PERSPECTIVAÇÕES ACERCA DA EXPERIMENTAÇÃO FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL 3
PERSPECTIVAÇÃO EM NIETZSCHE
A Experimentação no Estilo Afirmativo Experimental de uma Vida Que Experimenta.
Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo

LABORATÓRIO EXPERIMENTAL DE PSICOLOGIA FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL
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2000
PERSPECTIVAÇÕES ACERCA DA EXPERIMENTAÇÃO FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL 3
PERSPECTIVAÇÃO EM NIETZSCHE
A Experimentação No Estilo Afirmativo Experimental de uma Vida Que Experimenta.
Direi ao mesmo tempo uma palavra geral sobre a minha arte do estilo. Comunicar um estado, uma tensão interna de pathos por meio de signos, incluído o tempo desses signos -- eis o sentido de todo estilo; e considerando que a multiplicidade de estados interiores é em mim extraordinária, há em mim muitas possibilidades de estilo -- a mais multifária arte do estilo de que um homem já dispôs. Bom é todo estilo que realmente comunica um estado interior, que não se equivoca nos signos, no tempo dos signos, nos gestos -- todas as leis do período são artes dos gestos.
(F. Nietzsche)
O homem aprende que viver significa ousar, e a vida torna-se possível como experiência.
Eugen Fink
Devolver à existência a sua independência, a sua indeterminação e, por conseguinte, o seu caráter de empreendimento audacioso.
Eugen Fink
"... Pois muito bem! Vamos lá, experimenta-te. Mas não quero voltar a ouvir falar de nenhuma questão que não autorize a experiência. Tais são os limites da minha ‘veracidade’"
(F. Nietzsche)
(Nietzsche) se impõe a tarefa de libertar a vida dos valores da decadência de modo a poder criar novas formas de agir, novas possibilidades de vida, e, fundamentalmente, uma nova concepção do que seja pensar.
(Marcelo G. Barbosa)
O perspectivismo,
a perspectatividade de F. Nietzsche, o seu método perspectivativo, a perspectivação, característicos de sua obra, a gaya experimentação, de sua gaya scienza, parecem ser fontes seminais da concepção e na postura de experimentação fenomenológico* existencial que terminam por se constituir como uma das características mais marcantes, ricas, fundamentais e originais, da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial. Neste sentido, a influência da experimentação nietzscheana tem, também, uma história anterior, uma vez que ela já aparece como tal na decisiva influência que Nietzsche exerce sobre a constituição da experimentação e do caráter experimental do movimento artístico do Expressionismo, que, por sua vez, é uma das mais marcantes influências no processo de constituição da originalidade e força da Psicologia da Gestalt, da Gestalterapia e da Psicologia Humanista.
Acredito assim ser do mais alto interesse elucidar o sentido do método experimental perspectivativo de Nietzsche, de sua perspectivação, para uma elucidação fundamental, compreensão e desdobramento do sentido específica e propriamente experimental da Gestalterapia e da Abordagem Centrada na Pessoa, e das psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais.
A concepção do método perspectivativo de Nietzsche está bem constituída ao longo de sua obra, mas dispersa em vários momentos desta. Em função disto, e em função de sua natureza particular, é delicada a sua tematização, ainda que o tema seja forte. Buscamos a seguir desenvolver certas ópticas do mesmo, partindo de uma consideração acerca do lugar e sentido da consciência na concepção nietzscheana; comentamos, a seguir, o sentido da perspectivação e do perspectivismo como faculdade do juízo e da capacidade de avaliar alternativa à consciência; alternativa a suas, limitações, impropriedades, erros e doentia exacerbação; até chegarmos a uma exposição da evolução da cientificidade nietzscheana como evolução do seu conceito de experimentação, entendida esta eminentemente como perspectivação.
Uma contribuição marcante da obra de Nietzsche é a sua crítica da consciência como o modo superior do pensar humano.
Que nada! O homem pensa em múltiplos e intensos modos não conscientes. Na verdade, a consciência expressa apenas aquilo que é gregário, deixando de fora todo o resto do vivido. E a eleição e supervalorização da consciência nada mais é do que uma alienação e um sintoma doentio.
A perspectivação, sub e trans consciente, permite a expressividade da originalidade, a relativização perpectivativa da consciência, a afirmação da vida. A perspectivação, o método perspectivativo de Nietzsche, é a sua experimentação e a base da sua cientificidade. De um modo tal que não erraríamos, creio, se disséssemos que Nietzsche preconiza uma existência científica. Científica porque experimental, perspectivativa. Poieticamente* experimental e perspectivativa. De modo que o experimental perspectivativo em Nietzsche fundamenta toda uma conversão da existência, que pode ousar dar-se a si própria como referência, e afirmar-se.
O homem aprende que viver significa ousar, e a vida torna-se possível como experiência.
Devolver à existência a sua independência, a sua indeterminação e, por conseguinte, o seu caráter de empreendimento audacioso.
É este sentido que acredito que esteja no cerne das psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais.
DISTORÇÕES, IMPROPRIEDADES E LIMITES DA CONSCIÊNCIA.
Erro do Juízo e da Capacidade de Avaliar.
Uma das contribuições marcantes de Nietzsche, como dissemos, é a de deixar muito claros os limites da consciência reflexiva, e do intento da civilização ocidental em erigi-la em apanágio superior do humano e da humanidade, fundamento de um certo sujeito. Na verdade, Nietzsche aponta para os erros, distorções e, evidentemente, perigos deste intento.
"... se não fosse o laço dos instintos...", diria ele.
Na sua crítica ao privilégio da consciência e do conhecimento, em detrimento das experiências vivenciais, Nietzsche observa:
"Nós, homens do conhecimento, não nos conhecemos; de nós mesmos somos desconhecidos – e não sem motivo. Nunca nos procuramos: como poderia acontecer que um dia nos encontrássemos? Com razão alguém disse: "onde estiver teu tesouro, estará também o teu coração"*. Nosso tesouro está onde estão as colméias do nosso conhecimento. Estamos sempre a caminho delas, sendo por natureza criaturas aladas e coletoras do mel do espírito, tendo no coração apenas um propósito – levar algo "para casa". Quanto ao mais da vida, as chamadas "vivências", qual de nós pode levá-las a sério? Ou ter tempo para elas? Nas experiências presentes, receio estarmos sempre "ausentes": nelas não temos o nosso coração – para elas não temos ouvidos. Antes, como alguém divinamente disperso e imerso em si, a quem os sinos acabam de estrondear no ouvido as doze batidas do meio-dia, e súbito acorda e se pergunta "o que foi que soou?", também nós por vezes abrimos depois os ouvidos e perguntamos, surpresos e perplexos inteiramente, "o que foi que vivemos?", e também "quem somos realmente?", e em seguida contamos, depois, como disse, as dozes vibrantes batidas da nossa vivência, da nossa vida, nosso ser – ah! E contamos errado... Pois continuamos necessariamente estranhos a nós mesmos, não nos compreendemos, temos que nos mal-entender, a nós se aplicará sempre a frase: "Cada qual é o mais distante de si mesmo" – para nós mesmos somos "homens do desconhecimento"...
Não que Nietzsche despreze a consciência, ele apenas aponta para o fato de que é na vida não exatamente reflexiva que se desenvolvem as transformações de que a vida consciente é mera dependência. Dependência esta modelada pela vida social. A consciência é dependência do social, nossos atos, entretanto, são pessoais e singulares, e não há como fazer coincidir consciência e ação.
Penso, como se vê, que a consciência não pertence essencialmente à existência individual do homem, mas, pelo contrário, à parte de sua natureza que é comum à totalidade do rebanho; que não foi, por conseqüência, subtilmente desenvolvida senão na medida de sua utilidade para a comunidade, o rebanho; e que a despeito da melhor vontade que podemos pôr em 'nos conhecermos', em perceber o que há de mais individual, nenhum de nós jamais poderá tomar consciência senão do seu lado individual e 'médio'; que o nosso próprio pensamento se encontra sem cessar de algum modo 'melhorado' pelo caráter da consciência -- pelo 'gênio da espécie' que comanda no seu seio -- e retraduzida na língua imposta pela perspectiva do rebanho. Todos os nossos actos são, bem no fundo, supremamente pessoais, únicos, individuais, incomparáveis, certamente; mas desde que a consciência os traduz na sua língua deixam de parecer assim...
O sentido mais forte e vital da consciência encontra-se, exatamente, nas formas, intensidades e fluxos, vontades, forças, de sua desmesura, transconsciência. Tal o tamanho do erro da civilização ocidental, socrática. A supervalorização da consciência é para Nietzsche um perigo, e mesmo uma doença. Pelo simples fato de que a consciência reflexiva é afastamento da vida e do mundo, da vontade afirmativa, desvitaliza, e não é hábil para lidar com a multiplicidade do vivido, com os fluxos de suas intensidades, nexos necessários e transmutações.
São, não obstante, os processos mais elaborados e refinados da própria consciência reflexiva que são, na cultura da civilização ocidental, tomados como definidores do humano, e exercitados a níveis preocupantemente tóxicos.
Nietzsche observava o erro do juízo e da capacidade de avaliar, que se configura como a constituição, tomada e super valorização do conceitual em sua pureza abstrata, a perda de seu movimento, de sua história, de seus nexos, paradoxos e transmutações, vividos. A tomada e a constituição de antípodas metafísicos, que só são possíveis enquanto tais na medida em que a consciência conceitual é desta forma despossuída, reificada e adotada.
Comentando alegoricamente as características de seu personagem, em O Lobo da Estepe, Hermann Hesse coloca, de um modo primoroso, algo da crítica nietzscheana, creio, e algo da óptica do seu perspectivismo,
(...) Tudo o que há de feroz dentro de si ele atribui ao lobo e o tem por mau, perigoso e terror dos burgueses; mas ele que, no entanto, se acredita um artista e supõe ter sensibilidade, não é capaz de ver que fora do lobo, atrás do lobo, vivem no seu interior muitas outras coisas: que nem tudo o que morde é lobo; que dentro de si habitam também a raposa, o dragão, o tigre, o macaco e a ave-do-paraíso, e que todo este mundo é um éden cheio de milhares de seres, formosos e terríveis, grandes e pequenos, fortes e delicados, mundo asfixiado e cercado pelo mito do lobo -- tanto como o verdadeiro homem que nele há é asfixiado e preso apenas pela sua aparência de homem, pelo burguês.
Imagine-se um jardim de cem espécies de árvores, com mil variedades de flores, com cem espécies de frutas e outros tantos gêneros de ervas. Pois bem: se o jardineiro que cuida deste jardim não conhece outra diferenciação botânica além do 'joio' e do 'trigo', então não saberá que fazer com nove décimas partes do seu jardim, arrancará as flores mais encantadoras, cortará as árvores mais nobres, ou pelo menos ter-lhes-á ódio e as olhará com maus olhos. Assim faz o Lobo da Estepe com as mil flores de sua alma. O que não está compreendido na designação pura e simples de "lobo" ou de "homem" nem sequer merece a sua atenção. E quantas qualidades ele empresta ao homem! Tudo o que é covarde, símio, estúpido, mesquinho, desde que não seja muito, diretamente lupino, ele o atribui ao "homem", assim como atribui ao "lobo" tudo o que é forte e nobre, só porque não conseguiu ainda dominá-lo."
A alegoria de Hesse parece bem traduzir a crítica e o lamento de Nietzsche com relação às lamentáveis conseqüências da indevida sobrevalorização da consciência do homem da modernidade.
De modo que a filosofia de Nietzsche constata, assim, a pobreza e a limitação da consciência. E, em particular, da contraposição metafísica de antípodas não misturáveis, na interpretação da realidade, no conhecimento e nos valores. Na verdade, ele entende especificamente esta contraposição metafísica como um erro da razão e da faculdade de ajuizar.
A perfeição do conceitual, e a nossa adicção a esta perfeição, faz com que percamos a história da constituição do conceito, e que o queiramos, e a ele queiramos ingerir, de um modo viciosamente puro e perfeito, asséptico de uma história vivida, de seus nexos e dos processos de suas possibilidades e transmutações.
Pessoa, na linha de Hesse, ressoa Nietzsche, na sua perspectatividade alternativa à "pureza" do conhecimento conceitual e ao reducionismo dos antípodas não misturáveis, que não dão conta das multiplicidades do efetivamente vivido e de seus enraizamentos,
Multipliquei-me, para me sentir
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-me,
E há em cada canto de minha alma um altar a um deus diferente.
Na verdade, o conceito e o conceitual têm a sua história vivida aquém da consciência conceitual, na fenomenação da multiplicidade de possibilidades de ser. Perder esta história configura-se como o limite próprio da consciência, e o erro de sua sobrevalorização.
Niertzsche observa com relação à perfeição do conceito e do conceitual:
"Estamos habituados, perante tudo que é perfeito, a omitir a questão de seu processo evolutivo, regozijando-nos antes com a sua presença, como se ele tivesse saído do chão por artes mágicas. Provavelmente, estamos ainda, neste caso, sob o efeito residual de um antiquíssimo sentimento."
O isolamento e a abstração do conceitual não levam em conta o fato de que o conceito é momento de um processo de transformações, não levam em conta o seu caráter eminentemente perspectivo e ilusório. Como tudo, o conceitual deriva e tem a sua história, e os seus múltiplos e cambiantes nexos na vida irreflexiva.
No prefácio da edição portuguesa de Humano Demasiado Humano, Antonio Marques comenta:
O problema não está no próprio acto de incluir este acto ou comportamento na esfera de um conceito (subsunção do juízo) mas sim no próprio conceito que se apresenta, como se fosse um domínio perfeitamente delimitado, sem uma história própria. Pelo contrário, os conceitos, a partir dos quais ajuizamos, necessitam eles próprios de ser avaliados e, se o fizéssemos, haveríamos de perceber que eles têm a sua história, a qual é uma história de transmutação e alteração de funções.
No Gaya Ciência, Nietzsche explicita a sua apreciação da consciência, e observa:
A consciência é a última fase da evolução do sistema orgânico, por conseqüência também aquilo que há de menos acabado e de menos forte neste sistema. É do consciente que provém uma multidão de enganos que fazem com que um animal, um homem, pereçam mais cedo do que seria necessário, "a despeito do destino", como dizia Homero. Se o laço dos instintos, este laço conservador, não fosse de tal modo mais poderoso do que a consciência, se não desempenhasse, no conjunto, um papel de regulador, a humanidade sucumbiria fatalmente sob o peso de seus juízos absurdos, das suas divagações, da sua frivolidade, da sua credulidade, numa palavra do seu consciente: ou antes, há muito tempo que teria deixado de existir sem ele!
(...) Considera-se que o consciente é uma constante! nega-se o seu crescimento, as suas intermitências! É considerado como "a unidade do organismo"! Sobrestima-se, desconhece-se ridiculamente, aquilo que teve a conseqüência eminentemente útil de impedir o homem de realizar o seu desenvolvimento com demasiada rapidez. Julgando possuir a consciência, os homens pouco se esforçaram por a adquirir; e hoje ainda estão nisto! Trata-se ainda de uma tarefa eminentemente actual, que o olho humano apenas começa a entrever, a de se incorporar o saber, de o tornar instintivo no homem".
Como observamos, assim, Nietzsche entendeu que a consciência não é a fonte da força, e que a consciência não é pessoal. A consciência, tal como elaborada pela humanidade constitui-se a serviço do gregário, e é na verdade, dimensão do consenso do social, da vida social, e não do singular. Ao mesmo tempo que as ações são singulares e pessoais, a consciência está a serviço do coletivo.
O problema da consciência (ou mais exactamente da consciência em si) só se nos apresenta no momento em que começamos a compreender por onde é que poderemos lhe escapar(...). Podemos, com efeito, pensar, sentir, querer, lembrarmo-nos; poderemos igualmente 'agir' em todas as acepções do termo, sem ter consciência de tudo isso. A vida inteira poderá passar sem se olhar neste espelho da consciência
(...), na maior parte da sua actividade, mesmo a mais alta, pensamento, sentimento, vontade,(...) decorre sem reflexo, sem reflexão. Para que serve a consciência se é supérflua para o essencial da existência? (...) a força e a acuidade da consciência me parecem estar sempre em razão directa com a capacidade do homem (ou animal) em se exprimir, e esta mesma capacidade em proporção da necessidade de se comunicar. (...)
E continua:
(...) A consciência é apenas uma rede de comunicação entre homens; foi nesta única qualidade que se viu forçada a desenvolver-se (...). Porque como toda criatura viva, o homem, repito, pensa constantemente, mas ignora-o; o pensamento que se torna consciente representa apenas a parte mais ínfima, digamos a mais superficial, a pior, de tudo aquilo que pensa: porque só existe o pensamento que se exprime em palavras, quer dizer, em sinais de trocas, o que revela a própria origem da consciência. Em resumo, o desenvolvimento da linguagem e o desenvolvimento da consciência (não da razão, mas somente da razão que se torna consciente de si própria), estes dois desenvolvimentos caminham a par. Acrescentemos que a língua não é a única a servir de ponte de homem para homem, que existem também o olhar, a pressão, o gesto (...).
Penso, como se vê, que a consciência não pertence essencialmente à existência individual do homem, mas, pelo contrário, à parte de sua natureza que é comum à totalidade do rebanho; que não foi, por conseqüência, subtilmente desenvolvida senão na medida de sua utilidade para a comunidade, o rebanho; e que a despeito da melhor vontade que podemos pôr em 'nos conhecermos', em perceber o que há de mais individual, nenhum de nós jamais poderá tomar consciência senão do seu lado individual e 'médio'; que o nosso próprio pensamento se encontra sem cessar de algum modo 'melhorado' pelo carácter da consciência -- pelo 'gênio da espécie' que comanda no seu seio -- e retraduzida na língua imposta pela perspectiva do rebanho. Todos os nossos actos são, bem no fundo, supremamente pessoais, únicos, individuais, incomparáveis, certamente; mas desde que a consciência os traduz na sua língua deixam de parecer assim...
Crítico da sobrevalorização indevida da consciência, Nietzsche elabora o seu perspectivismo:
Eis o verdadeiro fenomenalismo, eis o verdadeiro perspectivismo, ei-lo tal como eu o compreendo: a natureza da consciência animal faz com que o mundo de que nos podemos tornar conscientes não passe de um mundo de superfícies e de signos, um mundo generalizado, vulgarizado; e que, por conseqüência, tudo o que se torna consciente se torna por isso mesmo superficial, reduzido, relativamente estúpido, torna-se uma coisa geral, um signo, um número do rebanho, e que qualquer tomada de consciência provoca uma decisiva corrupção de seu objecto, uma grande falsificação, uma 'superficialização', uma generalização.
E Nietzsche, no final do século XIX, dá o alerta: o excesso de consciência é um perigo. Pois aí onde ela se hipertrofia, a vida está sendo mitigada, e distorce-se.
No fim de contas, o aumento de consciência é um perigo, e quem vive no meio de europeus conscientes sabe mesmo que se trata de uma doença.
Nietzsche observa, pois, que o homem ainda está a aprender a integrar e a desenvolver a sua consciência de um modo que ela não seja perigosa e destrutiva, algoz da vida. Por mais de dois mil anos, não obstante, temos praticado uma postura inepta com relação à consciência, uma vez que, equivocadamente, temos sobrestimado a consciência, e desvalorizado, e mesmo difamado, os modos da vida não consciente, e os modos da expressão desta. A questão da expressividade singular, original, é a questão não da expressividade da vida reflexiva, da consciência, mas a questão da interpret/ação fenomenal das orquestr/ações do vivido, que manifestam-se especificamente não na consciência, mas na desmesura dionisíaca da consciência: perspectivação, transconsciência.
A VIDA É UMA EXPERIÊNCIA.
GAYA SCIENZA,
GAYA EXPERIMENTAÇÃO, GAYA PERSPECTIVAÇÃO.
O Experimental e a Ciência Nietzscheanos.
"... Pois muito bem! Vamos lá, experimenta-te. Mas não quero voltar a ouvir falar de nenhuma questão que não autorize a experiência. Tais são os limites da minha ‘veracidade’".
F. Nietsche em A Gaya Ciência.
F. Nietzsche tratou de relativizar a ciência como modo de produção da verdade. Entendeu-a como derivada, de fato, da moral. Para ele, ambas, tanto a ciência como a moral, subordinam-se à arte, como um critério superior de constituição da verdade.
No que pese esta subordinação da ciência à arte, Nietzsche experimentou-se como científico, perspectivou-se como científico, em particular quando cuidava de superar as suas vinculações com Schopenhauer e com Wagner, e, quando cuidava de uma refutação vigorosa do Idealismo em geral, na consolidação do seu empirismo fenomenal perspectivativo. Nietzsche interessava-se então por uma perspectiva rigorosa para a superação do idealismo, e para tal pareceu-lhe adequada a perspectiva da ciência. Dedica-se ele aí a ser científico, a experimentar-se na perspectiva da ciência. Este intento caracteriza a Segunda fase da sua obra, que começa com Humano Demasiado Humano
Pode parecer incoerente com o Nietzsche de que falamos inicialmente, que faz uma apologia da arte como modo superior de produção da verdade. Mas de fato não é. Nietzsche vai paulatinamente compondo a sua própria concepção particular de ciência, a sua concepção de experimentação como perspectivação. E, em específico, esta concepção não se distingue do sentido do artístico, da perspectiva da poiesis.
A concepção da ciência em Nietzsche está intimamente ligada à sua concepção de experimentação. E, por seu turno, esta concepção de experimentação deriva da concepção do real, do conhecimento e da ética como perspectivativos.
Para Nietzsche, tanto o conhecimento como os valores são eminentemente perspectivos. Somos cada um de nós uma perspectiva, cada conhecimento e cada valor são, na verdade, perspectivas. De modo que conhecê-los exige o desdobramento afirmativo deles enquanto tais, e a relativização deles, diante das possibilidades das outras perspectivas a eles relativas e com eles conflitivas. De modo que a ciência Nietzscheana tem como método o seu método perspectivativo, que permite a expressividade, para além da consciência, da originalidade do vivido, na multiplicidade de suas intensidades, nexos, fluxos e pulsos.
Fink destaca a característica experimental que adquire a filosofia da vida de Nietzsche, a partir do momento em que ele desaponta-se, e passa a contrapor-se, à filosofia de Schopenhauer, e à perspectiva de Wagner. Neste momento, segundo Fink, Nietzsche passa a reivindicar uma perspectiva "científica" e "experimental", para afastar-se em definitivo da perspectiva do Idealismo. Uma perspectiva "científica" e "experimental", por ser rigorosa, radicalizaria uma contraposição à perspectiva idealista.
Aos poucos, entretanto, observa Fink, observa-se a particularidade da concepção nietzscheana do "científico" e do "experimental". Na verdade, o científico e o experimental são efetivamente entendidos na Filosofia da Vida de Nietzsche na perspectiva da vida, do corpo, dos sentidos, de sua afirmação. A vida entendida como afirmação, e a perspectiva da afirmação da (de uma vida que é) afirmação (Machado...), a experimentação no estilo de uma vida que experimenta (Fink): este o sentido do experimental na filosofia da vida de Nietzsche; e de sua ciência, gaya scienza.
Fink acompanha a evolução da perspectiva nietzscheana do experimental desde a concepção do espírito livre, até a sua formulação nas transmutações do Zaratustra. Na concepção do 'espírito livre', que começa a despontar no Humano..., o "deslumbramento ilusório" e a segurança crônica e fossilizada começam a ser agredidos e revolvidos, à medida em que se admite e integra efetivamente a concretude da existência, com os seus fluxos e intensidades, com as suas transmutações, com as suas forças e alegrias, e com a inevitável dureza do sofrimento e da finidade próprios do perecível:
"O saber crítico torna-se uma força que ataca à própria vida, que destrói a sua segurança, o seu deslumbramento ilusório. Nietzsche sabe que um conflito separa a vida da ciência e toma agora partido por esta última. E esta preferência encarna-a ele agora como que na figura, no papel que ele assume na personagem do ‘espírito livre’. Nietzsche confere-lhe traços maravilhosos. Ele está muito longe da liberdade proba e pesadonha da época iluminista, de uma fé seguríssima na razão. O espírito livre de Nietzsche mantém-se à distância de si próprio, faz prova sobretudo de uma temeridade que não recua perante nada, é já um precursor do príncipe Vogelfrei, do dançarino de pés ligeiros, do pacífico e sereno Zaratustra de espírito ligeiro. Possui a sedução, a audácia temerária como elemento seu; faz experiências consigo próprio, com o mundo e com Deus*; coloca em tudo seus pontos de interrogação, sem fugir ao encontro das coisas mais venerandas; ele desconfia, como nunca se desconfiou; pratica uma psicologia de duplo fundo e atrai para a luz mais do que um pensamento reservado; não mostra timidez nem respeito, sobretudo por aquilo que todo mundo considera importante; dotado de um sexto sentido para os ocultos e tortuosos caminhos do ‘ideal’, ele segue muitas pistas ao mesmo tempo. Ele possui a férrea frieza do pensamento inexorável que ‘dilacera a carne da vida’, que busca a verdade sem ilusões, mesmo que ela se revele mortal.
E a seguir:
" (o ‘Espírito Livre’ de Nietzsche) escolhe a ‘óptica da ciência’, porque ela corresponde ao espírito fundamental que domina toda a segunda fase de Nietzsche: a vida é uma experiência*. Incessantemente e em variações múltiplas aponta para o caráter experimental da vida, os seus riscos e projetos, para o facto de o homem colocar objectivos a si próprio; o espírito livre não é livre por viver segundo o conhecimento científico, é livre na medida em que utiliza a ciência como meio para se libertar da grande servidão da existência humana em relação aos ‘ideais’, para se escapar da tutela da religião, da metafísica e da moral. (...) o homem perdeu-se, sujeitou a vida a pesos enormes, submeteu-se ao sobre-humano, e a religião, a metafísica e a moral são formas dessa servidão; o homem venera o sobre-humano, organiza toda a sua vida em função daquele e já não sabe que foi ele próprio quem pôs no seu firmamento tais estrelas orientadoras; venera aquilo que ele próprio criou; o sobre-humano é apenas uma aparência do humano, uma fata morgana em que a essência humana criadora se exterioriza. A aclaração desilusionadora dos fundamentos demasiado humanos de todos os ‘ideais’ leva, por conseguinte, não apenas ao desmoronamento da abóbada celeste religiosa, metafísica e moral que o homem ergueu sobre a sua existência, como ainda, e mais decisivamente, a uma reviravolta do homem, uma conversão de sua posição fundamental, uma metamorfose da existência humana; o homem já não procura no exterior os seus objectivos, mas no interior de si próprio, a vida já não tem significado antecipadamente dado, já não está presa, já não é conduzida pela vontade de Deus, já não é conduzida em andadeiras pelas prescrições da moral, já não está condicionada por um ultra-mundo metafísico que fica para além do mundo dos fenômenos, já não é entravada por nenhuma força sobre-humana – tornou-se livre. O homem aprende que viver significa ousar, e a vida torna-se possível como experiência.* Só agora é possível viver um sentimento da existência totalmente novo: a grande temeridade do espírito que não se reclama de nada, que é aberto a tudo e a todos, que a si próprio tem que fixar objetivo e rota. Nietzsche evoca em todos os tons esta atmosfera da partida, da ousadia suprema, compara-se mais de uma vez ao genovês Colombo.*
"A vida é uma experiência"
. Na ousadia da aceitação e afirmação deste caráter experimental da vida é que se funda a gaya ciência nietzscheana, a sua ciência alegre. Na temeridade da eleição como guia da própria vida em suas perspectivações experimentais. Na interpretação e interpretação e experimentação destas perspectivações.
"A figura do espírito livre distancia-se cada vez mais da imagem do desmascarador gélido e crítico e surgem mais fortes os traços do tipo humano ousado e experimentador que faz experiências com a vida.
"Na Aurora e na Gaia Ciência cumpre-se inconfundivelmente a desmontagem da imagem do homem nascida da psicologia do desmascaramento; a grandeza da existência é agora vista na temeridade do pro-jeto, na experimentação
* que põe à prova a liberdade para com Deus, a Moral a Metafísica.
A experimentação passa assim a definir o cerne da perspectiva nietzscheana, à medida em que esta liberta-se dos Idealismos, constituindo-se em específico como uma conversão da existência, que passa dar-se a si própria como referência, na ousadia do estilo experimental de uma vida que experimenta, liberta do idealismo, e fundada em seus pulsos experimentais.
Fink observa o caráter antropológico da conversão nietzscheana no sentido da assunção da vida como experimento e como experimentação. Trata-se, na verdade, da desalienação do homem, e da assunção nele próprio, e não em figuras idealmente alienadas, de tudo que ele tem efetivamente de santo, de artista, de sábio. Trata-se, na verdade, da metamorfose do santo, do artista e do sábio, em espírito livre:
"O espírito livre é antes a metamorfose do santo, do artista e do sábio,
(...) eles são apenas possíveis na medida em que o homem se esqueceu de si como autor destes projectos, na medida em que não conhece a sua secreta qualidade criadora, na medida em que supõe Deus no exterior, encara a moral como uma lei de costumes estranha e que o amarra, considera o Aquém apenas como aparição de um além mais real. O Espírito Livre é a ‘consciência de si’ do santo, do artista, do filósofo metafísico, a chamada a si dessas figuras de alienação, a sua conversão. Só isto representa o sentido filosoficamente central do Espírito Livre: ele é a verdade da vida alienada e esquecida de si própria.
Fink prossegue, comentando a implicação do sentido mais profundo da conversão existencial que se constitui na concepção do espírito livre, na concepção nietzscheana da vida como experimento.
Mas isto significa também que o Espírito Livre não é nenhuma atitude que se poderia tomar e conservar, ele não é nenhuma ‘atitude’ que se afecta, mas uma conversão da existência, o acontecimento do retorno a si de todo aquele que se ultrapassou na transcendência, isto é, o espírito livre é a libertação do homem que se torna senhor de si, que adquire a soberania sobre si próprio. (...) A libertação do homem dá-se portanto através da consciência de que o ser em si, a transcendência do bem, do belo e do sagrado é apenas uma transcendência aparente, uma transcendência projectada pelo homem mas esquecida como tal. Esta tomada de consciência não é uma simples reflexão, significa antes a vitória sobre um esquecimento de longa data, a recuperação no campo da própria vida de todas as tendências vitais para a transcendência. Esta ‘óptica da vida’ permanece o tema fundamental de Nietzsche, que o desenvolve em diversos graus de intransigência."
Liberta a vida do peso dos Idealismos, a criatividade é a grande descoberta para o espírito livre, na assunção de uma atitude experimental da existência, e na constituição de sua gaya ciência experimental:
"O Espírito Livre descobre-se a si próprio como criador de valores e adquire com esta descoberta a possibilidade de criar novos valores, de revolucionar todos os valores. O ponto de partida da filosofia dos valores encontra-se essencialmente na metamorfose do santo, do artista e do sábio em ‘Espírito Livre’, reforça-se até, quanto mais Nietzsche se passa da simples vivissecação crítica e desconfiada, fria, gélida até, dos sentimentos morais para uma atitude experimental da existência, para a leveza de dançarino do príncipe Vogelfrei, para a Gaia Ciência. A partir deste aspecto ele compreende no seu conceito de ‘idealismo’ as três maneiras de existir da grandeza humana, aprisionadas na servidão de uma transcendência aparente."
"...o homem é concebido como o ser que se supera a si próprio, o idealismo é invertido: todas as transcendências são expressamente buscadas dentro do homem, pelo que lhe é conferida assim a máxima liberdade de criação audaciosa. O sentimento de que só com o fim do idealismo aparecerão as grandes possibilidades do homem domina Nietzsche, é a sua gaya scienza."
"No Zaratustra brota, à semelhança de uma força da natureza o espírito do empreendimento mais audacioso, o espírito da vida que experimenta*, esse espírito que atravessou como uma corrente subterrânea A Aurora e A Gaia Ciência, que, adulterando e dissociando toda a atitude científica, se propagou como um frémito na personagem do ‘Espírito Livre’ e que tornou tão ambíguo o seu perfil. Devolver à existência a sua independência, a sua indeterminação e, por conseguinte, o seu caráter de empreendimento audacioso; rejeitar os pesos opressivos que são Deus, a moral, e o Além, que do exterior determinam o homem, o limitam e o conduzem em andadeiras; obter para a liberdade humana um novo espaço onde ela se possa instalar num quadro totalmente novo e empenhar-se em novas tentativas vitais – é nisto que consiste a tendência subterrânea da ‘filosofia da manhã’ de Nietzsche."
"...a máxima liberdade de criação audaciosa... o espírito do empreendimento mais audacioso, o espírito da vida que experimenta... Devolver à existência a sua independência, a sua indeterminação e, por conseguinte, o seu caráter de empreendimento audacioso
. Tal é o sentido da perspectiva experimental da existência, da experimentação perspectivativa, em Nietzsche. Da libertação e superação dos idealismos e da alienação da existência, da centração na, entrega e afirmação da concretude da existência em suas forças. A afirmação da força criativa da vida em sua poiesis é o sentido da experimentação perspectivatia nietzscheana.
Comentando uma ousada frase, no Zaratustra, Fink observa:
"A frase que acabamos de citar contém este passo memorável de que
o verdadeiro poeta é aquele que cria a verdade."
E acrescenta:
"Para Nietzsche, o poeta é aquele cuja POIESIS visa à verdade original, ao nascer de uma nova concepção do mundo. (Fink, E., 1983, p.67).
Este o sentido mais geral da experimentação e do experimental em Nietzsche: o da existência experimental, do estilo experimental, de uma vida que experimenta (-se) e cria (-se).
Se falamos de poiesis no sentido especificamente poético, que engendra e gera o poético e o poema, não podemos esquecer de que a própria vida, e nosso ser-no-mundo engendram-se como poieis. Poiesis da qual se destaca como um farol, como dimensão própria e característica, o poético e o poema. A poiesis como geração e engendramento da própria vida, da própria existência, no sentido de sua afirmação, sempre experimental, o caminho através do qual se pode tornar-se o que se é..., a experimentação. Como afirmação perspectivativa, a afirmação poiética é sempre experimental. Trata-se, para Nietzsche, e, creio, para a psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial, de assumir e afirmar, o caráter desta afirmação poiética experimental. Poiético somos todos nós, experimentemo-nos na poisesis do nosso devir-no-mundo. Libertar-nos para esta ousadia, para esta modesta audácia de toda hora e de toda a vida, é o sentido de uma existência experimental, da experimentação e do perspectivismo.
PERSPECTIVAÇÃO, PERSPECTIVA, PERSPECTIVISMO.
Drible de Corpo na Consciência.
'Drible de corpo' é quando o corpo tem presença de espírito.
(Chico Buarque de Holanda)
Onde queres revólver sou coqueiro, onde queres dinheiro sou paixão
Onde queres descanso sou desejo, e onde sou só desejo queres não
E onde não queres nada, nada falta, e onde voas bem alta eu sou o chão
E onde pisas no chão minha alma salta, e ganha liberdade na amplidão
Onde queres família sou maluco, e onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon sou Pernambuco, e onde queres eunuco, garanhão
E onde queres o sim e o não, talvez, onde vês eu não vislumbro razão
Onde queres o lobo eu sou o irmão, e onde queres cowboy eu sou chinês
Ah, bruta flor do querer, ah, bruta flor, bruta flor
Onde queres o ato eu sou o espírito, e onde queres ternura eu sou tesão
Onde queres o livre decassílabo, e onde buscas o anjo eu sou mulher
Onde queres prazer sou o que dói, e onde queres tortura, mansidão
Onde queres o lar, revolução, e onde queres bandido eu sou o herói
Eu queria querer-te e amar o amor, construírmos dulcíssima prisão
E encontrar a mais justa adequação, tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés, e vê só que cilada o amor me armou
E te quero e não queres como sou, não te quero e não queres como és
Onde queres comício, flipper vídeo, e onde queres romance, rock'n roll
Onde queres a lua eu sou o sol, onde a pura natura, o inceticídeo
E onde queres mistério eu sou a luz, onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro, e onde queres coqueiro eu sou obus
O quereres e o estares sempre a fim do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal, bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal, e eu querendo querer-te sem ter fim
E querendo te aprender o total do querer que há e do que não há em mim
(O Quereres. Caetano Veloso)
O que se experimenta na afirmação é a intensificação do momentum da perspectivação. De modo que a perspectivação é o sentido próprio da experimentação. Experimentação é perspectivação.
Diante das peculiaridades e dos imperativos da consciência, como dimensão da vida humana, da vida coletiva; diante das distorções e supervalorização da consciência. A perspectivação experimental é o modo como a vida singular e vivida se manifesta, na afirmação de suas forças, que atravessam a consciência, mas que vigem, e constituem-se e enraízam-se na vida instintual, não e trans consciente. A perspectiva é a nossa condição mais básica, de ser, de conhecer, de avaliar. Trata-se, pois, da conseqüência para com esta condição. O perspectivismo, com o reconhecimento do caráter ilusório e relativo da perspectiva, e, mesmo assim, assumindo a sua integral afirmação, é conseqüente para com esta condição da vida original.
De modo que o perspectivismo, a perspectivação, constituem-se como um drible de corpo na consciência, na medida em que inicia por uma específica perspectivação e relativização do próprio império da consciência, valorizando os pulsos e fluxos da vida instintual, valorizando a cada instante, especificamente, a desmesura da consciência, na afirmação do momentum de intensificação da perspectiva vivida.
O perspectivismo, aqui considerado ao nível da existência, tem, na verdade, raízes mais abrangentes Nietzsche, como esclarece Scarlett Marton, entende-o já de uma perspectiva cosmológica.
É preciso levar em conta, adverte
(Nietzsche), 'o perspectivismo necessário mediante o qual cada centro de força -- e não unicamente o homem -- constrói a partir de si mesmo todo o resto do mundo, isto é, mede segundo sua força, tateia, dá forma...' (14 (186) da Primavera de 1888). Uma configuração de forças tem em relação a tudo mais sua meneara de apreciar, de agir e reagir. Da sua perspectiva, ela organiza o mundo. É impossível impedir que procure impor sua interpretação ao que a cerca; no fim de contas, a vontade de potência é impulso de apropriar e dominar. É igualmente impossível evitar que se defronte com as demais interpretações; afinal, a luta não admite trégua, nem prevê termo. Ao conceber o mundo como campos de forças instáveis em permanente tensão, o filósofo acaba por ressaltar o seu traço perspectivaste.
Viver, tornar-se o que se é, é assumir-se e afirmar-se como perspectiva.
Comentando, no Prólogo do Humano Demasiado Humano, as dificuldades de constituir-se ele próprio como uma perspectiva, a sua própria perspectiva, dono de sua própria veracidade, Nietzsche fala dos espíritos livres, para cuja vinda ("disso sou eu quem menos gostaria de duvidar") ele espera contribuir. Fala da solidão e do isolamento do processo próprio da constituição do espírito livre, da sua perplexidade diante da solidão e do isolamento, da sua libertação, e especificamente do sentido destes,
Por essa altura, pode acontecer finalmente, entre súbitos clarões de saúde ainda tempestuosa, ainda instável, que para o espírito livre, cada vez mais livre, comece a revelar-se o enigma dessa grande separação, que, até então esperara, obscuro, suspeito, quase intocável na sua memória. Se, durante muito tempo, mal ousava perguntar 'porquê tão de parte? Tão só? Rejeitando tudo que eu venerava? Rejeitando a própria veneração? porquê esta dureza, esta desconfiança, este ódio contra minhas próprias virtudes?' -- agora ele ousa e pergunta-o em voz alta e até já ouve qualquer coisa, a modo de resposta à pergunta. 'Tu devias tornar-te senhor de ti próprio, senhor também de tuas próprias virtudes. Dantes, eram elas senhoras de ti, mas elas apenas podem ser teus instrumentos, a par de outros instrumentos. Devias adquirir domínio sobre o teu pró e contra e aprender a desengatá-los e engatá-los de novo, conforme o teu superior desígnio. Devias aprender
o elemento perspectivo que há em toda apreciação -- a deslocação, a deformação e a aparente teleologia dos horizontes e tudo o mais que pertence ao domínio da perspectiva; também a grande tolice com respeito aos valores opostos e todo o pre juízo intelectual, com o qual cada pró e cada contra se faz pagar. Devias entender a injustiça necessária em cada pró e contra, a injustiça como inseparável da vida, a própria vida como condicionada pela perspectiva e sua injustiça. Devias, sobretudo, ver com os próprios olhos onde a injustiça é sempre maior: a saber, onde a vida tem um desenvolvimento mais pequeno, mais restrito, mais escasso, mais inicial, e, apesar disso, não pode deixar de se tomar por finalidade e medida das coisas e, por amor a sua subsistência, esmigalhar secreta, mesquinha e incessantemente o que é superior, maior e mais abundante, pondo-o em causa -- devias ver com os teus olhos o problema da hierarquia e como poder, direito e amplitude da perspectiva crescem uns com os outros em altura. Devias...'
A aprendizagem do espírito livre: a própria vida como condicionada pela perspectiva e sua injustiça. Na medida em que a devida afirmação da perspectiva conflitará sempre com outras perspectivas, e a outras vencerá, em seu próprio espaço, ainda que inevitavelmente revele sempre o caráter ilusório e meramente aparencial de toda perspectiva e da própria vida. O que a filosofia de Nietzsche nos oferece é a constatação de que não nos resta muito além da afirmação perspectiva de nossas forças vitais, e que isto não é pouco, em termos do cultivo de uma abundância de forças de vida, e da criatividade de nosso devir-no-mundo.
A compreensão deste caráter perspectivo da vida, do conhecimento e dos valores é assim um sentido profundo da filosofia de Nietzsche.
Perspectivo tem no caso o sentido próprio do termo em desenho. A perspectiva é no desenho um "truque", uma ilusão, uma ilusão de profundidade numa superfície plana. Para tal, a perspectiva carece de certos recursos ilusórios, como, a deslocação, a deformação e a aparente teleologia dos horizontes e tudo o mais que pertence ao domínio da perspectiva...
Para Nietzsche, é precisamente esta a natureza do real, do conhecimento, do vivido, da avaliação, perspectiva, perspectivação. Nietzsche aponta como a realidade, o conhecimento e os valores são eminentemente perspectivos, como cada ato de conhecer e de avaliar configura-se como uma perspectiva carente de devida afirmação, e é em si mesmo, ao mesmo tempo, relativo e conflitivo com relação inevitavelmente a uma multiplicidade de possibilidades.
A consciência conceitual, não é hábil para o trânsito pela variedade e pela variedade de intensidades das perspectivas que são inerentes a qualquer conhecimento e a qualquer avaliação, não é hábil para o perspectivismo do conhecimento e dos valores, para a perspectatividade, ou seja, para a afirmação profunda e necessariamente ilusória das perspectivas, e para o trânsito instintual de sua alternância.
É a perspectivação que permite a libertação dos limites e impropriedades da consciência, e a expressividade, interpretação (no sentido existencial), da originalidade do ser, fundada no corpo, nos sentidos e no vivido. O jogo da perspectivação, a experimentação nietzscheana, constitui-se como um drible de corpo na consciência ("O drible de corpo é quando o corpo tem presença de espírito. Chico Buarque), que permite a expressividade de um ser, ativo e potente e atual, sob o risco sempre de atrofiar-se, toldado pelas determinações dos limites gregários da consciência.
No capítulo, Porquê escrevo livros tão bons, de sua autobiografia, o Ecce Homo, Nietzsche expressa o sentido de seu método, o sentido da perspectivação, o sentido de seu estilo. Nesta obra, Nietzsche perspectivou-se de um modo livre e intenso, a ponto de ser freqüentemente entendido como louco... Loucura esta que um especialista como Freud negou-se a reconhecer. Dizia Nietzsche,
Direi ao mesmo tempo uma palavra geral sobre a minha arte do estilo. Comunicar um estado, uma tensão interna de pathos por meio de signos, incluído o tempo desses signos -- eis o sentido de todo estilo; e considerando que a multiplicidade de estados interiores é em mim extraordinária, há em mim muitas possibilidades de estilo -- a mais multifária arte do estilo de que um homem já dispôs. Bom é todo estilo que realmente comunica um estado interior, que não se equivoca nos signos, no tempo dos signos, nos gestos -- todas as leis do período são artes dos gestos.
Ainda que afirmativas e afirmadas, as perspectivas são sempre deformantes, e subsistem conflitivamente na convivência com outras perspectivas que se lhes contrapõem, ou lhe são alternativas. A avaliação é perspectivativa.
A avaliação é pois sempre deformante, por outras palavras, perspectivaste, e, o que é talvez mais relevante, envolve sempre uma qualidade conflitual em relação a outras que se encontram no mesmo espaço e susceptíveis de contradição mútua.
O erro está no isolamento e na abstração
No entanto é deste erro fundamental que nasce toda espécie de 'verdades'. A suposição de uma correspondência entre as nossas afirmações e as coisas do mundo apoia-se certamente na crença de entidades incondicionadas, desconexas, esquecendo o elemento perspectivaste, subjacente a todas essas afirmações.
O perspectivismo nietzcheano insurge-se assim como crítica da sobrevalorização da consciência, das verdades metafísicas e das contraposições de antípodas que esta sobrevalização induz e possibilita. As verdades metafísicas e as contraposições configuram-se como isolamento e abstração do inter-jogo das perspectivações, e é isto que se caracteriza para Nietzsche como erro do juízo e da faculdade de avaliar.
Perspectivações, em suas intensidades e transmutações, são as possibilidades e possibilitações de nosso ser-no-mundo. De caráter intrínseca e inevitávelmente ilusório e injusto, face a sua intrínseca relatividade, são o que somos. São a vida em sua afirmação, uma possibilidade sempre aberta a nossa afirmação. De um modo tal que o sentido do trágico nietzscheano realiza-se exatamente na afirmação da ilusão que a (relativa) perspectiva configura.
A implicação da crítica nietzscheana à sobrevalorização da consciência, e a definição do caráter perspectivo de todo conhecimento e de todo valor, aliada à distinção de uma postura e de um método, o método perspectivativo, são expostos por Marques:
No
Humano*... começa a tomar forma um método de avaliação, começa por isso a exercitar-se um tipo de faculdade do juízo que há de consolidar-se em obras futuras. Este transforma o conceito envolvido no juízo em conceito problemático. Por exemplo, conceitos como os de altruísmo ou de liberdade incondicionada, tão usados na avaliação moral. A suspeita de que eles não sejam tão unos e delimitados e que funcionem como antípodas perfeitos tem o seu fundamento, como já vimos, na observação de qualidades contrárias que neles podem surgir. A partir daí a investigação histórica comprova o sem fundamento de sua pureza e perfeição. Nietzsche pensa nos erros da razão como uma crença nestas características dos conceitos e o método vai consistir numa espécie de observação em movimento, em que o observador compara, diferencia, persegue vestígios, continuidades e interrupções. É a tradução daquilo que se vem a chamar 'perspectivismo' e que Nietzsche no novo Prólogo da edição de 1886 já claramente define: 'Deverias aprender aquilo que em cada apreciação depende do elemento perspectivaste -- a deslocação, a deformação e a aparente teleologia dos horizontes e tudo o mais que pertence ao campo das perspectivas; também a grande tolice com respeito aos valores opostos e todo o prejuízo (preconceito*) intelectual, com o qual cada pró e cada contra se faz pagar' (Prólogo 6). O espírito livre (...) é pois aquele que ajuíza perspectivisticamente, isto é, que não esquece que a sua avaliação contém sempre o elemento da deslocação, da deformação, a finalidade aparente, enfim características perspectivistas inevitáveis. Tornando ainda mais clara a situação: não existem juízo e objecto avaliados puros fora de um sistema em que as próprias avaliações interagem e conflituam. O comportamento a é bom: Se eu não contar com o elemento perspectivaste, posso no limite significar que a é bom de uma forma absoluta e sem relação com mais nada. Mas bom apenas é significante como bom enquanto: bom enquanto justo, enquanto altruísta, enquanto corajoso, etc. Do mesmo modo, justo enquanto..., corajoso enquanto... etc. A avaliação é pois sempre deformante, por outras palavras, perspectivaste, e, o que é talvez ainda mais relevante, envolve sempre uma qualidade conflitual em relação a outras que se encontram no mesmo espaço e susceptíveis de contradição mútua. O juízo moral assente em conceitos separados e sem conexão recíproca, desconhecendo a sua íntima relação com os seus contrários num espaço interperspectivista, eis o erro que assolou todo o pensamento moral segundo o Humano*...
(...)
O erro na avaliação está no isolamento, na abstracção: 'ainda actualmente nós achamos, no fundo, que todas as emoções e acções são actos de livre vontade; quando o indivíduo que sente se observa a si próprio, pois toma cada sensação, cada alteração, por algo isolado, isto é, incondicionado, desconexo: surge de nós próprios, sem ligação com o anterior ou o ulterior (§18). No entanto é deste erro fundamental que nasce toda a espécie de 'verdades'. A suposição de uma correspondência entre as nossas afirmações e as coisas do mundo apoia-se certamente na crença de entidades incondicionadas, desconexas, esquecendo o elemento perspectivaste, subjacente a todas essas afirmações."
Desta forma a perspectivação, o perspectivismo, a perspectatividade é o que Nietzsche propõe, diante da sobrevalorização da consciência, e como modo hábil no sentido de permitir a expressividade do vivido instintualmente. O perspectivismo, a perspectativação, a perspectatividade, em seu exercício ativo, configuram o sentido da concepção do experimental para Nietzsche. Experimentar para Nietzsche é perspectivar, experimentação é perspectivação.
Scarlett Marton observa,
Mais do que problema psicológico ou questão existencial, em Nietzsche, o experimentalismo é opção filosófica. Ao colocar um problema em seus múltiplos aspectos, abordar uma questão a partir de vários ângulos, tratar de um tema adotando diversos pontos de vista, o filósofo está a fazer experimentos com o pensar. Não é por acaso, aliás, que privilegia o estilo aforismático; se perseguir uma idéia é abandonar várias outras pelo caminho, o que é o aforismo se não a possibilidade de perseguir uma idéia partindo de diferentes perspectivas? Adequado ao perspectivismo, o estilo que ele adota põe-se assim a serviço do experimentalismo.
E a seguir, citando Nietzsche:
É levar em conta, adverte, 'o perspectivismo necessário mediante o qual cada centro de forças -- e não unicamente o homem -- constrói
a partir de si mesmo todo o resto do mundo, isto é, mede segundo sua força, tateia, dá forma...'
Filosofia, ciência, existência, psicologia e psicoterapia, experimentais, perspectivativas.
PERSPECTIVAÇÃO EXPERIMENTAL E SENTIDO HISTÓRICO.
Memória, Esquecimento e Perspectivação.
Todo agir requer esquecimento.
(F. Nietzsche)
Um aspecto importante a considerar com relação à possibilitação da perspectivação, é a relação desta para com a memória e para com a história, e o caráter de seu desdobramento, exatamente no lugar onde se enfraquece e subordina-se o sentido histórico, o lugar de um esquecimento.
A perspectivação, pulsos e fluxos transconscientes, ainda quando não objetivada, é eminentemente ativa, é eminentemente ação. Isto implica-a de modo específico nas considerações que Nietzsche elabora a respeito das relações entre ação, memória e esquecimento.
Todo agir requer esquecimento: assim como a vida de tudo que é orgânico requer não somente luz, mas também escuro. Um homem que quisesse sempre sentir apenas historicamente seria semelhante àquele que se forçasse a abster-se de dormir, ou ao animal que tivesse de sobreviver apenas da ruminação e ruminação sempre repetida.
A própria felicidade e a possibilidade da ação estão para Nietzsche condicionadas por este enfraquecimento e subordinação do sentido histórico, e por sua vigência no meio de um esquecimento.
...nas menores como nas maiores felicidades é sempre o mesmo aquilo que faz da felicidade: o poder esquecer ou, dito mais eruditamente, a faculdade de, enquanto dura a felicidade, sentir a-historicamente. Quem não se instala no limiar do instante, esquecendo todos os passados, quem não é capaz de manter-se sobre um ponto como uma deusa de vitória, sem vertigem e medo, nunca saberá o que é felicidade e, pior ainda, nunca fará algo que torne os outros felizes. Pensem o exemplo extremo, um homem que não possuísse a força de esquecer, que estivesse a ver por toda parte um vir-a-ser: tal homem não acredita mais em seu próprio ser, não acredita mais em si, vê tudo desmanchar-se em pontos móveis e se perde nesse rio do vir-a-ser: finalmente, como bom discípulo de Heráclito, mal ousará levantar um dedo.
Para Nietzsche, o excesso de memória é sintoma de um certo tipo de adoecimento. Naturalmente a memória é sujeita a um certo tipo de "digestão", que permite o bem estar da ação perspectivativa. De modo que o excesso de memória é vivido tal como um distúrbio dispéptico, um "distúrbio do estômago", da digestão. O excesso de consciência, e, deste resultante, a memória excessiva, e uma exorbitância do sentido histórico, indica a impossibilidade da afirmação perspectivativa do ser ativo de um devir transconsciente. A ação não guarda relação para com a consciência, da mesma forma que a ação, efetivamente perspectivação, dá-se necessariamente no âmbito de um esquecimento, de um enfraquecimento da memória, de um hiato do sentido histórico, tal é a sua predominância ativa.
E possa ser assim entendida e poderada a minha proposição: a história só pode ser suportada por personalidades fortes, as fracas ela extingue totalmente. (...) Quem não ousa mais confiar em si, mas involuntariamente, para sentir, pede conselho junto à história: "Como devo sentir aqui?, este se torna pouco a pouco, por pusilanimidade, espectador, e desempenha um papel, no mais das vezes até muitos papéis, e justamente por isso desempenha cada um deles tão mal e superficialmente.
O sentido histórico, quando reina irrefreado e traz todas as suas conseqüências, erradica o futuro, porque destrói as ilusões e retira às coisas a sua atmosfera, somente na qual elas podem viver. (...) Quando por trás do impulso histórico não atua nenhum impulso construtivo, quando não se está destruindo e limpando o terreno para que um futuro já vivo na esperança construa sua casa sobre o chão desimpedido, quando a justiça reina sozinha, então o instinto criador é despojado de sua força e de seu ânimo. (...)
O fundamento disso está em que, no cômputo histórico, sempre vem à luz tanto de falso, grosseiro, desumano, absurdo, violento, que a piedosa disposição à ilusão, somente na qual pode viver tudo que quer viver, é necessariamente desbaratada: somente no amor, porém, somente envolto em sombras pela ilusão do amor, o homem cria, ou seja, somente na crença incondicional na perfeição e na justiça. A todo aquele que obrigaram a não mais amar incondicionalmente, cortaram as raízes de sua força: ele tem de se tornar árido, ou seja, desonesto. Nestes efeitos, a história é o oposto da arte: e somente quando a história suporta ser transformada em obra de arte e, portanto, tornar-se pura forma artística, ela pode, talvez, conservar instintos, ou mesmo despertá-los.
Não se trata de simplesmente desqualificar, ou negligenciar a história, mas do entendimento de que, não a recordação ociosa, mas criá-la é a sua melhor celebração.
É na ênfase nesta perspectiva da historicização, como afirmação, que subordina a história ao vivido, que se constitui a possibilidade e a possibilitação da perspectivação. Desproporcionalmente relativa com relação à memória, fundada no esquecimento, na subordinação do sentido histórico, criativa. Apanágio da grande saúde nietzscheana.
De modo que podemos entender, creio, que, enquanto vivência transconsciente: vivência da consciência em sua desmesura, vivência transsubjetivante, na verdade dessubjetivante, a perspectivação caracteriza-se como predomínio de forças ativas e incertas, ainda que instintualmente seguríssimas, decididas e decisivas, no ser de seus devires. E que, na sua ativa originalidade, não são uma memoriação, não comportam a memória, e na verdade configuram-se em seus domínios como desmemoriação, ou transmemoriação, como esquecimento, porque de fato há a presentificação de intensidades mais importantes, na verdade mais interessantes, mais fortes e saudáveis, do que o lembramento, do que a memória e a memorização. A perspectivação, no deleite, na fruição de sua intensificação, é, assim, o aquieagorificação, a conquista do presente*, a presentificação, a realiz/ação. Seu sentido histórico é este, o sentido da criação. E não esqueçamos a Perls, e a sua pérola genuína, o núcleo do real é a ação. Ação, tão ativa, e de si imbuída, que esquecida: perspectivação, experimentação.
Em sendo assim, a filosofia da vida de Nietzsche define uma noção existencial do experimental e da experimentação que se configura como a assunção do perspectivismo e do método perspectivativo. A perspectivação é, assim, neste sentido, o sentido do experimental e da experimentação. Através dos quais o homem atualiza o seu devir-no-mundo, cria-se e cria o mundo que lhe diz respeito, assumindo tornar-se e afirmar experimental e perspectativamente a vida que se afirma em si, a poiesis de ser-no-mundo.
É neste sentido que Perls dirá que as questões existenciais só se podem resolver experimentalmente. É neste sentido que Rogers deriva a idéia de um modo de vida existencial (melhor diríamos, experimental), como um dos componentes de sua concepção do "funcionamento ótimo da personalidade".
A revitalização das psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais depende, a meu ver, de um resgate e elucidação da originalidade desta noção existencial de experimentação, perspectivação, entendidas estas como a ousadia da interpretação que afirma o vivido.
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