No Capítulo 6 de Sobre o Poder Pessoal -- A Abordagem
Centrada na Pessoa e a Pedagogia do Oprimido -- Rogers menciona e comenta
o que ele considera serem relações de similaridade entre as duas abordagens.
O
texto enseja diferentes e contraditórias perspectivas de análises. Uma de suas
implicações relevantes, a meu ver, é a de que é um movimento concreto do
“mundo da psicologia” em direção à Pedagogia do Oprimido, e em direção, mais
especificamente, ao oprimido. Sem dúvida que vale a pena saudar este fato, uma
vez que não são muitos os movimentos neste sentido dentro da psicologia
oficial. Que se apresenta (oprimido? Não! É outro departamento!...)
satisfeita, entre os seus muros, com olhares indulgentes e afirmações
abstratas, e evasivas, sobre os 95% de pessoas que se encontram do lado de
fora.
Com isto, além de contribuir efetivamente para a causa da exploração e da
opressão, com a desumanização, implicação natural, desumaniza-se e
fossiliza-se.
O
movimento de Rogers, e de outros que praticam a AR, parece-me ainda mais
significativo, na medida que parece derivar de uma busca de referenciais para
o desenvolvimento da própria abordagem, que, como as outras abordagens de
psicologia e de psicoterapia, enfrenta o beco sem saída em que estão metidas
com a reificação do ser humano em nossa Sociedade Ocidental Pós-Industrial.
Buscar incluir o oprimido, e a sua perspectiva da realidade e da vida humana,
parece ser parte importante do caminho no sentido que leva a psicologia e a
psicoterapia a desenvolverem-se como produtos e processos de humanização e de
libertação do homem. Buscar incluir o oprimido e a sua perspectiva, sem
assistencialismos e falsas identificações, mais uma vez dissimuladores da
opressão e da alienação, parece ser a única forma de pormos os pés no chão,
para lidar com o homem (conosco mesmos), seja ele de que mundo for.
Porque a perspectiva do explorador parasita é destrutiva e desumanizante para
qualquer tipo de homem, inclusive para ele próprio.
Não se trata, assim, de “construir uma psicologia” para os oprimidos, adotando
a sua perspectiva, trata-se, sobretudo, de, adotando a perspectiva da
totalidade do humano, desenvolver uma psicologia, uma ciência, para o homem.
Assim, vejo um mérito importante na atitude de Rogers, na medida que, bem ou
mal, lança uma ponte, do poderoso lado da psicologia institucional, através da
qual algo de positivo pode transitar em ambos os sentidos.
Por outro lado, as possibilidades de crítica àquele capítulo de Rogers no
Sobre o Poder Pessoal não parecem ser poucas.
Inicialmente, o texto aborda a questão das relações entre a AR e a PO de uma
forma definitivamente muito apres-sada e simplista. Esta é, aliás, uma
tendência muito freqüente nas comparações que se faz entre a AR e a PO. A
implicação natural, é uma superficialidade que escamoteia a complexidade de
uma tal aproximação, se não a inviabiliza, uma vez que tem por base uma
consideração muito limitada pela alteridade de Freire, de suas idéias, de seu
trabalho, e de seu contexto sócio histórico. Acredito numa relação possível
entre ambas as abordagens, apesar de tudo, mas esta seria, apenas, uma base
sobre a qual, no debate das pessoas que as praticam, o diálogo pode se
desdobrar, no sentido de uma saudável construção e reconstrução respectivas.
Curiosamente, parece que a maior limitação nas tentativas efetuadas por
praticantes da AR de relacioná-la com a PO, deriva do fato de que seus autores
não empatizaram de uma forma adequada com esta pedagogia, e com as posições e
condições concretas de Freire.
Como Rogers indica, há uma diferença fundamental entre o seu trabalho e o de
Freire, no que diz respeito às pessoas a quem eles se destinam. No caso, os
“estudantes das instituições de ensino” e “camponeses amedrontados e
oprimidos”.
Parece-me, não obstante, que, para relacionar a ACP com a PO, é necessário, e
mesmo imprescindível, caracterizar clara e explicitamente, o contexto
histórico e sócio cultural em que surgiu e em que se desenvolveu cada uma das
abordagens, e a quem elas se destinavam. O que pode evidenciar as suas
particularidades, as suas especificidades e idiossincrasias.
Um outro aspecto significativo a levar em consideração, é que Rogers tem
trabalhado e desenvolvido as suas idéias basicamente no campo da psicoterapia
e da educação. Freire desenvolveu seus trabalhos e suas idéias apenas no campo
da educação -- não trabalhou no campo da psicoterapia --, tendo sempre, e
praticamente, um contexto político definido como referencial de seu trabalho.
Isto confere a cada uma das abordagens peculiaridades que não podem ser
negligenciadas numa análise da relação entre elas.
Freire sempre concebeu a pedagogia como uma atividade essencialmente política.
Sendo a sua abordagem, desta forma, um instrumento explicitamente político,
referido ao contexto peculiar da estrutura capitalista de nossa sociedade (foi
isto, aliás, que deu origem ao seu trabalho).
Só a partir de Sobre o Poder Pessoal é que Rogers, como ele mesmo
coloca, atina para a dimensão política de sua abordagem, explicitando-a como
tal. É exatamente isto que o leva a identificar similaridades entre a sua
abordagem e a PO. É importante atentar para o fato, entretanto, de que a
concepção do político é extremamente diferente em ambos. Freire partiu
e assume explicitamente a análise Marxista-Cristã da estrutura social, e
pensa, através dela, a sua pedagogia, como modo de transcendência desta
estrutura social.
Rogers não assume esta perspectiva. Seu posicionamento político é vago, ainda
que se comprometa contra estruturas desumanizantes, e com a construção de
modelos de facilitação das relações humanas que possibilitem a livre
atualização do potencial humano.
De um modo geral (em um de seus últimos textos, Rogers critica a ação
imperialista dos EUA em El Salvador), Rogers, apesar de entender a sua
abordagem como política, não a insere, de uma forma definida, num
contexto das relações dos Países de Primeiro Mundo, em particular dos EUA, com
os Países do Terceiro. Configura-se, assim, uma lacuna apreciável, e de
difícil transposição, para uma análise comparativa realista das relações da AR
com a PO, uma vez que o contexto dessas relações é um referencial fundamental
para esta última.
Rogers tem se preocupado de uma forma acentuada com as questões da corrida
armamentista, e de como a psicologia poderia oferecer subsídios para um
eventual equacionamento da ameaça de aniquilação da humanidade. Parece-me uma
iniciativa importante, e que interessa a todos. Vale ressaltar, não obstante,
que, ainda que esta seja uma questão crucial, para nós do Terceiro Mundo, a
Questão Leste-Oeste não esgota os nossos interesses mais importantes, e,
acredito, os interesses mais importantes da humanidade. Pontos cruciais da
preservação de nossa sobrevivência, em particular das maiorias oprimidas,
não se situam no eixo deste conflito, mas no eixo do, melhor dissimulado,
conflito Norte-Sul. Este conflito, suas bases, desdobramentos, estruturas
e implicações não são, tematizados por Rogers e por sua abordagem.
A
AR se desenvolveu nos Estados Unidos, e Rogers trabalhou -- e trabalha --
sempre com a Classe Média e Alta da Sociedade Norte Americana (ou Européia),
com psicoterapia e em educação nas universidades.
Freire trabalhou, trabalha, e desenvolveu as suas idéias (quase que podemos
dizer) a partir de, e em, um outro planeta. O Nordeste do Brasil. Não se
tratava, nem se trata, apenas -- ainda que isto seja parte da verdade --, de
“camponeses amedrontados e oprimidos”, mas de camponeses historicamente
afogados na exploração, no sofrimento estruturado e no genocídio lento,
abandonados à sua própria sorte, nos descaminhos das “obras primas” e dos
mecanismos da desumanidade e da desumanização estruturadas, que, como seres
humanos -- todos nós -- não conseguimos ainda superar.
Neste contexto, contexto da produção do trabalho e das idéias de Freire, os
Estados Unidos têm um papel específico, principalmente porque têm um papel
específico na produção e na manutenção da miséria nos Países de Terceiro
Mundo.
Mas estas peculiaridades podem ser ainda mais especificadas. Os trabalhos de
Freire, no início dos anos sessenta, foram minuciosamente acompanhados pelas
Agências de Informação dos Estados Unidos. Agências de financiamento do
Governo Norte Americano chegaram a financiar alguns dos projetos de Freire.
Alarmarem-se depois com os resultados revolucionários obtidos por Freire.
Passaram então a conspirar contra o trabalho de Freire -- , não por acaso,
contra a democracia brasileira, e com os movimentos que resultaram no golpe
militar de 1964. Participaram, assim, ativa e decisivamente do desmantelamento
do trabalho de Freire, e dos resultados por ele obtidos, o que se deu, por
fim, com o movimento militar, com Freire sendo exilado para o Chile de Allende,
depois para a Europa.
Ao considerar e colocar estes dados, não pretendo contrapor sectariamente o
Terceiro Mundo ao Primeiro; ou Brasil, Terceiro Mundo e Estados Unidos, mas
indicar as dificuldades concretas que se colocam a uma análise das relações
entre as duas abordagens, a partir das relações entre os seus respectivos
contextos de origem e de desenvolvimento.
A
Abordagem Rogeriana difundiu-se por vários países. Num primeiro momento, ela
foi, e é, assimilada, tanto as suas concepções e método, como suas hierarquias
de poder, quase que integralmente, como ela se desenvolveu nos Estados Unidos.
Isto é curioso e reflete o quanto, freqüentemente, somos partes do Primeiro
Mundo no interior do Terceiro, mantendo e reproduzindo as relações de
desigualdade entre esses mundos.
Com a difusão pelo mundo da AR, os Norte Americanos -- principalmente -- que
participavam e participam deste processo, contataram e contatam outros
contextos sócio-culturais.
Um dos mais importantes limites de sua produção teórica tem sido, parece-me, o
de dar à sua própria linguagem particular o cunho de uma linguagem planetária
e generalizável a toda a humanidade. Não se preocupam, ao tentar uma
empreitada desta natureza, em incluir nesta linguagem, já que a pretendem
planetária, a voz e as linguagens das pessoas e dos povos destes outros
contextos. Sintoma de que freqüentemente negligenciam a percepção destes
outros como tão humanos quanto eles próprios.
Explicitam apenas a sua linguagem, com o pressuposto de uma validade
universal. Com isto, colaboram no sentido da aniquilação destas outras vozes e
linguagens, que perecem no discurso da abordagem.
Curioso, entretanto, mais uma vez, é ver como a linguagem Norte Americana,
pretensamente universal, é assimilada por pessoas de outros contextos, cuja
voz nela não está incluída, e que passam, com toda a desenvoltura, a
expressá-la. Isto é freqüentemente simétrico, também, com os mecanismos de
transferência do poder institucional.
É
importante frisar, todavia, que esta já não parece ser mais uma tendência
absoluta. Depois que os Norte Americanos “saíram de casa” começaram a
viajar mais pelo e contatar o Mundo, eles também começam a mudar. A indicação
das identidades com a PO é, acredito, parte deste processo.
Importantes produções teóricas suas, já levam em consideração as diferenças, e
expressam o seu processo de aprendizagem de uma “língua” que não pressuponha a
aniquilação dos diferentes -- às vezes tão diferentes.
Maureen (que não é Norte América-na, mas Irlandesa, apesar de morar nos
Estados Unidos) tem desenvolvido nesta direção muito de sua produção; John
Wood, também. No último número do periódico Journey, John comenta a sua
experiência de reconverter-se em Americano, depois de alguns meses na
Europa. Toda esta tendência parece alvissareira, e representa o sadio e
natural exercício de uma capacidade de crítica e de reconstrução, à medida que
fluem o tempo e a experiência.
Quando faço estas observações, entretanto, e quando proponho uma
des-Norte-americanização da AR, não estou propondo uma
des-Norte-americanização dos Norte-Americanos, no que eles têm de sua
própria cultura. Que, enquanto tal, é tão feia ou bela quanto a cultura de
qualquer um de nós, ou de qualquer outro povo.
Em Sobre o Poder Pessoal,
respondendo a críticas que propunham que a Abordagem Centrada na Pessoa seria
“moderada”, e não teria relevância para lidar com “minorias
oprimidas”, tais como “Negros, Chicanos
, mulheres, estudantes, ou outros grupos marginalizados e relativamente sem
poder”, Rogers diz:
“Eu
poderia responder que, embora as ocasiões de trabalhar com minorias raciais e
étnicas tenham sido para mim limitadas, minha experiência é de todo oposta a
tais afirmações”.
E
invoca as semelhanças que ele vê entre a sua Abordagem e a Pedagogia do
Oprimido, para refutar a crítica. Diz Rogers:
Os princípios sobre os quais (Freire) assenta seu trabalho são tão semelhantes
aos princípios de ‘Liberdade para Aprender’, que eu fiquei boquiaberto e
estarrecido.
Concordo com as concepções de Freire. Já indiquei, ao falar de educação, que
eu estenderia os princípios básicos, sobre os quais ambos parecemos estar de
acordo, a todas as situações de aprendizagem.
De início, é interessante observar a disposição de Rogers de assumir os pontos
de contato entre sua abordagem e a de Freire. Salta aos olhos, de início,
também, o fato de Rogers colocar o problema em termos de minorias étnicas e
raciais oprimidas.
Sem querer desqualificar as lutas de libertação e de afirmação dessas minorias
no contexto da comunidade Norte Americana, é imperioso reconhecer que a
questão principal para qualquer humanista não é esta. Não se trata
simplesmente de minorias étnicas e raciais oprimidas, mas das
maiorias econômica-mente oprimidas. Maiorias que são o sub-produto
necessário de um sistema capitalista de produção, de uma cultura capitalista,
que, ao produzir de um lado a acumulação capitalista nas mãos de uns poucos,
produz, necessariamente, do outro lado, a pobreza e a miséria necessárias a
sua própria manutenção e reprodução. Um sistema que de há muito extrapolou as
fronteiras nacionais, e que cria e mantém agora a pauperização de nações
inteiras. Um sistema que, junto com a burocracia socialistóide, ameaça com a
aniquilação a todo o Planeta.
No texto citado, Rogers
coloca:
Eu dirigia-me a estudantes em instituições de ensino. Ele (Freire) fala sobre
o trabalho com camponeses amedrontados e oprimidos. Gosto de dar exemplos
concretos, ele usa quase só elementos abstratos. Ainda assim, os princípios
sobre os quais assenta o seu trabalho são tão semelhantes aos princípios de
‘Liberdade para Aprender’ que fiquei boquiaberto e estarrecido.
Eis o seu método de trabalho e os resultados que obteve junto aos
lavradores...
Neste trecho, Rogers parece sugerir uma observação sobre uma atitude idealista
de Freire (...Gosto de dar exemplos concretos, ele usa quase só elementos
abstratos. Ainda assim...). Esta observação, e o que dela implica soa
absurda para qualquer pessoa que conheça Freire ou a sua obra. Rogers
refere-se certamente a Pedagogia do Oprimido, e talvez não tenha
captado adequadamente a natureza daquele trabalho como o momento maior de
reflexão de uma intensa práxis. Tão real e concreta que conduziu Freire à
prisão e ao exílio. Prisão e exílio que não ocorreram simplesmente por causa
de suas idéias, mas, principalmente, em função de uma práxis que, àquela
altura, mobilizava milhares de pessoas, em todo o Brasil, em um amplo trabalho
de alfabetização de adultos, práxis da qual as idéias de Pedagogia do
Oprimido eram um momento maior de reflexão.
De qualquer forma, foi uma práxis que não se interrompeu, que prosseguiu e que
tornou Freire conhecido nos lugares por onde passou, nos dezesseis anos de
exílio. Pedagogia do Oprimido foi editado originalmente no Chile, e
culminava todo um trabalho já desenvolvido no Brasil. Era, assim, o ponto
culminante de teorização de uma longa e profícua prática. Tomá-lo isoladamente
não faz justiça ao trabalho de Freire.
Rogers propõe-se a descrever a metodologia e resultados de Freire: ...eis o
seu método de trabalho e os resultados que obteve junto aos lavradores...
A
descrição e a análise que se seguem, em todo o capítulo, nas quais Rogers
baseia suas comparações da AR com a PO, são extremamente superficiais,
apressadas, e comprometidas, grave-mente, pela omissão dos princípios
teóricos, filosóficos e políticos das idéias e da metodologia de Freire.
As idéias e método de Freire são -- expressão que ele mesmo gosta de usar --
datados e situados. Surgiram no Brasil, no final dos Anos
Cinqüenta e início dos Anos Sessenta. Um momento em que as massas populares
brasileiras tomavam consciência de si, e se mobilizavam para participar ativa
e efetivamente de sua história, após séculos de alienação e exclusão do poder
de decisão sobre suas condições concretas de vida. Freire via, naquele
momento, na educação, e em particular na alfabetização -- já que somos um país
com uma grande população de analfabetos -- um momento pedagógico fundamental
para que esta participação pudesse orientar-se de uma forma consciente,
desalienada, não fisiológica. Fundamentada, sobretudo, na realidade concreta
do educando[16].
Começou a desenvolver a idéia que impregnou e que dá sentido a seu método:
...uma compreensão crítica do ato de ler, que não se esgota na decodificação
pura da palavra escrita ou da linguagem escrita, mas que se alonga na
inteligência do mundo. A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí
que a posterior leitura destas não possa prescindir de continuidade da leitura
daquela. Linguagem e realidade se aprendem dinamicamente. A compreensão do
texto a ser alcançada por sua leitura crítica, implica a percepção das
relações entre o texto e o contexto..
Num outro momento, Freire coloca:
A
violência dos opressores, que os faz também desumanizados, não instaura uma
outra vocação -- a do ser menos como distorção do ser mais, o ser menos leva
os oprimidos, cedo ou tarde, a lutar contra quem os fez menos. E essa luta
somente tem sentido quando os oprimidos, ao buscar recuperar a sua humanidade,
que é uma forma de criá-la, não se sentem idealística-mente opressores, nem se
tornam, de fato, opressores dos opressores, mas restaura-dores da humanidade
em ambos.[18]
Fiori sintetiza:
A
alfabetização, portanto, é toda a pedagogia: Aprender a ler é aprender a dizer
a sua palavra. E a palavra humana imita a palavra divina: é criadora.
A
palavra é entendida, aqui, como palavra e ação; não é termo que assinala
arbitrariamente um pensamento, que por sua vez discorre separada da
existência. É significação produzida pela ‘práxis’, palavra cuja
discursividade flui da historicidade -- palavra viva e dinâmica, não categoria
inerte, exâmine. Palavra que diz e transforma o mundo. (...)
Dizer a sua palavra equivale a assumir conscientemente, como trabalhador, a
função de sujeito de sua história, em colaboração com os demais trabalhadores
-- o povo.[19]
Desta forma, Freire inseria-se
no movimento histórico concreto de seu sistema social, em busca de uma
pedagogia que se colocasse a serviço do oprimido no processo de sua
libertação, permitindo-lhe converter-se em agente de transformação dela. De
objeto e vítima passiva da história, em seu sujeito, pela leitura,
conscientemente crítica, do mundo, e pela conquista da capacidade de dizer a
sua palavra. A educação foi, e é, entendida na sua dimensão essencial-mente
política, de participação no processo de constituição do estudante como
sujeito e como agente de sua história -- a sua própria e a de seu sistema
social.
Freire desenvolveu, assim, um método revolucionário de alfabetização, que
propicia a alfabetização em quarenta dias de um adulto analfabeto, em seu
próprio meio. Desenvolveu inúmeras experiências no interior do Brasil, dentre
as quais as aludidas por Ivan Illich em Sociedade sem Escolas.
O
movimento militar de 1964 alcançou-o quando coordenava, junto ao Ministério da
Educação, um amplo programa de alfabetização para todo o país, no qual
achavam-se envolvidas milhares de pessoas, entre educadores e educandos.
Funcionários do governo Norte-Americano, que prestavam serviço no Brasil
naquele momento, opinaram que o método era revolucionário, e que poderia
produzir profundas mudanças.
Depois do golpe militar, Paulo Freire foi exilado. Esteve no Chile de Allende,
onde dedicou Pedagogia do Oprimido, em 1979,
Aos esfarrapados do mundo e aos que neles se reconhecem, mas que sobretudo com
eles lutam.
Foi para a Europa, trabalhou na Itália. Na Suíça, passou a assessorar o
Conselho Mundial de Igrejas, e fundou um instituto -- O IDAC, Instituto
de Desenvolvimento de Ação Cultural -- em Genebra. Solicitado, deu
assessoria, junto com o pessoal do IDAC, na estruturação dos sistemas
educacionais das jovens Nações Africanas, recém libertadas do colonialismo
português. Estas experiências estão relatadas em livros, em particular em
Cartas à Guiné-Bissau
e Vivendo e Aprendendo.
Voltou ao Brasil, em 1980, desenvol-vendo atualmente seus trabalhos como
professor da Universidade Católica de São Paulo e da Universidade de Campinas.
É também professor visitante da Universidade de Havard, nos Estados Unidos.
Acho difícil que se entenda a postura de Freire, sem que se evoque a sua
postura Marxista-Cristã de compre-ensão de nossa realidade, e da inserção
desta na realidade mundial. Postura de compreensão da possibilidade, e da
necessidade de sua superação, de seu processo de transformação.
Por outro lado, Freire é, essencialmente, um homem do diálogo. Um mágico da
vivência de palavras para dizerem e viverem verdades. O diálogo, aqui,
não é simplesmente o do conceito vulgar, mas o diálogo entendido como
atitude dialógica, e como encontro fenomenológico existencial, no
sentido em que o entendeu M. Buber.
(Este parece ser, consistentemente, um ponto de contato entre a sua Pedagogia
do Oprimido e a Abordagem Centrada na Pessoa, que voltarei a comentar
adiante). Um apaixonado pelo homem e pela vida, um humanista radical, que só
pode entender o humanismo como um processo radicalmente comprometido com o
desenvolvimento do homem todo e de todos os homens, como disse Malraux.
Sua prática política, sua prática científica, pessoal e profissional, é uma
prática fundamentada nesses ideais. Sua produção está, concreta e
explicitamente, a serviço do processo de transformação das estruturas que
mantêm e criam as desigualdades entre as pessoas e entre as classes.
Partindo da crítica marxista do sistema capitalista de produção, como
essencialmente iníquo e desumanizante, insere-se confiantemente no processo de
sua superação. Entende-se, assim, fundamentalmente comprometido com o homem,
através de seu comprometimento como brasileiro nordestino, como brasileiro e
como latino-americano, com a transformação das estruturas que sustentam, de um
lado, a acumulação das riquezas, e, do outro, a produção e a manutenção da
miséria às raias do indizível.
Nada disto -- que é tão intrínseco e essencial, e necessário, a Paulo Freire e
a seu método -- está mencionado no referido capítulo de Rogers, em Sobre o
Poder Pessoal. Um Paulo Freire, e uma Pedagogia do Oprimido, desvinculados
destes elementos, estão essencialmente descaracterizados.
Ele
(Freire), continua Rogers, teve apenas cinco anos para trabalhar no Brasil,
antes de ser preso; a antiga ordem e a Junta Militar que assumiu o poder, em
1964, temiam-no. Ele foi convidado a deixar o País, indo para o Chile onde,
desde então, tem trabalhado com várias organizações internacionais.
Na verdade, quem assumiu o poder no Brasil, em 1964, não foi uma Junta
Militar, mas um marechal do exército. A Junta Militar só assumiu três anos
depois, em 1967. Quando Rogers escreveu isto, em 1977, já se havia perpetrado,
em 1973, o covarde golpe militar no Chile, com a decisiva participação da
Embaixada dos EUA naquele País. Allende já estava morto, assassinado, assim
como muitos chilenos, que pereciam e viriam a perecer das formas mais torpes e
covardes; Pinochet -- com o auxílio de especialistas Norte Americanos
-- dava seqüência à sanguinária matança de cinco mil Chilenos. Paulo Freire,
que até então estivera no Chile, fugira mais uma vez, para não ser preso e
eventualmente torturado e/ou morto, como dezenas de outros Brasileiros e
Chilenos ilustres. Estava então, 1977, na Suíça, trabalhando para o Conselho
Mundial de Igrejas... E Rogers não sabia muito bem dele.
Acredito que Rogers tem razão, quando diz existirem similaridades entre a sua
Abordagem e a Pedagogia do Oprimido. Mas ele não chega a localizá-las e
atingi-las em suas colocações naquele capítulo.
Parece-me que o seu erro básico, como mencionei, é o de não considerar
adequadamente e concretamente a alteridade fundamental da pedagogia do
oprimido e das idéias de Freire, e do próprio Freire, em relação à AR.
Arranca-os de suas bases e de suas raízes, para tentar uma comparação com um
modelo delas abstraído. O que consegue, de fato, é liquidá-la conceitualmente.
Diz a Pedagogia do Oprimido com a linguagem da AR. Trata-os como abstração.
Reduz a Pedagogia do Oprimido a alguns conceitos na sua própria linguagem, o
que configura -- sem querer pôr em questão a honestidade pessoal de Rogers – o
feito de um processo de aniquilação conceitual, ideológica.
Parece-me que, se queremos desven-dar relações, que certamente existem entre
as duas abordagens, a despeito de suas diferenças, é necessário valorizar
estas últimas, conhecê-las, analisá-las, ponderá-las, conversar sobre elas,
afirmá-las, respeitá-las, para, só então -- no diálogo de alteridades
--, afirmar as primeiras e buscar construí-las. A isto Rogers negligencia, nas
referências daquele capítulo de Sobre o Poder Pessoal, a respeito de
Freire, e da Pedagogia do Oprimido. O que compromete vitalmente as suas
colocações.
Maureen Miller, uma das mais próximas colaboradoras de Rogers nos últimos
anos, e uma das mais ativas construtoras do conhecimento recente da AR,
ressalta, como observei no início, a presença das idéias de Freire no
desenvolvimento de seus próprios pontos de vista. No seu artigo
Psicoterapia, Tecnologia da Mudança ou Busca de Conhecimento,
ela refere-se ao seu encontro com a obra de Freire, que, segundo relata,
deu-se ao mesmo tempo que o seu encontro com a obra de Rogers:
(...) uma das mulheres passou-me um capítulo de um livro intitulado
‘Client-Centered Therapy’, de Rogers, capítulo intitulado ‘Educação
Centrada no Estudante’, e o livro, “Pedagogy of the Opressed”,
de Freire. Esses dois livros abriram para mim um campo novo, e entrei nele
como normalmente o faço: completamente
Maureen tem se preocupado com as relações entre a AR e a PO.
No First International Forum on the PCA, realizado na Cidade de
Oaxtepec, no México, em Julho de 1982, ela apresentou um trabalho sobre o
assunto intitulado, “Person-Centered Approach as Conscientização: The Works
of Carl Rogers and Paulo Freire”. Quero tecer alguns comentários com
relação a este texto.
Logo no início de seu trabalho, Maureen comenta a natureza utópica das
atitudes e idéias de Freire. Ela coloca: Freire admite ser um utopista.
E
cita-o:
‘Conscientização’ implica em utopia. Quanto mais conscientes nós somos, mais
somos capazes de denunciar o inumano e o desumanizante, e de proclamar o
humano, movendo-nos, desta forma, sempre para mais próximos de um sonho
utópico. Nosso desejo é o de transformar.
Pelo que diz nesta passagem, Freire é um utopista. A utopia é, de fato, um
ponto fundamental da perspectiva de Freire. Mas, dizer apenas isto, é
insuficiente para definir a sua posição e a sua concepção de utopia. As idéias
de Freire fundamentam-se, essencialmente, numa visão materialista-histórica da
realidade, em oposição a uma concepção idealista. A utopia -- palavra
histórica (Buber), que nos instiga a constituir na ação uma resposta -- se
constitui fenomenológico existencialmente como a presunção de algo que não
existe, mas que potentemente anuncia-se como histórica-mente possível, a
partir da negação de uma ordem vigente, e do que, meramente, no âmbito
restrito dos elementos de sua realidade histórica, está anunciado como
possível.
Diante do ser menos do oprimido, Freire identifica em ação a tendência
viva para a transformação, a tendência intrínseca para ser mais. No
movimento da história ele identifica o movimento da classe oprimida para
transformar a sua condição. A utopia é fundamentalmente, para ele, um
possível histórico. Está arraigada naquilo que a realidade prenuncia como
passível de ser construído pelo tentativa e risco da ação transformadora.
Este prenúncio e possibilidade históricos são condições necessárias da utopia
de Freire: seu sonho utópico constitui-se da interação ativa com a realidade
material (em oposição à ideal). Germina da realidade concreta e nela
desemborca, tanto para nutrir-se como para realizar-se.
Dizer, pois, simplesmente, que Freire é um utopista, sem clarificar
adequadamente estas dimensões de sua utopia, não define devidamente a sua
atitude.
Num outro trecho de seu trabalho, Maureen faz as seguintes colocações:
Existem similaridades técnicas entre a
pedagogia do Oprimido... e as Abordagens centradas na pessoa à
terapia, educação e facilitação de grupo... Seria um erro, entretanto, assumir
que tecnologias similares significam resultados similares...
Não acredito que os aspectos importantes, quer da pedagogia de Freire quer das
abordagens centradas na pessoa sejam baseados em suas tecnologias.
Quando indagamos sobre os fins, temos um quadro mais claro do compromisso dos
dois homens. Torna-se possível ver em que medida os seus trabalhos são
baseados em uma visão similar da vida humana, em que medida eles são baseados
numa análise similar e em que medida suas práticas são compatíveis.
E
mais adiante:
Carl Rogers e Paulo Freire passaram suas vidas de trabalho em diferentes
contextos. Rogers tem trabalhado predominantemente com membros da classe média
da cultura dominante, pessoas muito parecidas com ele próprio. Freire trabalha
predominantemente com pessoas dominadas, camponeses iletrados, no terceiro
mundo. Esta diferença não pode ser vista de uma forma superficial,
especialmente quando se compara os trabalhos dos dois homens ao nível de suas
tecnologias; comportamentos que são libertadores em um contexto podem muito
bem ser opressivos em outros.
Para entender a correspondência entre os trabalhos dos dois homens, é
necessário ir por sob conceitos de superfície, tais como técnica. O trabalho
de Freire não é revolucionário por causa de seus compromissos com camponeses
do terceiro mundo. Existem exemplos dos tão falados libertadores dos oprimidos
que simplesmente continuam as táticas de dominação. O trabalho de Freire é
revolucionário em função de seu comprometimento com a verdade da realidade.
O
trabalho de Rogers pode ser reformulado e reconhecido pelo que ele realmente é
-- um processo de busca sistemática da verdade da realidade. Não são nem a não
diretividade, nem a expressão de sentimentos que fazem as abordagens centradas
na pessoa terapêuticas. É o conhecimento ou consciência crítica, sobre sua
própria condição, que cura.
Pessoas em diálogo umas com as outras e com o mundo expressam sua herança
humana plena. Ainda que diferentes contextos imponham diferentes problemas
técnicos, quer seja no contexto de uma favela brasileira, de uma sessão de
aconselhamento norte- americana ou de um grande grupo de comunidade, esta
atividade humana é revolucionária, terapêutica e transformadora.
A
abordagem centrada na pessoa teve suas origens numa busca de estratégias de
libertação de pessoas oprimidas por ideologias desumanizantes, instituições,
tecnologias, crenças religiosas, mitos pessoais e ortodoxias. O objetivo
terminal da intervenções centradas na pessoa era ‘tornar-se uma pessoa’.
Rogers está comprometido a ajudar pessoas a se tornarem quem, no mais profundo
de seus corações, elas sabem ser, diferentes da multidão.
Freire tem exatamente o mesmo objetivo.
Considero importante o trabalho de Maureen, sob vários aspectos diferentes.
Tanto no sentido de ser um movimento da Psicologia em direção à Pedagogia do
Oprimido, como já observei, como no sentido de que aprofunda uma análise
crítica das relações entre a AR e a PO, ressaltando aspectos que me parecem
relevantes, como, por exemplo, o de que eventuais pontos de contato não se
dariam ao nível tecnológico. Acredito, na verdade, ser este trabalho de
Maureen um momento de um processo de tentativas de entender e afirmar, por
entre profundas diferenças entre as duas abordagens, a intuição de
inesperados, e certamente preciosos (quem sabe profundos), pontos de
contato. Processo este, no qual busca inserir-se o presente trabalho.
Mesmo assim, considero que, parte significativa das afirmações que são feitas
no texto de Maureen, relativas às identidades entre as posturas e trabalhos de
Rogers e de Paulo Freire pecam, ainda, por fundamentarem-se numa consideração
superficial para com a obra e trabalhos de Freire. Para a formulação de
analogias ou paralelos, são comuns neste texto generalizações e,
eventualmente, afirmações que negligenciam ou desconsideram determinantes e
aspectos dos mais básicos e essenciais da obra Freire.
Nos trechos citados acima, está muito das teses de Maureen neste trabalho.
Teses que talvez possam ser sumariadas nos seguintes itens:
a) Existem muitas similaridades técnicas entre a pedagogia do oprimido... e
as ‘abordagens centradas na pessoa’... seria um erro, entretanto assumir que
tecnologias similares necessariamente significam resultados similares;
b) Quando indagamos sobre os fins, temos um quadro mais claro do
compromisso dos dois homens... Rogers está comprometido a ajudar pessoas a
tornarem-se quem, no mais profundo de seus corações, elas sabem ser,
diferentes da multidão. ... Freire tem exatamente o mesmo objetivo;
C) Quando indagamos sobre os fins, torna-se possível ver em que medida os
seus trabalhos são baseados em uma visão similar da vida humana, em que medida
eles são baseados numa análise similar, e em que medida suas práticas são
compatíveis;
d) Carl Rogers e Paulo Freire passaram suas vidas de trabalho em diferentes
contextos. (...) Esta diferença não pode ser vista de uma forma superficial
(...);
e) O trabalho de Freire não é revolucionário por causa de seu compromisso
com camponeses do terceiro mundo (...))))), é revolucionário em função de seu
compromisso com a verdade da realidade.
São importantes as observações de Maureen com relação ao fato de que eventuais
similaridades não derivariam necessariamente de tecnologias similares, e que,
tecnologias similares podem levar a fins diversos. Em primeiro lugar,
entretanto, não vejo explicitadas similaridades técnicas significativas entre
a PO e a AR. A PO tem um encadeamento de procedimentos técnicos específicos
(que, de fato não é a sua dimensão principal), através do qual, ao se abordar
uma certa comunidade, pesquisa-se o seu universo vocabular, e se
identifica os temas geradores, através dos quais será confeccionado o
material a ser adotado nos círculos de cultura.
São procedimentos especificamente definidos, que, enquanto tais, não guardam
similaridade com o que poderíamos chamar de aspectos técnicos da AR,
que não extrapolam o momento específico do encontro.
Os procedimentos técnicos da PO articulam-se explicitamente com a
totalidade histórico social mais ampla, na qual grupo, indivíduo, e educador
se inserem; e têm por objeto de trabalho os vínculos materiais, culturais,
cognitivos e afetivos específicos desta inserção, de suas conseqüências na
determinação da constituição do indivíduo e do grupo.
Já a AR não explicita, na formulação de seus procedimentos técnicos, as
relações da condição e atuação do terapeuta, ou do educador, com o grupo e com
a totalidade sócio-histórica na qual eles se inserem. Eventualmente, são
feitas alusões à totalidade planetária. Tal procedimento, entretanto,
não leva em consideração as totalidades intermediárias, que mediatizam a
inserção da condição do indivíduo, do grupo, do terapeuta ou educador, no
contexto global.
Quanto a “fins comuns”, nos trabalhos de Rogers e de Freire, parece-me
uma afirmação exagerada. Claro que podemos indicar aspectos que poderíamos
identificar como fins comuns em ambos os conjuntos de idéias. Mas, ao
elevarmos esses fins comuns ao nível de uma identidade dos objetivos de
ambos, tomamos os respectivos conjuntos de idéias, e em particular a PO, num
nível tal de genericidade que a descaracterizamos completamente.
É
interessante observar que a palavra “oprimido”, na terminologia da AR e na
terminologia da PO, respectivamente, não se refere a uma mesma condição.
Referem-se, em cada caso, a conceitos de universos teóricos diferentes. E é,
certamente, impossível reduzir um conceito ao outro, do modo como ambos estão
formulados.
Por outro lado, o objetivo de Freire parece ser o de, entendendo-se
explicita-mente como agente concreto, desenvolver uma prática educacional que
possibilite ao educando oprimido -- em particular ao política e economicamente
oprimido do terceiro mundo -- a leitura conscientemente crítica de sua
realidade.
De tal forma que ele possa, em particular, desmistificar a sua própria
explicação de sua condição existencial, e reconhecer-se como membro de um
segmento social de oprimidos e sofredores. E não, apenas, como
individualidade pessoal sofredora e oprimida. E possa -- na descoberta,
invenção e compartilha-mento da consciência de seu sistema social particular,
totalidade mais ampla e concreta da condição de sua opressão e do seu
sofrimento -- proferir, de forma, agora, conscientemente crítica, a
particularidade e a universalidade de sua palavra como ser humano oprimido,
que luta pela libertação, e resgate, de sua humanidade. Juntando sua voz à dos
outros, como ele, oprimidos. Passando a constituir-se, desta forma, como
sujeito ativo de sua própria história, e da história de sua integração social.
Agora não mais, simplesmente, como objeto passivo e vítima destas.
Seu objetivo é o de participar, explícita e efetivamente, do processo da
história de libertação das classes oprimidas --, e, pela libertação destas, da
emancipação do homem. Somando esforços no sentido do processo de tomada de
consciência de si próprias dessas classes, como segmento social oprimido.
Condição, em essência, determinada e mantida por razões históricas, explicadas
sempre de um modo mistificado.
Desta forma, a PO almeja participar do processo de constituição da
consciência, e de mobilização da ação transformadora, das classes oprimidas,
tanto ao nível dos indivíduos particulares, como a nível de seu corpo social,
no sentido da constituição de uma história compatível com um projeto de
resgate de e desdobramento de sua humanidade.
As formulações dos respectivos fins em Rogers e em Freire são formulações
muito diversas, oriundas de interesses diversos, e com inspirações diversas.
Temos em Rogers, certamente, uma inspiração no existencialismo monádico de
Kierkegaard, que conduz ao individualismo e, no limite, ao desespero, como
resíduo da existência. E, em Freire, a rebeldia marxiana, diante da injustiça
e da iniqüidade, que busca a sua articulação social.
Neste sentido, parece-me que não podemos dizer que Freire se ocupa também da
restauração “da voz de cada pessoa”. Para ele não se trata, normalmente, de
uma restauração. Imerso no oceano de uma conjuntura histórico-social
que historicamente conspira contra a sua humanidade, e, não raro, contra sua
própria vida, o oprimido nunca pôde, em geral, ter, e expressar, a sua voz
enquanto dimensão profunda de sua condição, e do imperativo de sua
reivindicação para alterá-la.
Por outro lado, a palavra que o oprimido passa a proferir, através de uma
prática educacional libertadora, é, ainda que não apenas, a sua palavra
singular como sujeito individual. Simultaneamente, é, igualmente, de uma forma
intrínseca, a palavra de um sujeito transindividual, o seu segmento
social, que com ele configura um outro momento de uma indissociável unidade
como objetos da opressão e da dominação.
Esta questão interpenetra-se com a questão relativa à colocação de serem
similares as análises da sociedade feitas por Rogers e por Freire, e de serem
similares as suas respectivas visões da vida humana, com Maureen coloca.
Acho que, existe, nestes termos, uma distância quilométrica entre Rogers e
Freire. Não acredito -- sem querer assumir uma atitude maniqueísta --, que os
trabalhos de Rogers e de Freire, que a ACP e a PO, sejam baseadas em visões
similares da vida, ou que sejam baseadas em análises similares. Não se trata,
simplesmente, a meu ver, de uma diferença apenas ao nível dos aspectos
tecnológicos; não se trata apenas de uma diferença de ênfase ou meramente
quantitativa, mas de uma diferença nitidamente qualitativa.
A
Pedagogia do oprimido parte, e tem como método fundamental, uma análise
dialética marxista da sociedade. Desta análise, extrai a sua visão da vida
humana, e o seu conceito e caracterização do oprimido. Entende a situação de
opressão como historicamente engendrada, e acredita na possibilidade de sua
superação, posicionando-se pratica-mente como agente desta superação, através
do natural processo de historicização. Posiciona-se explicitamente pela
perspectiva e causa do oprimido, e pelo processo de sua luta de libertação. A
sua prática só pode ser entendida dentro destes referenciais, que lhe dão o
seu sentido particular. O indivíduo que assume a prática da PO, assume, e
valoriza, a condição intrínseca de si como agente histórico, na realidade
social concreta em que está inserido. Posicionando-se pela perspectiva e causa
do oprimido, como causa da emancipação do homem. Pela atuação no sentido da
transcendência de sua condição, transcendência esta vista como necessariamente
tendencial no curso do processo histórico. Seus procedimentos técnicos têm
como referencia esta explícita perspectiva e opção política.
Rogers e a sua abordagem, mesmo quando se referem ao oprimido, não assumem
esta análise e perspectiva, e a visão que delas deriva da condição e da vida
humana, da condição e da vida do oprimido. Sua prática reporta-se a um
processo genérico e a histórico de atualização do potencial humano, decorrente
da tendência formativa do universo. Mas não vai mais além, no sentido
de definir este processo em termos historicamente mais claros e objetivos, no
seio do processo histórico social concreto.
Maureen menciona uma questão que parece fundamental tanto para uma compreensão
das determinações do processo de crescimento de ambas as abordagens, de suas
formas e conteúdos, como para uma análise de suas eventuais relações, e para
um eventual esclarecimento de condições para o desenvolvimento de relações de
diálogo entre os que as praticam: é a questão do contexto respectivo em
que elas evoluíram. É claro que estes contextos determinam particularidades
significativas.
A
AR diferenciou-se e cresceu nos EUA, num contexto de primeiro mundo. Na
verdade, não se trata apenas do fato de que Rogers trabalhou basicamente com
pessoas da classe média. Isto não é suficiente para definir a diferença do seu
trabalho com relação ao de Freire. A classe média Norte-Americana é
essencialmente diferente da classe média Latino-Americana, por exemplo. A PO
surgiu como resposta a uma condição histórica particular da Sociedade
Brasileira; como resposta à realidade da opressão e ao movimento popular de
busca de sua superação de uma maneira concreta. Podemos dizer que a AR surgiu
e cresceu no seio daqueles para cujas mesas, carros e casas vai muito do que é
expropriado corpo e do ser, da casa e dos pratos daqueles em cujo seio nasceu
a Pedagogia do Oprimido. (Sem maniqueísmo ou intolerância, vendo apenas as
coisas de um modo objetivo).
A
AR disseminou-se pelo mundo. Em parte, em função da disseminação do poderio
Norte-Americano do pós-guerra. Poderio este que contribuiu importante-mente
para a manutenção da exploração e da opressão, por cuja superação milita a PO.
Estes fatos dão uma dimensão das distâncias entre as duas abordagens, e das
dificuldades de uma busca de similaridades.
Na verdade, estes fatos nos compelem, também, no sentido da busca de uma
clarificação do sentido e das possibilidades de busca destas similaridades, de
eventualmente construí-las e afirmá-las.
O
fato de que a AR busca se comprometer explicitamente com uma perspectiva
humanista, e o fato de que a PO não absolutiza, ou considera de forma
intolerante ou mecanicista, a situação de opressão -- acreditando estar em
jogo, no processo de sua superação, a causa da libertação do homem -- nos dá
alento para acreditar na validade de um tal projeto. Prece haver sentido e
valor em se buscar similaridades e convergências entre as duas abordagens,
similaridades e convergências que possam recriar os seus arcabouços
conceituais e metodológicos, e às pessoas que as praticam, possibilitando
material produtivo para os caminhos de equacionamento de suas dúvidas e
inquietudes.
Ainda assim, é forçoso encarar, assumir e afirmar as distâncias, diferenças e
antagonismos dos contextos sócio-culturais e históricos em que surge cada uma
das abordagens. O agudo conflito em que estes contextos co-existem -- ao
contrário do que a ideologia dominante faz crer a nossa consciência alienada
-- e os desafios, as implicações políticas, metodológicas, teóricas, práticas
e existenciais que daí derivam.
A
AR surgiu como uma produção da classe média Norte-Americana. Transplantada
para os países de terceiro mundo, radicou-se, praticamente inalterada, e
inquestionada, no meio da classe dominante, ou de classes a seu serviço.
Contribuindo, freqüentemente, com os propósitos da alienação.
A
PO surge, e desenvolve-se, como produção dos interesses daqueles oprimidos das
formas mais degradantes, que nada têm a ver com os interesses dos segmentos
sociais que produzem e praticam a AR.
Outra colocação que me parece passível de crítica no texto de Maureen, em
função de seu nível de generalização, é a afirmação do compromisso comum de
Rogers e Freire com a busca da verdade da realidade.
Sem dúvida, tanto Rogers, quanto Freire, sustentam este compromisso. Mas, mais
uma vez, a colocação, neste nível demasiadamente genérico, fica comprometida.
A partir daí, as idiossincrasias de cada uma das partes inviabiliza, ou pelo
menos complica, qualquer idéia de um compromisso comum.
O
compromisso de Freire -- e nisto, ao contrário do que Maureen afirma, reside
muito do caráter revolucionário de sua prática e de suas idéias -- é,
fundamentalmente o compromisso com o oprimido. Um oprimido concreto,
historicamente definido, “de carne e osso”. Um compromisso com o homem, de um
modo geral, mas que se define pelo seu compromisso com a América Latina, que
se define pelo compromisso com o Brasil, que se define pelo seu compromisso
com a maltratada civilização do Nordeste do Brasil.
Pelo próprio contexto de desenvol-vimento do trabalho de ambos, seria um tanto
absurdo pensar em compromissos comuns, além do genérico comprometimento com o
homem e com a humanização (o que, sem dúvida, já é muita coisa).
A
seguir, Maureen comenta:
Pode-se argumentar que muitas formas de desumanização surgem em fonação de um
desequilíbrio de poder entre o indivíduo e o grupo. As necessidades do grupo
contrapõem-se as necessidades do indivíduo, e, geralmente, o grupo ganha às
expensas do indivíduo.
Isto é verdade, mas coloca apenas uma concepção usual na AR, que não leva em
conta que a forma básica de desumanização não surge de um desequilíbrio nas
relações grupo-indivíduo, mas das relações históricas inter-grupais, ou seja,
das relações entre as classes, a dialética da interação das classes, que
coloca como contradição o fato de que, de um lado, se acumula o capital, e, do
outro, a humanidade expropriada, a miséria humana, econômica e existencial
(miséria existencial esta que também se acumula do lado do capital).
Escamotear estes aspectos é impedir qualquer possibilidade de compreensão da
PO. É inviabilizar qualquer forma de aproximação entre ela e a AR.
O
referencial básico de preocupação da PO é a condição do oprimido, enquanto
indivíduo e enquanto classe, dentro e como produto necessário, do sistema
capitalista de produção. O oprimido como agente de superação dialética de sua
condição, como agente de transformação da condição do homem e de superação
desse sistema.
Naturalmente que existe a preocupação com o indivíduo enquanto envolvido nas
relações indivíduo-grupo. Negar o indivíduo seria negar um dos momentos da
dialética do processo. Mas, da mesma forma, restringir o grupo aos
micro-grupos, sem reconhecer a totalidade mais ampla que define a condição
mais geral e básica do grupo e do indivíduo, seria descaracterizá-los,
aniquilá-los conceitualmente, reduzindo-os de seres complexos e reais, com
quem concretamente interagimos, a uma abstração. A questão que se coloca,
pois, não é, simplesmente, a das relações indivíduo-grupo, mas, geralmente, a
das relações grupos-grupos, totalidades sociais que condicionam a constituição
das condições concretas da existência do indivíduo.
Maureen coloca a seguir:
O
foco do interesse de Rogers, é a conscientização, através da exploração do
mundo interior do indivíduo e do ambiente íntimo da relação terapêutica.
Rogers trabalha para ajudar indivíduos a explorar os mitos que eles têm com
relação a si próprios; a se tornarem mais conscientes e a mobilizar os seus
recursos internos para tornar-se mais plenamente
eu.
(...) Ele também reconhece a importância dos grupos na facilitação do
crescimento individual, trabalhando nos últimos anos quase que exclusivamente
em contexto de grupos. Mesmo na situação de grupo, entretanto, o que prende a
atenção de Rogers é o comportamento individual (usualmente emocional) dos
participantes. Ele cita freqüentemente exemplos em que a expressão individual
do eu ‘mudou o grupo’.
Rogers não fala de
questões de grupo, responde usualmente a alguém que questiona eventos a um
nível do grupo com algo do tipo. ‘Bom, eu gostaria de saber como você
se sente’. Quando um participante quer discutir a dinâmica de poder,
por exemplo, Rogers provavelmente quererá saber como o indivíduo está
experienciando o seu próprio ‘poder pessoal’ no momento (...) Rogers dá o
dádiva do reconhecimento pessoal, facilitando a ‘reumanização’ das pessoas aos
seus olhos e aos olhos de sua sociedade.
E
prossegue:
Freire, por outro lado, foca muito de sua atenção sobre o grupo ou sobre a
sociedade, criando estratégias de ensino através das quais as pessoas podem
explorar como o grupo está funcionando de formas que incrementam as suas
possibilidades ou são-lhes detrimentais. Freire focaliza as forças sociais que
promovem ou conspiram contra a humanidade plena. Denuncia sistemas de
organização humana, ortodoxias e ideologias políticas que requerem a
escravização de almas para o seu funcionamento. Busca um sistema de
organização em que o grupo não parasite a força de vida do indivíduo.
Nestes trechos, Maureen delineia diferenças significativas entre a postura de
Rogers e a de Freire. Como ela deixa claro, Rogers tem no indivíduo em si o
seu principal foco de interesse, ainda que reconheça
a
importância dos grupos na facilitação do crescimento individual, trabalhando
nos últimos anos quase que exclusivamente em contextos de grupo.
Freire, por seu turno, interessa-se pelo indivíduo, e não o desqualifica, como
um valor em si. Mas não vê nele, apenas, a sua individualidade, ou a sua mera
filiação a um dado sistema social. Entende nele, especificamente, a sua
trans-individualidade, ou seja, a particularização, na constituição de
sua pessoa, das relações deste sistema, como totalidade histórico-social
concreta, em particular as características psicossocias e comportamentais
comuns à pluralidade dos indivíduos do sujeito histórico a que ele pertence.
Ao que parece, as relações interclasse, e a sua particularização na
constituição da pessoa, que são um ponto focal básico do interesse de Freire,
não se constituem como um ponto de interesse para Rogers. Emana daí uma
diferença profunda entre ambos, nos modos como cada um concebe a pessoa, as
respectivas concepções e práticas, e realidades em que se inserem.
Não me parece suficientemente exato dizer que Freire foca muito de sua
atenção sobre o grupo ou sobre a sociedade(...)
Parece-me que Freire foca a sua atenção, a partir de um análise marxiana da
sociedade, sobre as relações opressor/oprimido, e sobre o modo como a
ideologia opressora hegemonicamente coloniza, e determina, a consciência, as
atitudes e comportamentos do oprimido.
Busca, neste contexto, o desenvolvimento, prática e descrição de uma Pedagogia
que seja meio de transformação da consciência colonizada do oprimido, em
consciência crítica de sua realidade, transformação do processo concreto de
sua constituição e manutenção, de forma que o seu comportamento, assim
desenvolvido, possa ser o de um agente na constituição da história de sua
libertação, que é a história da libertação dos oprimidos e humilhados.
De modo que Freire está fundamentalmente atento à dialética entre o
macro-social e o individual, e a suas mediações. A bem da verdade, apesar de
referenciar-se numa análise dos vários níveis do macro sistema social, Freire
não perde nunca o indivíduo como referência. Seu trabalho é o de militar no
sentido da luta deste contra e pela superação da alienação.
É
muito genérico dizer que Freire
Denuncia sistemas de organização humana, ortodoxias e ideologias políticas que
requerem a escravização de almas para o seu funcionamento.
Que busca um sistema de organização em que o grupo não parasite a força de
vida do indivíduo.
Freire é muito específico ao adotar uma análise especificamente marxista da
realidade social, expurgada dos desumanismos e dos desserviços
prestados ao socialismo pelo stalinismo. Desta forma, como ele gosta de falar,
ele “denuncia e anuncia”. E o que ele denuncia é especificamente o modo
de produção capitalista como iníquo, desumano e desumanizante. E anuncia a sua
natural transcendência, no bojo da libertação dos oprimidos. Assume a luta
pela perspectiva dos oprimidos como causa de libertação dos homens,
posicionando-se, na medida em que adota uma concepção dialética da história.
O
interjogo dialético no qual ele fundamenta o seu trabalho, é a dialética da
interação conflituosa das classes sociais. E não, meramente, como está dito no
texto,
Um interjogo dialético ou luta entre um anelo por humanidade plena e a
tendência do grupo para dominar e consumir.
A
práxis, para Freire, é a própria criação da realidade, através da ação
(e não, meramente, “exploração ativa”), e da reflexão sobre esta ação. Na
terça, refletir sobre o que se fez na segunda, para fazer melhor na quarta,
diz Freire.
Mais adiante, Maureen coloca:
Ainda que a ênfase de Rogers seja pessoal e individualista e a de Freire seja
sobre forças sociais, isto não significa que o foco deles seja realmente
diferente. Não pode existir um indivíduo que não pertença a algum grupo
social, e não existe um grupo que não seja constituído por indivíduos. De
fato, na realidade humana,
indivíduo e grupo podem ser pensados como aspectos diferentes de uma mesma
coisa. Quando definimos grupo nós incluímos os indivíduos. O conceito de
pessoa implica um auto-assertivo, expressivo e responsável membro da família
humana, tanto quanto o conceito de pescador
implica em homem, peixe e água.
Mais uma vez, me parece inexato dizer que Freire se foca em forças sociais. O
fluxo da história, da interação das forças sociais, segundo uma interpretação
materialista dialética, é um ponto importante da sua análise, mas esta análise
não se limita apenas a esta dimensão, ou tem este ponto como o mais
importante.
Parece-me, decididamente, incompleto não mencionar que parte fundamental da
preocupação de Freire é o como estas forças se particularizam na organização
da consciência, da ação e da condição do indivíduo oprimido, como interagem
com a sua intrínseca vocação de ser mais, de humanizar-se, e
como, a partir daí, a educação como prática de liberdade pode
constituir-se como fator de atualização --, e não de obstrução, desta vocação.
A
concepção de Freire do indivíduo, e das forças sociais, é essencialmente
dialética. Se, por um lado, parte da análise, e busca de compreensão, da
sociedade, enquanto totalidade, e de suas contradições, flui naturalmente para
a particularidade do indivíduo, como constituído e como constituinte destas.
De tal forma que a consideração pelas forças sociais configura-se, apenas e
explicitamente, como um momento de suas preocupações. Não me parece correto
afirmar simplesmente que a sua ênfase é nessas forças sociais.
Por outro lado, se concordamos que é impossível a existência de indivíduos que
não pertençam a algum grupo, e que não existem grupos que não sejam compostos
por indivíduos, não podemos nos limitar, apenas, a este nível genérico e
altamente abstraído de formulação, para entender as concepções de Freire.
Seus indivíduos, e os grupos aos quais eles pertencem são datados e
situados, constituídos histórica-mente, e em processo de historicização.
São, por exemplo, os Camponeses Nordestinos do Brasil do início dos anos
sessenta, ou os Operários dos anos oitenta. São os Camponeses Chilenos do
final da década de sessenta, os Operários Italianos dos anos setenta, o povo
libertado da Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe... O oprimido é entendido em
sua particularidade cultural e histórica, em sua atualidade concreta e
enquanto categoria de um processo transcendente, que, ao constituí-lo como
segmento social diferenciado, já prenuncia a sua superação.
O
conceito de pessoa implica num auto-assertivo, expressivo e responsável
membro da família humana, mas é fundamental explicitar que, só na
medida em que a pessoa é um auto-assertivo, responsável e expressivo membro de
uma sub-família humana, ou seja: de uma cultura e de uma configuração
sócio-histórica particular, que se articula com a família humana mais ampla, é
que ele se vincula a esta. Podemos dizer que entre o indivíduo e a família
humana existe a mediação necessária da cultura, da integração social
particular, da classe social, na atualidade de seu momento sócio-histórico.
Maureen coloca ainda:
A
relação entre consciência individual e consciência coletiva está além do
escopo deste artigo, mas está provando ser uma nova e muito excitante direção
de estudo.
Este ponto parece-me ser um ponto fundamental para que se considere o trabalho
de Freire. A intersecção de consciência coletiva e consciência individual é
uma referência básica de seus interesses, e dos interesses de suas concepções
e métodos. De tal modo que a relação entre a consciência individual e a
consciência coletiva configura-se, assim, como um ponto imprescindível para a
compreensão das idéias e posições de Freire.
Para ele são questões fundamentais: como, na consciência do oprimido, a
consciência da classe oprimida é hegemonicamente dominada pela consciência da
classe opressora, processo que determina uma consciência fragmentada, que não
se organiza como consciência de seu sistema social, determinando o
comportamento alienado de suas necessidades, das necessidades de seu sistema
social? Como uma pedagogia pode desvelar a dominação e, desvelando a
dominação, desvelar a consciência da classe do oprimido na consciência do
oprimido. De tal forma que possa libertar a sua própria ação transformadora de
sua condição e realidade?
Nesta síntese dialética, a consciência do oprimido -- a consciência da classe
opressora particularizada opressivamente, e a consciência da classe oprimida,
particularizada oprimidamente --, na superação deste momento pela emersão da
consciência do segmento social dos oprimidos na consciência do oprimido, na
medida em que ele desmistifica a sua visão do mundo e a visão de sua relação
com o mundo e com seus companheiros, nesta síntese é que reside o objeto de
interesse da PO.