PERSPECTIVAÇÕES ACERCA DA EXPERIMENTAÇÃO FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL 2
A Experimentação Psicológica e o Experimental na Tradição da Psicologia Fenomenológica de Brentano
Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo.

LABORATÓRIO EXPERIMENTAL DE PSICOLOGIA FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL
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2000
PERSPECTIVAÇÕES DA EXPERIMENTAÇÃO FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL 2
A Experimentação Psicológica e o Experimental na Tradição da Psicologia Fenomenológica de Brentan
o
Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo.
"... Pois muito bem! Vamos lá, experimenta-te. Mas não quero voltar a ouvir falar de nenhuma questão que não autorize a experiência. Tais são os limites da minha ‘veracidade’"
(F. Nietzsche)
Parece fundamental recorrer à contribuição de Franz Brentano (1838-1917) para uma compreensão, explicitação e diferenciação do sentido especificamente fenomenológico existencial do experimento, da experimentação e do experimental em psicologia e psicoterapia. São as concepções de Brentano que permitem uma refutação da concepção do experimental em psicologia derivada das perspectivas fisiologistas e mecanicistas de W. Wundt, ao mesmo tempo em que fundam uma concepção alternativa de método psicológico, e de psicologia científica, de cunho fenomenológico, e lança as bases de uma concepção especificamente fenomenológica do experimento, do experimental e da experimentação em psicologia. De especial interesse é o próprio empirismo aporético de Brentano como um método que pode ser em si entendido como um método experimental, no sentido fenomenológico existencial.
De início, no entanto, é importante observar que, de fato, a contribuição de Brentano centra-se, justamente, na contestação e na refutação do experimento e do experimental em psicologia, e na contestação e refutação da própria psicologia experimental, tal como eles foram concebidos e praticados na tradição de Wilhelm Wundt. De modo que a proposta de Brentano não é exatamente a da experimentação em psicologia, mas a de uma psicologia que, ao invés de experimental, é especificamente empírica e aporética, na perspectiva da ciência natural da tradição hipocrático aristotélica. Psicologia esta na qual desaguava, para Brentano, a própria Filosofia. Ocorre que este empirismo aporético de Brentano parece ser, em si, uma abordagem fenomenológica experimental. Esta psicologia que Brentano inaugura, que é um empirismo fenomenológico, um empirismo da consciência, permite com as suas concepções, assim, a redefinição, a re contextualização da noção de experimentação, e a fundamentação da experimentação de cunho especificamente fenomenológico em psicologia.
Um aspecto que parece um dos mais interessante para a psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial é que, ao mesmo tempo, o próprio empirismo aporético de Brentano aplicado à consciência como método fenomenológico existencial especificamente experimental, parece intimamente aparentado ao método experimental perspectivativo de Nietzsche. De modo que estas duas vertentes fundamentais da concepção do experimental num sentido fenomenológico existencial compartilhariam raizes bastante próximas.
Por empirismo podemos entender a abordagem da realidade sem pré-concepções, a partir de sua vivência imediata:
A particularidade da abordagem de Brentano é que, entendendo a Filosofia e a Psicologia como ciências naturais, ele resolve abordá-las empiricamente. Como a Psicologia é para ele o estudo da consciência, ele trata de abordar empiricamente a consciência, constituindo assim a perspectiva fenomenológica.
A respeito do empirismo da consciência e das articulações entre Filosofia e psicologia, próprios à perspectiva brentaniana em filosofia e psicologia, Massimo Libardi observa:
O que Brentano assim propunha era uma abordagem empírica e aporética da psicologia, da filosofia, uma abordagem empírica e aporética da consciência. Ou seja uma abordagem imediata da realidade e da consciência em seus desdobramentos, a partir de sua própria experiência, sem a mediação da consciência conceitual, teorizante, ou de pré concepções. Uma abordagem que valorizava a emergência do vivido da diferenciação e da multiplicidade que se impõem, como estratégia de conhecimento, evitando que este se cristalizasse em perspectivas dogmáticas e unilaterais. A aporese caracteriza-se como uma atitude que busca levar um conhecimento aos seus limites, e abrir-se, então, ao conhecimento que a ele se contrapõe ou que é a ele alternativo.
Assumindo estas perspectivas epistemológicas e metodológicas, a contribuição de Brentano é fundamental, na medida, em particular, em que resgata a psicologia, e em específico a abordagem da consciência, do descaminho fisiologista, mecanicista, wundtiano. E no sentido de que define os referenciais fenomenológico existenciais empíricos e aporéticos, conceituais e metodológicos, da nova ciência psicológica, permitindo uma recontextualização e uma redefininção da questão do experimento e da experimentação em psicologia, e concebendo novas e alternativas bases para a sua prática.
Na verdade, Franz Brentano definiu e engendrou na filosofia, e na psicologia, uma clivagem e uma tradição fundamentais, que ganham cada vez mais importância. Esta tradição deságua na própria constituição específica da Fenomenologia, da Psicologia da Gestalt, da Psicologia Humanista, e da Filosofia Crítica do Círculo de Viena... Conhecer a tradição de Brentano, a história de Brentano e suas concepções, a história de sua tradição, é conhecer aspectos distintivos e fundamentais, imprescindíveis, da fenomenologia, da psicologia, e, em particular, da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial. Parece ser fundamental, como observamos, para uma elucidação do sentido definidamente experimental desta. Em particular na contraposição deste sentido ao sentido do experimento e do experimental vigente na psicologia em geral, em particular na psicologia experimental e na psicologia comportamental. Tudo isto em função do fato de que a psicologia fenomenológica de Brentano inaugura dentro da Psicologia Moderna toda uma perspectiva alternativa de concepção dos fenômenos psíquicos, de concepção da psicologia e da ciência psicológica, e de concepção de método em psicologia.
Podemos arrolar, na tradição de Brentano (1838-1917), como contemporâneos e o como descendentes: Hermann Lotze (1817-1881), Ernest Mach (1839-1916), Von Helmholtz (1821-1894), Christian Von Ehrenfels (1859-1932), Karl Stumpf (1848-1936), Edmund Husserl , Martin Heidegger (1889-1969), Max Wertheimer (1880-1943), Kurt Koffka (1886-1941), Wolfgang Köhler (1887-1949), Kurt Goldstein, M. Merleau Ponty, Ludwig Binswanger, Medrard Boss, Abraham Maslow (1908-1970), Fritz Perls, Carl Rogers (1902-1987) e outros. De destacar é a frequente vinculação com a arte, em particular com a música, dos pioneiros desta tradição, e o uso que fazem da música em seus estudos e argumentações. Postura igualmente cara à perspectiva de F. Nietzsche.
Wilhelm Wundt (1832-1920) é considerado normalmente não só o pai da psicologia experimental como o próprio pai da psicologia científica, a partir dos intensos e dedicados trabalhos que desenvolveu em seu Laboratório de Psicologia Experimental em Leipzig, na Alemanha. Seu livro fundamental e influente, Grundzüge der phisiologischen Psychologie (Princípios de Psicologia Fisiológica*), teve o seu lançamento em duas partes, nos anos de 1873 e 1874.
Exatamente no mesmo ano de 1874, Franz Brentano lança o seu livro fundamental, Psychologie von Empirischen Standpunkte (Psicologia do ponto de vista empírico). O livro de Brentano contém críticas radicais a concepções e perspectivas de Wundt. Em particular a sua concepção de consciência e dos processos psíquicos, ao seu método, a sua concepção de Psicologia e de ciência psicológica. De fato, como vimos, o livro de Brentano contém toda uma concepção de consciência e dos processos psíquicos, de psicologia e de ciência psicológica, assim como de método destas, derivados da tradição aristotélica. De modo que Brentano abre uma alternativa no que se entendia e se entende como a psicologia científica, profundamente identificada esta, em suas raízes, com a fisiologista e mecanicista perspectiva wundtiana.
Wundt produz intensamente, acolhe discípulos que participam de seus estudos no Laboratório de Leipzig, discípulos estes que haverão de disseminar as suas concepções na América, em particular nos EUA, na Europa e na Ásia.
Menos tecnológicas, menos fisiologistas e organicistas, as premissas e perspectivas de Brentano permanecem num segundo plano. Ao mesmo tempo em que fomentam, definitivamente, o desenvolvimento de abordagens alternativas e fundamentais, tanto na Filosofia quanto na Psicologia. As concepções de Brentano ensejam o desenvolvimento da Fenomenologia e da Filosofia Crítica, no âmbito da Filosofia, ao mesmo tempo em que ensejam o desenvolvimento da Psicologia e da Psicoterapia Fenomenológica, a partir, principalmente, do desenvolvimento da Psicologia da Gestalt, que redunda no desenvolvimento da Psicologia Organísmica de Kurt Goldstein, e da Psicologia Humanista, em grande parte esta a partir das influências exercidas sobre Abraham Maslow pelos psicólogos da Escola da Gestalt. Assim, como dissemos, entender a clivagem e a alternativa que Brentano constitui com relação às concepções e à abordagem de Wundt, configura-se como um momento fundamental da compreensão da especificidade destas abordagens, em especial do sentido do caráter específica e decididamente experimental da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial.
É necessário mencionar um pouco mais a Wundt para permitir uma compreensão adequada da diferenciação do sentido do experimental nas psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais.
Wundt trabalhou incansávelmente em seu laboratório de psicologia experimental, no sentido do desenvolvimento de uma Psicologia Científica. Para ele, a consciência era o objeto de estudo da Psicologia, de modo que dedicou-se ao estudo sistemático da consciência. Apesar de professor também de Filosofia, Wundt vinha em grande parte da Fisiologia e da química, suas perspectivas configuravam-se como expressão do apogeu do modelo fisiologista e mecanicista, e Wundt terminou por utilizar as perspectivas epistemológicas da Fisologia e da Química no estudo da consciência.
Para ele, a consciência era basicamente constituida por seus conteúdos sensoriais elementares. De modo que o estudo da consciência era para ele o estudo analítico elementar dos conteúdos sensoriais da consciência e dos modos como eles se associariam. E ele dedicou-se em suas pesquisas no Laboratório de Psicologia Experimental de Leipzig a decompor analitica e redutivamente a consciência, no sentido de chegar aos e estudar os seus conteúdos sensoriais elementares.
Para tal perspectiva de estudo, adotada por seu laboratório de Psicologia Experimental, Wundt adotou a introspecção como o seu método fundamental. Com a utilização de sujeitos treinados, que, seguindo normas estritas, observavam e analisavam a sua própria consciência relativa a um dado objeto de pesquisa, um dado conteúdo de consciência, e relatavam para o pesquisador as suas observações, sempre numa perspectiva analítica, de busca de apreensão dos elementos últimos de conteúdo.
Na concepção de Wundt, os elementos sensoriais associar-se-iam na composição da consciência. Wundt assumiu assim a perspectiva dos Associacionistas, ainda que houvesse entendido que a mente, apesar de associacionista, tinha um papel mais criativo na constituição da consciência do que teriam admitido os Associacionistas tradicionais.
Brentano vinha da Filosofia. Era um grande especialista em Filosofia, em especial em Filosofia antiga e em Filosofia Medieval. Foi padre mas abandonou o sacerdócio, quando o Concílio Vaticano de 1870 estabeleceu o dogma da infalibilidade papal. Foi muito para a cabeça filosófica de Brentano, e ele abandonou a vida religiosa. Havia se dedicado ao estudo e era um grande especialista na Filosofia de Aristóteles. Herda desta filosofia uma certa concepção de ciência e de método empíricos. Entende a Filosofia e a Psicologia como ciências naturais, e é exatamente o método de Aristóteles aplicado às ciências naturais que ele assume e aplica à Filosofia, e à psicologia. De modo que busca assim aplicar à consciência a metodologia empirista das ciências naturais.
Pode ser problemático admitir uma herança empirista aristotélica nas concepções e posturas de Brentano, em função da filiação platônica de Aristóteles. Para tal, para entender a influência específica de Aristóteles sobre Brentano, é certamente interessante entender que Aristóteles era ambíguo em sua perspectiva filosófica e metodológica. Situava-se na perspectiva socrático platônica, ao mesmo tempo em que mantinha uma perspectiva decididamente empirista.
Nascido em Estagira, nas cercanias da Macedônia, e muito antes de entrar para a Academia socrático platônica, em Athenas, Aristóteles aprendeu o empirismo e o relativismo característicos da tradição médica de Hipócrates: seu pai era médico, e praticava a medicina dentro dos referenciais da tradição hipocrática, e Aristóteles convivera e estudara, desde cedo em sua vida, com o círculo médico de seu pai.
Hipócrates buscava abandonar qualquer explicação abstrata e geral no estudo dos fenômenos, buscando ater-se ao comportamento observável destes, e às previsões baseadas neste conhecimento empírico. De modo que Hipócrates conservava uma perspectiva eminentemente empirista de valorização do conhecimento provido pela experiência. Neste sentido, é a perspectiva dos Sofistas que vem a constituir-se na perspectiva de Hipócrates.
Associado a esta perspectiva empirista, também assumindo uma perspectiva própria dos Sofistas, os hipocráticos assumiam uma perspectiva eminentemente relativista para com os fenômenos, e, em particular, naturalmente, com relação à saúde. Para eles, nada é absolutamente bom ou absolutamente mau em termos de saúde. O mesmo relativismo dos Sofistas aplica-se igualmente ao conhecimento, de modo que o conhecimento e sua aplicação não dependem de normas absolutas, mas de imperativos situacionais enfrentados tanto pelos indivíduos humanos como pelos grupos sociais.
Morrall ainda observa:
De modo que o caráter socrático-platônico da filosofia de Aristóteles é unilateral. Aristóteles, na verdade, desenvolveu como enfoque metodológico de sua ciência natural uma perspectiva especificamente empirista, de valorização da consciência imediata, da experiência imediata da consciência, no estudo dos fenômenos naturais. Mais que isto, assumiu uma perspectiva relativista com relação à realidade e ao conhecimento, relativismo este que vai certamente se refletir na constituição de sua postura aporética, e no perspectivismo e perspectatividade de Nietzsche. Mesmo que este a tenha assimilado diretamente esta perspectiva a partir das concepções dos pré-socráticos, ela tem a mesma raiz.
Estas perspectivas, como vimos, Aristóteles certamente já assimilara e desenvolvera a partir da relação com a tradição da medicina hipocrática, muito anteriormente a sua chegada à Academia de Platão, em Atenas, em 367. Aí ele passa vinte anos.
Com a morte de Platão, e preterido -- certamente por não ser um ateniense -- na sucessão de Platão na direção da Academia, ele retorna para o Leste da Grécia e para o Noroeste da Ásia Menor, vivendo igualmente nas ilhas da região, Lesbos em particular. Em contato cotidiano com o mar e com a natureza (e que mar, e que natureza...), mais do que com as idéias, aí desenvolve os seus estudos de Biologia, podendo reiterar, elaborar e desenvolver o empirismo e o relativismo de sua metodologia no estudo dos fenômenos naturais. Quando retorna a Atenas, em seguida à conquista da Macedônia por Alexandre, em 338, para fundar o seu Liceu, o componente empirista e relativista de sua perspectiva no estudo dos fenômenos naturais estava consistentemente assentado, no sentido do desenvolvimento da maturidade de sua filosofia. Pró Macedônia, Aristóteles teve que evadir-se ainda mais uma vez de Atenas, quando da morte de Alexandre em 323, e no curso da revolta anti Macedônia que se seguiu. Evadido, Segundo ele, para evitar que os atenienses cometessem um segundo crime contra a Filosofia, sendo o primeiro o da execução de Sócrates.
Brentano defendeu uma tese de habilitação sobre a filosofia Aristóteles. Conhecia-a em profundidade, e, como dissemos, era nela um especialista, tendo ministrado cursos sobre Aristóteles nas universidades alemãs e austríacas.
Acredito ser interessante observar as similaridades biográficas entre a vida de Aristóteles e a vida de Brentano, que certamente não passaram despercebidas a este. Aristóteles foi sempre um estrangeiro em Atenas. Oriundo das cercanias da Macedônia e pró Macedônia, para lá voltou magoado depois da morte de Platão, preterido em sua sucessão na Academia, pelo fato de não ser um ateniense. Depois de seu segundo período de permanência em Atenas, teve mesmo que fugir para não ser vitimado na revolta anti Macedônia.
Brentano, oriundo de Marienberg am Rhein, Alemanha, foi, por seus méritos, convidado para lecionar em Viena. Aí, apesar de sua reputação e da importância de suas idéias, sempre foi tratado como um estrangeiro, sendo preterido para postos importantes -- inclusive a direção do laboratório de psicologia que ele mesmo idealizara --, pelo fato de não ser um vienense, tendo sido, pelo mesmo motivo, quase que impedido de casar com sua primeira mulher, uma vienense. No final de contas, injuriado, Brentano arrumou as malas, e emigrou para a Itália, depois do falecimento de sua primeira mulher, onde estabeleceu-se em Florence, ansiando, quem sabe, pelas ilhas mais ao Sul do Mediterrâneo Oriental.
Mas o fato é que, como dizíamos, os estudos de Aristóteles deixaram em Brentano a marca profunda do empirismo e do relativismo deste. Bentano passa a entender, e a praticar, a própria Filosofia eminentemente como uma ciência natural, a ser praticada com o método empirista e aporético desenvolvido a partir de Aristóteles. Naturalmente, a psicologia, na qual se diferencia a filosofia de Brentano, passa ter o mesmo estatuto e método da ciência natural. Fugindo das perspectivas do idealismo, no seio de um reflorescimento da filosofia de Aristóteles, com o qual o idealismo era confrontado na segunda metade do século passado, Brentano passa, desta forma, a entender e praticar a filosofia e a psicologia a partir da perspectiva das ciências naturais, empíricas e aporéticas. De modo que Brentano configura assim uma psicologia como estudo especificamente empírico e aporético da consciência, um empirimo fenomenológico e aporético, em alternativa à perspectiva experimental fisiologista e mecanicista da psicologia de Wundt.
Como Wundt, Brentano elege, igualmente, a consciência como objeto de estudo da psicologia. Mas diverge e diferencia-se definitivamente dele na perspectiva de compreensão e de concepção da consciência, no método de abordá-la, na concepção da ciência da consciência, a psicologia; assumindo o ponto de vista empirista e aporético no trato com esta, e afastando-se da possibilidade de uma Psicologia Experimental fisiologista, mecanicista e psicofísica, tal como a definida e praticada por Wundt .
De modo que a perspectiva empírica e aporética de Brentano leva-o a conceber a psicologia da consciência como uma ciência natural, uma ciência dos fenômenos, a serem empiricamente abordados enquanto tais, na própria experiênciação deles. Brentano é, assim, levado a conceber, em particular, e a privilegiar a consciência em sua imediaticidade e presentidade. Em particular, e este é um aspecto maecante e definidor de sua abordage, Brentano é levado a conceber fundamentalmente a consciência como o ato, o ato de consciência, e é a consciência como ato que lhe interessa, e que é objeto de seus estudos. Ato de consciência que invariavelmente se direciona a objetos, a conteúdos, mas que não é em si objeto. Diferentemente de Wundt, que entendera a consciência como sendo os seus conteúdos elementares, Brentano constitui assim a Psicologia como o estudo da consciência, como o estudo dos atos de consciência, como uma psicologia do ato de consciência. E não como uma ciência de estudo reducionista dos conteúdos elementares da consciência.
Para Brentano a consciência é a cada momento uma totalização em ato de seus diversos níveis. Mas não como adição associativa de conteúdos elementares, de elementos, que poderiam ser apreensíveis, em última instância, através de uma análise reducionista, como na concepção de Wundt. A totalização dos atos de consciência configura-se para Brentano como totalização significativa que articula pontualmente a multiplicidade de dimensões do dado ato de consciência. De modo que o sentido do ato de consciência advém da configuração da totalização, como articulação dinâmica e pontual das suas partes constituintes. Partes estas que adquirem o seu sentido, de partes, já na sua pertinência ao processo de totalização. De modo que o reducionismo elementarista não seria hábil para uma apreensão da consciência. Em primeiro lugar, em função do fato de que, na medida em que se direcionava no sentido da apreensão de objetos da consciência, erraria já o alvo, e não daria conta de apreender o sentido específico da consciência como ato. E não seria hábil para uma apreensão e estudo da consciência na medida em que, focado em supostos elementos de consciência, não daria conta de apreender o sentido próprio da configuração da totalização do ato de consciência, da própria consciência. O que comprometeria a própria apreensão do sentido próprio das partes constituintes do ato de consciência, uma vez que este sentido próprio das partes define-se originalmente na relação com e pertinência da parte à totalização particular.
A partir da concepção de Brentano, surge, utilizada pela primeira vez por Von Erhenfels, aluno de Brentano, a concepção de Gestalt para definir a configuração totalizadora do ato de consciência, como uma totalização na qual os elementos, as partes, não se somam, mas articulam-se dinamicamente no sentido de uma totalização que é diferente da sua associação aditiva, da sua soma: o todo que é diferente da soma de suas partes. As partes se definem como tais na pertinência à totalização. A consciência é dada pela constituição imediata da configuração desta totalização significativa, que não é uma síntese, e que não é dada à análise, mas apenas a uma apreensão empírica, a um empirismo da consciência, empirismo fenomenológico.
Alunos de Brentano, Von Ehrenfels e Stumpf (este professor de Husserl) serão os professores dos psicólogos -- Max Wertheimer, Kurt Koffka, Wolfgang Köhler e Kurt Goldstein --, que, a partir destas concepções constituirão a Psicologia da Gestalt. Abrahan Masolw será profundamente influenciado pelas idéias da Psicologia da Gestalt, em particular pelas idéias de Max Wertheimer, emigrado para os Estados Unidos.
Ciência dos fenômenos, como as demais ciências naturais, cuja fonte é tanto a percepção como a experiência, a Psicologia tinha que encarar, entretanto, para Brentano, uma característica peculiar dos fenômenos psíquicos: o sujeito é incapaz de observar o fenômeno psíquico. É impossível a observação interior do fenômeno da consciência. Para Brentano, o fenômeno da consciência é dado, apenas, a um tipo particular de percepção, a percepção interior. A percepção interior pressupõe a identidade de percebedor e percebido, e é esta a justificação para a sua evidência, que Brentano vai buscar na teoria da evidência de Descartes.
Diferentemente da percepção interior, a observação interior não atende a esta premissa, uma vez que pressupõe uma distância entre observador e observado. Há na observação interior uma cisão entre percebedor e percebido.
Fica assim comprometida a introspecção de Wundt, e toda a sua Psicologia Experimental, como métodos hábeis para uma apreensão e estudo da consciência, uma vez que a introspecção wundtiana e a sua Psicologia Experimental assentavam-se eminentemente na observação interior.
A psicologia de Brentano centrar-se-á na imediata apreensão, empírica, da consciência, como uma totalização em ato, percepção interior, contraposta à observação interior, característica da instrospecção wundtiana. Fazendo esta distinção, Brentano aponta para os limites da introspecção wundtiana, e para os limites da pretensão de erigi-la como método privilegiado de estudo da consciência. A percepção interior é a apreensão em ato da consciência em seu processamento imediato, e como totalização significativa de uma multiplicidade de dimensões de consciência, dimensões estas que se definem como tais na própria constituição deste processo de totalização. Como observação interior, a introspecção wundtiana não dava conta da apreensão da consciência, uma vez que a introspecção caracteriza-se como uma re-flexão da consciência sobre a consciência passada, e não como um processo original de constituição da consciência em sua atividade, passível este de ser apreendido, em sua originalidade ativa, pela percepção interior.
Desta forma, Brentano refuta a concepção de consciência de Wundt, a sua concepção de método, a própria Psicologia Experimental e a sua concepção de ciência psicológica.
Por quê seria então importante a contrbuição de Brentano para uma elucidação da concepção de experimentação em psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial? Já que Brentano não preconiza a experimentação em Psicologia, e que a principal fonte desta concepção seria o método perspectivativo de Nietzsche?
Neste sentido, um grande mérito da concepção de Brentano, é o de ter refutado assim a concepção de experimentação da psicologia experimental, e ter lançado as bases para o desenvolvimento de uma concepção do experimental de cunho especificamente fenomenológico, fundada na percepção interior. Stumpf e os psicólogos da Gestalt desenvolveram ampla série de pesquisas fenomenológicas, livres da concepção de Wundt. Com a constituição e desenvolvimento de seu empirismo aporético da consciência, Brentano abre a possibilidade do próprio estudo e expressividade fenomenológica da consciência como experiência imediata. Com estas contribuições, Brentano cria as condições para o desenvolvimento da fenomenologia, da Psicologia da Gestalt e da Psicologia Humanista.
Entendendo a psicologia e a filosofia como ciências, e em específico como ciências da natureza, a serem praticadas, em suas abordagens da consciência, a partir da metodologia empírica e aporética das ciências naturais, Brentano aparentemente aproxima-se da perspectiva nietzscheana, a outra fundamental raiz da psicologia e da psicoterapia fenomenológico existencial. O empirismo fenomenológico aporético de Brentano parece bastante próximo da perspectiva de F. Nietzsche, quando define a Filosofia como uma ciência natural, e a assume segundo o seu método perspectivativo?
Nietzsche observa a respeito de sua concepção da filosofia como uma ciência natural:
Comentando esta passagem de Nietzsche, no Humano Demasiado Humano, Antonio Marques observa:
E nunca é muito lembrar o rompante epistemológico de Nietzsche em A Gaia Ciência:
De modo que podemos certamente compreender a possibilidade de um parentesco profundo entre a concepção de Brentano e a concepção de Nietzsche, de uma filosofia e de uma psicologia como ciências naturais, e como ciências animadas por um método empirista e aporético. Numa palavra, um método perspectivativo, experimental, no sentido da gaya scienza de Nietzsche.
Certamente que a perspectiva brentaniana não possui a densidade existencial, da perspectatividade de Nietzsche, organizada a partir da vontade de potência. Mas não seria muito supor, acredito, quando menos como analogia, que a perspectivação Nietzscheana configura-se, num certo sentido, como nada menos que uma certa radicalização existencial do empirismo aporético de Brentano. Com isto, não quero reduzir uma abordagem à outra, mas salientar este seu possível parentesco, e o interessante que parece ser a elucidação dele para os fundamentos da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial.
A concepção do experimento e do experimental em psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial desfrutariam assim de uma consistência profunda e radical, na medida em que as suas duas vertentes de constituição, a Filosofia de Brentano e a Filosofia da Vida de Nietzsche, compartilhariam esta raiz comum. Ainda que não haja, eventualmente, uma relação histórica direta entre as suas concepções: o que permanece, a meu ver, como uma interessante questão em aberto. E, mais que isto, como uma interessante suspeita... Quanto a uma relação histórica indireta, talvez Hipócrates e Aristóteles, e em específico a conexão hipocrático aristotélica, tenham algo a dizer... Naturalmente que, apesar da eventual convergência em raízes, cada uma das abordagens desenvolve concepções próprias e independentes.
A concepção da Filosofia e da Psicologia como ciências naturais, praticadas com o método empirista e aporético destas aproxima assim o método de Brentano do método perspectivativo, experimental, de F. Nietzsche. De modo que aparentemente não seria muito dizer que o próprio método empirista e aporético de Brentano é em si um método fenomenológico experimental, e a própria base da experimentação e do experimento fenomenológico.
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