DIALÓGICA DA ESPERANÇA
Dialogicidade, Superação e a Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial
Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo.
CENTRO DE ESTUDOS DE PSICOLOGIA E PSICOTERAPIA FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL
Rua Alfredo Oiticica, 106 Farol 57032-010 Maceió AL Brasil Fone/Fax:082-2218175
Internet: e-mail: affons@uol.com.br Site: http://www.terravista.pt/FerNoronha/1411
1998
DIALÓGICA DA ESPERANÇA
Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo.
Corro o risco aqui de que este título pareça demasiadamente romântico. Demasiadamente romântico até como às vezes se censura os escritos de Buber, e até a Psicologia dita Humanista, em geral. Na verdade não se trata disso, e se corro o risco é porque o título é bom, e retrata substancialmente uma temática interessante, e em termos existenciais fundamentais, presente frequentemente, ainda que às vezes de modo implícito, na temática das Psicologias e Psicoterapias Fenomenológico Existenciais.
Refiro-me aqui à temática da relação íntima e recíproca, intrínseca, entre a possibilidade efetiva da esperança e o processo de sua atualização e a preservação da possibilidade da abertura para o dialógico: a possibilidade, preservação e desenvolvimento da potência e criatividade no sentido da superação e transformação de condições dadas, em sua dureza e consistência de fato, pela atualização da experiência do dialógico através da abertura e afirmação da concretude da existência como ser-no-mundo.
Ou seja, mais específicamente, a confiança na e a abertura para a possibilidade do dialógico: a entrega e afirmação da concretude da existência, com tudo mesmo que ela possa conter inevitavelmente de problemático, de sofrido, pavoroso mesmo, como condição de possibilidade, como condição de mobilização de potenciais de superação e humana, potente e criativa tranformação das condições dadas. Mesmo, e em particular, nos quadros existenciais mais difíceis e desesperançados.
Por outro lado, a inviabilização desta possibilidade, da possibilidade da transformação das condições dadas, eventualmente difíceis, ou terríveis, quando cessa a esperança. Ou seja, em particular e especificamente, quando se enfraquece na pessoa a possibilidade da afirmação e da abertura para o dialógico, quando cessa a disposição ativa para uma entrega e afirmação de si enquanto ser-no-mundo, na facticidade e afetividade de sua existência, na concretude de sua existência. É esta entrega e afirmação que é uma entrega à possibilidade do retorno potente da vida enquanto retorno da vontade de viver, que potencializa o devir e a possibilidade da transformação das condições dadas.
Sabemos que os seres humanos têm potenciais que não raro revelam-se como impressionantes. Sejam como potenciais de auto-constituição e criação de si, sejam como potenciais de auto-superação, sejam como potenciais de regeneração, de auto-reconstituição e re-construção e criação de si. Potenciais que revelam-se igualmente como potenciais de auto-superação. Vemos, para ficarmos nuns poucos exemplos, como nos esportes, nas Olimpíadas, por exemplo, os seres humanos se superam regularmente a si mesmos de formas maravilhosas, ao nível da força e habilidade e estrutura de seus corpos; vemos como cada pessoa se supera no processo de constituição de si e de sua vida, como paulatina e meticulosamente conquista o impossível; vemos como as pessoas podem, certamente depois de um período de impotência e perplexidade, paulatinamente recobrarem-se das diversas catástrofes possíveis da vida, auto-superarem-se e criarem vidas novas, habilidades novas, capacidades novas, recursos novos, inesperados e insuspeitados.
Vemos igualmente, por outro lado, e com lamentável frequência, a possibilidade do embotamento desses potenciais da existência humana. A vida embotada e soterrada pelas consequências das catástrofes existencias, os riscos dos naufrágios existenciais, e os próprios naufrágios... e náufragos.
Vários fatores, certamente, marcam a diferença entre a efetivação de cada uma das duas possibilidades: a possibilidade da superação das condições dadas, superação em particular de si próprio, com a criação de novas condições de si e de novas condições situacionais; ou o sucumbir ao peso de uma situação infortunada inevitável, ou ao peso de uma indesejável condição de si, que impôe-se com o peso de uma realidade dada e irrecorrível.
Um desses fatores que marcam a diferença e que não é de se negligenciar, é a disposição para a experiência da esperança. Eu diria mais: a intimidade com a vivência da experiência da esperança. Veja que eu não falo aqui da esperança no sentido moral de um valor, ou da esperança como um princípio, mas da experiência da esperança, ou seja, da experiência vivida da esperança. Porquê a experiência vivida da esperança não é teórica, é certamente utópica,mas não é idealista. Ancora-se firmemente numa atitude prática, numa atitude existencial aberta, implicada e ativa diante do mundo. Numa atitude de abertura e afirmação da existência, mesmo que, como sabemos, isto signifique em certos momentos a abertura para e a própria afirmação do sofrimento e das finitudes inevitáveis, inerentes à existência. A abertura e afirmação, a assunção, do desconhecido e do misterioso, igualmente inevitáveis na vida humana.
De modo que a preservação de uma atitude dialógica, a disposição preservada de abertura para a possibilidade do dialógico, é um componente fundamental da esperança, e, de fato, com ela mesmo se confunde. Porque a abertura para o dialógico é precisamente esta abertura e afirmação da concretude da existência em sua facticidade e intrínseco devir.
Em sua efetividade, a esperança, como atualização do dialógico, não é um querer, uma vontade, ociosos e meramente ideais. A dialógica da esperança torna-nos pareceiros receptivos, mas igualmente ativos, do acontecer de um mundo cujo nascimento e abolição, como diz Buber (1979. p. ),
Mundo e existência não têm realidades ou desdobramentos autônomos, interdependem, e a grande mágica é a ação dialógica que interpreta o vivido na correlação da pessoa com o mundo que lhe diz respeito.
O dialógico configura-se como os efêmeros momentos, intrínsecos à vida humana, em que, pela entrega plena e intensa à concretude da existência em seu ser-no-mundo e com o mundo, podemos transcender e transformar as condições dadas, do mundo e de nós próprios, -- condições estabelecidas, cristalizadas, com o peso de realidade, e que permitem a profecia baseada na objetividade (Buber) -- e efetivamente plasmar a nós próprios e ao mundo.
Os momentos do dialógico são eventuais e efêmeros. Vivemos normalmente no e com o mundo do Isso. Não podemos produzir os momentos dialógicos de relação Eu-Tu em nossa vida. Buber(1979. p.) nos diz que eles nos são dados por graça, ainda que sejam inerentes, e mesmo inevitáveis na vida de qualquer um. Nem sempre, todavia, podemos manter a abertura, a tolerância, o trato para com estes momentos dialógicos, para com a experiência do dialógico. O mundo do Isso tende a crescer em nossa vida, da mesma forma que tende a crescer na vida social e na vida da humanidade. Há, assim, a necessidade de um certo cultivo para que possamos manter a nossa capacidade para transcender a esfera do mudo do Isso em nossa vida, e nos disponibilizarmos para uma entrega à concretude de nossa existência enquanto ser-no-mundo, de modo que possamos abrirmo-nos para uma vivência natural dos dialógicos momentos de relação Eu-Tu em nossa existência como ser-no-mundo. Na vivência ativa desses momentos é que reside a possibilidade de decisão, a esperança e a possibilidade plástica de nós mesmos e do mundo, a possibilidade existencialmente artística de plasmarmos a nós mesmos e ao mundo que nos diz respeito.
Mas exige isto. Esta vontade e disposição de entrega à concretude da existência, em particular, quando ela encarna, o difícil, o amedrontador, o sofrimento e finitude inevitáveis. Exige uma confiança empedernida, às vezes cega e até ingênua, em algum lugar, de que o apocalipse, como disse Laymert Garcia (1985, pp. ), pode não ser o final dos tempos, mas uma passagem para novos tempos, como sugere o apocalipse de Nietzsche, em contraposição ao Apocalipse de São João. Exige a vontade da utopia, mesmo cega e ingênua em alguns momentos, mas firmemente ancorada na modéstia de seus possíveis. Exige, enfim, uma capacidade habitual para a abertura para o dialógico, na incerteza e imprevisibilidade deste, em particular quando o sofrimento e as dificuldades parecem mais opacos.
E estes são assim componentes fundamentais da esperança, e como tais são componentes fundamentais dos processos de auto-constituição e reconstituição humanos, de auto-criação e recriação, de regeneração.
Algo do potencial e da saúde humanos está profundamente embotado e comprometido quando desaparece esta vontade, esta força da esperança, em particular nos momentos difíceis e desesperadores. Momentos difíceis e desesperadores são momentos intensos de um certo arregaçar de mangas, são momentos de alerta, são momentos de perseverança e luta, ainda que apenas interior frequentemente, são momentos de entrega sincera à concretude da existência, à possibilidade do dialógico. Por isto que nossa vida carece de ser uma constante pedagogia do dialógico. Uma entrega constante à concretude da existência que nos potencializa para a possibilidade do dialógico, para a possibilidade da afirmação e da transformação de nós mesmos e do mundo que nos diz respeito.
O que poderíamos chamar de des-esperança desconhece a tudo isto. Desconhece o dialógico e a possibilidade transformadora do vínculo da relação. É, desde o princípio, descrença e entrega ao decurso das coisas e da fatalidade (Buber, 1979. pp. ), abdicação do poder criativo da decisão e da abertura para o dialógico.
Assim é que não é muito dizermos que a psicoterapia fenomenológico-existencial, em particular tal como ela se caracteriza na Gestalterapia e na Abordagem Centrada na Pessoa, é, fundamentalmente, uma certa pedagogia do dialógico, uma certa pedagogia de resgate e de atualização da esperança, em níveis existenciais diversos. Sua filosofia da vida, sua epistemologia, sua teoria e método voltam-se fundamentalmente para a potencialização de uma entrega fenomenológico-existencial do cliente à concretude, e afirmação, de sua existência, para uma potencialização da capacidade do cliente para interpretar-se a si mesmo (Fonseca, AHL, 1998a) como ser no mundo, interpretar* efetivamente a sua existência, a partir da interpretação do desdobramento da compreensão do processo de seu vivido (Heidegger, 1951, p.166). De modo a que ele possa potencializar-se como criador e original, como homem criativo e ativo, na plasmação de si mesmo e do mundo que lhe diz respeito, mantendo e cultivando, desta forma, suas melhores capacidades para a criação de sua vida e de seu mundo, e para o enfrentamento de suas dificuldades.
Uma das características mais fundamentais, e problemáticas, dos clientes de psicoterapia, em particular dos mais comprometidos, é a perda da esperança. Perda da esperança que precipita-se ou consolida-se eventualmente, de modo lamentável, no contato com profissional de saúde, quando recebem um diagnóstico psicopatológico, por exemplo. É sentirem-se presas e vítimas de situações indesejáveis, e não sentirem-se potentes ou hábeis para modificá-las, é sentirem-se vítimas destas situações coisificadas em que o movimento mecânico da coisidade cristalizada assumiu o controle, caracterizando-se como inevitável, como inevitável decurso das coisas (Buber, M, 1979. p. ). É a crença nesse decurso e a crença dogmática em sua inevitabilidade, a crença na fatalidade. E portanto a descrença em seu próprio potencial criativo, a descrença e o desconhecimento do potencial de transformação da realidade dada propiciada pela abertura e afirmação da existencia e pela experiência do dialógico.
De modo cristalinamente claro, Buber (1979, p. ) dirá com propriedade:
E dirá (Buber 1979 p. ), ainda, como mencionamos acima:
O cliente frequentemente desconhece ou subvaloriza assim a esperança; mais que isto, desconhece o poder do dialógico na transformação da existência e do mundo dados. E tem de alguma forma impedido a eles o seu acesso. Ou seja de alguma forma está impedido, pela dor e pelo sofrimento, pelo medo, pelo pavor, pelo hábito, pelo receio da "perda" do que já perdeu, de assumir e de afirmar, de aceitar e afirmar a integridade fundamental de sua atualidade existencial, a integridade, a concretude de sua existência: assunção e aceitação que são modos fundamentais da abertura para o dialógico e para o poder regenerativo de suas possibilidades e de suas possibilitações.
Mais básicamente, o cliente carece de assumir e aceitar paulatinamente, no espaço e no tempo fenomenológico-existenciais exprimentais da relação psicoterapêutica, o seu sofrimento, a sua dor, o seu medo, o seu hábito, o seu receio de "perder" o que já perdeu, que o impedem de assumir, aceitar e afirmar a concretude de sua existência. Fundamentais momentos para a abertura aos momentos do dialógico.
De modo que grande parte do trabalho terapêutico desenvolve-se em torno dessas dores, sofrimentos, receios, pavores, pânicos de aceitação de certas áreas da existência, que levam a uma fobia a uma aceitação e afirmação mais plenas da concretude da atualidade existencial do cliente. Superados estes momentos, a psicoterapia constitui-se na própria prática, no espaço e no tempo fenomenológico-existencial da relação psicoterapêutica, da assunção e afirmação da concretude da existência em seus devires, alegrias, sofrimentos, finitudes e retornos da vontade de viver, natural potencialização da abertura e afirmação da experiência do dialógico, natural pedagogia existencial da esperança e da criatividade de viver.
BIBLIOGRAFIA
BUBER
, Martin (1979) - EU E TU, São Paulo, Cortez & Moraes.FONSECA, Afonso H. Lisboa da (1998) - TRABALHANDO O LEGADO DE ROGERS. Sobre os Fundamentos Fenomenológico-Existenciais, Maceió, Pedang.
FONSECA, Afonso H. Lisboa da (1998a) - Interpretação Fenomenológico Existencial. Sobre o Sentido do Interpretativo em Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial, Maceió, artigo inédito. Disponível na Internet em (http://www.Terravista.pt/FerNoronha/1411).
GARCIA DOS SANTOS, Laymert (1985) - TEMPO DE ENSAIO, São Paulo, Companhia das Letras.
HEIDEGGER, Martin (1951) - EL SER Y EL TIEMPO, Madrid, Fondo de Cultura Económica.
[ Página anterior ]