A ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA, A PSICOLOGIA E A PSICOTERAPIA NO NORDESTE DO BRASIL(*)
 
 

Afonso H Lisboa da Fonseca, Psicólogo.
CENTRO DE ESTUDOS DE PSICOLOGIA E PSICOTERAPIA FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL
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A Carl R Rogers,
a Rachel L Rosemberg
e a Maria V Boas Bowen,
que compuseram significativamente um grupo de psicólogos que investiram o seu trabalho e o seu prestígio na crença de que a vida é tributária da simplicidade, e foram, assim, criativos e assim alinharam-se às forças da vida.
 
"É isto a mortalidade: mover-se numa linha reta num universo em que tudo o que se move o faz num sentido cíclico. A tarefa e a grandeza potencial dos mortais têm a ver com sua capacidade de produzir coisas -- obras e feitos e palavras -- que merecem pertencer e, pelo menos até certo ponto, pertencem à eternidade, de sorte que, através delas, os mortais possam encontrar o seu lugar num cosmo onde tudo é imortal, exceto eles próprios.
(Hannah Arendt em "A Condição Humana".)

Acredito que a psicologia e a psicoterapia -- para ficar apenas nestas duas áreas -- sofreram no, Nordeste do Brasil, uma influência bastante diferenciada e produtiva da Abordagem Centrada na Pessoa. Uma influência que, quero enfatizar, está ainda por oferecer os seus frutos mais ricos e significativos. Esta influência diz respeito, fundamentalmente, ao papel da abordagem na constituição e no desenvolvimento de uma área fenomenológico existencial de psicologia e de psicoterapia entre nós. Uma área que, hoje em dia, desenvolve-se de um modo saudável e vigoroso, atendendo a uma crescente demanda, em termos qualitativos e em termos quantitativos, e deixando antever um significativo potencial de interessantes possibilidades, especificamente relacionadas aos devires sócio-culturais da Sociedade Nordestina.
Neste processo de constituição de uma área fenomenológico existencial de psicologia e psicoterapia no Nordeste do Brasil, a abordagem Centrada na Pessoa esteve praticamente sozinha por bastante tempo. Mais recentemente, é que a Gestalterapia começou a consolidar-se de um modo mais consistente como uma alternativa nesse espaço da psicologia e da psicoterapia.

Isto é válido, em particular, para cidades como Recife, João Pessoa, Maceió e Natal. Em Fortaleza, a abordagem ocupou um lugar importante, mas a Gestalterapia tem tido um presença consistente desde os anos oitenta. Em Salvador, a realidade é bastante diferente, não tendo, aparentemente, se consolidado um espaço da Abordagem Centrada. A área de psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial constitui-se originalmente a partir do trabalho de Psicodramatistas, principalmente os imigrados da Argentina, durante os anos setenta, e de alguns Gestalterapeutas isolados.

Uma escassa identificação cultural e sócio econômica com as perspectivas e posturas do Movimento Psicanalítico pioneiro, constituiu, e constitui , a ACP, para um significativo número de profissionais do Nordeste, como uma preciosa alternativa para a prática e para a produção da psicologia e da psicoterapia. Neste sentido, nunca será muito reconhecer a importância do trabalho de Carl Rogers -- e de outros psicólogos fenomenológico existenciais, como Perls, Moreno, Biswanger, Boss, Laing e outros -- na constituição, a partir das influências filosóficas e culturais, de uma vertente fenomenológico existencial no âmbito da psicologia e da psicoterapia em todo o mundo. O trabalho de Rogers e de seus colaboradores teve, assim, uma receptividade e uma ressonância particulares no Nordeste Brasileiro, em função da precocidade de sua chegada, e do fato de ir ao encontro de necessidades específicas da psicologia e da psicoterapia entre nós.

Por outro lado, esta influência transitou especificamente através de relações sócio-culturais e históricas particulares e diferenciadas, entre o Nordeste do Brasil e os Estados Unidos da América e a Inglaterra. Relações que não são compartilhadas da mesma forma pelas outras regiões do país.

Desde a conjunção da "Guerra da Secessão", nos EUA, com o advento da Revolução Industrial, na Inglaterra, que o Nordeste do Brasil desenvolveu relações particulares com o Mundo Anglo Saxão. Com o colapso da produção de algodão nos EUA, em função da guerra, foi o algodão do Sertão do Nordeste do Brasil, em particular de Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará, que alimentou os teares das fábricas inglesas de tecidos da Revolução Industrial. Estas relações econômicas propiciaram o desenvolvimento de vínculos particulares com a Inglaterra e com os Estados Unidos. Em particular com os EUA. Vínculos que se intensificaram, a partir da Segunda Guerra Mundial, por causa da presença diferenciada de tropas e de bases Norte Americanas na região, em função do valor estratégico desta durante o conflito.

De modo que, a partir destes fatores, a relação do Nordeste Brasileiro com o Mundo Anglo Saxão, e, em particular, com a Cultura Norte Americana, diferenciou-se significativamente. No sentido de que estas culturas passaram a exercer um significativa influência sobre as burguesias e aristocracias locais, que sofriam, como influência estrangeira, apenas uma difusa influência francesa, depois das influências portuguesas do período colonial.

Não tivemos, por outro lado, a forte influência européia não Anglo-Saxã, trazida pelos contigentes de imigrantes, a partir do século XVIII, de origem Italiana, Alemã, Polonesa, Ibérica, Judaica e outras. Não tivemos igualmente a forte influência acadêmica européia, em particular Francesa, como a que se constituiu na Universidade de São Paulo, na PUC de São Paulo, ou em Buenos Aires. De modo que, para bem ou para mal, este relativo isolamento potencializou a
influência das produções culturais Norte Americanas no Nordeste Brasileiro.

Como em todo Brasil, no Nordeste também, durante muito tempo, o destino dos intelectuais em formação, filhos das burguesias e das aristocracias, foi Lisboa, num primeiro momento, e, em seguida, Paris. Para os Nordestinos, em particular, Londres e, progressivamente, as cidades e universidades dos EUA passaram a ser, de um modo cada vez mais forte, o destino de estudos. Enquanto que Paris, e a Europa, de um modo geral, iam parecendo cada vez mais demodé e antigas. Os programas de intercâmbio cultural propiciaram e propiciam significativos períodos de vivência nos EUA a jovens do Nordeste que pouco conhecimento ou interêsse demonstram pela Cultura Européia. A partir de 1964, esta linha de influência tendeu a consolidar-se ainda mais.
Isto nos privou, num primeiro momento, de vínculos mais diretos com as raízes filosóficas e culturais européias de origem não Anglo-Saxã, raízes, inclusive, da ACP e da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial.

A verdade, entretanto, é que foi através do canal destas, relações diferenciadas que a ACP chegou e desenvolveu-se no Nordeste do Brasil. Pioneiros foram os trabalhos de Lúcio F. Campos e de Tereza D. Dourado, em Recife. treinando os primeiros grupos de profissionais, que, em seguida espalharam-se por Recife e por outras capitais e cidades do Nordeste. A decisão de Rogers e de seu grupo de colaboradores de realizar grandes grupos vivenciais experimentais no Brasil, começando por Recife, propiciou um significativo reforço ao desenvolvimento da abordagem no Nordeste. Os trabalhos de John K. Wood e de Maureen M O´Hara, que residiram por alguns meses nas cercanias de Recife, tiveram também uma significativa influência.

Os encontros de Arcozelo e de Itapoan, promovidos por Eduardo Bandeira, juntamente com Rogers e seu grupo de colaboradores, configuraram, também uma marcante oportunidade de vinculação à abordagem para inúmeros profissionais nordestinos.

Em seguida, as atividades promovidas e desenvolvidas, em São Paulo, por Rachel L Rosemberg e por seu grupo, atraíram e possibilitaram a vinculação e o desenvolvimento pessoal e profissional de um significativo número de profissionais Nordestinos, que passaram a exercer a sua influência no desenvolvimento da abordagem entre nós. Além de suas atividades em São Paulo, Rachel desenvolveu atividades de treinamento e vivenciais em cidades do Nordeste.
O Centro de Psicologia da Pessoa marcou sempre com os seus programas de formação, com suas atividades acadêmicas e vivenciais, um lugar de refrência para os profissionais nordestinos que buscavam formação, aperfeiçoamento ou atualização em ACP.

O surgimento e o desenvolvimento do Encontro Latino Americano da ACP configurou-se como uma fonte de referência, de influência e de desenvolvimento da ACP no Nordeste, uma vez que foi, desde os seus primórdios em Petrópolis, significativamente frequentado por profissionais nordestinos. Profissionais que tiveram uma influência marcante no seu desenvolvimento, ao mesmo tempo em que carrearam para as áreas de influência de seu trabalho cotidiano as novidades, as tendências desenvolvidas no Encontro Latino, como verdadeiro laboratório Latino Americano da Abordagem.

Este processo tem sido bastante significativo nos desdobramentos recentes da abordagem no Nordeste. Tem possibilitado um intenso intercâmbio pessoal e profissional, teórico e vivencial, entre os profissionais da região e com profissionais de outas regiões do Brasil e da América Latina, possibilitando o desdobramento da aprendizagem com relação à abordagem e o desenvolvimento de uma vigorosa postura crítica com relação a certos aspectos dela, e o delineamento de novos caminhos e de novas tendências.

Por outro lado, todo este movimento recente tem dinamizado a prática da abordagem na Região, possibilitando o desenvolvimento e a dinamização de programas de iniciação, de formação, de aperfeiçoamento e de atualização de profissionais em várias cidades. Os exemplos mais recentes e promissores deste processo é, por um lado, o desenvolvimento do Programa de Pós Graduação em Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial da Universidade Católica de Pernambuco, e, por outro lado, a reestruturação e a revitalização da área fenomenológico existencial de estágios do Curso de Formação de Psicólogos da mesma Universidade, diretamente influenciados por estes processo. Ao lado da dinamização de vários programas de treinamento em várias cidades da região.

O Encontro Nordestino da ACP, surgiu, como idéia, entre profissionais nordestinos presentes no primeiro Encontro Latino da ACP, em Petrópolis. Foi, em seguida, o trabalho de Iarací Advíncula e equipe, quando a idéia já estava quase esquecida, que criou efetivamente o encontro, ocorrendo o primeiro deles em Gravatá, Pernambuco, em 1987. De lá para cá, foram realizados encontros anuais nordestinos da abordagem em Maceió, João Pessoa, Ceará, e Natal. A sequência anual foi temporariamente interrompida com o cancelamento do sexto encontro, em Maceió, em 1994. O encontro está agora em compasso de espera, no aguardo de uma redefinição.

O Encontro Nordestino tem sido, com todas as suas dificuldades, um significativo potencializador do desenvolvimento da abordagem no Nordeste. Tem possibilitado o encontro de profissionais da região, possibilitando o desenvolvimento de um significativo processo de debate dos fundamentos da abordagem, de suas perspectivas e possibilidades. Tem possibilitado, igualmente, o acesso à abordagem de jovens estudantes e profissionais. Tem inúmeras dificuldades a resolver. Em particular uma grande explosão quantitativa da participação de estudantes, que configura-se como um real desafio a seu desenvolvimento em termos qualitativos.

Em termos teóricos, há no Nordeste do Brasil, em termos de ACP, uma busca vigorosa de um resgate dos fundamentos fenomenológico existenciais da abordagem e a busca de uma crítica a uma apropriação pobre da fenomenologia e do existencialismo, que é frequente na abordagem, assim como uma crítica a uma ênfase excessivamente pragmático-empirista de suas concepções e de sua prática.
 

Tudo leva a crer que a abordagem está bastante viva no Nordeste e em processo de desenvolvimento. Este processo implica, naturalmente, numa recontextualização de seus fundamentos e dela própria, como abordagem da psicologia, da psicoterapia, da educação e do manejo das relações humanas em geral. Esta recontextualização parte efetivamente, em grande medida, desta crítica a um enfoque demasiadamente pragmático empirista dos fundamentos e da prática da abordagem, e da crítica a uma apropriação pobre da fenomenologia e do existencialismo, feita normalmente no âmbito dela, e que herdamos, junto com influências produtivas e interessantes, de nossos Mestres Norte Americanos. A quem devemos, naturalmente, o maior respeito.

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