao seu crescimento e desenvolvimento: " Pouco importa que o estímulo venha de dentro ou de fora, pouco importa que o ambiente seja favorável ou desfavorável. Em qualquer uma dessas condições, o comportamento de um organismo está voltado para a sua manutenção, seu crescimento, e sua reprodução. Essa é a própria natureza do processo a que chamamos vida" (Rogers, 1979: 241). Na sua perspectiva, a tendência actualizante delimita uma confiança no potencial criador humano, considerando que o homem é o seu próprio arquitecto. Esta designa assim, uma tendência direccional à realização das potencialidades construtivas do ser humano, o elemento motivador, a força vital (Gobbi e Missel, 1998: 144).

Odete Nunes, (1997) realça que, para Rogers, o conceito de organismo é a pessoa total, incluindo neste conceito todas as dimensões que a constituem e a distinguem de outros organismos vivos, referindo-se ao todo bio-psíco e sóciocultural. Assim, a pessoa no seu todo organísmico desenvolve-se a partir de diferentes vivências que gradualmente vão constituindo o que Rogers chama de campo experiencial.

 

 

B) Campo Experiencial

 

Rogers afirma no seu livro "A Terapia Centrada no Paciente" - " Todo o indivíduo existe num mundo de experiência do qual é o centro e que está em permanente mudança", este mundo íntimo pode ser designado como campo fenomenal ou campo experiencial (1974: 465).

Por campo experiencial entende-se o organismo como o lugar de toda a experiência vivida (Nunes, 1997: 44). A noção de experiência inclui tudo o que ocorre de modo consciente no organismo num determinado momento. O organismo reage à realidade tal como esse organismo a experimenta e apreende essa realidade. Tende a reagir como um todo, não como uma realidade parcelar; tende para a autonomia, para a maturidade para a socialização e a auto-realização.

Experienciar corresponde a um processo activo e em constante mudança e inclui todas as vivências do organismo quer elas sejam acessíveis ou não à consciência. O campo experiencial refere-se a tudo o que se passa no organismo e é construído a partir de experiências que são simbolizadas, isto é, experiências acessíveis à nossa consciência, bem como as experiências que não são simbolizadas.

As experiências acessíveis à consciência são aquelas que são simbolizadas correctamente. Para clarificar esta noção de "experiências simbolizadas correctamente", Odete Nunes explica que uma parte da consciência é formada pela integração de representações (ou símbolos) originadas por estímulos internos ou externos e cuja percepção pode ou não corresponder integralmente à realidade. Se se confirmar uma correspondência entre a "realidade" e a "realidade subjectiva" então existe uma simbolização correcta. (Nunes, 1997: 45)

A mesma autora, refere ainda que, a pessoa vivência igualmente as experiências de carácter afectivo e emocional, cujo significado pessoal dado, é manifestado através dos sentimentos. Estes, serão plenamente experienciados quando, simultaneamente, é integrado a experiência afectiva e o seu significado cognitivo, tal como é vivido no momento, pela pessoa. (Nunes, 1997: 45).

Para Rogers, potencialmente poderemos ter acesso a todas as experiências por nós vividas, poderemos simbolizar todas as experiências vividas desde que existam condições favoráveis que o permitam, sendo o "setting" (quadro) terapêutico, uma dessas condições facilitadoras. (Nunes, 1997: 45).

 

 

C) Campo Fenomenológico / Campo Perceptivo

 

A totalidade da experiência organísmica (campo experiencial) pode também ser designado por campo fenomenológico, no sentido em que é considerada a realidade como subjectiva ou seja, dependente da forma como é percepcionada ou vivenciada pelo sujeito. Assim, a realidade ou a totalidade da experiência constitui o campo fenomenológico ou campo perceptivo.

Rogers (1974) considera que há um campo de experiência único para cada indivíduo, que contém o conjunto das experiências (sensações, percepções, recordações, etc). Grande parte deste campo está disponível à consciência do indivíduo em determinado momento e pode ser definido como a percepção que o indivíduo tem de si e da realidade. Rogers, dá grande ênfase às experiências da pessoa, aos seus sentimentos e valores e a tudo o que pode ser resumido pela expressão " vida interior" (Rogers 1974, citado por Hall & Lindzey, 1984: 57).

Podemos resumir o exposto na seguinte citação: "o organismo reage ao campo perceptivo tal como este é experimentado e apreendido. Este campo perceptivo é, para o indivíduo, a realidade" . Segundo o mesmo autor, cada pessoa reage á realidade conforme a captou, cada um reage à percepção dessa realidade. (Rogers, 1974, citado por Hall & Lindzey, 1984).

Retomando as concepções da psicologia humanista, o termo "percepção" é entendido como "o significado que a pessoa dá a tudo aquilo que ocorre dentro e fora dela própria"(Giordani, 1998: 50). Para o mesmo autor, nesta definição está evidente a acentuação da subjectividade na percepção, de forma que, para conhecer uma pessoa é importante chegar a saber o que essa pessoa pensa de si mesma e que valor dá aos acontecimentos que a rodeiam. Assim, este conhecimento não pode ser fruto de observações do exterior nem de interpretações mais ou menos fundamentadas, mas pode ser-nos transmitido pela própria pessoa, isto é, podemos chegar a essa percepção através de uma compreensão empática que permita uma "sintonia" com a outra pessoa. Rogers afirma "o melhor ângulo para a compreensão da conduta é a partir do quadro de referências interno do próprio indivíduo" (Rogers, 1974: 477, citado por Hall & Lindzey, 1984).

Conforme foi já dito, a única pessoa que poderia conhecer integralmente o seu campo de experiência é ela mesma, sendo a conduta uma reacção ao campo como este é apreendido. Assim, compreender-se-á melhor a conduta do indivíduo quanto melhor se conseguir apreender essa conduta, como ele próprio a apreende.

De acordo com Giordani (1998), o comportamento do indivíduo baseia-se na percepção que ele tem de si mesmo e da realidade externa, pelo que o organismo reage ao campo perceptivo como é experienciado e vivido pelo sujeito. O autor afirma que " o nosso comportamento não é a resposta a uma realidade no seu aspecto objectivo, mas sim à percepção que temos da realidade, aqui e agora", o autor acrescenta ainda que "a percepção está fortemente influenciada pela imagem que temos de nós mesmos: a realidade é dada através do filtro desta imagem e na base das experiências vividas" ( Giordani, 1998: 50 e 51).

A totalidade da experiência constitui o Self organísmico, isto é a experiência organísmica no seu todo bio-psico-social, constitui o que designamos de Self organísmico, o qual é mais abrangente englobando o Self ou "noção do eu". À medida que a pessoa se desenvolve através de um conjunto complexo de relações intra e interpessoais nos diferentes contextos ambientais, há uma parte do seu mundo íntimo que se diferencia do dos outros, isto é o seu campo fenomenológico diferencia-se surgindo uma parte que se constitui como a experiência de si possibilitando-lhe progressivamente a formação da "noção de "eu" (Self). (Nunes, 1997: 45)

 

 

D) Conceito de Self

 

O conceito de Self, é definido por Rogers como um "padrão conceptual estruturado fluido mas consistente das características do "Eu" ou do "Mim", que são admissíveis à consciência, juntamente com os valores ligados a estes conceitos" (1954: 55) A partir disto o Self é visto como o critério determinante da "repressão" ou consciência das experiências e como exercendo um efeito regulador sobre o comportamento.(Idem)

O Self faz parte da experiência organísmica e não é uma entidade estável, constituindo-se à medida que a pessoa vai adquirindo a "noção de eu". O Self é um todo organizado num processo constante de construção. É portanto um processo fluido, um continuo processo de reconhecimento de si. É exactamente nesta mudança constante que Rogers fundamenta a sua teoria que as pessoas são capazes de crescimento pessoal. O Self é a visão que uma pessoa tem de si própria, baseada em experiências passadas, estimulações presentes e expectativas futuras. Assim, numa abordagem rogeriana, o conceito de Self é definido como uma estrutura organizada, em constante mutação, constituída por todo o conjunto de percepções vivenciadas por uma dada pessoa, das quais se poderão enumerar as suas características, atributos, qualidades, defeitos e valores que o indivíduo reconhece como fazendo parte de si e que constituem a sua identidade. (Nunes, 1997: 46)

Conforme já referimos a totalidade da experiência organísmica constitui o self organísmico. No entanto nem todas as experiências organísmicas estão disponíveis à consciência, ou seja nem todas as experiências são simbolizadas. As experiências estão disponíveis à consciência, quando uma experiência é susceptível de ser simbolizada sem nenhuma dificuldade, sem ser através de mecanismos de defesa ( Rogers & Kinget, 1977: 163).

Rogers, no seu livro "A Terapia Centrada no Paciente" considera que, à medida que na vida do indivíduo ocorrem as experiências sensoriais, estas podem ser:

"a) simbolizadas, apreendidas e organizadas numa certa relação com o Self,

b) ignoradas porque não se capta a relação com a estrutura do Self, ou

c) recusadas á simbolização ou simbolizadas de forma distorcida porque a experiência é incoerente com a estrutura do Self" (Rogers, 1974).

 

De acordo com o autor, as experiências que são simbolizadas, (a) incluem as que são aceites na consciência e organizadas em relação à estrutura do self, quer porque satisfazem uma necessidade do self, quer porque são consistentes com a estrutura do self. As experiências que são ignoradas (b) são as que existem no campo fenomenal mas que não reforçam nem contradizem o conceito de self, são ignoradas. Essas experiências podem ser simbolizadas quando podem satisfazer uma determinada necessidade. Finalmente, as experiências sensoriais recusadas à simbolização ou distorcidas (c), são aquelas que "parecem impedidas de entrar na consciência". Em alguns casos, esta rejeição é de alguma forma consciente, como por exemplo a não aceitação de um elogio ou de uma crítica porque é contrária ao conceito que o indivíduo tem de si. Noutros casos, o indivíduo "pode rejeitar da consciência experiências sem nunca ter estado consciente delas" são disso exemplo os fenómenos que os freudianos procuram explicar recorrendo ao conceito de "repressão", neste caso existe a experiência organísmica mas não há simbolização dessa experiência, ou acontece simplesmente uma simbolização distorcida porque uma representação consciente e adequada dessa experiência seria inconsistente com o conceito de eu (Rogers, 1974: 486, 487, 488 e 489).

Assim, segundo Rogers (1977), se o self e a experiência total do organismo se encontram de acordo ou congruentes, a tendência para a realização funciona de forma relativamente unificada, mas se pelo contrário existe conflito ou incongruência entre os dados experienciais do self e os dados relativos ao organismo a tendência à actualização do organismo pode ser contrária à tendência para realizar o self (Rogers & Kinget, 1977: 161).

Assim, e de acordo com Odete Nunes (1997), poderemos dizer que, o indivíduo apreende a "realidade objectiva" em função do seu eu, tornando-se esta percepção a "realidade" para ela própria. A Tendência Actualizante, e seu potencial "desenvolvimento", de alguma forma irá estar dependente da "Noção do Eu", na medida em que o indivíduo tem tendência para percepcionar e integrar a realidade de acordo com os seus desejos e angústias e a desvalorizar ou a negligenciar o que contraria o Eu, ou que não tem relação com este, sendo precisamente o grau de desfasamento entre a realidade objectiva e a realidade subjectiva um dos indicadores do estado de congruência / incongruência do indivíduo. Mais precisamente, é a dialéctica entre as experiências simbolizadas e que são acessíveis à consciência e as não simbolizadas, que introduz o nível de congruência / incongruência no indivíduo.(Nunes, 1997: 48 e 49).

O estado de congruência, é definido por Rogers como sendo o estado em que a pessoa se sente livremente ela própria, aceitando-se como é, com a experiência real dos seus sentimentos e das suas reacções. O estado de incongruência ou desacordo interno, verifica-se ao nível da simbolização da experiência, quando a experiência real se encontra em oposição à imagem que o indivíduo tem de si mesmo, a simbolização da experiência do indivíduo irá corresponder a uma distorção da experiência real, esta distorção permite que o indivíduo não entre em conflito com a imagem que tem de si mesmo, não entrando em contradição com a sua auto-imagem. John Wood (1994) explica assim o termo "estado de incongruência": "refere-se a uma discrepância entre a experiência real do organismo e a imagem de self do indivíduo (..) há uma discrepância entre o significado experienciado da situação, da forma como é percebido pelo seu organismo e a representação simbólica daquela experiência, de forma a não entrar em conflito com a imagem que ele tem de si mesmo" (Wood, 1994, 159).

Importa distinguir a noção de "Self Ideal" da noção de "Self Real" . "Self Ideal" é definido por Rogers como o "conjunto de características que o indivíduo mais gostaria de poder reclamar como descritivas de si mesmo" (1977: 165). O "Self Real", refere-se ao conjunto de características (qualidades e defeitos) próprios do indivíduo (Gobbi e Missel, 1998: 141). Tal como o "Self", o "Self Ideal" é uma estrutura móvel que passa por constantes redefinições. Para Rogers (1954) o primeiro é definido como um padrão conceptual estruturado fluido mas consistente das características do Eu, enquanto que o segundo é definido como um padrão conceptual estruturado de características e estados emocionais que o indivíduo conscientemente considera como desejáveis para si próprio. (Rogers, 1954: 55)

Rogers, (1954) defende que quanto maior é o grau de discrepância vivenciado pela pessoa entre o self real e o self ideal, maior é o seu estado de incongruência / desacordo interno e consequente sofrimento, pelo que esta auto-percepção leva a pessoa a vivenciar sentimentos de baixa auto-estima, sentimentos de desvalorização, e pode ser fonte de uma certa inadequação social (Nunes, 1997: 47).

O estado de desacordo interno ou incongruência, refere-se ao estado de desacordo entre a experiência, sua simbolização e os sentimentos despertados por esta. Representa-se igualmente como a diferença sentida pela pessoa entre o que ela é e o que gostaria de ser (Gobbi e Missel, 1998: 89) . Esta noção remete-nos para o conceito de Auto-Estima, que iremos desenvolver de seguida.

 

 

E) A Auto-Estima

 

De acordo com os objectivos do nosso trabalho, e de acordo com o instrumento de Carl Rogers, aplicado na população em estudo, julgamos pertinente explicitar o conceito de auto-estima e sua relação com a "imagem do eu".

Segundo Rogers, a imagem do eu indica "a configuração experiencial formada por percepções referentes ao Eu, às relações do Eu com os outros, com o ambiente e com a vida em geral, com os valores que o sujeito associa a estas distintas percepções"(Rogers & Kinget, 1977: 164).

Para Giordani, (1998) a "imagem de mim mesmo" é o resultado de uma dupla percepção:

1 – a percepção que tenho de mim mesmo, em relação comigo mesmo - percepção intrapsíquica;

2 – a percepção que tenho de mim mesmo em relação com os outros e com o mundo que nos rodeia – percepção interpessoal.

 

Giordani (1998), realça ainda duas características na imagem de mim mesmo: ela não é fixa estanque e estável, mas sim está em contínua mudança, ainda que apresente uma estrutura organizada e coerente. Por outro lado, encontra-se disponível na consciência, ainda que não seja necessariamente consciente ou plenamente consciente.

A génese da imagem de mim mesmo encontra-se nas experiências pelas quais o indivíduo passa ao longo da sua vida. Daqui a expressão "experiência de si mesmo" que se refere a "todos os factos e acontecimentos do campo fenomenológico que o indivíduo reconhece como relacionados com o eu", (…) e constitui a matéria com que é formada a "imagem do "eu" (Rogers & Kinget, 1977: 164).

Ao longo do seu trabalho e da sua prática clinica, Rogers foi constatando que a pessoa modificava o comportamento que lhe era insatisfatório ou modificava a sua forma de "estar-no-mundo" e, também, a forma como se percepcionava a si e aos outros, à medida que conseguia alcançar uma maior liberdade interna. Esta era atingida através do reconhecimento, elaboração, e aceitação dos sentimentos, no aqui e agora, da sua experiência como existente. (Rogers citado por Odete Nunes, 1997: 47).

Rogers pressupõe que a pessoa não deve sentir-se obrigada a negar ou reformular as suas atitudes e opiniões pessoais para manter a afeição das pessoas importantes em relação a ela. (Nunes, 1997: 47)

Rogers dedicou uma especial atenção a duas necessidades: a consideração positiva e auto-estima. Ambas são apreendidas, pela criança ao longo do seu crescimento. Desenvolvendo-se a primeira na infância em consequência do amor e dos cuidados recebidos pelo bébé, a criança descobre que o afecto que lhe demonstram é fonte de satisfação para ela, aprendendo assim, a experimentar uma necessidade de afeição. Para Rogers, citado por Hall e Lindzey (1984), a auto-estima estabelece-se em virtude de o bebé receber uma consideração positiva dos outros.

Nas diversas pesquisas realizadas por Rogers, foi constatada a forte influência exercida pelas avaliações de figuras parentais, ou outras figuras significativas, nos comportamentos do indivíduo, podendo provocar grande discrepância do Self ideal com o Self real e consequente fracasso proporcional na adaptação, devido à distorção da imagem do eu.

De acordo, com Rogers (1954) a discrepância entre a "posição" em que coloca determinada característica descritiva de si - "self"- e a posição em que a coloca quando pensa nessa característica em funç