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"Nova York, 19 de Dezembro de 1973.
... E chorei quando soube da morte de Victor Jara. Victor Jara era o Chico
Buarque do Chile. Preso no dia do golpe, foi levado para o Estádio Nacional. Aí
cortaram-lhe os dedos, entregaram-lhe um violão e disseram: ‘Agora, canta!’ E
Jara esfregou o violão e cantou.
‘Ay canto que mal me sales!
Quanto tengo que cantar, espanto!
Espanto como el que vivo
Como que muero, espanto
De verme entre tantos y tantos
Momentos del infinito
En que el silencio y el grito
son las metas de este canto. (...)’
Contam as testemunhas que Jara não acabou de cantar. Foi metralhado no
meio. Jara não está mais vivo. (...)
Parei e dei uma olhada na janela
prá retomar o fôlego. E o que vejo, Zé? Os carros passando normalmente, os
supermercados cheios, as pessoas desfilando as última moda para o inverno e, na
esquina, o Exército da Salvação canta e toca pelo Natal que vem. Levei um
choque. Quando levantei da mesa e olhei pela janela, esperava que todos na rua
estivessem parados, com um nó na garganta, água vindo nos olhos em silêncio.
Vivendo a morte de Victor Jara. Parece infantil, mas eu esperava isto. Mas eles
não estavam sofrendo comigo. Nem sabem. Engolí o choro (...) Talvez se eu
passasse chorando todos parassem. E será que se eu sair na Rua 70 chorando, Nova
Yorque vai saber que Victor Jara morreu?"
(Trecho de uma carta de Henfil
a um amigo no Brasil.)
CRESCENDO E ESCREVENDO NO OLHO DA CONTRADIÇÃO
"Desejo de ir além das aparências,
tentar descobrir nas pessoas
qualquer coisa imperceptível aos sentidos comuns. Compreensão de que as
diferenças não constituem razão para nos afastarmos, nos odiarmos. Certeza de
que não estamos certos, aptidão para enxergarmos pedaços de verdade nos absurdos
mais claros. Necessidade de compreender, e se isto é impossível, a pura
aceitação do pensamento alheio."
(Graciliano Ramos, citado por Marilene
Felinto)
A crítica é uma participação, não uma dissociação.
(A. de Amoroso Lima)
Nos últimos anos, tem havido uma sensível tendência no sentido de se fazer
referências a Paulo Freire e a suas idéias e no sentido de uma comparação da
Abordagem Centrada com a Pedagogia do Oprimido, em trabalhos oriundos da prática
da Abordagem Centrada na Pessoa. Rogers dedica um capítulo de um de seus últimos
livros a uma exposição e comentário do que ele considera serem semelhanças
entre a Abordagem Centrada na Pessoa e a Pedagogia do Oprimido. Maureen Miller
O’Hara, em um artigo publicado em 1979, e agora editado em livro no Brasil ,
refere-se à obra de Freire como um importante fator de constituição de suas
idéias e práticas atuais. No First International Forum on the Person-Centered
Approach, realizado em Julho de 1982, na Cidade de Oaxtepec, no México, Maureen
também apresentou um trabalho relativo às relações entre a Abordagem Centrada na
Pessoa e a Pedagogia do Oprimido, intitulado: Person-Centered Approach as
Conscientização: the Works of Carl Rogers and Paulo Freire. Trabalho que depois
veio a ser reproduzido pelo periódico Journey, sob o título: Radical Humanism:
Facilitating Critical Consciousness . John K. Wood também tem feito referências
à obra de Freire. No sumário de um de seus mais recentes textos ele
comenta:
"Como Paulo Freire(1970) observou, com relação a uma tarefa
similar, o Diálogo como o encontro de homens destinados à tarefa comum de
aprender e agir, é quebrado se as partes (ou se mesmo uma delas) perdem a
humildade."
Muitos profissionais Latino-Americanos que trabalham dentro dos referenciais
teóricos e metodológicos da Abordagem Centrada na Pessoa, como eu, vêem-se como
que no fundo de um abismo entre as obras de Freire e de Rogers. E não hesitam em
invocar e lançar mão das perspectivas da Pedagogia do Oprimido para uma
recriação de seus modos de trabalho, no sentido de uma melhor adequação de sua
prática e de sua teorização a sua realidade. Isto estava muito evidente no grupo
de Latino-Americanos que participaram do First International Forum on the
Person-Centered Approach."
De onde e porque razão teria surgido esta
tendência de aproximação da Psicologia Humanista para com a Pedagogia do
Oprimido? Respostas diversas podem ser apontadas. Acredito na influência de
Pedagogy of the opressed, de Freire, sobre o desenvolvimento de Maureen Miller,
como ela coloca. E Maureen tem sido uma das mais ativas e profícuas
participantes do natural processo de recriação da Abordagem Centrada na Pessoa,
nos anos recentes. A partir de 1976, ela, John K. Wood e Carl Rogers e outros de
seu grupo têm vindo com certa frequência ao Brasil, onde têm desenvolvido várias
atividades de vivência e de treinamento. Da mesma forma, têm ido a vários outros
países, em diferentes partes do mundo. O contato com o Brasil e com a nossa
cultura, assim como o contato com outros países e culturas tem tido, acredito,
uma sensível influência em suas vidas e em suas produções teóricas recentes, o
que conduz, de uma forma ou de outra, a uma certa aproximação com a obra de
Freire. John Wood e Maureen chegaram a morar por alguns meses em Olinda.
É
possível que estes contatos de profissionais ligados à Abordagem Centrada na
Pessoa com outros países, em particular com os países de Terceiro Mundo, e com a
obra de Freire, sejam uma importante fonte do desenvolvimento de tendências que
superem impasses atuais da Abordagem e que lhe propiciem condições para um
desenvoilvimento realisticamente mais compatível com a condição de uma abordagem
que se quer humanista e que, originada nos EUA, desenvolveu-se e disseminou-se
por vários países como uma das mais importantes linhas da psicologia e da
psicoterapia modernas.
A Pedagogia do Oprimido, também, disseminou-se por
todo o mundo, em particular na Europa e EUA, como uma marcante contribuição à
pedagogia e como uma refrência para pessoas interessadas na luta contra a
desumanização e pela atualização humana.
Os que praticam a Abordagem
Centrada na Pessoa na América Latina defrontam-se com a questão do contato
cotidiano com a realidade do oprimido e das relações de opressão. Assim como com
as questões relativas ao colonialismo e ao imperialismo. Como uma abordagem
humanista, que tomou corpo e se desenvolveu nos EUA -- nas classes dominantes do
Primeiro Mundo -- e espalhou-se por outros países no bojo da influência
neo-colonial Norte Americana, a Abordagem Centrada na Pessoa defronta-se com a
encruzilhada: integrar o oprimido e suas perspectivas como dimensões possíveis
de seu campo de ação e de reflexão, ou abrir mão do estatuto de humanismo.
Trata-se de indagar acerca de sua própria posição prática e concreta no contexto
das relações de opressão. O destino do poder que a sua prática e o seu
conhecimento engendram, como ocupante de um espaço institucional no âmbito das
linhas de idéias e ação no campo das ciências humanas e das chamadas profissões
de ajuda.
Estas questões colocam-se de uma forma aguda e atordoante, em
particular para os profissionais de Terceiro Mundo que assumem esta abordagem em
sua prática profissional. A possibilidade do cinismo -- o cinismo de se falar em
humanismo sem que se considere honesta e realisticamente as questões
concernentes às maiorias oprimidas, à manutenção e reprodução de suas condições
(em que estamos também envolvidos, particularmente como agentes especializados
da ordem institucional vigente), questões com as quais todos convivemos -- ainda
que seja parte significativa de nossa da nossa realidade atual, atenta
evidentemente contra uma postura ética e é por demais frágil e frustrante, exige
um nível fantástico de irrealidade, e, por consequência, de um singular e real
processo de auto-destruição por parte de quem a assume.
Desta forma, levar
em consideração as perspectivas que engendraram e engendram a Pedagogia do
Oprimido, é extremamente salutar para nós que praticamos a Abordagem Centrada na
Pessoa -- de um modo especial em um contexto de Terceiro Mundo. Torna-se cada
vez mais difícil manter-se como Humanista, mesmo que apenas psicoterapeuta,
mantendo também o distanciamento da realidade da desumanização. O distanciamento
da realidade das relações de exploração e de opressão da maioria da população,
mantendo o distanciaamento e a frieza com relação à consciência dos vínculos com
estas de nossa prática, e da produção de nosso conhecimento. Por outro lado,
acredito que os que praticam e buscam a construção e a reconstrução do
conhecimento da Pedagogia do Oprimido podem usufruir de uma influência
enriquecedora, a partir de alguns dos conhecimentos e práticas desenvolvidas no
ambito da Abordagem Centrada na Pessoa nos últimos anos. Em particular, no que
se refere ao modo de trabalho com grupos.
Vale indicar nestas observações
que o afastamento das questões relativas ao oprimido e às classes oprimidas, o
afastamento das questões relativas ao imperialismo, não é uma característica
exclusiva da Abordagem Centrada na Pessoa. A Psicologia e a Psicoterapia que
praticamos, seja qual for a linha, surgiram e desenvolveram-se em um contexto
que não é o contexto do Terceiro Mundo. Transplantadas para este, só de uma
forma anormal tratam destas questões. Sendo assim, é evidente que a crítica que
é feita à Abordagem Centrada na Pessoa pode ser feita a qualquer outra abordagem
de psicologia e psicoterapia. Encontramo-nos, as sociedades do Terceiro Mundo em
particular mas não só, diante do imperativo da necessidade da construção de uma
Psicologia efetivamente humanista, radicalmente humanista, que possa de uma
forma concreta dialogar com a condição do homem oprimido e com a condição desta
classe oprimida, e que possa ter nesse diálogo um instrumento efetivo para a
transformação dessas condições, e da condição de nós próprios, como momento
necessário do processo de libertação do homem. Neste sentido, creio que o
conhecimento e a prática desenvolvidos pela Abordagem Centrada na Pessoa podem
oferecer, junto com conhecimentos desenvolvidos no âmbito de outras abordagens,
uma boa base de trabalho, desde que possa desenvolver um fecundo processo de
interação e de reconstrução, a partir da crítica objetiva e honesta.
O movimento de alguns profissionais que praticam a ACP no sentido da Pedagogia do Oprimido, a que me referí no início, representado pelos trabalhos que citei acima, possui aspectos que me parecem bastante positivos. Por outro lado -- e, ao fazer esta observação, não me coloco numa posição maniqueísta --, os citados trabalhos parecem-me, também, passíveis de críticas, em aspectos que considero fundamentais. Um deles, e talvez o principal, é o que me parece ser a existência neles -- apesar da boa vontade e honestidade pessoal de seus autores, na qual acredito -- de elementos de aniquilação conceitual e ideológica das formulações de Freire. Talvez isto seja difícil de evitar a priori, em se tratando da leitura de uma produção cultural do Terceiro Mundo feita por agentes sociais do Primeiro. Acredito que isto não se coloca como um impecilho intransponível para um eventual diálogo, na medida em que as pessoas envolvidas possuam a capacidade e a disposição para transcendê-lo. Não me parece, entretanto, um aspecto desprezível, constituindo-se, antes, em um ponto nuclear da questão.
Desde que conversei com Maureen sobre o seu artigo relativo às eventuais
relações entre os trabalhos de Carl Rogers e Paulo Freire, e que me dispus a
escrever comentários a respeito, tenho tentado descobrir que tipo de conexão me
parece existir como possível entre as duas abordagens. Nesse tempo, tenho me
defrontado com os paradoxos e contradições que uma análise deste tipo envolve.
Em certos momentos, parece que "tem tudo a ver", para, no momento seguinte,
parecer que não tem "nada". De fato, é mesmo difícil de começar, e ficamos
frequentemente aprisionados numa sensação de imobilização. Talvez, uma boa forma
de "começar" seja falando de minha própria posição. "Posição" não apenas no
sentido de minha posição teórica sobre o assunto. Quero me referir, também, ao
modo e ao processo como tenho entrado em contato com os dois conjuntos de
idéias. Como eles estão e dialogam "dentro de mim". Talvez o meu ponto de vista,
no sentido literal que esta expressão tem. Quanto ao valor e ao significado
dele, tenho a mais plena convicção de sua absoluta relatividade.
PAULO FREIRE E A PEDAGOGIA DO OPRIMIDO
Minha relação com Paulo Freire é
antiga. Certamente muito antiga, ainda que ele seja praticamente um desconhecido
para mim, em termos pessoais formais*. É, certamenente uma relação que vai além
do nível da reflexão teórica. De formas muito significativas para o meu
crescimento pessoal, temos estado "juntos", ainda que, pessoalmente, eu o tenha
visto de fato, pela primeira vez, há apenas pouco tempo atrás. Tive então
evidência disto, quando o ví e ouví, de volta do exílio de vinte anos, na
Reunião Anual da SBPC** de 1980, no Rio de Janeiro...
Para uma audiência
enorme, reunida para homenageá-lo em sua volta ao Brasil, na Concha Acústica da
UERJ***, sobe ao palco aquela figura singular e tão aguardada, e diz qualquer
coisa assim:
"Quando eu era ‘menino’, meu pai e minha mãe me ensinaram a
nunca esquecer de dizer uma coisa: ‘Muito Obrigado.’ E eu quero dizer isto a
Vocês, agora.
Muito obrigado!
Porque o fato de eu estar de volta deve-se
ao fato de que vocês ficaram, e estiveram aqui na minha ausência..."
Foi um
instante de emoção intensa. Pelo significado e plenitude daquele momento para
todos nós que crescemos da pré-adolescência à juventude em meio àqueles tempos
escuros.
Para mim, tinha, ainda, um motivo particular. Aquele "quando eu era
menino" bateu fundo dentro de mim. Lembrei-me num relance, quase que apenas
pré-consciente, mas inteiramente envolvido, de meu Avô, que usava muito aquela
expressão, quando ía contar uma história de menino dele. Não que Paulo Freire
lembrasse o meu Avô, pela idade, força moral, cabelo e barba brancas, ou seja lá
o que fosse, mas porque aquela expressão, com aquele sotaque e jeito de dizer,
era uma expressão "arquetipicamente" Nordestina, pelo menos para mim.
Aquele
momento era o ponto zero da contagem regressiva de um encontro que tornara-se
inevitável. Antes, para mim, Paulo Freire tinha sido sempre um ilustre e
significativo "ausentado". Daqueles que a gente sabia que fazia muita falta, e
que não entendia muito bem porque o Brasil se dava ao luxo de mandar para o
exterior – a gente apenas sentia por perto os "dedos" das forças responsáveis.
Eu era ainda pequeno na época. Pouco tempo depois, tive contato com movimentos
progressistas da época, pré AI 5, em reuniões de líderes dos Colégios Maristas
do Nordeste. E Paulo Freire -- eu apreendia isto difusamente -- era, de uma
forma "misteriosa", independente do que pudesse estar, de fato, acontecendo
naquele momento, um espírito muito presente. (Como Thiago de Melo, também).
Tempo de, esperança em tempos obscuros:
"Faz escuro, mas eu canto, porque
outro dia vai chegar,
Vem comigo, companheira, vai ser bonito ver o
dia raiar..."
Ou de:
"Severino, retirante, meu amigo e bom moço,
sei que
a tristeza é mar largo, não é como qualquer poço,
mas sei que p’rá
cruzá-la vale bem qualquer esforço..."
De "Morte e Vida Severina", do João Cabral de Melo Neto .
Eu devia
ter mais ou menos treze ou catorze anos, na época. Durou enquanto deixaram...
Depois foi como se tudo fosse se desfazendo, como um som que ecoa e se vai
perdendo no espaço e no tempo. Cresci dentro do confuso "escuro" daquela época.
Apenas com fragmentos, frequentemente aterradores, do que acontecia.
As
coisas começaram a voltar depois..., mas, devagar. Começamos, aos poucos, a
redescobrir Paulo Freire e outros, suas idéias e conquistas, o significado deles
para o Brasil e para o Mundo, e o modo como estavam sendo tratados.
Lembro-me da estória que contava um colega mais velho -- que viveu mais
conscientemente os anos do pós-64 imediato (não sabíamos se verdade ou
invenção). Dizia-se que, quando preso em Recife, Paulo Freire teria sido chamado
pelo diretor do presídio. O diretor soubera que ele era um educador famoso, e
teria pedido para que ele organizasse um programa de alfabetização no presídio,
que tinha um grande número de analfabetos. Surpreso, Freire teria respondido,
"Mas é exatamente por isto que eu estou preso!...".
Com o passar do tempo, Paulo Freire e sua idéias foram novamente tomando
forma para mim. Numa viagem, "acidental", que fiz à Europa e aos Estados Unidos,
já para participar de programas ligados à Abordagem Centrada na Pessoa, eles me
invadiram de uma forma muito forte e inesperada. Entre perplexo e orgulhoso, fui
"encontrando" Paulo Freire pelo "caminho".
Àquela altura, eu já conhecia
algo de suas idéias, que me ficaram claras com o "Poema Para os Fonemas da
Alegria", do Thiago de Melo:
Peço licença para algumas coisas.
Primeiramente para desfraldar
este canto de amor publicamente.
Sucede que só sei dizer amor
Quando reparto o ramo azul de estrelas
Que em meu peito
floresce de menino.
Peço licença para soletrar,
No
alfabeto do sol pernambucano,
a palavra ti-jo-lo, por exemplo,
e poder ver que dentro dela vivem
paredes, aconchegos e
janelas
e descobrir que todos os fonema
são mágicos sinais
que vão se abrindo,
constelações de girassóis girando
em
círculos de amor que de repente
estalam como flor no chão da casa
às vezes não há casa: é só chão.
Mas sobre o chão quem reina
agora é um homem diferente
que acaba de nascer
porque
unindo palavras
aos poucos vai unindo
argila e orvalho,
tristeza e pão, cambão e beija-flor
e acaba por unir a própria
vida
no seu peito partida e repartida
quando afinal
descobre num clarão
que o mundo é seu também, que o seu trabalho
não é a pena que paga por ser homem
mas um modo de amar -- e
de ajudar
o mundo a ser melhor. Peço licença
para avisar
que, ao gosto de Jesus,
este homem renascido é um homem novo:
Ele atravessa os campos espalhando
a boa nova, e chama os
companheiros
a pelejar no limpo, fronte a fronte,
contra o
bicho de quatrocentos anos
mas cujo fel espêsso não resiste
a quarenta horas de total ternura.
Peço licença para terminar
soletrando a canção de rebeldia
que existe nos fonemas da
alegria:
canção de amor geral que eu vi crescer
nos olhos
do homem que aprendeu a ler.
Santiago do Chile
Verão de
1964.
Eu não conhecia, ainda, de uma forma mais sistemática, o arcabouço teórico da
Pedagogia do Oprimido, mas já dava para entender muita coisa. Surpreendí-me
boquiaberto, na viagem, com Italianos me indagando e conversando com intimidade
sobre Paulo Freire. Na Inglaterra, encontrei um grupo de Latino-Americanos,
entre os quais dois queridos amigos, desenvolvendo um Seminário de Estudos sobre
a metodologia de Paulo Freire, sob orientação de um professor chileno, exilado,
que ía, periodicamente, de Genebra a Londres. Nos Estados Unidos, encontrei uma
suíça que falava carinhosamente sobre Paulo Freire e o seu jeito de ser.*
E "o meu queixo quase caiu" quando, almoçando com um Austríaco, no Campus de San
Diego da Universidade da Califórnia, ele me falou de que era pedagogo, e estava
desenvolvendo um trabalho fundamentado nas idéias de Paulo Freire e de Ivan
Illich... Um pouco antes, eu sofrera um impacto similar quando, deitado em minha
cama, em Maceió, tentando decifrar Sociedade Sem Escolas, do austríaco
Illich -- a ele levado por inspiração de Liberdade Sem Medo --
deparo-me com o autor falando fascinadamente sobre suas experiências no Brasil,
no interior de Sergipe, com um brasileiro, Freire, que alfabetizava adultos em
quarenta dias...
Algum tempo depois estudei mais detidamente os aspectos
teóricos e filosóficos da Pedagogia do oprimido.
A ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA
Cedo em minha formação como psicólogo,
entrei em contato com a Abordagem Centrada na Pessoa. Maureen tem sido uma das
pessoas com quem mais tenho aprendido nos anos recentes, em situações muito
variadas, e das que mais têm influenciado a minha prática e desenvolvimento
teórico. Lendo um artigo seu, descobrí, com surpresa e satisfação, que
Paulo Freire também havia exercido uma marcante influência em sua formação na
área de Ciências Humanas, e, em particular, no processo de sua transição da área
das Ciências Biológicas para a Psicologia. Tínhamos chegado a Freire por vias
muito distintas, e nos encontramos, com consequências muito ricas para mim. A
Abordagem Centrada na Pessoa "começou a entrar em minha vida" por volta de 1978,
quando Rogers, Maureen, John Wood, e outros do grupo deles vieram ao Brasil
facilitar alguns programas. Participei de um workshop de longa duração,
facilitado por eles, em Arcozelo, no Rio. Vejo, hoje, a experiência como uma
experiência confusa, passível de críticas. Mas é uma verdade, também, que me
propiciou condições de crescimento pessoal e de aprendizagem até então
insuspeitadas por mim, condições de descobertas e de conquistas que estão
arraigadas no que, não sem alegria, apesar dos pesares, sou hoje.
De
Arcozelo para cá, tenho participado, como participante e como facilitador, de
inúmeras atividades ligadas às idéias e metodologia da Abordagem Centrada na
Pessoa, particularmente as que se originam e se desenvolvem a partir das idéias
e dos trabalhos de John K. Wood e de Maureen M. O’Hara. Estas atividades têm
sido uma parte importante de minha formação e de minha prática como psicólogo.
Conhecí uma grande quantidade de pessoas e de situações, viví muito, e aprendí a
transcender (pelo menos acreditar que podem ser transcendidas) difíceis
situações pessoais e interpessoais. Potencializei a minha fascinação pelos seres
humanos, pela vida e por seus desdobramentos. Conhecí gente de vários lugares do
Brasil, e de outros países, em situações intensivas de relacionamento
interpessoal. Tenho me interessado, e buscado conhecer melhor -- e
estas atividades têm sido importantes espaços de aprendizagem -- a dinâmica das
relações que criamos ao atualizar o inevitável destino de vivermos juntos. A
destrutividade, de nós próprios e do(s) outro(s), a nossa capacidade de
liberação e de criação. Este contato com a Abordagem Centrada na Pessoa trouxe
condições para que muitos processos potenciais em mim pudessem desabrochar,
tanto em termos pessoais como em termos profissionais. Encontrei um espaço e
pessoas no qual e com quem pude desenvolver a busca por uma psicologia e por uma
psicoterapia não autoritária, um espaço possível para o desenvolvimento de uma
psicologia efetivamente humanizante, ainda que atrvessado igualmente por
elementos e dimensões passíveis de crítica e de questionamento. Como
consequência, parte da verdade sobre mim é que encontro-me envolvido, com
colegas que encontrei nesse caminho, na busca e na afirmação de práticas e
idéias que conduzam neste sentido.
Uma parcela importante do que tenho
aprendido experiencialmente até hoje, inclusive e de uma forma marcante com este
encontro com a Abordagem Centrada na Pessoa, é que a realidade é sempre
infinitamente nova, sua verdade também, e que é só na medida em que podemos nos
fascinar por esta novidade que podemos libertarmo-nos para desvendá-las e
construí-las, em sua inevitável provisoriedade. Só assim é que nos livramos da
imprudência de remarmos contra a maré de seu fluxo.
Os encontros,
pseudo-encontros e desencontros (mas principalmente os primeiros) com John Wood
e com Maureen, como pessoas com quem viví atividades práticas de uma forma mais
direta -- atividades nas quais muito crescí --, têm sido, junto com a minha
prática, o meu principal meio de aprendizagem dos referenciais da abordagem
centrada na pessoa. Participei de algumas atividades co Carl Rogers. Contatos em
que ficaram nítidas a sua honestidade pessoal e o seu anseio de busca.
Observando o panorama real da psicologia, psicoterapia e profissões de saúde
mental, o seu trabalho ressalta, ainda que possa eventualmente merecer críticas
(como qualquer obra criativa), como uma tendência fundamental no sentido de um
compromisso com o ser humano, com a busca de modos humanos e humanizantes de
exercício do poder. Não apenas dos macro-poderes, mas em especial dos
micro-poderes, que tão frequentemente estão depositados em nossas mãos, ao
contrário dos macro, e que dependem de nosso poder pessoal de decisão.
Naturalmente que, ao discutir a Abordagem Centrada na Pessoa, e ao propor
mesmo, como acho necessário, a sua "desamericanização", assumo uma atitude de
crítica com relação a alguns aspectos de suas colocações. Considero isto uma
participação numa empreitada comum e, acima de tudo, honesto e sadio.
Principalmente em sendo eu uma pessoa de um contexto diferente do seu. Contextos
que existem em relações de conflito -- relações estas que, ao nível das pessoas,
situam-se frequentemente abaixo do limiar do silêncio. De modo algum,
entretanto, tenho a intenção de faltar com o meu reconhecimento à importância do
trabalho de Rogers, e à importância e valor pessoal para mim da relação com
eles.Estas colocações se aplicam, de uma forma particular, a John e a Maureen, a
quem me ligo por laços de amizade, pelo tanto que com eles tenho aprendido, e
pela certeza límpida de buscas comuns.
ALTERIDADE E DIÁLOGO
"Todas as grandes idéias, as aspirações de todos os povos, os heroísmos
todos, gestos de arrebatado entusiasmo , sejam meus deuses."
(Walt Whitman)
"Somente aquele que se volta para o outro homem enquanto tal e a ele se
associa recebe neste outro o mundo. Somente o ser cuja alteridade, acolhida pelo
meu ser, vive face a mim com toda a densidade da existência é que me traz a
irradiação da eternidade. Somente quando duas pessoas dizem, uma à outra, com a
totalidade de seus seres: ‘És tu!’ é que se instala entre elas o Entre."
(Martin Buber)
"O sofrimento começa a desumanizar quando dele não tomamos conhecimento.
(...) Passou a barreira da sensibilidade, como os aviões a jato passam a
barreira do som. E, como a barreira do som é o silêncio, a barreira da
sensibilidade é a indiferença. E iso significa nem mais nem menos que
desumanização."
(Alceu de Amoroso Lima)
No Capítulo 6 de Sobre o Poder Pessoal -- A Abordagem Centrada na Pessoa e a
Pedagogia do Oprimido -- Rogers menciona e comenta o que ele considera serem
relações de similaridade entre as duas abordagens. O texto enseja diferentes e
contraditórias perspectivas de análise. Uma de suas implicações relevantes, a
meu ver, é a de que é um movimento concreto do "mundo da psicologia" em direção
à Pedagogia do oprimido, e em direção, mais especificamente, ao oprimido. Sem
dúvida que vale a pena saudar este fato, uma vez que não são muitos os
movimentos neste sentido dentro da psicologia oficial, que se apresenta
("oprimido? Não! É outro departamento!...) satisfeita, entre os seus muros, com
olhares indulgentes e afirmações abstratas e evasivas, sobre os 95% de pessoas
que encontram-se "do lado de fora". Com isto, além de contribuir efetivamente
para a causa da exploração e da opressão, implicação natural, desumaniza-se e
fossiliza-se. O movimento de Rogers, e de outros que praticam a ACP, em direção
à Pedagogia do Oprimido parece-me ainda mais significativo na medida em que
parece derivar de uma busca de referenciais para o desenvolvimento da própria
ACP, que, como as outras abordagens de psicologia e de psicoterapia, enfrenta o
beco sem saída em que estão metidas com a reificação do ser humano em nossa
Sociedade Ocidental Pós-Industrial.
Buscar incluir o oprimido, e a sua
perspectiva de realidade e de vida humana, parece ser parte importante do
caminho no sentido que leva a psicologia e a psicoterapia a desenvolverem-se
como produtos e processos de humanização e de libertação do homem. Buscar
incluir o oprimido e a sua perspectiva, sem assistencialismos e falsas
identificações, mais uma vez dissimuladores da opressão e da alienação, parece
ser a única forma de pormos os pés no chão, para lidar com o homem (conosco
mesmos), seja ele de que mundo fôr. Porque a perspectiva do explorador é
destrutiva e desumanizante para qualquer tipo de homem, inclusive para ele
próprio. Não se trata, assim, de "construir uma psicologia" para os oprimidos,
adotando a sua perspectiva, trata-se, sobretudo, de, adotando a perspectiva da
totalidade do humano, desenvolver uma psicologia, uma ciência, para o homem.
Assim, só pode ser saudada a atitude de Rogers, na medida em que, bem ou mal,
lança uma ponte, do poderoso lado da psicologia institucional, através da qual
algo de positivo pode transitar em ambos os sentidos.
Por outro lado, as
possibilidades de crítica àquele capítulo de Rogers no Sobre o Poder Pessoal não
parecem ser poucas.
Inicialmente, o texto aborda a questão das relações entre a ACP e a PO de uma
forma definitivamente muito apressada e simplista. Esta é, aliás, uma tendência
muito frequente nas comparações que se faz entre a ACP e a PO. A implicação
natural, é uma superficialidade que escamoteia a complexidade de uma tal
aproximação, se não a inviabiliza, uma vez que tem por base uma consideração
muito limitada pela alteridade de Freire, de suas idéias, de seu trabalho, e de
seu contexto sócio histórico. Acredito numa relação possível entre as concepções
de ambas as abordagens, apesar de tudo, mas esta seria, apenas, uma base sobre a
qual, no debate das pessoas que as praticam, o diálogo pode se desdobrar, no
sentido de uma saudável construção e reconstrução respectivas.
Curiosamente,
parece que a maior limitação nas tentativas efetuadas por praticantes da ACP de
relacioná-la com a PO, deriva extamente do fato de que seus autores não
empatizaram de uma forma adequada com esta pedagogia e com as posições e
condições concretas de Freire. Como Rogers indica, há uma diferença fundamental
entre o seu trabalho e o de Freire, no que diz respeito às pessoas a quem eles
se destinam. No seu caso, os "estudantes das instituições de ensino", no caso de
Freire, "camponeses amedrontados e oprimidos". Parece-me que para relacionar a
ACP com a PO, é necessário e mesmo imprescindível, caracterizar clara e
explicitamente, o contexto em que surgiu e em que se desenvolveu cada uma das
abordagens, e a quem elas se destinavam. O que pode evidenciar as suas
particularidades, as suas especificidades e idiossincrasias.
Um outro
aspecto significativo a levar em consideração, é que Rogers tem trabalhado e
desenvolvido as suas idéias basicamente no campo da psicoterapia e da educação.
Freire desenvolveu seus trabalhos e suas idéias apenas no campo da educação --
não trabalhou no campo da psicoterapia --, tendo sempre, e praticamente, um
contexto político definido como referencial de seu trabalho. Isto confere a cada
uma das abordagens peculiaridades que não podem ser negligenciadas numa análise
da relação entre elas. Freire sempre concebeu a pedagogia como uma atividade
essencialmente política. Sendo a sua abordagem, desta forma, um instrumento
explicitamente político, referido ao contexto peculiar da estrutura capitalista
de nossa sociedade (foi isto, aliás, que deu origem ao seu trabalho).
Só a
partir de Sobre o Poder Pessoal é que Rogers, como ele mesmo coloca, atina para
a dimensão política de sua abordagem, explicitando-a como tal. É exatamente isto
que o leva a identificar similaridades entre a ACP e a PO. É interessante
atentar para o fato, entretanto, de que a concepção do político é extremamente
diferente em ambos. Freire partiu e assume explicitamente a análise
Marxista-Cristã da estrutura social, e pensa, através dela, a sua pedagogia como
modo de transcendência desta estrutura social. Rogers não assume esta
perspectiva. Seu posicionamento político é vago, ainda que comprometa-se contra
estruturas desumanizantes, e com a construção de modelos de facilitação das
relações humanas que possibilitem a livre atualização do potencial humano. De um
modo geral, (em um de seus últimos textos, Rogers critica a ação imperialista
dos EUA em El Salvador), Rogers, apesar de entender a sua abordagem como
política, não a insere, de uma forma definida, num contexto das relações dos
Países de Primeiro Mundo, em particular dos EUA, com os Países do Terceiro.
Configura-se, assim, uma lacuna apreciável, e de difícil transposição, para uma
análise comparativa realista das relações da ACP com a PO, uma vez que o
contexto dessas relações é um referencial fundamental para esta última.
Rogers tem se preocupado de uma forma acentuada com as questões da corrida
armamentista, e de como a psicologia poderia oferecer subsídios para um eventual
equacionamento da ameaça de aniquilação da humanidade. Parece-me uma iniciativa
importante, e que interessa a todos. Vale ressaltar, não obstante, que, ainda
que esta seja uma questão crucial, para nós do Terceiro Mundo, a Questão
Leste-Oeste não esgota os nossos interesses mais importantes, e, acredito, os
interesses mais importantes da humanidade. Pontos cruciais da preservação de
nossa sobrevivência, em particular das maiorias oprimidas, não se situam no eixo
deste conflito, mas no eixo do, melhor dissimulado, conflito Norte-Sul. Este
conflito, suas bases, desdobramentos, estruturas e implicações não são, todavia,
tematizados por Rogers e pela ACP.
A Abordagem Centrada na Pessoa
desenvolveu-se nos Estados Unidos, e Rogers trabalhou -- e trabalha -- sempre
com a Classe Média e Alta da Sociedade Norte Americana (ou Européia), com
psicoterapia e em educação nas universidades. Freire trabalhou, trabalha e
desenvolveu as sua idéias (quase que podemos dizer) a partir de, e em, um outro
planeta. O Nordeste do Brasil. Não se tratava ou trata, apenas -- ainda que isto
seja parte da verdade -- de "camponeses amedrontados e oprimidos", mas de
camponeses historicamente afogados na exploração, no sofrimento estruturado e no
, genocídio lento, abandonados à sua própria sorte, nos descaminhos das "obras
primas" e dos mecanismos da desumanidade e da desumanização estruturada, que,
como seres humanos -- todos nós -- não conseguimos ainda superar. Neste
contexto, contexto da produção do trabalho e das idéias de Freire, os Estados
Unidos têm um papel peculiar, principalmente porque têm um papel peculiar na
produção e na manutenção da miséria nos Países de Terceiro Mundo.
Mas esta
peculiaridade pode ainda ser mais especificada. Os trabalhos de Freire, no
início dos anos sessenta, foram minuciosamente acompanhados pelas Agências de
Informação dos Estados Unidos. Agências de financiamento do Governo Norte
Americano chegaram a financiar alguns dos projetos de Freire, para, depois,
alarmarem-se com os resultados revolucionários de seus trabalhos, passando
decisivamente a conspirar contra ele e a participar do seu desmantelamento -- ou
tentativa de desmantelamento --, que se deu, por fim, com o movimento militar.
Ao considerar e colocar estes dados, não pretendo contrapor sectariamente o
Terceiro Mundo ao Primeiro; ou Brasil, Terceiro Mundo e Estados Unidos, mas
indicar as dificuldades concretas que se colocam a uma análise das relações
entre as duas abordagens, a partir das relações entre os seus respectivos
contextos de origem e de desenvolvimento.
A Abordagem Centrada na Pessoa
difundiu-se por vários países. Num primeiro momento, ela foi e é assimilada,
tanto a sua teoria como suas hierarquias de poder, quase que integralmente como
ela se desenvolveu nos Estados Unidos. Isto é curioso e reflete o quanto,
frequentemente, somos partes do Primeiro Mundo no interior do Terceiro, mantendo
e reproduzindo as relações de desigualdade entre esses mundos.
Com a difusão
pelo mundo da ACP, os Norte Americanos -- principalmente -- que participavam e
participam deste processo, contactaram e contactam outros contextos
sócio-culturais. Um dos mais graves limites de sua produção teórica tem sido,
parece-me, o de dar à sua própria linguagem particular um cunho de uma linguagem
planetária e generalizável a toda a humanidade. Não se preocupam, ao tentar um
empreitada desta natureza, em incluir nesta linguagem, já que a pretendem
planetária, a voz e as linguagens das pessoas e povos destes outros contextos.
Sintoma de que frequentemente negligenciam a percepção destes outros como tão
humanos quanto eles próprios. Explicitam apenas a sua linguagem, com o
pressuposto de uma validade universal. Com isto, colaboram no sentido da
aniquilação destas outras vozes e linguagens, que perecem no discurso da
abordagem.
Curioso, entretanto, mais uma vez, é ver como a linguagem Norte
Americana, pretensamente universal, é assimilada por pessoas de outros
contextos, cuja voz nela não está incluída, e que passam, com toda a
desenvoltura, a expressá-la. Isto é frequentemente simétrico, também, com os
mecanismos de transferência do poder institucional. É importante frisar,
todavia, que esta já não parece ser mais uma tendência absoluta. Depois que os
Norte Americanos "saíram de casa" começaram a viajar mais pelo Mundo, eles
também começam a mudar. A indicação das identidades com a PO é, acredito, parte
deste processo. Importantes produções teóricas suas, já levam em consideração as
diferenças, e expressam o seu processo de aprendizagem de uma "língua" que não
pressuponha a aniquilação dos diferentes -- às vezes tão diferentes.
Maureen
(que não é Norte Americana, mas Irlandesa, apesar de morar nos Estados Unidos)
tem desenvolvido nesta direção muito de sua produção, John Wood, também. No
último número do periódico Journey, John comenta a sua experiência de
reconverter-se em Americano, depois de alguns meses na Europa. Toda esta
tendência parece alvissareira, e representa o sadio e natural exercício de uma
capacidade de crítica e de reconstrução, à medida em que fluem o tempo e a
experiência. Quero que fique claro, entretanto, que quando faço estas
observações, e quando proponho uma des-Norte-americanização da ACP, não estou
propondo uma des-Norte-americanização dos Norte-Americanos, no que eles
têm de sua própria cultura. Que, enquanto tal, é tão feia ou bela quanto a
cultura de qualquer um de nós, ou de qualquer outro povo.
Em Sobre o Poder Pessoal , respondendo a críticas que propunham que a
Abordagem Centrada na Pessoa seria "moderada", e não teria relevância para lidar
com "minorias oprimidas", tais como "Negros, Chicanos* , mulheres, estudantes,
ou outros grupos marginalizados e relativamente sem poder", Rogers diz:
"Eu
poderia responder que, embora as ocasiões de trabalhar com minorias raciais e
étnicas tenham sido para mim limitadas, minha experiência é de todo oposta a
tais afirmações".
E invoca as semelhanças que ele vê entre a Abordagem
Centrada na Pessoa e a Pedagogia do Oprimido, para refutar a crítica. Diz :
"Os princípios sobre os quais (Freire) assenta seu trabalho são tão
semelhantes aos princípios de ‘Liberdade para Aprender’, que eu fiquei
boquiaberto e estarrecido.
"Concordo com as concepções de Freire. Já
indiquei, ao falar de educação, que eu estenderia os princípios básicos, sobre
os quais ambos parecemos estar de acordo, a todas as situações de aprendizagem."
De início, é interessante observar a disposição de Rogers de assumir os
pontos de contato entre sua abordagem e a de Freire.
Salta aos olhos, de
início, também, o fato de Rogers colocar o problema em termos de minorias
étnicas e raciais oprimidas. Sem querer desqualificar as lutas de libertação e
de afirmação dessas minorias no contexto da comunidade Norte Americana, é
imperioso reconhecer que a questão principal para qualquer humanista não é esta.
Não se trata simplesmente, no contexto da America Latina, de minorias étnicas e
raciais oprimidas, mas das maiorias economicamente oprimidas. Maiorias que são o
sub-produto necessário de um sistema capitalista de produção, de uma cultura
capitalista, que, ao produzir de um lado a acumulação capitalista nas mãos de
uns poucos, produz, necessariamente, do outro lado, a pobreza e a miséria
necessária a sua própria manutenção e reprodução. Um sistema que de há muito
extrapolou as fronteiras nacionais, e que cria e mantém agora a pauperização de
nações inteiras. Um sistema que, junto com a burocracia socialistóide, ameaça
com a aniquilação a todo o Planeta.*
No texto citado, Rogers coloca:
"Eu dirigia-me a estudantes em
instituições de ensino. Ele (Freire) fala sobre o trabalho com camponeses
amdrontados e oprimidos. Gosto de dar exemplos concretos, ele usa quase só
elementos abstratos. Ainda assim, os princípios sobre os quais assenta o seu
trabalho são tão semelhantes aos princípios de ‘Liberdade para Aprender’ que
fiquei boquiaberto e estarrecido.
"Eis o seu método de trabalho e os
resultados que obteve junto aos lavradores..."
Neste trecho, Rogers parece sugerir uma observação sobre uma atitude
idealista de Freire ("...Gosto de dar exemplos concretos, ele usa quase só
elementos abstratos. Ainda assim..."). Esta observação, e o que dela implica soa
absurda para qualquer pessoa que conheça Freire ou a sua obra. Rogers refere-se
certamente a Pedagogia do Oprimido, e talvez não tenha captado adequadamente a
natureza daquele trabalho como o momento maior de reflexão de uma intensa
práxis. Tão real e concreta que conduziu Freire à prisão e ao exílio. Prisão e
exílio que não ocorreram simplesmente por causa de suas idéias, mas,
principalmente, em função de uma práxis que, àquela altura, mobilizava milhares
de pessoas, em todo o Brasil, em um amplo trabalho de alfabetização de adultos,
práxis da qual as idéias de Pedagogia do Oprimido eram um momento maior de
reflexão. De qualquer forma, foi uma práxis que não se interrompeu, que
prosseguiu e que tornou Freire conhecido nos lugares por onde passou, nos
dezesseis anos de exílio. Pedagogia do Oprimido foi editado originalmente no
Chile, e culminava todo um trabalho já desenvolvido no Brasil. Era, assim, o
ponto culminante de teorização de uma longa e profícua prática. Tomá-lo
isoladamente não faz justiça ao trabalho de Freire.
Rogers propôe-se a
descrever a metodologia e resultados de Freire: "...eis o seu método de trabalho
e os resultados que obteve junto aos lavradores..." A descrição e a análise que
se seguem, em todo o capítulo, nas quais Rogers baseia suas comparações da ACP
com a PO, são extremamente superficiais, apressadas e comprometidas gravemente
pela omissão dos princípios teóricos e filosóficos das idéias e da metodologia
de Freire.
As idéias e método de Freire são -- expressão que ele mesmo gosta
de usar -- datados e situados. Surgiram no Brasil, no final dos Anos Cinquenta e
início dos Anos Sessenta. Um momento em que as massas populares brasileiras
tomavam consciência de si, e se mobilizavam para participar ativa e efetivamente
de sua história, após séculos de alienação e exclusão do poder de decisão sobre
suas condições concretas de vida. Freire via na educação, naquele momento, e em
particular na alfabetização -- já que somos um país com uma grande maioria de
analfabetos --, um momento pedagógico fundamental para que esta participação
pudesse orientar-se de uma forma consciente, desalienada, não fisiológica,
fundamentada sobretudo na realidade concreta do educando e na possibilidade de
sua transformação . Começou a desenvolver a idéia que impregnou e que dá sentido
a seu método:
"... uma compreensão crítica do ato de ler, que não se esgota
na decodificação pura da palavra escrita ou da linguagem escrita, mas que se
alonga na inteligência do mundo. A leitura do mundo precede a leitura da
palavra, daí que a posterior leitura destas não possa prescindir de continuidade
da leitura daquela. Liguagem e realidade se aprendem dinamicamente. A
compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica, implica a
percepção das relações entre o texto e o contexto" .
Num outro momento, Freire coloca:
"A violência dos opressores, que os faz
também desumanizados, não instaura uma outra vocação -- a do ser menos como
distorção do ser mais, o ser menos leva os oprimidos, cedo ou tarrde, a lutar
contra quem os fez menos. E essa luta somente tem sentido quando os oprimidos,
ao buscar recuperar a sua humanidade, que é uma forma de criá-la, não se sentem
idealisticamente opressores, nem se tornam, de fato, opressores dos opressores,
mas restauradores da humanidade em ambos".
Fiori sintetiza:
"A alfabetização, portanto, é toda a pedagogia: Aprender
a ler é aprender a dizer a sua palavra. E a palavra humana imita a palavra
divina: é criadora.
"A palavra é entendida, aqui, como palavra e ação; não é
termo que assinala arbitrariamente um pensamento, que por sua vez discorre
separada da existência. É significação produzida pela ‘práxis’, palavra cuja
discursividade flui da historicidade -- palavra viva e dinâmica, não categoria
inerte, exâmine. Palavra que diz e tranforma o mundo. (...)
"Dizer a sua
palavra equivale a assumir conscientemente, como trabalhador, a função de
sujeito de sua história, em colaboração com os demais trabalhadores -- o povo.
Desta forma, Freire inseria-se fundamentalmente e por princípio no movimento histórico concreto de seu sistema social, em busca de uma pedagogia que se colocasse a serviço do oprimido no processo de sua libertação, permitindo-lhe converter-se em agente de transformação dela. De objeto e vítima passiva da história, em seu sujeito, pela leitura, conscientemente crítica, do mundo, e pela conquista da capacidade de dizer a sua palavra. A educação foi, e é, entendida na sua dimensão essencialmente política, de participação no processo de constituição do estudante como sujeito e como agente de sua história -- a sua própria e a de seu sistema social. Freire desenvolveu, assim, um método revolucionário de alfabetização, que propicia a alfabetização em quarenta dias de um adulto analfabeto, em seu próprio meio. Desenvolveu inúmeras experiências no interior do Brasil, dentre as quais as aludidas por Ivan Illich em Sociedade sem Escolas .
O movimento militar de 1964 alcançou-o quando coordenava, junto ao Ministério
da Educação, um amplo programa de alfabetização para todo o país, no qual
achavam-se envolvidas milhares de pessoas, entre educadores e educandos.
Funcionários do governo Norte-Americano, que prestavam serviço no Brasil naquele
momento, opinaram que o método era revolucionário, e que poderia produzir
profundas mudanças.
Depois do golpe militar, Paulo Freire foi exilado.
Esteve no Chile de Allende, onde dedicou Pedagogia do Oprimido, em 1979, "Aos
esfarrapados do mundo e aos que neles se reconhecem, mas que sobretudo com eles
lutam" . Foi para a Europa, trabalhou na Itália. Na Suíça, passou a asessorar o
Conselho Mundial de Igrejas, e fundou um instituto -- O IDAC, Instituto de
Desenvolvimento de Ação Cultural -- em Genebra. Solicitado, deu asessoria, junto
com o pessoal do IDAC, na estruturação dos sistemas educacionais das jovens
Nações Africanas recém libertadas do colonialismo português. Estas experiências
estão relatadas em livros, em particular em Cartas à Guiné-Bissau e
Vivendo e Aprendendo . Voltou ao Brasil, em 1980, desenvolvendo atualmente seus
trabalhos como professor da Universidade Católica de São Paulo e da Universidade
de Campinas. É também professor visitante da Universidade de Havard, nos Estados
Unidos.
Acho difícil que se entenda a postura de Freire, sem que se evoque a
sua postura Marxista-Cristã de compreensão de nossa realidade e da inserção
desta na realidade mundial. Postura de compreensão da possibilidade, e da
necessidade de sua superação, de seu processo de transformação. Por outro lado,
Freire é, essencialmente, um homem do diálogo. Um mágico da vivência de palavras
para dizerem e viverem verdades. O diálogo, aqui, não é simplesmente o do
conceito vulgar, mas o diálogo entendido como atitude dialógica, no
sentido em que o entendeu M. Buber . (Este parece ser, consistentemente, um
ponto de contato entre a sua Pedagogia do Oprimido e a Abordagem Centrada na
Pessoa, que voltarei a comentar adiante). Um apaixonado pelo homem e pela vida,
um humanista radical, que só pode entender o humanismo como um processo
radicalmente comprometido com o desenvolvimento do homem todo e de todos os
homens, como dise Malraux. Sua prática científica, pessoal e profissional, é uma
prática fundamentada nesses ideais. Sua produção está, concreta e
explicitamente, a serviço do processo de transformação das estruturas que mantêm
e criam as desigualdades entre as pessoas e entre as classes. Partindo da
crítica marxista do sistema capitalista de produção, como essencialmente iníquo
e desumanizante, Freire insere-se confiantemente no processo de sua superação.
Entende-se, assim, como fundamentalmente comprometido com o homem, através de
seu comprometimento como brasileiro nordestino, como brasileiro e como
latino-americano, com a transformação das estruturas que sustentam, de um lado,
a acumulação das riquezas, e, do outro, a produção e a manutenção da miséria às
raias do indizível. Tudo isto, que é tão intrínseco e essencial e necessário a
Paulo Freire e a seu método, não está mencionado no referido capítulo de Rogers
em Sobre o Poder Pessoal. Um Paulo Freire, e uma Pedagogia do Oprimido,
desvinculados destes elementos, estão essencialmente descaracterizados.
"Ele" (Freire), continua Rogers,
"teve apenas cinco anos para trabalhar
no Brasil, antes de ser preso; a antiga ordem e a Junta Militar que assumiu o
poder, em 1964, temiam-no. Ele foi convidado a deixar o País, indo para o Chile
onde, desde então, tem trabalhado com várias organizações internacionais"
Na
verdade, quem assumiu o poder no Brasil, em 1964, não foi uma Junta Militar, mas
um marechal do exército. A Junta Militar só assumiu em 1967. Quando Rogers
escreveu isto, em 1977, já se havia perpetrado, em 1973, o golpe militar no
Chile, com a decisiva participação da Embaixada dos EUA naquele País. Allende já
estava morto, assassinado, e Pinochet -- com o auxílio de especialistas Norte
Americanos dava sequência a uma sanguinária matança de cinco mil Chilenos. Paulo
Freire, tendo fugido mais uma vez, para não ser preso e eventualmente morto,
como dezenas de outros Brasileiros e Chilenos ilustres, estava na Suíça,
trabalhando para o Conselho Mundial de Igrejas... E Rogers não sabia muito bem
dele.
Acredito que Rogers tem razão, quando diz existirem similaridades entre a
Abordagem Centrada na Pessoa e a Pedagogia do Oprimido. Mas ele não chega a
localizá-las e atingí-las em suas colocações naquele capítulo. Parece-me que o
seu erro básico, como mencionei, é o de não considerar adequadamente a
alteridade fundamental da pedagogia do oprimido e das idéias de Freire, em
relação à Abordagem Centrada na Pessoa. Arranca-a de suas bases e de suas
raízes, para tentar uma comparação com um modelo delas abstraído. O que
consegue, de fato, é liquidá-la conceitualmente. Diz a Pedagogia do Oprimido com
a linguagem da Abordagem Centrada na Pessoa. Reduz a Pedagogia do Oprimido a
alguns conceitos nessa linguagem, o que configura -- sem querer pôr em questão a
honestidade pessoal de Rogers – um procedimento de aniquilação conceitual,
ideológica.
Parece-me que, se queremos desvendar relações que certamente
existem entre as duas abordagens, a despeito de suas diferenças, é necessário
valorizar estas diferenças, conhecê-las, analisá-las, ponderá-las, conversar
sobre elas, afirmá-las, respeitá-las, para, só então, no diálogo de alteridades,
afirmar as primeiras e buscar construí-las. A isto Rogers negligencia, nas
referências daquele capítulo de Sobre o Poder Pessoal, a respeito de Freire e da
Pedagogia do Oprimido. O que compromete vitalmente as suas colocações.
Maureen Miller, uma das mais próximas colaboradoras de Rogers nos últimos
anos, e uma das mais ativas construtoras do conhecimento recente da ACP,
ressalta, como observei no início, a presença das idéias de Freire no
desenvolvimento de seus próprios pontos de vista. No seu artigo "Psicoterapia,
Tecnologia da Mudança ou Busca de Conhecimento" , ela refere-se ao seu encontro
com a obra de Freire, que, segundo relata, deu-se ao mesmo tempo que o seu
encontro com a obra de Rogers:
"(...) uma das mulheres passou-me um capítulo
de um livro intitulado ‘Client-Centered Therapy’, de Rogers, intitulado
‘Educação Centrada no Estudante’ e ‘Pedagogy of the Opressed’, de Freire. Esses
dois livros abriram para mim um campo novo, e entrei nele como normalmente o
faço: completamente
Maureen tem se preocupado com as relações entre a ACP e a PO. No First
International Forum on the PCA, realizado na Cidade de Oaxtepec, no México, em
Julho de 1982, ela apresentou um trabalho sobre o assunto intitulado,
"Person-Centered Approach as Conscientização: The Works of Carl Rogers and Paulo
Freire". Quero tecer alguns comentários com relação a este texto. Logo no seu
início, Maureen comenta a natureza utópica das atitudes e idéias de Freire. Ela
coloca:
"Freire admite ser um utopista",
E cita-o:
"Conscientização
implica em utopia. Quanto mais conscientes nós somos, mais somos capazes de
denunciar o inumano e o desumanizante e de proclamar o humano, movendo-nos desta
forma sempre para mais próximos de um sonho utópico. Nosso desejo é o de
transformar."
Pelo que diz nesta passagem, Freire é um utopista. E a utopia é, de fato, um
ponto fundamental de sua obra. Mas, dizer apenas isto, é insuficiente para
definir a sua posição e a sua concepção de utopia. As idéias de Freire
fundamentam-se, essencialmente, numa visão materialista-histórica da realidade,
em oposição a uma concepção idealista. A utopia constitui-se a partir da negação
de uma ordem vigente, e do que está anunciado como possível nos elementos da
realidade histórica, como palavra histórica (Buber), que nos instiga a
constituir na ação uma resposta. Diante do ser menos do oprimido, Freire
identifica em ação a tendência viva para a transformação, a tendência intrínseca
para ser mais. No movimento da história ele identifica o movimento da classe
oprimida para transformar a sua condição. A utopia é fundamentalmente, para ele,
um possível histórico. Está arraigada naquilo que a realidade prenuncia como
passível de ser construído pelo risco da ação transformadora. Este prenúncio e
possibilidade históricos são condições necessárias da utopia de Freire: seu
sonho utópico constitui-se da interação ativa com a realidade material (em
oposição à ideal). Germina da realidade concreta e nela desemborca, tanto para
nutrir-se como para realizar-se. Dizer, pois, simplesmente, que Freire é um
utopista, sem clarificar adequadamente estas dimensões de sua utopia, não define
devidamente a sua atitude.
Num outro trecho de seu trabalho, Maureen faz as
seguintes colocações:
"Existem similaridades técnicas entre a pedagogia do
Oprimido... e as Abordagens centradas na pessoa à terapia, educação e
facilitação de grupo... Seria um erro, entretanto, assumir que tecnologias
similares significam resultados similares...
Não acredito que os aspectos
importantes, quer da pedagogia de Freire quer das abordagens centradas na pessoa
sejam baseados em suas tecnologias.
Quando indagamos sobre os fins, temos um
quadro mais claro do compromisso dos dois homens. Torna-se possível ver em que
medida os seus trabalhos são baseados em uma visão similar da vida humana, em
que medida eles são baseados numa análise similar e em que medida suas práticas
são compatíveis".
E mais adiante:
"Carl Rogers e Paulo Freire passaram suas vidas de
trabalho em diferentes contextos. Rogers tem trabalhado predominantemente com
membros da classe média da cultura dominante, pessoas muito parecidas com ele
próprio. Freire trabalha predominantemente com pessoas dominadas, camponeses
iletrados, no terceiro mundo. Esta diferença não pode ser vista de uma forma
superficial, especialmente quando se compara os trabalhos dos dois homens ao
nível de suas tecnologias; comportamentos que são libertadores em um contexto
podem muito bem ser opressivos em outros.
"Para entender a correspondência
entre os trabalhos dos dois homens, é necessário ir por sob conceitos de
superfície, tais como técnica. O trabalho de Freire não é revolucionário por
causa de seus compromissos com camponeses do terceiro mundo. Existem exemplos
dos tão falados libertadores dos oprimidos que simplesmente continuam as táticas
de dominação. O trabalho de Freire é revolucionário em função de seu
comprometimento com a verdade da realidade.
"O trabalho de Rogers pode ser
reformulado e reconhecido pelo que ele realmente é -- um processo de busca
sistemática da verdade da realidade. Não são nem a não diretividade, nem a
expressão de sentimentos que fazem as abordagens centradas na pessoa
terapêuticas. É o conhecimento ou consciência crítica, sobre sua própria
condição, que cura.
"Pessoas em diálogo umas com as outras e com o mundo
expressam sua herança humana plena. Ainda que diferentes contextos imponham
diferentes problemas técnicos, quer seja no contexto de uma favela brasileira,
de uma sessão de aconselhamento norte- americana ou de um grande grupo de
comunidade, esta atividade humana é revolucionária, terapeutica e
transformadora.
"A abordagem centrada na pessoa teve suas origens numa busca
de estratégias de libertação de pessoas oprimidas por ideologias desumanizantes,
instituições, tecnologias, crenças religiosas, mitos pessoais e ortodoxias. O
objetivo terminal da intervenções centradas na pessoa era ‘tornar-se uma
pessoa’. Rogers está comprometido a ajudar pessoas a se tornarem quem, no mais
profundo de seus corações, elas sabem ser, diferentes da multidão.
"Freire
tem exatamente o mesmo objetivo.
Considero importante o trabalho de Maureen sob vários aspectos diferentes.
Tanto no sentido de ser um movimento da Psicologia em direção à Pedagogia do
Oprimido, como já observei, como no sentido de que aprofunda uma análise crítica
das relações entre a ACP e a PO, ressaltando aspectos que me parecem relevantes,
como, por exemplo, o de que eventuais pontos de contato não se dariam ao nível
tecnológico. Acredito, na verdade, ser este trabalho de Maureen um momento de um
processo de tentativas de entender e afirmar, por entre profundas diferenças,
entre as duas abordagens, a intuição de inesperados, e certamente preciosos
(quem sabe profundos), pontos de contato. Processo este, no qual busca
inserir-se o presente trabalho. Mesmo assim, considero que, parte significativa
das afirmações que são feitas no texto de Maureen, relativas às identidades
entre as posturas e trabalhos de Rogers e de Paulo Freire pecam, ainda, por
fundamentarem-se numa consideração superficial para com a obra e trabalhos de
Freire. Para a formulação de analogias ou paralelos, são comuns neste texto
generalizações e, eventualmente, afirmações que negligenciam ou desconsideram
aspectos dos mais básicos e essenciais da obra Freire.
Nos trechos citados
acima, está muito das teses de Maureen neste trabalho. Teses que talvez possam
ser sumariadas nos seguintes itens:
a) "Existem muitas similaridades
técnicas entre a pedagogia do oprimido... e as ‘abordagens centradas na
pessoa’... seria um erro, entretanto assumir que tecnologias similares
necessariamente significam resultados similares";
b) "Quando indagamos sobre
os fins, temos um quadro mais claro do compromisso dos dois homens..." "Rogers
está comprometido a ajudar pessoas a tornarem-se quem, no mais profundo de seus
corações, elas sabem ser, diferentes da multidão". ..."Freire tem exatamente o
mesmo objetivo";
C) "Quando indagamos sobre os fins, torna-se possível ver
em que medida os seus trabalhos são baseados em uma visão similar da vida
humana, em que medida eles são baseados numa análise similar, e em que medida
suas práticas são compatíveis";
d) "Carl Rogers e Paulo Freire passaram suas
vidas de trabalho em diferentes contextos. (...) Esta diferença não pode ser
vista de uma forma superficial (...)";
e) "O trabalho de Freire não é
revolucionário por causa de seu compromisso com camponeses do terceiro mundo
(...) é revolucionário em função de seu compromisso com a verdade da realidade".
São importantes as observações de Maureen com relação ao fato de que
eventuais similaridades não derivariam necessariamente de tecnologias similares,
e que, tecnologias similares podem levar a fins diversos. Em primeiro lugar, não
obstante, não vejo explicitadas similaridades técnicas significativas entre a PO
e a ACP. A PO tem um encadeamento de procedimentos técnicos específicos (que, de
fato não é a sua dimensão principal), através do qual, ao se abordar uma certa
comunidade, pesquisa-se o seu universo vocabular, e identifica-se os temas
geradores, através dos quais será confeccionado o material a ser adotado nos
círculos de cultura. São procedimentos especificamente definidos, que, enquanto
tais, não guardam similaridade com o que poderíamos chamar de aspectos técnicos
da ACP, que não extrapolam o momento específico do encontro. Os procedimentos
técnicos da PO articulam-se explicitamente com a totalidade histórico social
mais ampla, na qual grupo e indivíduo se inserem; e têm por objeto de trabalho
os vínculos materiais, culturais, cognitivos e afetivos específicos desta
inserção, de suas consequências na determinação da constituição do indivíduo e
do grupo. Já a ACP não explicita, na formulação de seus procedimentos técnicos,
as relações da condição e atuação do terapeuta, ou do educador, com o grupo e
com a totalidade sócio-histórica na qual eles se inserem. Eventualmente são
feitas alusões à totalidade planetária. Tal procedimento, entretanto, não leva
em consideração as totalidades intermediárias, que mediatizam a inserção da
condição do indivíduo, do grupo, do terapeuta ou educador, no contexto global.
Quanto a "fins comuns" nos trabalhos de Rogers e de Freire, parece-me uma
afirmação exagerada. Claro que podemos indicar aspectos que poderíamos
identificar como fins comuns em ambos os conjuntos de idéias. Mas, ao
elevarmos esses fins comuns ao nível de uma identidade dos objetivos de ambos,
tomamos os respectivos conjuntos de idéias, e em particular a PO, num nível tal
de genericidade que as descaracterizamos completamente.
É importante
observar que a palavra oprimido, na terminologia da ACP e na terminologia da PO
respectivamente, não se refere a uma mesma condição. Referem-se, em cada caso, a
conceitos de dois universos teóricos diferentes. E é certamente impossível
reduzir um conceito ao outro, do modo como ambos estão formulados.
Por outro
lado, entendendo-se explicitamente como agente concreto, histórico, o objetivo
de Freire parece ser o de desenvolver uma prática educacional que possibilite ao
educando oprimido a leitura conscientemente crítica de sua realidade. De forma
que ele tenha condições de desmistificar a sua própria explicação de sua própria
condição existencial, e reconhecer-se como membro de um segmento social de
oprimidos e sofredores. E não apenas como individualidade sofredora e oprimida.
De tal modo que ele possa, assim -- na descoberta, invenção e compartilhamento
da consciência de seu sistema social particular, totalidade mais ampla e
concreta da condição de sua opressão e do seu sofrimento --, proferir, de forma
agora conscientemente crítica, a particularidade e a universalidade de sua
palavra como ser humano oprimido, que luta pela libertação e resgate de sua
humanidade e do potencial de sua constituição, juntando sua voz à dos outros
como ele oprimidos, passando a constituir-se, desta forma, como sujeito ativo de
sua própria história e da história de sua integração social. Agora não mais,
simplesmente, como objeto passivo e vítima destas.
As formulações dos
respectivos fins em Rogers e Freire são formulações muito diversas, oriundas de
interesses diversos, e com inspirações diversas. Temos em Rogers, certamente,
uma inspiração no existencialismo monádico de Kierkegaard, que conduz ao
individualismo e, no limite, ao desespêro, como resíduo da existência. E, em
Freire, a rebeldia marxiana diante da injustiça e da iniquidade, que busca a sua
articulação social. Neste sentido, parece-me que não podemos dizer que Freire se
ocupa também da restauração "da voz de cada pessoa". Para ele não se trata
exatamente de uma "restauração". Imerso no oceano de uma conjuntura
histórico-social que conspira contra a sua humanidade, e, não raro, contra sua
própria vida, o oprimido nunca pôde, em geral, ter e expressar a sua voz
enquanto dimensão profunda de sua condição e da necessidade de alteração dela. A
voz e a palavra que o oprimido potencializa-se para proferir através de sua
prática educacional são a sua palavra e voz emergentes do embate de seus
potenciais com a sua situação historicamente concreta de opressão e de
desumanização. São efetivamente a sua palavra e voz singulares como sujeito
individual, mas são igualmente, de uma forma intrínseca e indissociável, a
palavra e voz de um sujeito transindividual: palavra e voz do seu segmento
social, segmento este que configura-se com ele como um outro momento de uma
indissociável unidade enquanto objetos da opressão.
Esta questão
interpenetra-se com a questão relativa à colocação de Maureen de serem similares
as análises da sociedade feitas por Rogers e por Freire, e de serem similares as
suas respectivas visões da vida humana. Parece-me que existe, nestes termos, uma
distância quilométrica entre ambos.
Sem querer assumir uma atitude
maniqueísta, não parece, ao contrário do que afirma Maureen, que os trabalhos de
Rogers e de Freire, que a ACP e a PO, sejam baseadas em visões similares da
vida, ou que sejam baseadas em análises similares. Não se trata, simplesmente, a
meu ver, de uma diferença apenas ao nível dos aspectos tecnológicos; não se
trata apenas de uma diferença de ênfase ou meramente quantitativa, mas de uma
diferença nitidamente qualitativa.
A Pedagogia do oprimido parte, e tem como
método fundamentel, uma análise dialética marxista da sociedade. Desta análise,
extrai a sua visão da vida humana, e o seu conceito e caracterização do
oprimido. Entende a situação de opressão como historicamente engendrada, e
acredita na possibilidade de sua transcendência, buscando posicionar-se pratica
e ativamente como agente desta, através do natural processo de historicização.
Posiciona-se explicitamente pela perspectiva e causa do oprimido, e pelo
processo de sua luta de libertação. A sua prática só pode ser entendida dentro
destes referenciais, que lhe dão o seu sentido particular. O indivíduo que
assume a prática da PO, assume, e valoriza, a condição intrínseca de si como
agente histórico, na realidade social concreta em que está inserido.
Posicionando-se pela perspectiva e causa do oprimido, como causa da emancipação
do homem. Pela atuação no sentido da transcendência de sua condição, vista como
imanente ao processo histórico. Seus procedimentos técnicos referenciam-se nesta
explícita perspectiva e opção política.
Rogers e a ACP, mesmo quando se
referem ao oprimido, não assumem esta análise e perspectiva, e a visão que delas
deriva da condição e da vida humana, da condição e da vida do oprimido. Sua
prática reporta-se a um processo genérico de atualização do potencial decorrente
da tendência formativa do universo. Mas não vai mais além, no sentido de definir
este processo em termos mais claros e objetivos, no seio do processo histórico
social concreto.
A questão dos respectivos contextos em que evoluiu cada uma das abordagens,
mencionada por Maureen, parece uma questão fundamental. Tanto para uma
compreensão das determinações do processo de crescimento de cada uma delas, de
suas formas e conteúdos, como para uma análise de suas eventuais relações, e
para um eventual esclarecimento de condições para o desenvolvimento de relações
de diálogo entre os que as praticam. É claro que estes contextos determinam
particularidades significativas.
A ACP diferenciou-se e cresceu nos EUA, num
contexto de primeiro mundo. Na verdade, não se trata apenas do fato de que
Rogers trabalhou basicamente com pessoas da classe média. Isto não é suficiente
para definir a diferença do seu trabalho com relação ao de Freire. A classe
média Norte-Americana é essencialmente diferente da classe média
Latino-Americana, por exemplo.
A PO surgiu como resposta a uma condição
histórica particular da Sociedade Brasileira; como resposta à realidade da
opressão e ao movimento popular de busca de sua superação de uma maneira
concreta. Podemos dizer que a Abordagem Centrada na Pessoa surgiu e cresceu no
seio daqueles para cujas mesas carros e casas vai muito do que é expropriado do
corpo e do ser, da casa e dos pratos daqueles em cujo seio nasceu a Pedagogia do
Oprimido. (Sem maniqueísmo ou intolerância, vendo apenas as coisas de um modo
objetivo). A ACP disseminou-se pelo mundo. Em parte em função da disseminação do
poderio Norte-Americano do pós-guerra. Poderio este que contribuiu
importantemente para a manutenção da exploração e da opressão por cuja
transcendência milita a PO. Estes fatos dão uma dimensão das distâncias entre as
duas abordagens, e das dificuldades de uma busca de similaridades.
O fato de
que a ACP busca comprometer-se explicitamente com uma perspectiva humanista, e o
fato de que a PO não absolutiza, ou considera de forma intolerante ou
mecanicista a situação de opressão -- acreditando estar em jogo, no processo de
sua superação, a causa da libertação do homem como um todo e de todos os homens
-- nos dá alento, todavia, para acreditar na validade de uma busca de pontos
comuns e de pontos de contato entre as perspectivas e práticas da ACP e da PO.
Ainda assim, parece interessante e fundamental encarar, assumir e afirmar as
distâncias, diferenças e antagonismos dos contextos sócio-culturais e históricos
em que elas surgem. O agudo conflito em que estes contextos co-existem, e as
implicações teóricas, práticas e existenciais que daí derivam. Transplantada
para os países de terceiro mundo, a ACP tendeu a radicar-se aí, praticamente
inalterada e inquestionada, no meio da classe dominante ou de classes a seu
serviço, contribuindo, frequentemente, com os propópsitos da alienação. A PO
surge e desenvolve-se como produção dos interesses daqueles oprimidos das formas
mais degradantes, que nada têm a ver com os interesses dos segmentos sociais que
assumem e praticam a ACP num contexto de Terceiro Mundo.
Outra colocação que me parece passível de crítica no texto de Maureen, em
função do nível de sua generalidade e abstração, é a afirmação do compromisso
comum de Rogers e Freire com "a busca da verdade da realidade". Sem dúvida,
tanto Rogers, como Freire, sustentam este compromisso. Mas, mais uma vez, a
colocação, neste nível demasiadamente genérico, fica comprometida. A partir
deste nível, as idiossincrasias de cada uma das perspectivas inviabilizam, ou
pelo menos complicam, qualquer idéia de um compromisso comum. O compromisso de
Freire -- e nisto, ao contrário do que Maureen afirma, reside muito do caráter
revolucionário de sua prática e de suas idéias -- é, fundamentalmente o
compromisso com o oprimido. Um oprimido concreto, historicamente definido, "de
carne e osso". Um compromisso com o homem, de um modo geral, mas que se define
pelo seu compromisso com a América Latina, que se define pelo compromisso com o
Brasil, que se define pelo seu compromisso com a maltratada civilização do
Nordeste do Brasil.
Pelo próprio contexto de desenvolvimento do trabalho de
ambos, seria um tanto absurdo pensar em compromissos comuns, além do genérico
comprometimento com o homem e com a humanização (o que, sem dúvida, já é muita
coisa).
Maureen comenta:
"Pode-se argumentar que muitas formas de
desumanização surgem em função de um desequilíbrio de poder entre o indivíduo e
o grupo. As necessidades do grupo contrapõem-se as necessidades do indivíduo, e,
geralmente, o grupo ganha às expensas do indivíduo."
Isto é verdade, mas
coloca apenas uma concepção usual na ACP, que não leva em conta que a forma
básica de desumanização não surge de um desequilíbrio nas relações
grupo-indivíduo, mas das relações inter-grupos, ou seja, das relações entre as
classes, a dinâmica da interação das classes, que coloca como contradição o fato
de que, de um lado, se acumula o capital, e do outro a humanidade expropriada, a
miséria humana, econômica e existencial (miséria existencial esta que também se
acumula do lado do capital). Escamotear estes aspectos é impedir qualquer
possibilidade de compreensão da PO. É invisabilizar qualquer forma de
aproximação entre ela e a ACP. O referencial básico de preocupação da PO é a
condição do oprimido, enquanto indivíduo e enquanto classe, dentro e como
produto necessário do sistema capitalista de produção. O oprimido como agente de
superação dialética de sua condição, como agente de transformação da condição do
homem e de superação desse sistema.
Naturalmente que existe a preocupação
com o indivíduo enquanto envolvido nas relações indivíduo-grupo. Negar o
indivíduo seria negar um dos momentos da dialética do processo. Mas, da mesma
forma, restringir o grupo aos micro-grupos, sem reconhecer a totalidade mais
ampla que define a condição mais geral e básica do grupo e do indivíduo, seria
descaracterizá-los, aniquilá-los conceitualmente, reduzindo-os de seres
complexos e reais, com quem concretamente interagimos, a uma abstração. A
questão que se coloca, pois, não é simplesmente a das relações indivíduo-grupo,
mas, geralmente, a das relações grupos-grupos, totalidades que condicionam a
constituição das condições concretas da existência do indivíduo.
A seguir,
Maureen coloca:
"O foco do interesse de Rogers, é a conscientização, através
da exploração do mundo interior do indivíduo e do ambiente íntimo da relação
terapêutica. Rogers trabalha para ajudar indivíduos a explorar os mitos que eles
têm com relação a si próprios; a se tornarem mais conscientes e a mobilizarem os
seus recursos internos para tornarem-se mais plenamente eu*. (...) Ele também
reconhece a importância dos grupos na facilitação do crescimento individual,
trabalhando nos últimos anos quase que exclusivamente em contexto de grupos.
Mesmo na situação de grupo, entretanto, o que prende a atenção de Rogers é o
comportamento individual (usualmente emocional) dos participantes. Ele cita
frequentemente exemplos em que a expressão individual do eu ‘mudou o grupo’".
"Rogers não fala de questões de grupo, responde usualmente a alguém que
questiona eventos a um nível do grupo com algo do tipo. ‘Bom, eu gostaria de
saber como você se sente’. Quando um participante quer discutir a dinâmica de
poder, por exemplo, Rogers provavelmente quererá saber como o indivíduo está
experienciando o seu próprio ‘poder pessoal’ no momento (...) Rogers dá o
presente do reconhecimento pessoal, facilitando a ‘reumanização’ das pessoas aos
seus olhos e aos olhos de sua sociedade."
E prossegue:
"Freire, por
outro lado, foca muito de sua atenção sobre o grupo ou sobre a sociedade,
criando estratégias de ensino através das quais as pessoas podem explorar como o
grupo está funcionando de formas que incrementam as suas possibilidades ou
são-lhes detrimentais. Freire focaliza as forças sociais que promovem ou
conspiram contra a humanidade plena. Denuncia sistemas de organização humana,
ortodoxias e ideologias políticas que requerem a escravização de almas para o
seu funcionamento. Busca um sistema de organização em que o grupo não parasite a
força de vida do indivíduo" .
Nestes trechos, Maureen delineia diferenças significativas entre a postura de
Rogers e a de Freire. Como ela deixa claro, Rogers tem no indivíduo em si o seu
principal foco de interesse, ainda que reconheça "a importância dos grupos na
facilitação do crescimento individual, trabalhando nos últimos anos quase que
exclusivamente em contextos de grupo." Freire, por seu turno, interessa-se pelo
indivíduo e não o desqualifica como um valor em si, mas não vê nele, apenas, a
sua individualidade, ou a sua mera filiação a um dado sistema social. Entende
nele a sua transindividualidade, a particularização nele, também, das relações
deste sistema no interior da totalidade histórico-social concreta.
Ao que
parece, as relações interclasse e a sua particularização no indivíduo, que são
um ponto focal básico do interesse de Freire, não se constituem como um ponto de
interesse para Rogers. Emana daí uma diferença profunda entre ambos, nos modos
como cada um concebe o a pessoa, as respectivas práticas e realidades em que se
inserem.
Não me parece suficientemente exato dizer que "Freire foca muito de
sua atenção sobre o grupo ou sobre a sociedade(...)" Parece-me que Freire
foca a sua atenção, a partir de um análise marxiana da sociedade, sobre as
relações opressor/oprimido, e sobre o modo como a ideologia opressora
hegemonicamente coloniza e determina a consciência, as atitudes e comportamentos
do oprimido. Busca, neste contexto, o desenvolvimento, prática e descrição de
uma Pedagogia que seja meio de transformação da consciência colonizada do
oprimido, em consciência crítica de sua realidade, transformação do processo
concreto de sua constituição e manutenção, de forma que o seu comportamento,
assim desenvolvido, possa ser o de um agente na constituição da história de sua
libertação, que é a libertação dos oprimidos e humilhados.
Parece muito
genérico dizer que Freire "Denuncia sistemas de organização humana, ortodoxias e
ideologias políticas que requerem a escravização de almas para o seu
funcionamento". Que "busca um sistema de organização em que o grupo não parasite
a força de vida do indivíduo." Freire é muito específico ao adotar uma
análise especificamente marxista da realidade social, expurgada dos desumanismos
e dos desserviços prestados ao socialismo pelo stalinismo. Desta forma, como ele
gosta de falar, ele "denuncia e anuncia". E o que ele denuncia é especificamente
o modo de produção capitalista como iníquo, desumano e desumanizante. E anuncia
a sua natural transcendência, no bojo da libertação dos oprimidos. Assume a luta
pela perspectiva dos oprimidos como causa de libertação dos homens,
posicionando-se, na medida em que adota uma concepção dialética da história. O
interjogo dialético no qual ele fundamenta o seu trabalho, é a dialética da
interação conflituosa das classes sociais. E não, meramente, como está dito no
texto, "Um interjogo dialético ou luta entre um anelo por humanidade plena e a
tendência do grupo para dominar e consumir." A práxis, para Freire, é a própria
criação da realidade através da ação (e não, meramente, "exploração ativa") e
reflexão sobre esta ação. "Na terça, refletir sobre o que se fez na segunda,
para fazer melhor na quarta", diz Freire.
Mais adiante, Maureen coloca:
"ainda que a ênfase de Rogers seja pessoal e individualista e a de Freire
seja sobre forças sociais, isto não significa que o foco deles seja realmente
diferente. Não pode existir um indivíduo que não pertença a algum grupo social,
e não existe um grupo que não seja constituído por indivíduos. De fato, na
realidade humana, indivíduo e grupo podem ser pensados como aspectos diferentes
de uma mesma coisa. Quando definimos grupo nós incluímos os indivíduos. O
conceito de pessoa implica um auto-assertivo, expressivo e responsável membro da
família humana, tanto quanto o conceito de pescador* implica em homem, peixe e
água."
Mais uma vez me parece inexato dizer que Freire se foca em forças
sociais. O fluxo da história, da interação das forças sociais, segundo uma
interpretação materialista dialética, é um ponto importante da sua análise, mas
esta análise não se limita apenas a esta dimensão, ou tem este ponto como o mais
importante. Parece-me decididamente incompleto não mencionar que parte
fundamental de sua preocupação é o como estas forças se particularizam na
organização da consciência, ação e da condição do indivíduo oprimido, como
interagem com a sua intrínseca vocação de ser mais, de humanizar-se, e como, a
partir daí, a educação como prática de liberdade pode constituir-se como fator
de atualização -- e não de obstrução desta vocação. A concepção de Freire do
indivíduo, e das forças sociais, é essencialmente dialética. Se parte, por um
lado, da análise e busca de compreensão da sociedade, enquanto totalidade, e de
suas contradições, flui naturalmente para a particularidade do indivíduo, como
constituído e como constituinte destas. De tal forma que a consideração pelas
forças sociais configura-se, apenas e explicitamente, como um momento de suas
preocupações. Não me parece correto afirmar simplesmente que a sua ênfase seja
nessas forças sociais.
Por outro lado, se concordamos que é impossível a
existência de indivíduos que não pertençam a algum grupo, e que não existem
grupos que não sejam compostos por indivíduos, não podemos nos limitar, apenas,
a este nível genérico e altamente abstraído de formulação, para entender as
concepções de Freire. Seus indivíduos e os grupos aos quais eles pertencem são
datados e situados, constituídos historicamente, e em processo de
historicização. São, por exemplo, os Camponeses Nordestinos do Brasil do início
dos anos sessenta, ou os Operários dos anos oitenta. São os Camponeses Chilenos
do final da década de sessenta, os Operários Italianos dos anos setenta, o povo
libertado da Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe... O oprimido é entendido em sua
particularidade cultural e histórica, em sua atualidade concreta e enquanto
categria de um processo transcendente, que, ao constituí-lo como segmento social
diferenciado, já prenuncia a sua superação.
O conceito de pessoa implica num
auto-assertivo, expressivo e responsável membro da família humana, mas é
fundamental explicitar que, só na medida em que a pessoa é um auto-assertivo,
responsável e expressivo membro de uma sub-família humana, ou seja: de uma
cultura e de uma configuração sócio-histórica particular, que se articula com a
família humana mais ampla, é que ele se vincula a esta. Podemos dizer que entre
o indivíduo e a família humana existe a mediação necessária da cultura, na
atualidade de seu momento sócio-histórico.
Maureen coloca ainda:
"A
relação entre consciência individual e consciência coletiva está além do escopo
deste artigo, mas está provando ser uma nova e muito excitante direção de
estudo."
Este ponto parece-me ser um ponto fundamental para a consideração
do trabalho de Freire, uma vez que ele fundamenta-se basicamente nesta
intersecção, que configura-se, assim, como um ponto necessário para a
compreensão de suas idéias e posições. O como, na consciência do oprimido, a
consciência da classe oprimida é hegemonicamente dominada pela consciência da
classe opressora, processo que determina uma consciência fragmentada, que não se
organiza como consciência de seu sistema social, determinando o comportamento
alienado de suas necessidades, das necessidades de seu sistema social. Como uma
pedagogia pode desvelar a dominação e, desvelando a dominação, desvelar a
consciência da classe do oprimido na consciência do oprimido. De tal forma que
possa libertar a sua própria ação transformadora de sua condição e realidade.
Nesta síntese dialética, a consciência do oprimido -- a consciência da classe
opressora particularizada opressivamente, e a consciência da classe oprimida,
particularizada oprimidamente --, na superação deste momento pela emersão da
consciência do segmento social dos oprimidos na consciência do oprimido, na
medida em que ele desmistifica a sua visão do mundo e a visão de sua relação com
o mundo e com seus companheiros, é que reside o objeto de interesse da PO.
A FILOSOFIA DO DIÁLOGO DE BUBER, UM PONTO EM COMUM
Existe, ainda, um
ponto importante em que a PO e a ACP se relacionam de uma forma mais óbvia. É
curioso que ele não seja normalmente indicado. Trata-se da Filosofia do Diálogo
de Martin Buber. Tanto a ACP quanto a PO têm a filosofia de Buber como uma
importante fonte de inspiração.
A ACP incorpora perfeitamente esta filosofia
e, eventualmente, com ela se confunde. Em 1957, Rogers encontrou-se com Buber em
Ann Arbor, nos EUA. De lá para cá, cita-o frequentemente em suas obras, e
reconhece a similaridade de suas idéias com as de Buber. As idéias de Freire
têm, também, na filosofia de Buber uma fonte fecunda de inspiração. No sumário
do capítulo III de Pedagogia do Oprimido, dentre outros temas, Freire sintetiza:
"A dialogicidade -- essência da educação como prática de liberdade (...)".
O sumário do capítulo IV está assim colocado:
"A antidialogicidade e a
dialogicidade como matrizes de teorias de ação cultural antagônicas: a primeira
que serve à opressão; a segunda à libertação: a teoria da ação antidialógica e
suas características: a conquista, dividir para dominar, a manipulação, a
invasão cultural. A teoria da ação dialógica e sua características: a
colaboração, a união, a organização, a síntese cultural."
Neste ponto,
parece que temos um momento consistente de contato entre a ACP e a PO. A
valorização da relação imediata, e a valorização do desdobramento da atualidade
da experiência entre educando e educador, terapeuta e cliente, facilitador e
grupo. A valorização e o privilégio do encontro e desdobramento dialógico com a
alteridade com a diferença.
Como indicamos, todavia, é interessante observar
que a atitude dialógica na PO insere-se num contexto crítico em relação à
realidade, inserção esta que não caracteriza a ACP. A perspectiva de concepção
da historicidade concreta dos agentes de interação, e a perspectiva de concepção
de sua inserção numa realidade sócio-cultural e histórica, que são uma base
fundamental da PO, não estão presentes na ACP. Esta salta por sobre as mediações
sócio-culturais imediatas, reportando-se, de um modo generalizante, à humanidade
como um todo ou ao indivíduo particular.
Freire assume, de um modo radical,
a indicação de Buber:
"É necessário, para que o homem não chegue a se
perder, que a pessoa responda pela verdade na sua situação histórica. É
necessário que o Indivíduo enfrente todo o ser que lhe é presente e enfrente
também a coisa pública, e que responda por todo o ser que lhe é presente,
portanto também pela coisa pública."
Um diálogo ente a ACP e a PO?
Sem dúvida que é interessante!
Em
particular quando consideramos estas importantes e as vezes inesperadas fontes
de inspiração compartilhadas, como a filosofia de Buber. Quando consideramos um
inconformismo compartilhado com relação à desumanização, e uma crença comum na
possibilidade sempre latente de humanização efetiva e progressiva do ser humano,
enquanto pessoa e enquanto coletividade.
Um pressuposto fundamental,
todavia, parece ser o de que não podemos ignorar as diferenças e conflitos
diversos entre as duas abordagens e os seus praticantes, entre os contextos
sócio históricos dos quais elas emergem, desdobram-se e são praticadas.
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