Introdução
 

Em nossa prática na terapia de família fundamentada na Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), sentimos constante necessidade de um maior aprofundamento teórico, nas questões relativas especificamente à área de terapia de família e a novos recursos que venham enriquecer nossa atuação, dado o escasso material encontrado sobre o assunto.

É cada vez maior a procura por terapia de família pelos mais diferentes motivos. As famílias chegam a nós por indicação das escolas, de outros profissionais de saúde, de profissionais de justiça, de associações comunitárias ou mesmo, por iniciativa própria.

Acreditamos que este fato esteja ocorrendo pela diversidade dos arranjos familiares nos dias de hoje. Por um lado, as famílias não se conformam mais em seguir um padrão pré-estabelecido. Por outro, não sabem como estabelecer um modelo próprio e integrado, que permita respeitar tanto suas diferenças individuais quanto sua unidade enquanto grupo familiar.

Para aprofundar a reflexão sobre este tema com maior consistência, além da conexão entre a fundamentação teórica da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP) e de alguns pressupostos da Terapia Sistêmica de Família de Segunda Ordem (TSF), sentimos a necessidade de buscar informações em outros campos da ciência. No campo da antropologia, sobre o que tem sido os grupos familiares, assim como no campo da biologia, em suas idéias atuais sobre o funcionamento dos seres vivos. Precisamos também refletir sobre as questões de gênero, culturais, políticas e sociais. Precisamos compreender, a partir de suas origens e complexidade, esta família contextualizada no momento presente.

No intuito de nos habilitarmos a uma compreensão ampliada e flexível sobre o conceito de grupo familiar utilizamos diferentes leituras para, a partir daí, construir um aprofundamento teórico que ofereça suporte adequado ao trabalho e às necessidades do terapeuta na realização do mesmo.

Material relacionado à terapia de família dentre os autores da ACP é dificilmente encontrado. Mesmo Carl R. Rogers, muito pouco se dedicou a este tema específico. Fala sobre família em alguns artigos ou capítulos de livro mas não sobre o trabalho terapêutico com famílias. Em nenhum momento se dedica ao estudo detalhado deste grupo que é tão singular. O que percebemos em seus seguidores, é a transferência da utilização de suas habilidades como terapeutas individuais e facilitadores de grupo para o trabalho com famílias. E é necessário ressaltar a grande diferença existente entre a facilitação de um grupo que se inicia junto com a participação do facilitador e a "chegada" do facilitador em um grupo que além de já possuir uma história anterior bastante específica, continuará tecendo sua história posterior.

Desta maneira o interesse neste aprofundamento deve-se à escassez de material sobre o referido tema e à necessidade de atualizar a teoria em si, no que se refere ao atendimento às famílias. Torna-se primordial conquistar maior liberdade de atuação e utilização de novos recursos, desde que coerentes com os princípios fundamentais da ACP e com as necessidades do mundo atual, no qual tanto as famílias quanto os terapeutas econtram-se inseridos.

Acreditando que o pensamento da terapia de família que se utiliza do referencial sistêmico de segunda ordem, assim como as contribuições de Maturana, são críticas para uma maior compreensão da teoria da Abordagem Centrada na Pessoa neste campo, o presente estudo propõe uma aproximação entre as duas correntes teóricas construindo uma conexão coerentemente fundamentada. Para tal, pretende evidenciar seus pontos de contato. Pretende também apontar terminologias diferentes em relação a conceitos semelhantes, reorganizando estes em uma nova leitura e propondo a absorção dos recursos de ambas TSF e ACP, buscando a possibilidade de convivência e interação entre contribuições teóricas de diferentes abordagens, com o objetivo de ampliar e enriquecer a visão e atuação do terapeuta de família.

Como nosso objetivo específico é o de ampliar a atuação do terapeuta de família, mantendo consistência teórica, e não o de fazer comparações entre dois enfoques, optamos por trabalhar alguns conceitos que nos serão úteis na prática clínica, não incluindo nesta análise a busca de divergências e incongruências.

Com este propósito, incluímos e consideramos tanto as diversas versões dos diferentes membros da família, como lançamos mão de recursos que emergem dos diferentes campos da ciência, do estilo, do momento, da necessidade e da possibilidade tanto do terapeuta quanto da família.

Utilizamos como norteadores o paradigma sistêmico de segunda ordem, através do qual articulamos as diferenças, adotando primordialmente a leitura do estímulo, isto é, da atuação do terapeuta, como um fator que contribui mas não determina as ações e escolhas da família como cliente, assim como o conceito de tendência atualizante da Abordagem Centrada na Pessoa. A implicação mútua destes dois norteadores possibilita fundamentalmente a integração entre a Teoria Sistêmica de Família e a Teoria da Abordagem Centrada na Pessoa.

A grande mudança que a proposta sistêmica de segunda ordem traz, refere-se ao conceito que define a impossibilidade de interações instrutivas, isto é, interações que sirvam como recursos técnicos de estímulo-resposta utilizadas pelo terapeuta estratégico de primeira ordem, para atingir os objetivos por ele determinados. Somente a partir deste momento, a TSF e ACP se aproximam. Esta mudança se torna possível através da contribuição dos biólogos Humberto Maturana e Francisco Varela, quando estes desenvolvem o conceito de autopoiese. Em relação a isso Maturana escreve:

"...O que eu digo é uma perturbação que desencadeia em cada um de vocês uma mudança estrutural determinada em vocês mesmos, e não no que eu digo e, portanto, não determinada por mim, que somente sou a contingência histórica na qual vocês se encontram pensando o que estão pensando." (MATURANA, 1999, p.64)

Nesta citação, percebemos a grande diferença que nos traz o modelo da autopoiese. Neste conceito, Maturana e Varela definem os seres vivos como sistemas determinados pela própria estrutura, onde nenhum fator externo pode especificar o que acontecerá. Esta nova visão, põe abaixo a noção de relação instrutiva, a noção de estímulo resposta, pré estabelecida e pré determinada. O resultado de um encontro ou uma interação, depende da estrutura do sistema e não da perturbação em si.

Observando o grupo familiar em um processo terapêutico a partir desta óptica, entendemos o terapeuta como um fator de perturbação ao sistema familiar, que se encontra ao mesmo tempo incluído e excluído do mesmo.

Através dos princípios subjetivos de exclusão e inclusão de Edgar Morin (1994), podemos integrar em nossa subjetividade outros diferentes de nós. É em meio a esta ambivalência que vamos constituindo a auto-referência e a reflexividade. Nesse eterno fluir transcorre o processo terapêutico e suas transformações em direção a escolhas pessoais mais responsáveis e genuínas.

Diversos autores podem contribuir com esta opção de estar no mundo, enriquecida pela diversidade e multiplicidade, de uma maneira que não busca o consenso como a única saída para resolver conflitos mas, busca a melhor maneira de conviver, preservando diferenças.

Tomando então como ponto de partida o conceito de autopoiese, entendemos que os fatos em si independem de nossa vontade e que nosso controle-entre-parênteses, se encontra na leitura que fazemos dos fatos. Se existe liberdade em algum grau, esta só pode ser encontrada minimamente dentro de nós mesmos. Entretanto existe sempre um espaço de escolha pessoal, que inclui possibilidades e impossibilidades variáveis no tempo e espaço. Assim, tanto o terapeuta quanto a família, no momento em que se encontram, desconstroem e co-constroem leituras, além de vivenciarem juntos, de uma maneira nova, as dificuldades que os aproximam num caleidoscópio de sons e imagens, que levam à dissolução do problema.

A imagem do caleidoscópio nos parece perfeita para expressar um processo terapêutico, por ser ele um fenômeno que jamais se reorganiza de uma mesma maneira. Seus arranjos trazem sempre imagens novas e imprevisíveis. Estas imagens, porém, também são estruturalmente limitadas pela própria constituição do processo terapêutico, sendo entretanto perturbadas pelas pessoas que nele interagem.

Desta forma, escolhemos assim iniciar nosso trabalho, com uma incursão pela visão antropológica de família, pelas questões de gênero, pela delimitação de algumas características singulares deste tipo de grupo e pela descrição mais detalhada das duas teorias especificamente referentes ao atendimento de família. Partiremos então para o exercício da aproximação filosófica, teórica e terminológica entre as duas teorias, que nos possibilitam a utilização de recursos que entendemos como coerentes ao atendimento psicoterápico a famílias, partindo de um referencial ampliado da ACP. Alguns destes recursos são encontrados em autores que se intitulam como sendo Terapeutas Centrados mas a maior parte deles, em terapeutas oriundos da Terapia Sistêmica de Família. Nos anexos 1 e 2 pode-se encontrar um rol de autores relacionados à ACP ou à TSF.

Após a elucidação de algumas passagens de casos reais, apresentaremos nossas reflexões e considerações finais.


 

Capítulo I

No intuito de conhecer e definir o que entendemos como família, daremos início a este capítulo, fazendo uma viagem através do tempo e do espaço, tomando contato assim com o objeto de nosso estudo de maneira mais ampla. Trataremos também de alguns temas que merecem atenção especial no trabalho com famílias. Estes temas se referem à filiação, às diferentes etapas do ciclo de vida familiar e às questões de gênero que tão marcantemente se evidenciam nas relações familiares. Entendemos a importância do aprofundamento do estudo do terapeuta nestes temas como um recurso a mais, que colabora com um olhar e uma compreensão do sistema familiar mais descontaminada, menos preconceituosa e mais enriquecida por toda a abrangência e complexidade que representa este grupo específico. Recurso que permite também ao terapeuta, uma reflexão sobre seus valores, conceitos e modelos, e uma revisita à sua própria história familiar.

1. (In) Definindo família: A família e suas transformações

Abordaremos os diferentes modelos de família numa visão antropológica com o objetivo de desconstrução do estereótipo de família que costumamos construir à medida em que, não nos damos conta, ou desconhecemos, a diversidade de modelos encontrados na humanidade.

1.1. As diferentes organizações familiares

Na história da humanidade nos deparamos com muitas variações nas organizações familiares. Estas, não só se diferenciam através dos tempos, mas também de acordo com a localização geográfica e cultural, sendo importante ressaltar que, nem sempre representam qualquer tipo de evolução mas sim a diversidade dos arranjos possíveis e coexistentes.

Segundo Françoise Zonabend ( Burguière, 1986, p.13-66), a antropologia social subdivide as organizações familiares em três subgrupos: A filiação unilinear, que por sua vez se subdivide em patrilinear ou matrilinear, a filiação bilinear e a filiação indiferenciada. Na filiação patrilinear o parentesco, a herança, o sobrenome e a autoridade se transmitem do pai para os filhos. Na filiação matrilinear, é o irmão da mãe que ocupa o lugar do pai patrilinear. Sendo assim, é ao tio que o sobrinho e a sobrinha devem o respeito e as obrigações e é do tio que herdam os bens, o sobrenome e a linha de parentesco. Neste caso o pai funciona praticamente como reprodutor. Na filiação bilinear ocorre uma divisão de atribuições e os filhos herdam algumas coisas do pai e outras do tio. Já na filiação indiferenciada, os filhos herdam indistintamente do pai ou da mãe e tanto os ascendentes maternos como paternos são considerados parentes.

Diferente de nossa organização de parentesco, alguns modelos de família se organizam então dando prioridade à relação entre irmãos (avunculado) mais que à relação conjugal. Nelas, a paternidade não é um vínculo tão forte como a relação do sobrinho com o tio, irmão da mãe.

Alguns modelos se organizam matriarcalmente, como no tempo dos grupos nômades. Outros, adotam o modelo patriarcal. Alguns integram como seus membros os empregados ou aprendizes. Outros adotam os filhos dos irmãos ou irmãs como seus filhos. Somente a partir do século XIX, os laços consangüíneos ganharam força, sendo que na atualidade, com os novos arranjos familiares essa importância vem novamente sendo relativizada.

Desta forma, muito vai influenciar no funcionamento familiar o modelo cultural no qual a família se insere. Por vezes, estes modelos pré estabelecidos propiciam grandes conflitos no núcleo familiar. A simples diferença de cultura familiar das próprias famílias de origem do casal, vão se intensificar no momento em que nascem os filhos e que limites, direitos e deveres deverão ser estabelecidos pelo casal em relação a educação destes filhos. Além destas dificuldades naturais, com freqüência encontramos famílias constituídas por casais provenientes de países de culturas diferentes com dificuldade de encontrar valores comuns a seus ideais de modelo familiar. Ou famílias que se mudam de país, e encontram dificuldade em adaptar-se aos novos costumes e regras sociais do outro país.

Em termos de Brasil, mesmo a família patriarcal, enquanto construção teórica explicativa do modelo familiar brasileiro elaborada por Gilberto Freire, tem sido freqüentemente questionada por diferentes autores no sentido de nossa diversidade cultural. Freire alega que, mesmo aceito como um modelo particular das áreas de lavoura canavieira do nordeste, este modelo não encontra respaldo nas buscas históricas realizadas em outras regiões do país.

Entretanto, em relação a nosso modelo, isto é, a um modelo de família brasileiro, podemos constatar alguns dados comuns nas mudanças de comportamento encontradas nos censos e pesquisas realizadas nas diferentes regiões do país, desde o século XIX.

"... na Vila Rica de 1804, em 203 unidades domésticas, apenas 93 eram encabeçadas por homem..." (RAMOS apud. CORRÊA, s/d, p.35) e em 1867, um terço das famílias eram comandadas por mulheres. A taxa de mulheres como chefes de família era de 36,8% e de homens 63,2%. Sendo assim, como nos demonstra Eni Samara (1992), mesmo no Brasil colonial, não podemos considerar a família patriarcal como única forma de organização familiar. Além do que, nas recentes pesquisas do IBGE constatamos a repetição deste dado uma vez que, grande parte das famílias ainda continua sendo encabeçada por mulheres.

Em relação ao mito da castidade, nas pesquisas realizadas em São Paulo no censo de 1836, foram encontradas muitas mulheres casadas que tiveram filhos quando solteiras. A incidência de ilegitimidade pode ser constatada pela cifra de que em 503 mulheres solteiras, 140 tinham em média até 4 filhos naturais. Inversamente ao que se supunha, entre 1890 e 1899, ainda segundo dados de Samara (1992), o resultado das pesquisas aponta a não submissão da mulher, evidenciada pela responsabilidade na maior parte dos pedidos de separação.

Nesta mesma época, na cidade de São Paulo, as mulheres também não se casavam muito jovens. Das 661 casadas, apenas 48 tinham menos de 20 anos e destas, 37 ainda não tinham filhos. Além disso, os filhos casados deixavam as casas de seus pais não contribuindo então com o modelo de famílias extensas transgeracionais, com parentes, amigos e serviçais convivendo todos em um mesmo lugar como era apresentado na família patriarcal de Gilberto Freire.

Sendo assim, as famílias extensas não dominavam então o cenário urbano do século XIX, da cidade de São Paulo. Isto significa uma reversão de muito dos valores considerados típicos da estrutura familiar brasileira naquele século.

Foi a migração para as cidades grandes que impeliu à família o seu modelo nuclear atual, resumido a pai, mãe e filhos. Os pequenos espaços urbanos e a distância dos parentes fizeram com que, cada vez mais, as pessoas se isolassem, necessitando aumentar a carga horária de trabalho, para que pudessem arcar com as despesas exigidas pelo novo modelo de ideal de vida.

No Rio de Janeiro, em uma pesquisa realizada por Figueira (1992), nos idos dos anos 70, entre famílias de classe média da zona sul, observamos uma nova maneira de lidar com diferentes transformações nas relações. A mãe solteira, motivo de vergonha, pena e discriminação anteriormente, se converteu em exemplo de força e ousadia pessoal, denominando-se a partir dali como "produção independente". Assim como esta situação, outras denominações também se transformaram denotando novas maneiras de encarar fatos da vida que já vinham ocorrendo, apesar de toda pressão e repudio social. Os termos "viado", "bicha", "sapatão", são alterados por denominações como: gay ou homossexual que não carregam o sentido pejorativo daquelas palavras.

Outra transformação recente em nossa cultura foi o aumento significativo das famílias constituídas apenas por uma pessoa, denominada família unipessoal, e das famílias reconstituídas nas quais um ou os dois cônjuges vem de casamentos anteriores trazendo ou não filhos destas antigas uniões. Alguns destes casais, têm filhos também nesta nova relação.

O que vai acontecendo com estas famílias é que elas começam a agregar as famílias extensas das relações anteriores e tornam-se famílias numerosas, mas não mais de um único casal como progenitor/agregador. Os filhos destes casais, trazidos das relações anteriores, que não são irmãos, passam a se considerar como se o fossem. Meio-irmãos nascem desta nova relação e a família passa a conviver com um número ampliado de avós, tios, cunhados, concunhados, primos, etc.

As relações ganham uma enorme variedade de nuances nunca antes imaginadas. E, com estas vem também muitas dificuldades no manejo das diferenças. Diferenças de culturas familiares, de idéias, de preconceitos e visões de mundo.

Além destas, existem também as famílias que se formam através dos avanços tecnológicos da fecundação artificial, na qual os dois, um ou nenhum dos dois pais doa o material para a fertilização. Serão então três modelos familiares que requisitarão diferentes maneiras de lidar com as questões futuras, já que em algumas delas os pais biológicos não serão os pais tradicionalmente reconhecidos como tal em termos de consangüinidade. Seriam eles pais adotivos?

Existem também os modelos familiares constituídos por um ou mais filhos adotivos. Filhos que têm conhecimento ou não de sua procedência.

Junto com esta diversidade nos encontramos num momento de mudança paradigmática, ora regido pelo antigo paradigma de certo e errado, da busca do homogêneo e do padrão, ora pelo moderno paradigma da relatividade, da inclusão do diferente, da ampliação de possibilidades.

Em meio a toda esta revolução encontramos a família que hoje chega a nossos consultórios. Uma família cheia de perguntas sem respostas, necessitando descobrir como lidar com esta gama de novas relações, que a urgência do tempo e espaço imprimem a realidade atual.

1.2. O significado da filiação na construção do núcleo familiar

O momento no qual um casal se torna pai e mãe, implica em uma transformação de enorme impacto na vida individual de cada um. A relação de filiação e paternidade/maternidade é de extrema significação qualquer que seja a atitude de cada participante desta tríade. Quer os pais assumam esta criança, quer os pais ou um dos pais não assuma esta criança, isto trará um enorme diferencial para cada um destes indivíduos por toda sua vida. Desta maneira, este nos parece um marco extremamente importante na definição da representação de família para as pessoas que compartilham os valores de nosso grupo sócio-cultural.

Entretanto, a ciência que mais nos auxilia a pensar o caráter social e não natural da família assim como a não universalidade de nosso modelo de família nuclear é, como vimos antes, a antropologia. Por este motivo, foi através de suas pesquisas e leituras de caráter sócio-político, que buscamos desvelar e desmistificar a complexidade dos modelos e arranjos familiares.

A antropologia social é uma ciência que parte sempre dos laços de parentesco para estudar as sociedades e civilizações. Seus estudos sobre sociedades tribais revelam que, como sociedades sem estado, estas se regulam pelo parentesco. Este é o elo fundamental que rege suas relações sociais. Entretanto, existe uma diferença entre o estudo do parentesco e o estudo da família. O estudo da família é o estudo de um grupo social concreto. O estudo do parentesco inclui a família mas de modo mais abstrato, vai além dela (Sartri, 1992). E é o nascimento de uma criança que inaugura relações de parentesco como as de pai, mãe, avô, bisavô, primo, tio, irmão, etc.

O sistema de parentesco, em qualquer cultura, resulta da combinação de três tipos de relações básicas: a relação de descendência pai e filho, mãe e filho; a relação de consangüinidade entre irmãos e a relação de afinidade, que ocorre através do casamento ou recasamento pela aliança (Burguière, 1986). Ao tipo de relação por afinidade, acrescentariamos a filiação pela adoção.

Estes três tipos de relação interagem de diferentes modos nos diferentes modelos de grupos de parentescos. Apesar das recentes mudanças, tradicionalmente em nossa cultura, a relação de parentesco coincide com a unidade biológica pai, mãe, filho. Entretanto, como vimos anteriormente, existem grupos onde o direito à paternidade é exercido pelo irmão da mãe, por meio da relação de consangüinidade. Este é um modelo de família diferente do nosso como diversos outros. Ele define que existe um outro homem que tem relação com esta mulher, relação de consangüinidade, que terá uma relação mais forte com os filhos desta mulher que o próprio pai biológico destes filhos. Este enfoque denota em si diferenças na qualidade das relações entre irmãos, primos, sobrinhos, progenitores e avós, às quais necessitamos estar atentos e abertos durante o processo de um atendimento terapêutico.

Na visão antropológica, Lévi-Strauss (apud Sartri,1992) nos chama a atenção para a importância da aliança como um elemento fundamental do parentesco. É através dela que se inclui um representante de um grupo em outro grupo.

"... A unidade elementar do parentesco se separa da biologia e entra no terreno da cultura ao se reconhecer que uma família, para se formar, pressupõe dois grupos. Pressupõe que um homem dê uma mulher para outro homem que a recebe. Para Lévi-Strauss, é através da troca de mulheres que se dá a combinação dos elementos do parentesco. A constituição da família como fato cultural pressupõe a existência prévia de dois grupos que se casam fora de seu próprio grupo, dois grupos exógenos. Isso significa o reconhecimento de que o parentesco envolve relações além da relação de consangüinidade, ou seja, relações de aliança também, de afinidade. Assim rompe-se com a idéia do caráter natural da família. A família não provem da unidade biológica. Constitui uma aliança de grupos..." (SARTRI, 1992, p.73)

Esta relação de alianças se encontra cada vez mais presente hoje, em nossa cultura, entre os irmãos filhos de pais diferentes, os avós, primos, pais e tios "emprestados". São as relações da nova família ampliada através dos recasamentos.

A dimensão política nas relações familiares é introduzida através do tabu do incesto. Mesmo com a diversidade de arranjos familiares encontrados até hoje, este tabu apresentou-se em todos os grupos estudados, ainda que relacionados a pessoas de diferentes graus de parentesco. Entendido como um princípio de organização social e uma forma de forçar a aliança entre os grupos, estudos de parentesco realizados pelo evolucionista Edward Tylor (1888) demonstram que através desta aliança eram evitados os confrontos entre tribos. Como ele dizia, era uma questão de escolha: casar fora ou ser morto fora. É incontestável que as alianças entre famílias nas escolhas de casamento ocorrem ainda hoje, só que de maneira extremamente dissimulada. Há um desejo dos pais e mesmo individual da busca de parceiros que pertençam a uma mesma classe social ou cultural. As pessoas que fogem a estas regras sociais implícitas pagam um preço alto através de pressões sociais derivadas, tanto do grupo "novo", em que tentam uma inserção, quanto de seu próprio grupo.

Sendo assim, o casamento, entendido como qualquer tipo de união aceita socialmente, é uma forma de comunicação entre grupos que de outro modo estariam em antagonismo. Tanto o tabu do incesto como o casamento estabelecem o social mas é o casamento que estabelece a norma em relação à legitimidade dos filhos, e o tabu do incesto a norma em relação ao fato biológico das relações sexuais. Normas estas que necessitam atualização, já que nos recasamentos o marido da mãe ou a mulher do pai não são tidos como pai/padrasto ou mãe/madrasta na relação com os filhos do cônjuge da mãe/pai. Como será entendido então o tabu do incesto entre estas pessoas e os filhos de seus cônjuges?

Em todas as sociedades existem famílias e relações de parentesco. Entretanto, a maneira como combinam estas relações, que relações são proibidas, com quem se pode ou não casar, como é entendida a descendência, quem ocupa os lugares de parentesco, qual é a divisão sexual do trabalho, é definida particularmente em cada sociedade.

No presente estudo, estamos caracterizando como grupo familiar: um casal; um casal com um filho ou mais; pai ou mãe com filho ou filhos; pais recasados sem filhos, com filhos comuns e/ou particulares; famílias convivendo com parentes de gerações diferentes; pessoas cuidadoras de membros com enfermidade crônica ou pessoas que tenham uma atuação ou presença significativa para um membro da família ou para todo grupo.

A família que atendemos regularmente em nosso consultório se define então como um grupo de pessoas que convivam sobre o mesmo teto, que possuam entre elas uma relação de parentesco primordialmente pai e/ou mãe e filhos consangüíneos ou não, assim como as demais pessoas significativas que convivam na mesma residência, qualquer que seja ou não o grau de parentesco. Entretanto, eventualmente poderemos convidar para o atendimento pessoas que façam parte da rede familiar e que possam contribuir de alguma maneira no processo que se esteja desenvolvendo.

Nobre (1987) nos oferece uma definição interessante deste delineamento de família proposto por nós, sob o qual baseamos nosso trabalho:

"... um sistema aberto em permanente interação com seu meio ambiente interno e/ou externo, organizado de maneira estável, não rígida, em função de suas necessidades básicas e de um modus peculiar e compartilhado de ler e ordenar a realidade, construindo uma história e tecendo um conjunto de códigos (normas de convivência, regras ou acordos relacionais, crenças ou mitos familiares) que lhe dão singularidade."

(NOBRE,1987, p.118-119)

 

 

1.3. As diferentes etapas da vida familiar

Outra questão importante é a que se refere ao momento em que a família se situa em termos de estágio, num contínuo que varia desde sua formação nuclear inicial até às diferentes fases de seu desenvolvimento natural. Estes diferentes estágios trazem diferenças significativas na maneira como as família lidam com os eventos que surgem em suas histórias particulares. Um evento pode ser motivo de alegria se ocorrer em um determinado estágio do ciclo de vida familiar, mas o mesmo evento pode representar um grande transtorno caso ocorra em um outro estágio. Por este motivo é muito importante conhecermos um pouco desta complexidade histórica da família, com a qual estamos trabalhando no intuito de aprofundar a reflexão sobre a qualidade dos temas, que podem estar atravessando esta família nuclear em seu momento pontual.

Existe mais de uma maneira de definir marcos em relação a estas etapas. Barnhill e Longo (apud LANTZ, 1993, p.210) assim como Carter e Mc Goldrick (1995), subdividem estas etapas em seis estágios: o adulto jovem solteiro, o casal recém-casado, o estágio do filho pequeno, o estágio do filho adolescente, o estágio do "lançamento" do filho para o mundo, e o estágio último do adulto onde os pais estarão a sós novamente.

Carter e Mc Goldrick (1995) mencionam os estressores verticais e horizontais no ciclo de vida familiar. Estes estressores pontuam momentos de tensão familiar que ocorrem nas passagens de um estágio para outro. Os estressores horizontais previsíveis são as transições naturais do ciclo de vida, os estágios naturais citados anteriormente. Os estressores horizontais imprevisíveis são os eventos como morte precoce, gravidez inesperada, doença crônica ou acidente. Já os estressores verticais são os padrões, mitos, segredos e legados familiares que irão interferir fortemente não só nas relações internas do grupo como também nas relações entre o grupo familiar e o meio social. Além disso, os estressores variam de acordo com o nível do sistema considerado. Estes níveis dividem-se, do mais afastado ao mais próximo do núcleo familiar, em: social, cultural, político e econômico (gênero, religião, etnicidade...); comunidade e colegas de trabalho; família ampliada; família nuclear; indivíduo. Nos níveis mais próximos a interferência será maior e mais fortemente sentida. (Anexo3)

Estas considerações são extremamente importantes nos encontros com as famílias. Dependendo do momento em que elas se situem, os fatos tomam dimensões extremamente diferentes e particulares. De maneira geral é na passagem de um estágio à outro que as famílias por vezes, necessitam auxílio extra para descoberta de novos recursos que atendam às suas novas necessidades.

Nesta subdivisão não estão ainda incluídas as situações de divórcio e recasamento. Estes são estressores extremamente críticos que possuem seus estágios próprios. No divórcio existem os estágios de: decisão, planejamento, separação e divórcio. Como conseqüência: progenitor "solteiro" com os filhos, progenitor "solteiro" sem os filhos e guarda compartilhada. No recasamento: início de novo relacionamento, conceitualização e planejamento do novo casal e da nova família e recasamento e reconstrução da família.

Como construções sociais relativamente recentes, estas complexas reformulações familiares encontram-se sem modelo preestabelecido. Sendo assim, cada família necessita lidar com seus padrões e conceitos preestabelecidos para deles fazer emergir uma maneira original de constituir um grupo familiar com funções, direitos e deveres que atendam aos que dele participam. Nesta reformulação, as questões de gênero são inevitavelmente questionadas e pressionadas a transformarem-se.

1.4. As questões de gênero

Tema fundamental que merece atenção cuidadosa do terapeuta de família é a questão de gênero. Dados os diferentes processos de socialização e as atitudes que um e outro tem em relação a estas questões, os diferentes membros da família terminam por explicitar em seus comportamentos estes valores mediante atitudes geralmente implícitas e não claramente conscientes mediante as quais se sentem impelidos a se relacionar com o mundo. O núcleo familiar é um espaço que expressa claramente conceitos e pré-conceitos em relação a gênero, que podem e devem ser questionados e reavaliados quanto a posições mais potencialmente produtivas tanto no nível individual quanto no nível grupal.

Desde a primeira infância, homens e mulheres são educados de maneira diferente em relação ao corpo e as emoções. Em apenas alguns exemplos citados por GALAY (1996, p.42), encontramos que: em geral se é mais tolerante à falta de higiene dos homens do que das mulheres; quando os homens se machucam diz-se: "homens não choram"; a gravidez de uma moça solteira é encarada de maneira diferente que o fato de um rapaz solteiro engravidar uma moça.

As normas que regulam estes conceitos variam de geração para geração assim como através dos tempos, das regiões e grupos sociais. Em nossa cultura, na maioria das famílias é ainda a mulher quem se ocupa de tudo que se relacione com o cuidado da saúde e bem estar não só seu mas também de todos os membros do grupo.

Temas como imagem corporal, masculinidade/feminilidade, dependência/independência, maternidade/paternidade, filhos, poder, dinheiro e homo/heterossexualidade estão intimamente relacionados a valores oriundos dos conceitos individuais de gênero que por sua vez são aprendidos no núcleo familiar mas que são, acima de tudo, construções sociais.

Em nossa cultura, na maior parte das vezes ainda se espera do homem um papel protetor e provedor da família, desligado dos assuntos domésticos. O papel da mulher se estabelece a partir de certas contradições: mãe/mulher, dependência/autonomia, trabalho/família, público/privado, razão/emoção. Fica sob sua responsabilidade a educação e o cuidado com as crianças, a infra-estrutura doméstica, as relações de afeto e necessidades alimentares e emocionais de toda família e parentes. Deste modo, tanto para os homens quanto para as mulheres, desde antes de seu nascimento, já se encontram assinaladas algumas linhas básicas de suas condutas na vida. A maneira como "poderão" atuar, pensar e sentir se encontra predeterminada tanto em suas possibilidades quanto em suas limitações mesmo que no decorrer dos anos estes critérios estejam sendo bravamente revisados.

O mais importante portanto é que, nós terapeutas, possamos estar atentos às nossas próprias visões e às visões do grupo familiar com o qual estamos trabalhando, quanto a todos estes temas que se relacionam tão estreitamente às questões de gênero.

Uma análise desta questão e sua evolução, numa perspectiva bastante instigante se faz pela comunicação através da linguagem das roupas que, muitas vezes sem nos darmos conta, expressa toda uma revolução e manipulação do papel feminino e masculino na "guerra dos sexos".

Seja em um contato eventual, numa reunião ou festa, muito antes de nos aproximarmos das pessoas e podermos falar com elas, nos comunicamos em relação a idade, sexo, e classe social através do que estamos vestindo. Esta forma de comunicação também nos dá uma informação, falsa ou verdadeira, sobre nosso trabalho, origem, personalidade, opinião, gosto, desejos sexuais, e humor, naquele momento.

Talvez não sejamos capazes de colocar em palavras o que observamos mas quando nos conhecemos já teremos falado um com o outro em uma língua antiga e universal. A moda é uma linguagem de signos. Um sistema não verbal de comunicação.

Luire (1997), em sua interessante análise sobre o vestuário demonstra que um dos propósitos básicos do mesmo é também distinguir os homens das mulheres. Se a meta é a fertilidade, devemos escolher membros do sexo oposto, ao invés do mesmo sexo, para fazer amor. Desta forma, existem períodos em que a separação é absoluta e o que é adequado ao vestuário do homem não é para a mulher. Em tais épocas o índice de natalidade é alto. Em épocas como a nossa, onde as peças são intercambiaveis, a taxa de natalidade, no mundo de uma maneira geral e principalmente nas classes média e alta no Brasil, é baixa. Mesmo assim, ainda hoje a maioria das peças são reconhecidas como masculinas ou femininas.

Esta distinção segundo o sexo se inicia com o enxoval do bebe. O rosa, na nossa cultura, é associado ao sentimento, o azul ao serviço. As implicações são que a preocupação futura da menina será a vida da afeição e a do menino, ganhar a vida. Mais tarde o azul entra no vestuário da menina (afinal as mulheres tem que trabalhar além de derramar lágrimas), mas o rosa é raro nos meninos (a vida emocional nunca é viril).

Podemos observar como as roupas dos meninos geralmente são confeccionadas em cores escuras, com motivos de esporte, meios de transporte, animais selvagens e palas ou riscas horizontais nos ombros enquanto que as roupas das meninas são geralmente de cor clara com motivos florais ou de animais domésticos, mais largas nos quadris com franzidos e adornos nos traseiros.

Quando homens, a vestimenta toma uma forma retangular que sugere domínio físico e/ou social. No passado essa preferência era prática (fazendeiros, caçadores, guerreiros). Um homem grande e forte tinha mais chance de sobreviver. Hoje, um terno bem feito esconde o ombro estreito, o peito encovado e a pequena barriga. Desvia a atenção de suas desqualificações físicas e a focaliza em seu status econômico e social. Hoje, o indicador de classe social é uma garantia mais segura de prosperidade do que puros músculos. Uma versão cara pode ser considerada um encanto erótico, especialmente para mulheres que buscam maridos e não amantes.

Luire (op.cit.) observa que em 1900, sobrecasacas e sobretudo para manhã e casacos quentes e confortáveis, promoveriam ou a sedução ou a prerrogativa territorial: a oferta de um lar seguro e bem equipado, no qual as mulheres poderiam se instalar com segurança. Na década de 20 e na de 60, poucos ovos estavam sendo chocados e consequentemente as mulheres sentindo menos necessidade de ninhos, começam então a preferir um tipo de homem mais ousado e colorido.

O vestuário feminino, durante a maior parte da história européia moderna (renascença e barroco), foi desenhado para sugerir a maternidade. Contornos redondos e generosos eram enfatizados assim como os seios e o estômago. No começo do século XIX, surge um novo ideal feminino onde a fragilidade e delicadezas físicas eram admiradas. Ser pálida e delicada, corar, desmaiar facilmente e reclinar-se em sofás era desejado. Quanto mais inútil e impotente parecesse a mulher, mais bela e elegante era considerada. Por volta da década de 1830, surge o espartilho que lhe trouxe inúmeros problemas de saúde e debilidade de sustentação do corpo já que seu uso contínuo enfraquecia a musculatura das costas além de criar deformações nos órgãos.

Em uma sociedade patriarcal, uma mulher impotente, tola e bela, é o objeto máximo de consumo. Com o intuito de demonstrar aos demais a posse de um símbolo de status, quanto maior a inutilidade da mulher, mais bem vestida e mais serviçais tiver a seu dispor, maior demonstração de prestigio e posses terá seu marido e proprietário. Daí, a imagem da "loura burra" dos tempos atuais sugerida por Luire:

"Tanto o vestuário da mulher vitoriana quanto o da loura sustentada, são exemplos do princípio que ainda vigora de que as roupas que tornam difícil a vida de uma mulher e a colocam em desvantagem na competição com os homens são sempre percebidas como sexualmente atraentes" (LUIRE, 1997, p.233)

É interessante notar como a comunicação através da roupa, nos dá as primeiras pistas em relação a quem é esta pessoa. Nos informa sobre status, trabalho e opção sexual, deixando transparecer os valores de determinada cultura.

No gênero masculino, o trabalho assim como o desempenho sexual funcionam como as principais referências para a construção de seu modelo de comportamento. Com o trabalho, os homens são reconhecidos como homens! Conhecer economia e negócios e ter uma agenda cheia de compromissos e preocupações dão sentido e perfil ao homem de classe média, garantindo-lhe certo bem estar psíquico. O não atendimento a estes apelos gera profundo sentimento de mal-estar, desorientação e fracasso.

Então, segundo Luire (1997) o homem "normal" em nossa sociedade capitalista é alguém jovem, casado, pai de família, branco, urbano, do sul, heterossexual, católico, de educação universitária, bem empregado, de bom aspecto, boa altura e com sucesso recente nos esportes.

O capitalismo incentiva por meio de diferentes mecanismos, a crença de que por meio do trabalho um homem pode rapidamente atender a estas especificações. Para isso é necessário que sejam incorporados certos princípios como pré-condição para o sucesso: a esperteza, a prepotência e a dominação.

Se entre maternidade e mulher o que vigorou foi uma fusão, de modo que o destino de ser mãe seria a única possibilidade de realização, esta mesma articulação acontece entre o homem e o trabalho. Sem ele o homem não pode ser considerado como tal. Desta maneira, parte do sucesso e da prosperidade da estratégia capitalista reside no fato de que, ao transformar os princípios do sistema em padrões de desempenho para o comportamento dos homens e das mulheres, ela deixa de ser uma questão ideológica e passa a ser uma questão cotidiana. Fugir a estes padrões tem como preço uma forte pressão social e emocional.

Ao valorar-se um homem por sua capacidade de ação, praticidade e objetividade, sucesso e iniciativa, modelando-o como as expressões daquele que tem em si atributos do poder viril, perpetua-se o próprio sistema em si.

Para o homem, o trabalho não está associado à noção de escolha e sim de fatalidade. Há uma crença de que o trabalho fará com que eles se encontrem consigo mesmos no momento em que conquistarem seus sonhos de felicidade definidos a priori pela ideologia de consumo.

Em razão da limitação para escolher e posicionar-se no mundo do trabalho, os homens tendem a procurar tal sensação de liberdade nas escolhas amorosas e sexuais. Compulsivamente a fugacidade e freqüência destes encontros faz com que se sintam próximos a si mesmos e momentaneamente livres.

Pesquisas feitas com grupos de homens para o estudo das questões de gênero realizados, sugerem que o trabalho também serve como parâmetro para atenuar a culpa dos amores clandestinos e justificar atos de violência familiar. No senso comum, se um homem não deixa faltar nada para sua esposa e filhos, ele fica liberado para uma dupla vida sexual. Do mesmo modo, a exigência de uma contrapartida afetiva justifica eventuais explosões de violência quando o retorno recebido de esposa e filhos, não lhe parece satisfatório.

Percebemos que, enquanto a mulher vai enfrentando sua dupla ou tripla jornada, o homem ao trabalhar vai se distanciando de sua vida pessoal e passa a investir somente na instituição da qual faz parte, estabelecendo com ela um vinculo de total exclusividade e dependência. Perde a visão crítica sobre qualidade de vida em prol do objetivo que tornou-se individual e pessoal de alcançar sucesso, prestigio, dinheiro. Apesar de servir como possibilidade de satisfação e realização, principalmente no último século, o trabalho tem sido alvo de experiências de esvaziamento e despersonalização dos homens. Desta maneira, a aposentadoria passa a ser um momento de extrema dor e vazio que vai influir diretamente no sistema familiar, já que este homem se afastou de tudo o mais que não fosse o trabalho no seu dia a dia.

O sentido de pertencer a uma instituição confere aos homens um outro sobrenome, tão valorizado por eles quanto o de sua família. Sendo assim, o status de desempregado gera nos homens um sentimento de abandono, de falta de referência, que faz com que compulsivamente mantenham com o trabalho uma relação medida pelo emprego. Assim destitui-se a atenção dos homens de suas necessidades para centrá-la nas exigências da instituição da qual fazem parte.

A angústia gerada pela condição de desempregado é produzida pelo sentimento de que os homens, fora desta especificação, não existem como pessoas. Ter vários empregos, permanecer pouco em cada um deles, não ter uma definição clara e coerente a respeito da própria escolha profissional são alguns indicadores que põem em xeque o padrão de desempenho do indivíduo, servindo para desqualificá-lo também como pessoa, como homem. Estar empregado passa a ser uma qualidade desejável para todo homem, e nela se faz o controle dos padrões do comportamento masculino, definidos pelo estereótipo social.

Em nossas observações, percebemos que já às mulheres é permitido estudar pouco, fazer trabalhos menores, ter uma remuneração baixa, ter amigas íntimas, sem que sejam desqualificadas como mulheres. Além disso, como elas tem uma diversificação de tarefas e atividades e mesmo trabalhando fora são responsáveis pelas atribuições domésticas, se ocupam por toda a vida não passando pela crise da aposentadoria e do não ter o que fazer com a mesma intensidade que ocorre com os homens. Mesmo no estágio em que ficam mais sós, sem filhos ou viúvas, de maneira geral, possuem mais recursos para a superação do que o próprio homem.

Na escolha das profissões, também nos deparamos ainda hoje com estes estereótipos. As mulheres se voltam mais para áreas humanas enquanto os homens tendem às carreiras da área tecnológica. Nestas áreas encontramos apenas a faixa de 5% de pessoas do sexo oposto (D’Andrea, 1985).

Outro dado observado é o de que a divisão de tarefas entre os sexos é mais freqüente antes do nascimento dos filhos. Neste período, existe uma melhor distribuição de tarefas dentro e fora de casa, entre marido e mulher. Sem filhos, a mulher pode e com freqüência exerce seu papel profissional com dedicação e competência. Esta dedicação maior também ocorre com as mulheres descasadas, com ou sem a guarda dos filhos, quando ela é o sustento da casa.

Portanto o que vem trazer uma grande diferença na vida dos dois e, de certa maneira, requisitar a grande reformulação de papeis é a maternidade/paternidade. A paternidade e a maternidade também consolidam o processo de identidade do homem e da mulher, embora de maneira bastante distinta.

No conceito de paternidade se revela a principal direção de mudança. Observamos a transformação gradual do modelo de pai onde este era visto como alguém investido de uma autoridade (modelo pai-patrão). O modelo tradicional, se apoia em imagens rígidas, distantes e comprometidas mais com a disciplina, a norma e a punição do que com respostas às demandas apresentadas a partir da relação pai-filho. Indica assim os descaminhos e carências vividas por uma legião de filhos e pode ser pensado como expressão de relações em que o pai é alguém omisso e distante afetivamente. Como exemplo disso, nos anos 30, L. Rouzic (1939) faz enorme sucesso em Paris, associando a imagem paterna ao chefe da família e a uma representação divina onde nas relações de família, o pai era visto como fundador, chefe, providência, amparo e animador. Tudo derivava dele e tudo ia para ele. Chegava a compará-lo com o Imperador Augusto, no verso da Segunda Ode de Horácio que dizia que o pai era príncipe e rei dentro do lar e que quando lá estava e compreendia a sua nobilíssima missão, tudo prosperava. Quando se ausentava, tudo vacilava ou se extinguia. Sendo assim, não seria justo os filhos receberem tudo e não darem nada. Todo e qualquer beneficio que recebiam impunha à eles uma dívida para com o benfeitor. O pagamento desta dívida chamava-se gratidão ou reconhecimento. Nos anos 90, esta imagem já é vista como absurda e incabível.

As mudanças radicais ocorridas em menos de 50 anos exigem comportamentos qualitativamente divergentes dos anteriores. E, o mais difícil é que o pai de hoje se encontra entre dois mandatos: o de ser provedor e o de estar próximo e interessado no mundo cotidiano da criança.

Mesmo com todas as transformações ocorridas, segundo Elisabeth Badinter (1986), pesquisas realizadas em 1985 demonstram que a mulher assalariada despende 42 minutos de seu dia no cuidados com os filhos, enquanto que o homem, apenas 6 minutos. Nos casais onde a divisão de tarefas se diz igualitária a mulher despende 65% de seu tempo enquanto o homem, 35%. Os pai passam 4 vezes menos tempo com os filhos e não têm o mesmo sentimento de responsabilidade em relação a eles.

Somente no quinto milênio os egípcios e indo-europeus tomaram consciência do papel do pai na procriação. Sendo assim, o conceito de paternidade no sentido da relação entre o ato sexual e a procriação é uma noção relativamente recente.

Reavaliar a paternidade em um sentido mais amplo é até certo ponto reviver situações em que muitos experimentaram emoções de abandono, frieza e temor. Por esta razão alguns homens tem dificuldades de resgata-las. A primeira dificuldade é reconhecer que parte dos conflitos originários da relação com seu pai, advém de um sofrimento produzido pela sobreposição da expectativa gerada pela antiga imagem do "bom pai" e o que de fato ele registrou ter recebido afetivamente. Habitualmente faltava afeto. A construção de um corpo guerreiro enrijeceu em demasia a subjetividade dos homens, como se o afago da mão do pai houvesse sido substituído pela desconfiança; o abraço, pela possibilidade de traição; o choro, pela derrota. Nas famílias que recebemos nos consultórios, muito frequentemente nos deparamos com homens que padecem no isolamento de quem deseja ser amado e não sabe como fazê-lo. Se sabe, sente-se enrijecido internamente ao constatar que como ele, seu pai se privou de lançar-se no campo das trocas afetivas. Neste sentido, para se iniciar no exercício do contato e da expressão de suas necessidades afetivas, o homem necessita fazê-lo à partir da construção de um modelo próprio. Caso contrario, ele reproduzirá velhas brincadeiras de competição, de medição de forças, em que o afeto é expresso através de socos, fortes batidas nas costas e cascudos. Cada vez mais, o fio condutor da relação pai-filho se faz através do acréscimo da dimensão afetiva àquele que foi por um longo período, tido como "mestre e professor".

Enquanto muitas vezes as amizades entre mulheres são profundas, cheias de afetividade e segredos íntimos, as amizades entre os homens são superficiais e distantes, justificadas pelo fervoroso envolvimento com trabalho, guerras e comércio. Muitos não conseguem escapar às pressões da socialização que os impelem à calar o sofrimento, o prazer ou a fantasia para outro homem.

Um homem com 30 anos que não se casou e não tem filhos, no Brasil ainda é visto sob suspeição a respeito de sua preferência sexual enquanto que uma mulher nestas mesmas condições é vista, nos grandes centros, como uma pessoa emancipada e liberada que teve a coragem de romper com o socialmente esperado.

Se a maternidade foi, durante muito tempo um destino para mulher, para o homem a paternidade ainda é uma situação estranha, que o coloca no mínimo frente a duas questões: como foi sua relação com o pai e como será sua relação com o filho. Desqualificada, pelos homens, a dar consistência aos seus universos subjetivos e social, a paternidade perde seu sentido afetivo para ganhar uma força que os perturba e, por vezes, faz com que abandonem o casamento.

O abandono de um filho pelo pai é muito melhor aceito pela sociedade do que o abandono deste pela mãe. O mito do amor materno, uma construção político-social como bem nos demonstra Badinter (1980), dá uma conotação dramática distinta ao mesmo comportamento, quando este é exercido pelo homem ou pela mulher.

A licença-paternidade, no Brasil, está em linha com outras regulamentações sobre as relações de casamento, como por exemplo o pagamento da pensão à mulher, em caso de separação; a guarda dos filhos, preferencialmente concedida a mãe; uma licença paternidade arbitrada em 5 dias, sem qualquer justificativa cabível. Tudo isso no melhor estilo paternalista, mantém certa segregação do pai em relação a seu filho confirmando as constatações de distância e indiferença para com eles, assim como reforçando o mito do amor materno.

Como não poderia deixar de ser, neste modelo de cultura, o grande mandatário na educação infantil é a mãe. Mesmo não sendo o único, é a figura materna o principal transmissor das normas sociais. Ela é a primeira impressão do mundo e a criança aprende a interagir com o mundo através deste grande mediador. A mãe, ou seu substituto, é o mais importante "outro" na estrutura mental dos indivíduos e é percebido de uma forma mais definitiva e imutável que todos os outros "outros".

O protótipo, da mãe de nossa cultura é a mulher que tudo faz para proteger o filho, mesmo que para isso, tenha que fazê-lo obedecer normas impostas pelo sistema. Assim, é conservadora dos valores sociais e procurará impedir que o filho os transgrida, para não correr riscos de prejudicar-se. Incentiva-o a progredir mas nunca à custa da rebelião contra o instituído. Os homens, assim como as mulheres, são socializados de maneira opressiva. Abrem mão da própria liberdade quando negam seus limites, história de vida, desejos e sonhos para reproduzir o padrão de comportamento definido a priori para eles.

O menino precisa identificar-se com o pai, a figura masculina importante, muito mais do que a menina com a mãe. O pai é o agente instrumental dos dados culturais, ele ensina os valores do meio em que vive, a mãe aprende e os transmite ao filho, que torna-se pai e, ensina o que a mãe lhe ensinou.

A todo momento, no trabalho com famílias e casais nos deparamos com as grandes dificuldades enfrentadas pelo homem e pela mulher que desejam ser cúmplices na vida e se encontram situados num contexto social que desqualifica suas individualidades e singularidades.

O papel masculino que uma sociedade impõe ao homem é uma imagem de machismo e virilidade tão mutiladora para o homem como a imagem da feminilidade para a mulher. Por isso, a possibilidade de um movimento de libertação destes valores liga-se a uma tomada de consciência das limitações que nos são impostas pela própria sociedade. O contexto de terapia pode ser um momento onde homem e mulher se permitam desenvolver uma identidade mais libertadora através da qual possam expressar o seu ser como um todo mais integrado e harmônico. Um ser com amplas possibilidades de expressão, percepção e sentimento.

 


Capítulo II

2. As teorias

Descreveremos individualmente cada uma das duas teorias a serem utilizadas para a proposta da dissertação assim como o conceito de sistema de segunda ordem. Iniciaremos com a Abordagem Centrada na Pessoa por considerarmos que ela será a base e o ponto de partida de todo nosso trabalho. Em seguida faremos um breve histórico da Terapia Sistêmica de Família, desde seus autores iniciais até os terapeutas que, seguindo uma orientação sistêmica de segunda ordem, se aproximam de nossa atuação centrada na pessoa.

Antes porém gostaríamos de situar a noção de homem subjacente à prática proposta. Não se trata de uma noção fechada ou acabada do indivíduo, mas mais que isso um ser em constante transformação. Rogers (1977, 1980) escreveu alguns artigos longos que falavam sobre a visão que ele teria do homem do futuro. Buscando uma definição mais apropriada e resumida, encontramos algumas sugeridas por Gobbi (1998):

"Para Puente (1970), Rogers possui uma concepção de pessoa humana cujas características são o fato de ser uma totalidade, um organismo; ser independente e autônomo no qual os sentimentos desempenham grande papel e este organismo possui uma capacidade para o crescimento.

"Para Rogers - ao contrario de Russeau -, o homem não é considerado como uma essência perfeita, maculada pela sociedade, mas tem características próprias de um ser positivo, progressista, construtivo, realista e principalmente, merecedor de confiança" (Holanda, 1993b)

Poderíamos sugerir que a "noção de homem", no pensamento de Rogers seria correspondente a seguinte definição: "...um ser concreto, situado historicamente, criador e transformador da natureza e de si mesmo, através das relações que estabelece com outros homens".(GOBBI, 1998, p.85)

Em paralelo, estas são também as características e a visão que tomamos a respeito do sistema familiar e terapeuta que apresentaremos a seguir. Os princípios de organismo, interação e implicação mútua que são considerados na visão de homem estão incluídos e valorizados também na visão de sistema que utilizaremos.

2.1. A Teoria da Abordagem Centrada na Pessoa

A Abordagem Centrada na Pessoa insere-se no Movimento da Psicologia Humanista ou Terceira Força em Psicologia. Seu criador, o psicólogo Carl R. Rogers (1902-1987), nasceu nos EUA em uma família numerosa e de um protestantismo austero. Aos 12 anos, sua família mudou-se para uma fazenda e, já nesta época Rogers começou a desenvolver um interesse apaixonado pelos métodos experimentais. Interesse que vai acompanhá-lo por toda vida.

No Institute for Child Guidance, uma instituição de orientação profundamente freudiana, realizou suas primeiras experiências como terapeuta. Com o passar dos anos e com a experiência que foi adquirindo, Rogers foi deixando de lado os conceitos rígidos da época e experimentando novas formas de atuar em seus atendimentos psicoterápicos. Foi exatamente quando reiniciou sua atividade docente na Ohio State University que Rogers percebeu o quanto havia se afastado do pensamento estabelecido na época.

"Descobri, para minha grande surpresa, que os princípios terapêuticos que havia elaborado e que me tinham guiado de maneira, pelo menos implícita, durante meus anos de prática em Rochester, estavam longe de ser evidentes aos jovens profissionais – estudantes e colegas – que me esperavam em Ohio." (ROGERS, 1977, p.147)

Em 1940, Rogers iniciou então a formulação sistemática de sua teoria, sempre transformada e ampliada a partir de seu desenvolvimento pessoal, de sua experiência clínica e das novidades culturais e científicas que ocorriam com o passar dos anos. Devido a seu histórico e a sua imensa capacidade produtiva, acumulou um número enorme de material escrito e gravado.

O trabalho de Carl Rogers foi subdividido teoricamente em diferentes fases, por diferentes autores. A classificação mais recente, de John Wood et al., subdivide em seis momentos que vão de 1935 à 1995, a história da ACP e suas aplicações mais importantes:

"I- Atitudes do terapeuta. Caracterizada pelo livro de

Rogers, Aconselhamento e Psicoterapia, publicado em 1942.

Métodos de terapia. Identificada pelo livro Terapia Centrada no Cliente, publicado em 1951.

Experiência ou processos internos. Corresponde a publicação (1961a) do best-seller Tornar-se Pessoa.

Facilitação do aprendizado. Liberdade para Aprender (1969).

Relacionamentos interpessoais. Grupos de Encontro (1970).

Processos sociais, formação e transformação da cultura. Sobre o poder pessoal (1977) e Um Jeito de Ser (1980)." (WOOD, 1994, p.VII-VIII)

Estes autores definem marcos referenciais onde nos 30 primeiros anos a Abordagem Centrada no Cliente, que inclui a Terapia Centrada no Cliente, estaria voltada para o desenvolvimento de um sistema de mudança de personalidade concentrando-se preferencialmente no mundo subjetivo do indivíduo. Já no período seguinte, Rogers voltaria-se para interações sociais e concentraria-se no aprender fazendo. Este seria então o período da Abordagem Centrada na Pessoa.

É absolutamente evidente o quanto o contexto social, cultural e político assim como as transformações nos conceitos de ciência vão influenciando e transformando as idéias de Rogers em relação à sua prática e teoria. As novidades da física quântica apresentadas por Capra e dos novos paradigmas foram acompanhadas e vividas de perto por Rogers. Este "caldo" contextual serviu sempre de pano de fundo influenciando e sendo influenciado pelo contexto terapêutico na medida em que a relação terapêutica era também uma experimentação de um modo especial de relação que estaria para além de seu contexto restrito.

Mas o que permaneceu inalterado em todo transcurso e ampliação teórica foram as seis condições exigidas para que uma mudança construtiva de personalidade pudesse ocorrer, publicadas em 1957.

"Para que o processo terapêutico se produza é necessário.

Que duas pessoas estejam em contato.

Que a primeira pessoa, que designaremos o cliente, se encontre num estado de desacordo interno, de vulnerabilidade ou de angústia.

Que a segunda pessoa, que designaremos como terapeuta, se encontre num estado de acordo interno – pelo menos durante o decorrer da entrevista e no que se relaciona ao objeto de sua relação com o cliente.

Que o terapeuta experimente sentimentos de consideração positiva incondicional a respeito do indivíduo.

Que o terapeuta experiencie uma compreensão empática do ponto de referência interna do cliente.

Que o cliente perceba – mesmo que numa proporção mínima - a presença de 4 e 5, isto é, da consideração positiva incondicional e da compreensão empática que o terapeuta lhe testemunha." (ROGERS, 1977, p.182)

Mesmo que com o tempo, o próprio Rogers assim como alguns de seus seguidores, permitissem a inclusão de outras questões como as técnicas, as culturais etc., em nenhum momento se questionou a necessidade da presença destas seis condições.

Nestas condições estão incluídas as atitudes do terapeuta de congruência, aceitação positiva incondicional e empatia. Foram estas mesmas atitudes, que sob outras nomenclaturas, encontramos no atendimento a famílias nos moldes da TSF de segunda ordem. E é exatamente a constante atualização de Rogers com as novidades dos pensamentos científicos e mudanças de paradigmas que permitem a extrema aproximação entre a ACP e a TSF.

A ACP é talvez uma das principais teorias que priorizam a responsabilidade individual do cliente e o respeita como agente de mudança em si mesmo. Da mesma maneira, o terapeuta de familia ou facilitador, apresenta um respeito profundo às escolhas particulares de cada família, grupo ou indivíduo. Mais que isso, ele terapeuta, através da congruência, se coloca como pessoa, incluindo-se ativamente no processo terapêutico em termos de autenticidade, abertura a seus próprios sentimentos e expressão dos mesmos. Sendo assim, como nos cita Thomas Gordon:

"...The therapist’s field of operations now included his own feelings, his personal reactions to the client as well as the client’s reaction to him..." (GORDON, 1970, p.388)

Como postulado básico da teoria da ACP encontramos a Tendência Atualizante. Tendência inata a todo ser vivo que o direciona sempre no sentido da realização de seu melhor, em todos os níveis. Segundo Rogers:

"...todo organismo é movido por uma tendência inerente para desenvolver todas as suas potencialidades e para desenvolve-las de maneira a favorecer sua conservação e seu enriquecimento." (ROGERS, 1977, p.159)

Este é então o alicerce de tudo mais que Rogers vem a propor. Sem confiança total neste postulado, todos os recursos da ACP se tornam inviáveis. Entretanto, Rogers chama atenção:

"...O que a tendência atualizante procura atingir é aquilo que o sujeito percebe como valorizador ou enriquecedor – não necessariamente o que é objetiva ou intrinsecamente enriquecedor." (ROGERS, 1977, p.41)

Portanto, é o próprio indivíduo quem avalia e define o que é melhor para ele naquele determinado momento. O ponto de referência da avaliação é o ponto de referência interno do cliente. Isto explica então, como é possível encontrar seres vivos, que a nossos olhos não se desenvolveram plenamente. Além do contexto onde ele se encontra, que poderá contribuir em maior ou menor grau com seu desenvolvimento, é necessário considerar também o aspecto da determinação estrutural do indivíduo. Sobre isso falaremos adiante com maior profundidade.

Partindo desta crença, são definidas três atitudes necessárias à relação terapêutica, para que o processo se desenvolva. São elas: empatia, consideração ou aceitação positiva incondicional e congruência.

O conceito de empatia proposto por Rogers é entendido como a compreensão do mundo interno do cliente, partindo dos referenciais deste. Como ilustração do conceito, selecionamos três citações de diferentes autores, em diferentes épocas, inclusive a definição do próprio Carl Rogers:

"... é a capacidade de se colocar verdadeiramente no lugar do outro, de ver o mundo como ele o ve.(...) Para ser bem sucedido nesta tarefa é preciso que o profissional saiba fazer abstração de seus próprios valores, sentimentos e necesidades e que se abstenha de aplicar os critérios realistas, objetivos e racionais que o guiam quando está fora de sua interação com seus clientes." (ROGERS, 1977, p.104)

"...el hecho de que el terapeuta se despoje de sus proprias ideas, opiniones y juícios, y trate de ver las cosas, el mundo, la realidad, a través de los ojos del cliente...Una empatia, repetimos, que comporta un deseo de compreender al otro tal como éste es..." (REZOLA, 1981, p.83)

"...Sentir o mundo privado do cliente, como se ele fosse o seu, mas sem perder a qualidade "como se" (...) sentir a raiva do cliente, seu medo ou confusão, como se fossem seus, e ainda assim sem sentir a sua própria raiva, medo ou confusão sendo envolvidas nisto, esta é a condição que estamos tentando descrever..." (WOOD, 1994, p.165)

O conceito de consideração positiva incondicional traduz a aceitação total da pessoa, sem restrições ou imposição de condições, sobre a maneira como ela é.

"...La atmósfera o relación terapéutica está caracterizada en 1942 por "el calor de la aceptación y la ausencia de toda coerción personal por parte del consejero" (ROGERS apud REZOLA, 1981, p.218)

Mas adiante:

"...El proceso del consejo se da con mayor probabilidad si el consejero es una persona que acepta y no evalúa" ( 33, p.139)... "Un corolario o segunda condición de la terapia es la total disposición del terapeuta a poner dentro del cliente el centro o lugar de evaluación y responsabilidad. Todo juicio, evaluación, y nueva evaluación del cliente son evitados" (49, p.44). Aceptar, por lo tanto, "significa no hacer evaluaciones"

(ROGERS apud REZOLA, 1981, p.219)

Entretanto, aceitar não é sinônimo de concordar. O fato de aceitarmos o outro de maneira incondicional não é uma declaração de que concordamos ou faríamos para nós mesmos as mesmas escolhas. A aceitação ou consideração positiva incondicional se aproxima sim da compreensão do outro como diferente.

Rogers pressupõe que somente quando a pessoa experimenta uma consideração nos termos citados acima, pode abrir mão de suas defesas e ser o que realmente é. Só então, a partir do reconhecimento e aceitação próprios pode se iniciar um processo de transformação. Transformação esta, norteada pelo próprio indivíduo e não pelo terapeuta. A consideração positiva incondicional é uma atitude de respeito em relação ao cliente. Respeito ao direito de autodireção e autodeterminação.

Congruência ou autenticidade do terapeuta, é a terceira atitude, de compreensão bastante difícil entre os profissionais. O que a torna extremamente difícil, é o fato de Rogers inaugurar a presença da pessoa do terapeuta na relação com o cliente.

"...El terapeuta no tendrá fe en la capacidad del cliente para reorganizarse, si no ve en sí mismo la pruebra de esta capacidad, la cual es su propria integración y adaptación. El terapeuta no podrá respetar a los demás si primero no se respeta a sí mismo: el respeto y aceptación de la persona humana comienza por uno mismo" (PUENTE apud REZOLA, 1981, p.212)

A consciência do terapeuta de seus próprios sentimentos durante o atendimento terapêutico é um instrumento precioso. Rogers sugere que o terapeuta tome contato com seus sentimentos na relação terapêutica, por mais contraditórios que estes possam parecer, e que os deixe transparecer. Sugere também que se utilize deste recurso e descarte a possibilidade de ser um ator, que desempenhe o papel de terapeuta, adotando uma postura distante em prol de uma profissionalidade mal interpretada. Desta forma exige-se que a congruência deixe de ser uma técnica para ser uma atitude autêntica.

Por acreditar que as pessoas possuem uma tendência natural ao desenvolvimento e crescimento, tendência atualizante, Rogers desenvolve a teoria de que o indivíduo tende sempre ao seu melhor qualquer que sejam as circunstâncias. Desta forma, se o terapeuta consegue criar um clima de aceitação positiva incondicional, empatia e congruência em relação ao cliente, este próprio ambiente atuará como um facilitador do desenvolvimento do indivíduo operacionalizando uma mudança de personalidade. Portanto, Rogers formula em 1957, as condições "necessárias e suficientes" ao desenvolvimento do processo de mudança construtiva da personalidade.

A medida em que Rogers se volta mais para o trabalho com grupos, esta experiência também contribui com algumas modificações à terapia individual. O que inicialmente era extremamente focado numa relação a dois, terapeuta-cliente, aos poucos amplia seu raio de ação, ou melhor seu raio de consideração. O indivíduo passa a ser reconhecido como fazendo parte de um contexto maior. As questões culturais e temporais são relevantes e fazem parte cada vez mais da relação entre terapeuta e cliente. Além disso, o terapeuta se posiciona cada vez menos de um lado tão claramente definido nas seis condições necessárias e suficientes formuladas anteriormente por Rogers. Isto em si nos obriga a questionar se as seis condições necessárias seriam mesmo suficientes.

Em sua dissertação de mestrado Vera Alves aponta:

"...Um outro aspecto que pudemos ver como um acréscimo à prática psicoterápica exercida anteriormente foi a consideração, pelos psicólogos individuais, dos elementos culturais como sendo determinantes na formação do setting terapêutico e no desenvolvimento da relação intersubjetiva." (ALVES, 1997, p.26)

Como Vera Alves sentimos também a necessidade de acoplar outras considerações ao exercício da ACP no trabalho com famílias.

Barrett-Lennard (1998), numa análise dos caminhos percorridos por Rogers em sua trajetória, declara textualmente que embora tendo se ocupado do assunto em alguns momentos, de fato Rogers nunca escreveu um livro ou artigo que focalizasse diretamente a terapia de casal ou família. Seu livro "Novas formas de Amor: O Casamento e suas Alternativas" (1975) contém um material que expõe diferentes formas de relacionamento porém não se propõe a ser uma publicação sobre terapia em si. A dedicação de Rogers à resolução de conflitos, mesmo em seu trabalho com grupos, culturas ou nações, sempre se calcou na facilitação da comunicação entre pessoas. Chega a propor um exercício de escuta e compreensão acuradas que, segundo seus próprios constructos, se faz mais compatível com a proposta de treinamento que de terapia. Rogers considera que as circunstâncias externas podem exacerbar e confrontar o indivíduo, entretanto, o trabalho que ele propõe se volta para as necessidades internas do cliente. Para ele o desenvolvimento deste nível interno da pessoa garante um funcionamento diferente com os demais. Desta forma, como desdobramento, o indivíduo funcionaria de maneira diferente nas relações familiares, que se tornariam mais abertas e satisfatórias. Em uma publicação, Rogers (1961, p.269-281) delineia diferentes aspectos de mudança do indivíduo que repercutiriam nas relações familiares.

Pouco material foi encontrado principalmente no que se refere à psicoterapia, em levantamento bibliográfico sobre o tema de atendimento à famílias na ACP. Autores como Levant (1983), Snyder (1989), Guerneys (1984, 1989), Gordon (1970) e Barret-Lenard (1984), se dedicaram a programas de treinamento de pais e casais e a grupos com famílias. Bozarth & Shanks (1989) e Gaylin (1990), se dedicaram à adaptação dos recursos do atendimento psicoterápico individual ou grupal ao atendimento psicoterápico a famílias. Sobre este último tema existem inclusive diversas publicações. Não encontramos material que propusesse substancialmente qualquer tipo de transformação ou ampliação da teoria original além do que Bozarth & Shanks (1989) propõem ao se referirem aos conceitos de self e família, fazendo uma adaptação das duas premissas básicas da terapia individual, para terapia familiar. Estes autores já se utilizam de uma visão de família como um sistema, que possui a capacidade inerente de mover-se em direção ao crescimento.

"The model, in this case, is that of a family structure incorporating both the individual organismic model of actualization and formative tendency. This model is consistent with the general sistems view of life; that is, the principle of self-organizing systems. The model reflects a paradigm of the family as an organismic unit; that is, a living system capable of movement and direction." (BOZARTH, 1989, p.282)

Compreendemos a utilização do termo sistema vivo, não como uma comparação restritiva das possibilidades do homem equiparando-o a um organismo em termos biológicos, mas apontando sua semelhança em relação a constante recriação e renovação de si mesmo, como um movimento que só ocorre nos seres vivos.

Apesar da colocação anterior de Bozarth & Shanks, o que percebemos a medida em que vão expondo com maior detalhes o trabalho que realizam, é que trabalham com o grupo familiar numa perspectiva separada buscando compreender o mundo de cada indivíduo e compreender o mundo familiar com base na perspectiva do grupo familiar, nos dando a sensação de uma adaptação do material teórico já existente referente à terapia individual e aos trabalhos com grupos.

Da mesma forma, Levant referindo-se à escassa literatura sobre o tema de família na ACP relata que:

"Not much has been written about a client-centered view of the family or family therapy. Aside from the work of the van der Veen group (1969, 1970) and my own (Levant, 1978b, 1982), I have been able to find only a few loosely related contribuitions. This remains an underdeveloped area in terms of theoretical and clinical writings. One of the questions that needs to be asked is, "Are any special modifications of theory or procedures of therapy required in order to take into account the special qualities of the family group?" I think that the answer is affirmative and lies with the further conceptual elaboration of the basic interpersonal qualities of the therapist: empathy, genuineness, and inconditional positive regard. As far as empathy is concerned, in family work the focus is not so much in the inner world of each family member (although that is useful at times), but rather on the felt meanings that individual family members experience in their relationships to other family members..." (LEVANT, 1984, p.256-257)

Nesta citação é importante ressaltar as últimas frases onde ele chama a atenção sobre a necessidade de que os próprios membros da família experienciem também as atitudes de consideração positiva incondicional, congruência e empatia entre sí.

Margaret Warner, em artigo que analisa o uso da empatia e estratégia na Terapia de Família Centrada na Pessoa, propõe a possibilidade de coerência desta técnica dentro dos moldes da ACP.

"The approach suggested in this article combines elements of traditional family systems therapy and client-centered approaches. Patterns of family interaction are used to infer unstated purposes involved in family interaction and the personal experiences likely to lie behind such strategies. By understanding family members in this way, the therapist is more likely to be able to communicate with family members without escalating strategic maneuvers in family. As family trust is increased, more traditional communication and problem-solving approaches are likely to be helpful." (WARNER, 1989, p.341)

A proposta de Warner, embora comprovadamente útil nos atendimentos a famílias que funcionem em sua estrutura, com modelos de comunicação estratégica entre seus membros, nos parece totalmente antagônica à filosofia básica da ACP já que o terapeuta, a priori, encontra-se com a família com um modelo de atuação prédeterminado. Dificuldade semelhante encontramos em Maryhelen Snyder na proposta do "Relationship Enhancement Model"(1989) que impõe, em lugar de oferecer, uma seqüência de tarefas rigidamente pré estabelecidas. Ademais, ambos direcionam-se mais à uma terapia "educativa" do que "colaborativa de um sistema auto-gerido". Entendemos que estas posições partem de pressupostos filosóficos e crenças bastante distintas.

Gaylin (1989), de acordo com sua experiência, nos oferece uma adaptação das seis condições necessárias e suficientes propostas por Rogers, citadas anteriormente, fazendo um reexame destas condições com o intuito de aplicabilidade em terapia de família. De forma resumida propõe:

Duas ou mais pessoas estão em contato. (Dependendo do recorte feito pelo terapeuta e sua maneira de trabalhar, o atendimento pode ser realizado com apenas um membro da família, alguns membros ou todos os membros)

Cada membro da família e o sistema como um todo devem estar em um certo nível de incongruência, vulneráveis ou ansiosos.

O terapeuta deve estar congruênte e integrado na relação com o grupo e com cada um de seus membros.

O terapeuta apresenta consideração positiva incondicional em relação a todos os membros da família, simultaneamente.

O terapeuta experiencia uma compreensão empática do ponto de referência de cada membro da família assim como em relação à família como um todo.

O terapeuta comunica, ao menos minimamente, a pelo menos parte dos membros da família sua compreensão empática e sua consideração positiva incondicional.

O objetivo neste artigo foi o de demonstrar que a prática da Terapia de Família Centrada no Cliente apresenta um paralelo com a Terapia Individual Centrada no Cliente. Visto isso e dentro deste panorama, encontramos na dissertação de Vera Alves, uma observação com a qual concordamos apenas parcialmente:

"Dentre os profissionais da ACP que trabalhavam com psicoterapia familiar, percebemos que alguns acreditavam serem insuficientes os princípios deste enfoque quando da atuação neste campo. Isso talvez, porque tivessem uma visão próxima da de O’Leary (1989) que considerava que os terapeutas centrados na pessoa necessitavam ir além das atitudes facilitadoras, integrando-as num papel terapêutico mais ativo, para o qual, segundo ele, muitos terapeutas familiares se sentiam compelidos. Com semelhante pensamento Warner (1989), apontava-nos desenvolver em seu trabalho uma mescla da ACP com a teoria sistêmica numa tentativa de que o terapeuta familiar não permanecesse num "nível superficial de compreensão" (p.340)." (ALVES, 1997, p.28)

Concordamos no que se refere à necessidade de ir mais além nos recursos a serem utilizados no atendimento a família e casais. Entretanto, não concordamos com a colocação de O’Leary, no que diz respeito à necessidade de tornar o terapeuta mais ativo justificando esta mudança apenas pela maneira como atuam outros terapeutas de família. Em nosso entender, a proposta de lançarmos mão de outros recursos além das três atitudes necessárias, se deve a acreditarmos que estes outros recursos sugeridos, podem auxiliar ao terapeuta assim como ao grupo familiar, na agilização da reconstrução de maneiras mais satisfatórias de funcionamento.

Sentindo necessidade de ampliação das condições e encontrando recursos extremamente interessantes em outras leituras, seguiremos com um breve histórico sobre o trabalho de terapia sistêmica de família até o ponto em que ela se torna compatível com os princípios da ACP.

2.2. A Teoria da Terapia Sistêmica de Família

Os primeiros trabalhos em terapia de família surgiram dominados pelos paradigmas predominantemente utilizados na área de doenças mentais da época. Seu modelo inicial era o modelo médico reducionista, intrapsíquico e explanatório.

Em sua grande maioria os terapeutas eram psiquiatras, do sexo masculino com formação em psicanálise. Formação esta que conferia aos atendimentos uma visão voltada para estruturas psíquicas inferidas como id, ego e superego.

Partindo do descontentamento com o modelo vigente no que se refere à sua insuficiência para lidar com o contexto das relações familiares, psicanalistas como Harry Stack Sullivan e Frieda Fromm-Reichmann iniciaram algumas transformações significativas. Sullivan define a psiquiatria como "estudo do comportamento interpessoal". Frieda Fromm-Reichmann inova no atendimento a psicóticos trazendo para o cerne do atendimento psiquiátrico a sinceridade e o comprometimento pessoal.

Na década de 50, o contato entre a cibernética, a biologia e as ciências sociais deu início a um fecundo campo de discussão. Começa-se a questionar o sintoma como pertencente a apenas um indivíduo e a alargar o campo de atuação. Como as orientações psicoterápicas da época ainda eram basicamente individuais, surgem questões éticas e técnicas de como lidar com uma situação tão nova onde o paciente sintomático, que anteriormente era tratado isoladamente de seu grupo e depois devolvido a este, pudesse ser tratado em conjunto com seus familiares.

Neste período então, muitas construções teóricas vão surgindo. Mesmo as terapias de família, anteriores ao contato com a cibernética, com o tempo, foram também utilizando suas contribuições, cada uma à sua maneira. Talvez o que haja de mais novo no entendimento da família como sistema, seja o fato de que esta leitura implique também em deslocar o foco do sintoma, anteriormente situado no indivíduo, para as relações que o produzem ou mantém.

No caso da Teoria Sistêmica de Família, esta pode ser historicamente dividida em cibernética de primeira ordem e cibernética de segunda ordem.

As teorias da cibernética de primeira ordem, se interessam essencialmente pelos mecanismos e processos de homeostase, assim como pelas estratégias de ação dos sistemas para manter sua estabilidade. Neles, as mudanças tem como objetivo manter o sistema próximo ao seu padrão, através da reversibilidade e adaptação e se relacionam à correção de desvio.

O estudo da cibernética e a compreenção do funcionamento dos sistemas foi fundamental na reformulação da atuação dos terapeutas de família. A cibernética, como disciplina científica surge na década de 40. Fundada pelo matemático alemão Norbert Wiener, introduz-se no campo científico a partir da revolução quântica. Esta nova perspectiva considera basicamente questões relativas a informação e organização. A cibernética emerge como a ciência da inter e da transdisciplinaridade evidenciada pela contribuição de cientistas das mais diferentes áreas como Mc. Culloch (neurofisiólogo), Bateson (antropólogo e teórico da comunicação), von Foerster (físico), Rosenblueth (biólogo), Piaget (cientista natural, psicólogo, epstemólogo), Lorenz (etnólogo) e M. Mead (antroplóloga) entre outros.

Inicialmente, a cibernética define os sistemas baseando-se na estabilidade e voltando-se para a estrutura e os mecanismos que ocorrem dentro do sistema. Esta descrição remete a idéia de que os sistemas funcionam com uma meta de funcionamento ótimo sempre em busca do equilíbrio. Esta é a definição do que denominamos hoje como cibernétca de primeira ordem.

As máquinas construidas a partir deste princípio funcionam pelo mecanismo de retroalimentação. A estabilidade é garantida pelos mecanismos de regulação e controle. O controle é exercido através dos mecanismos de retroalimentação que mantém o sistema funcionando o mais próximo possível de um nível ótimo, anulando os desvios desta direção. Transforma-se assim em regulação. Qualquer desvio do padrão de funcionamento previsto para o sistema é