PERSPECTIVAÇÕES ACERCA DA EXPERIMENTAÇÃO FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL 1

 

O Experimental em Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial

 

 

Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo

 

 

 

 

LABORATÓRIO EXPERIMENTAL DE PSICOLOGIA FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL

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2000

 

 

PERSPECTIVAÇÕES ACERCA DA EXPERIMENTAÇÃO FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL 1

 

O Experimental em Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial

 

 

Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo

 

O homem aprende que viver significa ousar, e a vida torna-se possível como experiência.

Eugen Fink

 

 

Devolver à existência a sua independência, a sua indeterminação e, por conseguinte, o seu caráter de empreendimento audacioso.
Eugen Fink

Para o desenvolvimento da concepção e prática, e para o esclarecimento, das Psicologias e Psicoterapias Fenomenológico existenciais -- para fazermos jus ao trabalho de seus pioneiros, e aqui me refiro particularmente à Gestalterapia e à Psicologia Centrada na Pessoa --, parece da maior importância resgatar e desdobrar no âmbito de seus contextos particulares as noções especificamente fenomenológicas e existenciais de Experimentação e de Interpretação. Estas noções aparentemente subjazem de um modo muito importante e central à fundamentação filosófica, concepções e métodos destas abordagens. Ainda que eventualmente não tenham sido desta forma explicitadas. Podemos dizer, e certamente é interessante que digamos, que estas são abordagens especificamente experimentais. Ainda que isto nem sempre fique muito claro, e nem sempre tenha sido devidamente explicitado por seus pioneiros.

Num outro trabalho*, abordei a questão da interpretação. Quero aqui, experimentalmente, tecer algumas reflexões, e oferecer algum material, com relação a uma compreensão entre nós da concepção de Experimentação.

 

Duas vertentes de constituição da noção fenomenológico existencial de experimentação de que carecemos parecem interessantes. Duas vertentes relativamente diferenciadas no seu desenvolvimento histórico e conceitual, mas que se tocam. Elucidar a comunidade de onde estas vertentes poderiam ter emergido, e o sentido desta raiz, parece ser um interessante e rico desafio para psicólogos e psicoterapeutas fenomenológico existenciais. Elucidar, em particular, a concepção da filosofia e da psicologia como empirismos fenomenológicos da consciência, ciências naturais fenomenológico existencialmente experimentais.

Uma dessas vertentes, é oriunda especificamente da Fenomenologia e da Psicologia Fenomenológica: da tradição de Brentano. A outra germina e desenvolve-se no âmbito da Filosofia da Vida de F. Nietzsche. Estas abordagens são naturalmente diferentes e irredutíveis, cada uma com as suas particularidades. Mas não seria exato se não admitíssemos que elas também importantemente se aproximam, que elas têm importantes e interessantes parentescos. Histórica e conceptualmente, Brentano e Nietzsche se aproximam. São cronologicamente contemporâneos, geográfica e culturalmente contemporâneos. Quero crer que, mais que isto, compartilham perspectivas epistemológicas profundas, oriundas das perspectivas dos filósosofos pré-socráticos, do empirismo aristotélico, e do reflorescimento da filosofia de Aristóteles no século XIX, como dimensão fundamental dos confrontamentos das perspectivas alternativas com a predominância do Idealismo, na Alemanha.

O sentido da vertente que provém da tradição de Brentano, ainda que negligenciado, é, evidentemente, fundamental para a concepção e método, experimentais, das psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais. Em particular, na sua contraposição alternativa à noção objetivista, organicista e mecanicista de experimentação da Psicologia Experimental. A contribuição da tradição de Brentano é desta forma fundamental na elucidação da natureza específica destas abordagens fenomenológico existenciais e, em particular, dos conflitos e distorções que elas desenvolveram, a partir da sua elaboração e crescimento no meio objetivista e pragmático da cultura Norte Americana.

É importante notar, pois, que Brentano e os seus seguidores, aí incluídos, naturalmente, os pioneiros da Psicologia da Gestalt, cuidam do desenvolvimento de uma perspectiva especificamente fenomenológica do experimento, da experimentação, do experimental, em psicologia; para contrapor-se, exatamente, à perspectiva experimental fisiologista, mecanicista, psicofísica de Wundt, nos seus estudos da consciência e no desenvolvimento de sua Psicologia Experimental. Na verdade eles cuidam de criticar o experimentalismo caracteristicamente wundtiano, e de desenvolver uma abordagem da consciência e dos fenômenos psíquicos mais compatível com a natureza destes, abrindo espaço para uma concepção e contextualização especificamente fenomenológica do experimental em psicologia.

Ora, é exatamente a concepção psicológica de Wundt que prospera no meio da cultura norte americana, assim como prosperara em todo o mundo, a despeito do desenvolvimento igualmente contemporâneo da psicologia de raiz fenomenológica.

Algum tempo depois, é a própria semente da Fenomenologia de Brentano, através da influência da Psicologia da Gestalt, da psicoterapia fenomenológico existencial que vai ser plantada neste meio. Psicologias de raiz européia, e desdobradas nos EUA por um Maslow, por um Rollo May, por um Rogers, por um Perls, e outros...

Se entendemos a dualidade da existência, em termos da concepção de experimentação e do experimental (1) de uma concepção especificamente fisiologista e mecanicista, e (2) de uma perspectiva especificamente fenomenológica e existencial, e entendemos o amplo predomínio da primeira no meio da psicologia e da cultura norte americanas, não é difícil entender como a concepção fenomenológica e existencial do experimento e do experimental foi sendo, desde o início, e até os dias de hoje, mesclada, confundida, distorcida, substituída, pela concepção fisiologista e mecanicista, com a consequente perda de originalidade e de substância especificamente fenomenológica e existencial das psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais. Coadjuvado todo este processo pela forte influência do Comportamentalismo no âmbito da Cultura da Psicologia Norte Americana.

Um momento particularmente curioso, e lametável, deste processo é quando Perls e outros grandes gestalterapeutas norte americanos criam uma "figura" no mínimo curiosa do ponto de vista da epistemologia e da filosofia da vida, quando entendem a Gestalterapia como um "comportamentalismo fenomenológico"... Estavam, acredito, cedendo a pressões culturais e acadêmicas, e fazendo concessões, inadimissíveis, de um ponto de vista da epistemologia e de filosofia da vida de onde emergia a sua abordagem.

Seduzidos, possivelmente, pela a idéia da modificação de comportamento, inerente à prática do comportamentalismo, em sua crítica a modelos idealistas, mas negligenciando que a mudança paradoxal, que desdobra-se através da prática da experimentação e da interpretação fenomenológico existenciais gestálticas é, especificamente, modificação de comportamento, não de cunho comportamentalista, mas de cunho especificamente fenomenológico existencial. Seria, talvez necessário que se desdobrassem todos os Anos 60, e a experimentação do desenvolvimento da Gestalterapia, para que ficasse claro o sentido especificamente fenomenológico existencial da mudança comportamental em Gestalterapia e em Psicoterapia Centrada na Pessoa, e a diferenciação deste sentido do antgo sentido comportamental.

Temos a argumentar a favor dos pioneiros o fato de que, não obstante propugnarem pelo desenvolvimento de abordagens fenomenológico existenciais, conheciam muito pouco de Fenomenologia, que era então escassamente conhecida no meio da Psicologia.

Neste sentido, a Gestalterapia e as psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais não têm muito a aprender como comportamentalismo, e têm muito a perder com a confusão e distorção de seus eixos epistemológicos e axiológicos.

A concepção especificamente fenomenológica e existencial de experimentação é tão vitalmente fundamental para as psicologias e psicoterapias fenomenológico existencias, que a sua distorção configura, a meu ver, uma irreparável degeneração de seu núcleo conceitual e prático. E é este processo que temos em muito vivenciado no que concerne à concepção e prática dessas abordagens. Parece interessantemente prioritário, assim, elucidar, definir, resgatar e afirmar, esta concepção. Daí a importância de resgatarmos e afirmarmos a crítica brentaniana da experimentação da Psicologia Experimental, e resgatarmos as bases que ele desenvolve de uma noção especificamente fenomenológica, de experimentação, assim como as suas concepções e enfoques metodológicos no trato com a consciência e com os processos psíquicos.

 

A outra vertente de concepção da noção fenomenológico existencial de experimentação é a vertente com que somos brindados pela Filosofia da Vida de Fredrich Nietzsche, e que configura-se no seu perspectivismo e na sua perspectatividade, perspectivismo e perspectatividade, característicos e fundamentais, da verdade e dos valores.

Não podemos afirmar com precisão em que ou onde, a perspectiva que eclode na concepção brentaniana compartilha origens com a perspectiva que emerge na filosofia de Nietzsche. Seria interessante elucidar a questão. É interessante observar nerste sentido que, como em Nietzsche, todos os pioneiros da Psicologia Fenomenológica, além de raízes fincadas na filosofia, tinham raízes consistentemente deitadas na arte, e em especial na música. Assim era o caso de Hermann Lotze (1817-1881), de Franz Brentano (1838-1917), de Carl Stumpf (1848-1936), Cristhian von Ehrenfels (1859-1932) e outros, que, invariavelmente, utilizavam a perspectiva musical ou artística como fundamental referência em seus estudos, ou eram eles mesmos artistas, além de filósofos e/ou psicólogos. A arte, e a música em particular, adquirem, como sabemos, um lugar supremo na vida e na perspectiva e perspectatividade experimental nietzscheana.

A Filosofia de Nietzsche, e, evidentemente, a sua noção de experimentação, perspectivação e perspectatividade, são igualmente rejeitadas, de um modo geral, no âmbito da cultura e da psicologia norte americanas. Esta rejeição decorre de fatores culturais, em especial decorrentes de conflitos da cultura anglo-saxã e judaica com a cultura germânica, e da cultura anglo-saxã com a cultura da Europa continental. Decorre, em particular, de conflitos religiosos destas culturas com a filosofia da vida de Nietzsche, de cunho fortemente anti-religioso e crítico da tradição religiosa de nossa Civilização Ocidental.

Sabemos que a cultura norte americana, e sua psicologia, são fortemente marcadas pela perspectiva religiosa. Ora, é exatamente neste meio que vai desenvolver-se a semente de uma psicologia e psicoterapia fenomenológico existenciais --, profundamente marcadas nas suas origens e inspiração original pela influência da experimentação perspectivativa, característica exatamente da filosofia da vida de Nietzsche, filosofia não religiosa e anti religiosa. De modo que esta concepção nietzscheana de experimentação, e a influência de Nietzsche vão ser fortemente rejeitadas, às vezes a um nível fóbico, por amplos segmentos da psicologia e psicoterapia norte americanas. Inclusive, pasmemos, por segmentos da própria psicologia e psicoterapia de raiz fenomenológico existencial que então se desenvolve, e busca, ainda hoje em dia, desenvolver-se... Psicologia esta desenvolvida importantemente a partir do perspectivismo e das perspectivações nietzscheanas.

A influência de Nietzsche, e em especial a sua concepção de experimentação, seu perspectivismo e a sua perspectatividade, são fundamentais e centrais para a concepção, método, e promoção dos efeitos, das psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais. Escamoteá-los significa escamotear fundamentos da originalidade destas abordagens. Ainda hoje, amplos segmentos da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial norte americanas tentam fazer isto; e desta forma buscam a perseguição um fantasma, que seria a concepção destas abordagens sem o concurso da noção nietzscheana de experimentação, sem o seu perspectivismo, sem a sua perspectatividade, sem a sua genealogia, sem a sua transvaloração, sem a sua filosofia da vida.

A nosso ver, a intuição dos pioneiros destas abordagens foi profundamente marcada pela influência destas noções e perspectivas nietzscheanas, ainda que, por problemas e limitações próprias e por problemas e limitações próprios do seu tempo, não tenham eles explicitado adequadadmente e desdobrado conceitualmente estas noções no âmbito de suas concepções.

As perspectivas nietzscheanas chegavam-lhes de todos os lados, e de um modo muito interessante e forte. Seja pela disseminação da filosofia do Fritz Nietzsche, no âmbito da filosofia, da psicoterapia, da psicologia; seja pelos efeitos que esta produzia no meio intelectual em que viviam; ou, particularmente, no meio artístico, como a sua poderosa influência, sobre o Expressionismo, que exerceu, por sua vez, uma influência decisiva sobre os psicólogos da Gestalt, e, em especial, sobre o outro Fritz, o Fritz Perls.

Cumpre-nos, acredito, não aderir à perseguição e tentativa da criação de fantasmas, mas resgatar a intuição original dos pioneiros, e livres de amarras, problemas e distorções suas e de seu tempo, que lhes tolhiam, dispondo de conhecimentos e instrumentos de que eles não dispunham, cumpre-nos desdobrar e explicitar adequadamente o cunho especificamente fenomenológico existencial experimental das psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais.

 

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